O ENSINO DE FISICA NA REGIAO DO CARIRI - CEARA
Daniel Gomes Silva, Francisco Augusto Silva Nobre
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2007
- Data
- 30/01/2007
- Linha de pesquisa
- Formaçao Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O ENSINO DE FÍSICA NA REGIÃO DO CARIRI -CE
Daniel Gomes Silva 1 , Francisco Augusto Silva Nobre 1 1 Departamento de Física da Universidade Regional do Cariri - URCA
Mostramos neste trabalho a situação do ensino de física nas cidades de Juazeiro, Crato e Barbalha (maiores cidades da região do Cariri - Ceará). Relacionamos a formação acadêmica dos professores de física do ensino médio e a falta de laboratórios de física básica, com o comprovado baixo rendimento dos estudantes na disciplina de física. Neste sentntido, faz um comparativo com os resultados de um trabalho semelhante publicado nos Anais do XII Simpósio Nacional de Ensino de Física, de 1997. Verificamos que não tivemos um avanço significativo de lá para cá. Finalmente propomos algumas alternativas para a solucionar o problema.
## 1. Introdução
Na estruturação do novo ensino médio, a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB) [1], foram estabelecidos novos parâmetros que passam a regulamentar a definição geral dada na LDB. Em um contexto multidisciplinar as ciências exatas e a matemática aparecem juntas em uma das áreas com que o ensino está organizado. Segundo Menezes (2000) [2], é importante ressaltar o sentido da física como visão de mundo, como cultura, numa concepçpção mais ampla. É claro que precisa ser cautelosa a sinalização para a inclusão desses novos conteúdos, principalmente se levarmos em conta o despreparo dos professores de física da rede de ensino do país.
Entre muitos, um dos fatores que contribuem para um um ensino de física ineficiente é a formação dos professores, tendo por trás a atual estrutura de ensino do país, a qual leva a algumas distorções, como por exemplo, uma objetividade exagerada que busca o ensino somente com o intuito do estudante passar no vestibular. Tudo isto torna a disciplina de física algo inacessível e fora da realidade.
O ensino de física no Estado do Ceará não é dado de maneira satisfatória. Não necessariamente pela falta da capacidade intelectual dos professores, mas principalmente por sua formação. Raríssimos são os professores de física na rede secundária de ensino do Ceará que são Licenciados ou Bacharéis em Física, Licenciados em Ciências com Habilitação em Física ou que tenham alguma pós-graduação em Física. Professores com tal formação só são encontrados nas Escolas Técnicas Federais (hoje CEFET's), em alguns colégios públicos do Estado, e raramente em colégios privados.
O que se observa na maioria das vezes, nas disciplinas de física do ensino médio, é a fraca abordagem conceitual. Sendo este um problema tão grave quanto à falta de laboratórios. Usammse geralmente apostilas resumidas, onde se mostra basicamente uma fórmula seguida por uma série de exercícios repetitivos, tornando o estudante capaz de resolver certos tipos de proboblemas, mas com muita dificuldade em discutir os fenômenos físicos. Esta realidade do ensino de física é mais intensa no interior do Estado, e o Cariri não foge a esta regra. Precisamos, portanto, criar meios para mudar esta realidade.
Em trabalho realizado do em 1997, Nobre e Guedes [3], verificaram que a maioria dos professores de física que estão atuando no ensino médio na região do Cariri, não possui formação adequada para docência nesta área. A maior parte dos professores que lecionam esta disciplina é dipiplomada em outros cursos, nos quais a formação recebida em física não ultrapassa a vinte e quatro créditos, quando muito! O pouco conhecimento que estes profissionais possuem contribui para inibir o processo de aprendizagem do aluno. A disciplina torna -se de difícil compreensão. Isto porque, na abordagem do conteúdo estes profissionais dão um enfoque puramente de cálculo, perdendo-se a beleza da descrição dos fenômenos. Desse modo, o ensino de física nas escolas do ensino médio torna -se apenas, na maioria dodos casos, a arte de substituir números em fórmulas sem sentido para obter outros números, também sem significado. Constatamos também a quase inexistência de laboratórios didáticos de física nos colégios de ensino médio da Região do Cariri.
A bem da verdade que a carência nessa área ocorre em todo o país. Uma razão para isso é devido ao pequeno número de cursos de física ofertados pelas universidades, principalmente os de licenciatura, tendência esta, que vem mudando nos últimos anos, mas não aqui no Cariri, onde ainda não existe nenhum curso de graduação em física. O dito mercado de trabalho existe, pois a procura por profissionais nessa área sempre foi muito grande. Basta levar em conta as dificuldades que os colégios e até as universidades têm para encontrar professores formados em física. Uns fatores desestimulantes são os baixos salários, no entanto, acreditamos este ser um caminho que os jovens podem assumir como profissão e lutar para melhoria destas condições de trabalho.
Com esta análise ampla que pretendemos realizar sobre a situação da formação dos professores de física e dos laboratórios de física nas escolas das cidades de Juazeiro, Crato e Barbalha, no Cariri, esperamos contribuir para mudar está realidade, algo que poderia ser alcançado em médio prazo com a implantação do Curso de Licenciatura em Física na URCA, ou no Campus avançada da UFC do Cariri.
## 2. Metodologia
A presente pesquisa foi realizada nos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha na Região do Cariri, no estado do Ceará, no período de abril a setembro de 2006. Até esta fase do trabalho, visitamos 34 colégios de ensino médio existente na Região do Cariri, entre públicos e privados, onde através da aplicação de questionários pré-elaborados foram entrevistados 34 coordenanadores pedagógicos e 57 professores de física. Os parâmetros observados foram: existência e condições dos laboratórios de física, formação dos professores e o rendimento dos estudantes, através da análise das médias finais de 2005, entre outros. Foram tambébém colhidas e analisadas as médias gerais obtidas no vestibular de 2006-1 e 2006-2 da Universidade Regional do Cariri - URCA. Por último, foi realizado um estudo comparativo entre todos os dados coletados, e entre resultados de pesquisas anteriores [3].
## 3. Resultados e Análise
A Região do Cariri localizada no extremo sul do Estado do Ceará é composta por oito municípios, com uma população em torno de 500 mil habitantes. As cidades de Juazeiro, Crato e Barbalha, as quais contam com um pouco mais de 380 mil habitantes, são assistidas por 36 colégios de ensino de nível médio, sendo 19 públicos e 17 privados. Até esta fase do trabalho foram visitados 34 colégios e entrevistados 57 professores da rede de ensino médio, entre colégios públicos e privados.
Gráfico 1. Formação dos professores de Física dos colégios públicos e privados de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha - CE.
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Analisando o Gráfico 1, verificamos que os professores de Física Licenciados ou Bacharéis em Física, , correspondem somente a 7% dos entrevistados, o que é muito ruim, pois implica que a grande maioria dos professores de física não estão qualificados para serem "profissionais da física" .Temos ainda os professores Licenciados ou Bacharéis em Ciências com HaHabilitação em Física, representando 5% dos professores pesquisados, porém os mesmos não possuem uma formação mais aprofundada em física.
Vale esclarecer que o programa MAGISTER, do Governo do Estado do Ceara consistiu em uma reciclagem dos professores da rede de ensino do estado do ceará, o qual lhes dava uma formação específica, além de uma formação pedagógica. Mesmo sendo este curso dito de nível superior, o conteúdo transmitido era de nível médio. Vale ressaltar que os noves (9) professores formados neste te programa em 2004 para a área de física e matemática, estavam em processo de aposentadoria.
Do total de professores entrevistados, encontramos somente um (1) professor formado pelo programa MAGISTER, o que representa apenas 2% universo pesquisado. Pelo exexposto acima, concluímos que este programa não foi satisfatório para resolver o problema da formação
específica dos professores de física da região. Vale destacar que este programa formou apenas uma turma, sendo desativado no início de 2004.
O ESQUEMA é um programa que trabalha com o profissional que já possua nível superior e que tenham tido disciplinas de física em seus currículos, ficando este, legalmente habilitado para o ensino desta disciplina. Este programa dar-lhes uma formação em ensino de física e uma formação pedagógica. O curso (ESQUEMA) promovido no estado do Ceará,se restringe à revisão de Física Clássica num contexto apenas laboratorial, sem acrescentar mais conhecimentos teóricos em física, como por exemplo, Física Moderna e Física Estatísticica.
Podemos constatar que este programa já introduziu no ensino de física um percentual considerável de profissionais, representando hoje 28% dos professores do universo pesquisado. Apesar de entendermos que esta situação é melhor que há de dez anos atrás, não podemos considerar que esta seja a solução para melhorar o ensino de física na região do Cariri - CE, pois este é mais um remendo na falta de profissionais qualificados em física.
A grande maioria dos professores que ensinam física, 58%, não tem for mação em física e nem habilitação para exercer tal atividade, sendo este um dado extremamente preocupante. Estes professores têm as mais diferentes formações como, engenharia, tecnólogo, farmácia, etc. Chegamos a encontra um professor de física que ainda nãnão tem nem nível superior!
Gráfico 2. Professores com pós-g-gradução em Física.
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Quanto ao aprofundamento da formação através de pós-graduação, constatamos que apenas 7% dos professores entrevistados (Gráfico 2) possuem alguma pós-graduação Este é um resultado esperado, visto que a maioria deste professores ensina física apenas por falta de emprego na sua área de formação, e a qualquer momento podem deixa a profissão de professor de física.
Quanto à utilização dos laboratórios pelos professores (gráfico 3), 82 % dos docentes não fazem uso dos mesmos, o que prejudica sobremaneira a formação dos estudantes. Claro que a maior razão deste alto número é a falta de laboratório nos colégios, pois somente 4% dos colégios pesquisados possuem laboratório de física em condição de uso.
Encontramos apenas 6 professores que declararão ministrar aulas em laboratórios. Dos que ministram aulas em laboratórios, temos 1 professor Licenciado ou Bacharel em Ciências com Habilitação em Física, 2 professores formados pelo programa ESQUEMA e 3 professores são de outras áreas de formação. Aqui não temos como fazer uma análise mais profunda, devido a quase inexistência de laboratórios nas escolas.
Na prática, física representa para o estudante, na maior r parte das vezes, uma disciplina muito difícil, em que é preciso decorar fórmulas cuja origem e finalidades são desconhecidas. Enquanto sabemos que física é uma ciência fundamentalmente experimental. Assim a presença de laboratórios didáticos é algo essencial nas escolas, como é defendido por vários pesquisadores.
"...apesar de reconhecida a necessidade de laboratório, muitas escolas foram construídas sem se prever tal dependência. Em muitos casos, por desinteresse dos professores e administradores, os laboratórios permanecem fechados..."(Myriam Krasilchik) [4].
Tão importante quanto ter laboratórios didáticos de física é realizar experimentos simples com material reciclado na própria sala de aula, onde os próprios estudantes podem confeccionar os experimementos. Mas para isso precisa-se ter um professor consciente para a necessidade desta tarefa, um professor que se sinta com a autoridade para lutar por um melhor salário e melhores condições de trabalho. Tal professor, geralmente é aquele que teve uma formação sólida em física.
Gráfico 3. Aulas ministradas em laboratórios de Física.
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A média geral em Física no vestibular da Universidade Regional do Cariri - URCA, em 2006.1 e 2006.2 é 2,34 e 2,48, respectivamente, sendo estás mémédias superiores apenas as de redação. O que mostra o baixíssimo nível de formação em física destes estudantes que saem do
ensino médio. Apesar de sabermos que o vestibular não é uma excelente ferramenta para medir aprendizado, porém nos dá um indicativo da da situação da assimilação do conteúdo de física ensinado nos colégios da região.
Com relação ao aprendizado dos alunos ainda nos colégios, poucos são os que se dispõem a fornecer a média geral por disciplina. Dos colégios pesquisados até agora apenas 7 forneceram esta média, mas acreditamos que o resultado não mudaria muito em termos de média geral se incluirmos os demais. A média geral da disciplina de física dos colégios referente ao ano de 2005 é de 6,95. Apesar de não ser uma ótima média, está ainda é é melhor que a do vestibular da URCA, podendo até parecer que existe algum dado mal coletado. Porém sabemos que os colégios têm uma meta a cumprir, mostrar resultados, e neste caso, entenda resultados apenas por bons números, e não necessariamente aprendizado. Os colégios mesmo não fornecendo boas condições de ensino, com profissionais qualificados e laboratórios adequados, alcançam boas notas com trabalhos e mais trabalhos, que na maioria do caso não ajudam o aprendizado do estudante. Observem que nem estamomos discutindo a questão da avaliação, o que é um problema grave.
## 4. Conclusões e Sugestões
Os dados apresentados até o momento, refletem a ineficiência do ensino de física, que tem sido ministrado basicamente com o objetivo de levar o educando a obter apaprovação no vestibular, o que está de acordo com as constatações de Neto e Pacheco (1998) [5-5-6] segundo as quais o ensino de física em nosso país tem assumido o caráter de mera preparação para a resolução de exercícios de vestibular. Para este autor, esta situação é confirmada ao se observar o uso indiscriminado de livros e assemelhados, repletos de exercícios preparatórios para as provas de vestibular e que, na sua essência, primam pela memorização e pelas soluções algébricas.
Em relação ao exame vestibular de 2006-6-1 e 2006-2 da URCA, as médias obtidas são baixíssimas, 2.3 e 2.4, o que serve de parâmetro para comprovar o quadro dramático por que tem passado o ensino na área da física. Os PCN's [7] para o ensino médio apontam na direção de uma profunda reformulação do currículo da física na escola de ensino médio e a inserção da física moderna contemporânea nos currículos; uma forma de atrair jovens para a carreira científica; disseminar os conhecimentos que a ciências e a tecnologia propiciam à população; esclarecer o estudante quanto às pseudo-o-ciências (Ostermann e Moreira, 2001)[8].
Mesmo conscientes que a inexistência de laboratórios de física básica nas escolas prejudica bastante o aprendizado, acreditamos que a falta de formação dos profissionais nesta área de ensino é um fator decisivo para o baixo aproveitamento dos estudantes.
A criação de um curso de Licenciatura em Física na região, no caso, na Universidade Regional do Cariri ou na Universidade Federal do Ceará - UFC / Campus Cariri, poderia ajudar a resolver em médio prazo esta questão. Com relação aos atuais profissionais de ensino de física, podem-m-se montar cursos de reciclagem ou mesmo criar um curso de especialização em ensino de física para resolver o problema imediato, sem perder de vista a solulução definitiva que a criação de Cursos de Licenciatura em Física.
Com relação aos laboratórios de física, deve-se continuar a conscientizar os professores, direção dos colégios e governos, quanto à necessidade dos mesmos, e paralelamente incentivar e prepaparar estes professores a realizarem na própria sala de aula,
experimentos com aparato simples, utilizando material reciclado, pois sabemos que o experimento em física é essencial para o aprendizado.
É claro que as causa deste ensino deficiente são muitas, como o sistema de ingresso nas Universidades, a desvalorização do profissional de ensino, a criação de escolas-empresa, a falta de verbas para educação, etc. Mas, acreditamos que a falta de profissionais de ensino de física com formação adequada surge como o um fator a mais para agravar esta situação.
## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- [1] BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). N Nº 9394/96
- [2] MENEZES, L. C. Uma Física para o Novo Ensino Médio. Física na Escola. v.1, n. 1 p.7, 2000.
- [3] NOBRE, F.A.S. e GUEDES, C.A. Problemática do Ensino de Física na Micro-Região do Cariri - CE, Anais do XII Simpósio Nacional de Ensino de Física, 1997.
- [4] KRASILCHIK, M. O Professor e o Currículo das Ciências. São Paulo: EPU: Editora da Universidade de São Paulo, 1987. 80p.
- [5] NETO, J.M.e PACHECO, D. Pesquisa sobre o ensino de Física no nível média no Brasil. São Paulo: Escrituras. 1998;
- [6] NARDI, R. (Org.). Pesquisas em Ensino de Física. São Paulo: Escrituras. 1998;
- [7] PORTALMEC. Parâmetros Curriculares para Cursos de Licenciatura em Física. Disponível em: m: < http://portal.mec.gov.br/>. Acesso em: 10 jan. 2006.
- [8] OSTERMANN, F.; MOREIRA, M. A. Uma Revisão Bibliográfica sobre a Área de Pesquisa "Física Moderna e Contemporânea no ensino Médio". Investigações em Ensino de Ciências , v.5, n.1, 2001.
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