O TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO NO ENSINO DE FÍSICA - POTENCIALIDADES E LIMITAÇOES.
Frederico Augusto Toti, Alice Helena Campos Pierson
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- X
- Ano
- 2006
- Data
- 18/08/2006
- Linha de pesquisa
- Pôster - Resultados Parciais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
O trabalho como princípio educativo no Ensino de Física - - - potencialidades e limitações.
Frederico Augusto Toti 1¨ , Alice Helena Campos Pierson 1 1 Universidade Federal de São Carlos.
## Resumo
Relatamos neste trabalho os resultados parciais de uma pesquisa iniciada em agosto de 2005, que originalmente buscava explicitar potencialidades de alunos trabalhadores para a aprendizagem de conteúdos de Física a partir da atividade profissional que desempenham, e conectá -las com conteúdos específicos, tipicamente trabalhados no Ensino Médio. Nossa idéia básica era que conhecimentos profissionais de alunos trabalhadores poderiam fornecer, em muitos casos, informações de natureza empírica, ou mesmo teórica, importantes para o ensino de Física no Ensino Médio.
Para isso aplicamos um questionário em escolas públicas de Ensino Médio a fim de se obter a distribuição dos alunos em função de suas atividades profissionais. Num segundo momento estão sendo entrevistados alunos trabalhadores. Serão visitados locais de trabalho, evidenciados na pesquisa, a fim de complementar a caracterização dos conhecimentos físicos que podem ser construídos pelos alunos no desenvolvimento de suas atividades profissionais.
- O questionário e as primeiras entrevistas revelam que no mercado de trabalho tipicamente ao alcance dos alunos do Ensino Médio, as potencialidades para a aprendizagem apontadas pela literatura, aparecem cercadas de limitações e riscos para o ensino de Física num contexto da Educação Científica para a cidadania, emancipação intelectual e difusão da ciência enquanto cultura. Segundo a interpretação que temos defendido, isso ocorre em função da ação individual aparecer dissociada do significado coletivo dessa ação, o que leva a relações que interferem diretamente na produção, apropriação e distribuição do conhecimento no âmbito do trabalho, o que por tese, pode contaminar também a circulação dos conhecimentos na escola.
Buscamos na Teoria da Atividade, como referencial teórico principal, formas de promover a mediação das ações dos alunos trabalhadores possibilitando a ligação entre a ação individual do sujeito e a estrutura social na qual ela está inserida, utilizando o conhecimento físico como mediador.
## Introdução
A preocupação central dessa pesquisa era buscar nas atividades profissionais de alunos trabalhadores que estão cursando o ensino médio, situações vivenciadas rotineiramente como subsídios alternativos ao ensino de Física. Alguns trabalhos apontam para potencialidades de atividades profissionais como princípio educativo no ensino de Física tais como (GARCIA, 2000; RABONI, 1993). Conforme apontado por Raboni (1993), as potencialidades do aluno trabalhador vão muito além do que a escola considera, além de coincidir muitas vezes com o que a escola valoriza. Não considerando esse fato, o ensino fica suscetível a situações em que as abstrações da sala de aula não se encontram com as experiências vividas e/ou
presenciadas nas atividades profissionais explicitamente ligadas às teorias desenvolvidas nas aulas de Física, assim há um duplo prejuízo para o aluno que em geral não se apropria do conhecimento escolar, formal e nem amplia sua autonomia no plano concreto, pois os fenômenos que se colocam a ele não são interpretados segundo critérios científicos, mas passam despercebidas experiências realizadas no desempenho de suas funções que poderiam contribuir na abstração de conteúdos de Física na sala de aula.
Duas questões se colocam, a nosso ver, relevantes para a identificação e utilização dessas potencialidades no ensino de Física.
- 1 -Como conhecimentos e habilidades requeridos de um trabalhador (na sua atividade profissional) podem contribuir com sua aprendizagem de Física no Ensino Médio?
- 2 -Quais conhecimentos presentes nas atividades profissionais de alunos podem ser aproveitados (na superação de dificuldades) no Ensino de Física, de forma compatível com os objetivos do Ensino Médio?
Como produto da busca por respostas a essas questões esperamos conseguir formalizar conexões entre os conhecimentos envolvidos em atividades profissionais exexercidas por alunos de Ensino Médio com os conhecimentos físicos organizados academicamente, fornecendo elementos para o desenvolvimento de metodologias voltadas para a educação científica a partir de idéias organizadas pelos alunos trabalhadores no desempenho de suas atividades profissionais.
Além das diversas pesquisas que indicam a importância dos conhecimentos prévios dos alunos como ponto de partida para o ensino de ciências Santos (1998), e de diversos trabalhos que buscam sentido para o ensino de Físísica a partir do cotidiano Pierson (1997), encontramos justificativas, nos documentos oficiais do Governo Federal, para buscar aproximações entre conhecimentos presentes em atividades profissionais de alunos trabalhadores e conhecimentos escolares de Física.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) concebidos para fornecer uma base curricular nacional comum apoiada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (lei 9.394/96) 6) sugere, em suas Bases legais, uma forte identidade entre as competências exigidas pelo processo produtivo e as capacidades para o desenvolvimento social e cumprimento da cidadania. Esse documento diz que:
- A nova sociedade, decorrente da revolução tecnológica e seus desdobramentos na produção e na área da informação, apresenta características possíveis de assegurar à educação uma autonomia ainda não alcançada. Isto ocorre na medida em que o desenvolvimento das competências cognitivas e culturais exigidas para o pleno desenvolvimento humano passa a coincidir com o que se espera na esfera da produção.
- O novo paradigma emana da compreensão de que, cada vez mais, as competências desejáveis ao pleno desenvolvimento humano aproximam-s-se das necessárias à inserção no processo produtivo. Segundo Tedesco, aceitar tal perspectiva otimista seria admitir que vivemos "uma circunstância histórica inédita, na qual as capacidades para o desenvolvimento produtivo seriam idênticas para o papel do cidadão e para o desenvolvimento social". Ou seja, admitindo tal correspondência entre as competências exigidas para o exercício da cidadania e para as atividades produtivas, recoloca-a-se o papel da educação como elemento de desenvolvimento social. (BRASIL, 1999, p.12).
O trecho acima sintetiza uma sugestão para cumprimento da determinação explicita na Lei nº 9.394/96, que diz que a educação deve cumprir um triplo papel: econômico, científico e cultural. Concordamos que a educação deva cumprir o triplo papel mencionado, o que questionamos, é se os papéis científico e cultural devem estar subordinados ao papel econômico conforme fica caracterizado nos PCN. Em grande parte do texto das bases legais nos PCN, a preparação e / ou a adaptação dos indivíduos, tendo em vista sua atuação no modo de produção capitalista, é tratada como uma das funções da educação básica em especial do Ensino Médio, a nosso ver, esta é uma postura depreciativa e indutora de distorções dos objetivos da educação científica preconizados por diversos pesquisadores e educadores.
## Revisão da literatura.
Em meio às pesquisas em Ensino de Física, nas fontes disponíveis, (sistema de bibliotecas de diversas universidades, catálogos, periódicos de ensino de Física, banco de teses e dissertações da CAPES, publicação on-line, revistas digitais ligadas a grupos de pesquisas ou universidades, atas dos Encontros de Pesquisa em Ensino de Física, e Simpósio Nacional de Ensino de Física, e solicitação direta de referencias específicas a pesquisadores da área) não encontramos mais do que dois trabalhos abordando diretamente o trabalho como princípio educativo no Ensino de Física para o Ensino Médio: Raboni (1993), e Garcia (2000). Há outros dois trabalhos relacionados ao ensino de ciências para alunos trabalhadores, porém atentos a clientela e aspectos distintos dos que delimitamos neste trabalho. São eles; Soares (1992) que investiga a função do ensino de ciências e matemática para crianças e adolescentes de populações marginalizadas e Haracemiv (1994) que explora a questão do ensino de química na educação de adultos, buscando uma proposta pedagógica para o ensino de Química em cursos supletivos, cuja clientela é constituída basicamente por alunos trabalhadores, que instrumentalize o ensino de forma a permitir ao aluno pensar criticamente o seu cotidiano.
Garcia (2000), por meio de um estudo de caso, e partindo do pressuposto de que o conhecimento presente no processo produtivo pode interagir com o conhecimento escolar, sem que para isso se estabeleça uma relação de dependência entre a indústria e a escola, procurou em seu trabalho, identificar o significado que o conhecimento de Física tem, tanto para o ingresso como para a manutenção no emprego, assim como para a operação de equipamentos de alta tecnologia incorporada. Finalmente, procurou-se ressaltar as possíveis aproximações entre o conhecimento escolar de Física e o conhecimento presente na linha produção da empresa investigada. Neste trabalho, os aspectos escolares considerados são mais direcionados ao Ensino Técnico do que ao Ensino Médio.
Raboni (1993) e posteriormente em um recorte deste mesmo trabalho publicado em Nardi (1998) apresenta sua pesquisa de natureza etnográfica, uma exploração das relações sociais do uso e da produção de conhecimento no trabalho de fabricação de óculos. A dissertação constata que o trabalho ao qual o aluno se dedica durante o dia, ao mesmo tempo que lhe impõe situações rotineiras, também exige habilidades diversas que comumente são apresentadas como finalidades desejáveis do ensino, mas raramente aproveitadas na escola. Raboni, ao explorar diversos pesquisadores na área de Educação e Trabalho, defende que a flexibilização dos modos de produção, devido a acentuada modernização dos meios de produção, vem requerendo dos trabalhadores maior qualificação e maior autonomia no pensar e interferir nos processos da produção, e esse fato tende a contribuir com a utilização do trabalho como princípio educativo no ensino de Física, ciência que sustenta em grande parte as novas tecnologias. Partindo de suas constatações a respeito do ensino de Física no período noturno, o autor preconiza a compreensão do cotidiano do aluno trabalhador como base
necessária para qualquer tentativa de reformulação do ensino da Física voltado para essa população. Neste mesmo trabalho o autor descreve o aluno do curso noturno como possuidor de um alto grau de maturidade e de autonomia no trabalho e isto implica em uma revisão da postura em sala de aula.
Destas investigações, embora ambos os autores preconizem a utilização do trabalho enquanto princípio educativo, Raboni (1993) coloca seu foco na superação dos problemas, delineados por outras pesquisas, no ensino de Física no Ensino Médio noturno para alunos trabalhadores, enquanto que Garcia (2000) é mais sistemático no levantamento de assuntos de Física escolar presentes numa linha de produção específica. Ambas as pesquisas têm como foco o trabalho em linhas de produção industriais, porém, conforme mostraremos, há uma grande diversidade de ocupações às quais se dedicam os alunos trabalhadores no Ensino Médio, e que não podem deixar de ser consideradas para que o trabalho como princípio educativo no ensino de Física se torne uma abordagem mais ampla, tanto no sentido de envolver um número maior de fenômenos físicos, como no de contemplar um espectro maior de atividades profissionais.
## Objetivos iniciais, objetivos atuais e o redirecionamento da pesquisa.
Uma vez que a literatura sobre o uso do trabalho como princípio educativo no ensino de Física indica essa possibilidade de abordagem como promissora para o alcance dos objetivos 1 do ensino de Física no nível médio a muitos estudantes 1 , iniciamos essa pesquisa com os seguintes objetivos gerais:
- 1. Conectar conhecimentos de Física, que possam ter sua aprendizagem potencializada ao serem abordados no contexto profissional de alunos trabalhadores, aos conhecimentos requeridos destes alalunos no desempenho de suas atividades profissionais por meio de dados empíricos coletados em diversos seguimentos profissionais.
- 2. Fornecer elementos, apoiados nos dados empíricos levantados e em trabalhos teóricoobibliográficos, para o desenvolvimento de de metodologias voltadas para a construção do conhecimento científico a partir de idéias organizadas pelos alunos trabalhadores no desempenho de suas atividades profissionais.
Uma vez que a questão central da pesquisa remete a necessidade de buscar referenciais teóricos e metodológicos que tratam o trabalho e a escola como focos essenciais, encontramos nessa literatura, trabalhos que nos chamaram a atenção para fenômenos recentes no campo da educação e trabalho que indicam a possível existência de sérias limitações e riscos para a utilização do trabalho, no atual contexto capitalista, como princípio educativo capaz de contribuir com o ensino de Física, quando se faz a opção política por uma educação que tenha compromisso com o avanço social e a emaciação intelectual da clientela típica do Ensino Médio público.
Encontramos na literatura essencialmente duas correntes específicas sobre trabalho e educação. Uma que aponta a compreensão do trabalho como princípio educativo como viável e necessária à educação, afirmando que a modernização nos processos e prestações de serviços tendem a contribuir com a educação de alunos trabalhadores a medida que a escola acompanhar essa modernização. Outra corrente vê nessa compreensão um risco de
esvaziamento intelectual de conteúdos escolares dado o empobrecimento intelectual das atividades profissionais, que devido ao advento de novas tecnologias demandam cada vez menos conhecimentos por parte dos trabalhadores. Segundo essa análise há um progressivo esvaziamento intelectual dos postos de trabalhos compatíveis com o nível de escolaridade do Ensino Médio, e por isso não há ganho para a educação escolar em se apropriar, enquanto princípio educativo, do conhecimento adquirido pelos alunos em suas ocupações.
Gonçalves, Passos, S. e Passos, A. (2005, p. 350), em pesquisa realizada com alunos do Ensino Médio de cursos noturnos oferecidos na baixada Fluminense, revelam que, quanto ao perfil ocupacional, 43% dos alunos desenvolvem trabalho assalariado, 44% estão desempregados e 14% nunca trabalharam. Esses pesquisadores constataram, quanto ao perfil ocupacional dos alunos do Ensino Médio que investigaram que:
As atividades profissionais desempenhadas relacionam-se ao setor terciário, são balconistas, atendentes, secretárias, manicures, pedreiros, mecânicos, empregadas domésticas, babás, motoristas, funcionários públicos no setor de limpeza. A maioria dos empregos é mera ocupação, que não exige qualificação específica, quase sempre em turno de oito horas.
Esse quadro de pauperização das ocupações quanto à exigência intelectual, embora não seja o único fator que impõe limitações e riscos a utilização do trabalho como princípio educativo para o ensino de Física no Ensino Médio não inviabiliza ou deprecia as possibilidades de se alcançar objetivos educacionais escolares a partir de conhecimentos presentes nas atividades profissionais dos alunos, uma vez que é inegável que existem conhecimentos envolvidos no desenvolvimento das atividades produtivas, conforme a revisão da literatura indicou. Conhecimento não científico, mas passível de ser trabalhado enquanto experiências para a construção e apropriação de conhecimentos científicos e como problemática oriunda do cotidiano e da prática social dos alunos trabalhadores.
Temos sido levados a concluir que o aproveitamento do trabalho como princípio educativo no ensino de Física pode apresentar como potencialidades os aspectos técnicos que possibilitam a conexão dos conhecimentos científicos com os conhecimentos mobilizados para o desempenho das atividades profissionais, e como limitações e riscos, aspectos ligados a esfera do trabalho e educação no atual contexto capitalista.
Para delinear as limitações, riscos, e potencialidades do uso do trabalho como princípio educativo no ensino de Física no Ensino o Médio, acreditamos que além de identificar conhecimentos presentes nas atividades profissionais e conectá-los com o conhecimento físico organizado, será indispensável a consideração de outras variáveis relacionadas com o caráter social do trabalho e com o papel do conhecimento na atividade profissional face o conhecimento físico escolar. Características sociais como autonomia, status, salário, alienação dos trabalhadores devido ao controle da atividade, instabilidade no emprego devido inserção de novas tecnologias, necessidades de redução de custos de produção, e de processos, competição, devem ter efeito sobre a cognição e a busca do indivíduo por conhecimentos. Nesse contexto o ensino de Física pode ganhar um sentido social para o aluno trabalhador capaz de trazer-lhe mais segurança e novas perspectivas para dimensionar valores e repensar a sua cidadania. A interpretação das variáveis sociais, que enunciamos acima, e sua relação com os aspectos técnicos da Física e psicológicos da busca por conhecimentos, por parte do aluno trabalhador, necessitam de um referencial teórico que possibilite identificar mediadores entre essas variáveis, as atividades profissionais e o conhecimento físico. A chamada "Teoria da Atividade", desenvolvida por Vygotsky, Leontiev e LúLúria dentre outros, dentro da Psicologia
sócio -históricoocultural na primeira metade do século XX, nos parece um referencial teórico promissor para esse fim, pois, a Teoria da Atividade "[...] toma como unidade de análise o sistema da atividade coletiva orientada para o objeto e mediada por artefatos, fazendo a ponte entre o sujeito individual e a estrutura social". Engeström, Miettinen e Punamäki (1999, p. 2, tradução nossa).
Assim, soma-se aos objetivos iniciais deste trabalho a interpretação e o avanço do do conhecimento sobre as possíveis relações (em especial conexões) entre conhecimento físico escolar e atividades profissionais de alunos do Ensino Médio, priorizando uma análise crítica que busca uma ponte entre o sujeito individual e a estrutura social, entre a ação do indivíduo e o significado desta na sociedade e desenvolvendo as possibilidades de um ensino de Física voltado para a explicitação dos elos entre o potencial científico e tecnológico da Física com as atividades sociais do trabalho e seus significados. Dentre os riscos desta abordagem está o de alienar (ou alienar ainda mais) a escola e o ensino contaminando-os com a alienação proveniente das atividades produtivas. Outro risco é, ao considerar fenômenos presentes nas atividades profissionais, submeter o aluno a interações indesejadas por ele, se estiver buscando no conhecimento que a escola oferece uma fuga da sua rotina. Nesse caso é preciso esclarecer que o trabalho como princípio educativo deve ser considerado ponto de partida de eventuais problematizações e não uma pré-estrutura para desenvolvimento de conteúdos.
Segundo Duarte (2003) as atividades sociais humanas, inclusive o trabalho, podem se articular de duas formas distintas com a consciência: no sentido da formação humanizadora da consciência e no sentido de formação alienante da consciência. Nossa hipótese básica para a superação das limitações e riscos na utilização do trabalho como princípio educativo no ensino de Física no Ensino Médio é que a Física pode potencializar o processo de humanização das relações sociais, aqui destacamos o trabalho, se orientarmos o processo ensino-o-aprendizagem para conectar as ações na esfera individual à estrutura social, enquanto conhecimento produzido socialmente para a finalidade última de ampliar as popossibilidades das ações humanas. Além disso, a Física, uma vez que sustenta a maioria dos artefatos tecnológicos que possibilitam o modo de produção e conseqüentemente a economia vigente, é um importante instrumento para a compreensão de processos e mudanças nas relações sociais no trabalho, que por sua vez repercutem em toda estrutura social.
## Procedimentos metodológicos
Embora os objetivos da pesquisa tenham sofrido alterações com a consideração de variáveis mais "humanizadoras", a metodologia para encaminhamento da pesquisa não necessitou de grandes modificações para satisfazer as necessidades técnicas de coleta de dados.
Foram assumidas algumas hipóteses simplificadoras e justificáveis em se tratando de amostras estatísticas Levin (1987):
- ß As salas de aulas serão consideradas homogêneas quanto à distribuição profissional dos alunos, dado que a atribuição de alunos numa turma do Ensino Médio não segue regra específica sendo, portanto, aleatória.
- ß A distribuição dos alunos quanto suas profissões é homogênea nas três séries do Ensino Médio.
- ß A distribuição dos alunos do Ensino Médio quanto a suas atividades profissionais é semelhante em cidades com características socioeconômicas semelhantes.
- ß A distribuição dos alunos trabalhadores quanto às funções desempenhadas no trabalho se mantém inalteradas durante intervalos de tempo que não apresentam grandes transformações dos meios de produção num contexto capitalista.
A pesquisa está organizada em três momentos principais e interdependentes.
1º momento: Levantamento da distribuição dos alunos trabalhadores que estudam no período noturno em função de sua atividade profissional por meio da aplicação de um questionário em todas as escolas de Ensino Médio em funcionamento no turno noturno na 2 cidade de Araraquara-a-SP 2 . O questionário foi composto de quatro perguntas diretas acerca da situação profissional do aluno, de modo a possibilitar a identificação com uma breve descrição da função que desempenha e das que já desempenhou.
- 2º momento: Entrevistas estruturadas com alunos os trabalhadores. Localizadas as atividades profissionais, estamos procedendo as as entrevistas seguindo um protocolo que busca o delineamento detalhado das funções e atividades desempenhadas pelos alunos. Os entrevistados são estimulados a explicitarem possíveis idéias latentes que manifestem acerca de explicações dos fenômenos com que lidam em suas atividades profissionais e eventuais interpretações do papel social da atividade que realizam.
- 3º momento: Visita a ambientes de trabalho. Serão visitados os ambientes de trabalho mais mencionados nos questionários e entrevistas, que efetivamente contenham elementos que, uma vez considerados no ensino de Física, poderão levar a compreensão dos fenômenos tratados por essa ciência para além do ambiente escolar e para contextos mais próximos de situações do cotidiano ainda não compreendidos pelos alunos na perspectiva da ciência.
A correlação dos conhecimentos envolvidos nas ocupações dos alunos trabalhadores com conteúdos escolares é um dos objetivos da pesquisa em andamento, assim como a análise, a partir do referencial da Teoria da Atividade, de elementos e aspectos específicos da Física que favorecem a ponte entre o sujeito individual e a estrutura social, a ação individual e os motivos dessa ação. Dos alunos da amosostra, nos interessa como eles constroem o conhecimento que utilizam no trabalho e como vêem os conhecimentos que aprendem (ou deveriam aprender) na escola. Isso nos parece suficiente para delinear as limitações, riscos e potencialidades da abordagem.
## Resultados parciais
A seguir organizamos alguns resultados obtidos no primeiro momento da pesquisa que, embora ainda não nos permitam fazer considerações a respeito do como incorporar a Física de maneira significativa na formação do aluno no Ensino Médio, já nos dá algumas indicações sobre as possibilidades e limitações da utilização do trabalho como princípio educativo.
Na tabela abaixo (tabela 1) apresentamos a delimitação do público entrevistado e os resultados obtidos a partir do questionário inicial. Nas colunas presentes na tabela temos, da esquerda para a direita: Escola Estadual (EE) (de um total de nove escolas de Ensino Médio
Noturno tomamos sete instituições abrangendo todas as regiões da cidade de Araraquara-a-SP). Na segunda coluna é apresentado o núnúmero de turmas existentes nas escolas e na terceira coluna o número total de alunos matriculados. Na quarta coluna apresentamos o número mínimo de questionários tomados, aleatoriamente, para que tenhamos representatividade estatística. Na quinta coluna, o o total de alunos respondentes que nunca trabalharam e na sexta coluna o número de alunos respondentes, cuja ocupação classificamos como não diretamente relacionada a algum conhecimento Físico, a qual chamamos Grupo 1. Na sétima coluna o número de alunos resespondentes, cuja a ocupação classificamos como relacionada a algum conhecimento físico, a qual chamamos Grupo 2. E finalmente, na oitava coluna o total de questionários respondidos.
Tabela 1 - - delimitação do público e resultados do questionário inicial.
- * Há cerca de 20% de evasão ao longo do ano letivo.
A partir dos dados obtidos verificamos que: 71 alunos (16% do total) nunca trabalharam; 326 alunos (75% do total) trabalham em atividades não relacionadas diretamente com algum conhecimento físico (Grupo 2) e 37 alunos (9% do total) trabalham em atividades diretamente relacionadas ao conhecimento físico (Grupo 1).
## Atividades profissionais encontradas e respectivo número de alunos
## Grupo 1
Comercial (total: 105): açougueiro, balconista, chaveiro, entregador, frentista, promotor de vendas, repositor de produtos, telemarketing, vidraceiro.
Rural (total: 04): manejo de lavouras, produção de cana-a-de-açúcar, tratorista.
Serviços gerarais (total: 98): ajudantes gerais, encarregados de almoxarifado, autônomo, empacotador, lavador de carros, limpeza, motorista, office-e-boy, porteiro, segurança, técnico de informática.
Saúde e beleza (total: 14): acompanhante de idosos, agente sanitário, auxiliar de enfermagem, cabeleireiro, manicure.
Auxiliar de escritório (total: 41): auxiliar de escritório, estagiário em banco,estagiário em escritórios, recepcionista, secretária.
Construção civil (total: 22): gesseiro, pedreiro, pintor, servente de pedreiro.
Linha produção Industrial (total: 28): costureira, montador de produtos, operador de equipamento de linha de produção industrial, padeiro.
Serviços domésticos (total: 42): babá, cozinheira, doméstica.
Aposentados (total: 02)
## Esportistas (total: 04)
Nossos dados, para o Grupo 1, confirmam os encontrados por Gonçalves; Passos, S; Passos, A. (2005), indicando que os alunos do Ensino Médio noturno ocupam postos de trabalho que não exigem uma qualificação específica. As entrevistas que estão em andamento estão revelando que os alunos da nossa amostra não pensam em ingressar no Ensino Superior ou buscar profissões que de fato exijam como nível mínimo de escolaridade o Ensino Médio. As entrevistas têm confirmado o que Araújo (2002) e Livingstone e Sawchuk (2003) apontam. Araújo (2002) apoiado em entrevistas com funcionários de uma grande empresa do ramo automobilístico conclui que a exigência de níveis de escolaridade mais elevados - - no caso a que ele se refere, o Ensino Médio - - não ocorre como resultado da demanda de um novo perfil educacional, mas sim como resultado da excessiva mão-o-de-obra disponível, que permite a empresa realizar um processo de contratação muito mais seletivo, marginalizando os trabalhadores menos escolarizados. Trata -se, exclusivamente, de um critério de recrutamento. Livingstone e Sawchuk (2003) apoiado em pesquisas sociológicas empíricas realizadas no Canadá têm defendido a tese de que boa parte da população adulta do Canadá domina mais conhecimento do que é efetivamente chamada a utilizar em suas atividades profissionais.
Grupo 2 (Total:37): Auxiliar de tráfego, Eletricista, Eletricista de autos, Ferramenteiro, Iluminação e filmagem, Instrumentação de medição, Mecânico, Mecânico de manutenção, Mecânico de usinagem, Metalúrgico, Montador equipamentos médicos, Operador de corte e solda, Operador de extrusão, Operador de máquinas, Ourives, Soldador, Técnico em agrimensura, Técnico em eletrônica, técnico em segurança eletrônica, Técnico agrícola, Torneiro mecânico.
Gráfico 1 - - - distribuição das atividades profissionais dos alunos do "grupo 2" segundo áreas da Física.
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É evidente que uma profissão envolve mais de um campo da Física, mas nesse trabalho consideramos somente a área da Física mais evidente em cada profissão considerada. Consideramos apenas "grandes áreas" evitando, por enquanto, especialidades como, por exemplo, a estática como parte da mecânica. A utilização deste critério não permitiu nesta etapa de seu desenvolvimento a inclusão, por exemplo, de profissionais do ramo da construção ão civil entre os sujeitos do Grupo 2.
Uma das possíveis contribuições originais deste trabalho, e também um de seus desafios, é, ao considerar os sujeitos da "Grupo 1", realizar recortes convenientes que valorizem também atividades profissionais não relacionadas diretamente com conhecimentos físicos, como possíveis fornecedoras de situações férteis para análises na perspectiva da Física a ser desenvolvida no Ensino Médio. Esse esforço é importante devido à pluralidade de ocupações presentes no estudo, e nosossa preocupação em não desconsiderá-á-la, uma vez que, conforme já afirmamos: o trabalho como princípio educativo no ensino de Física pode contribuir efetivamente com o ensino desta ciência, ao se tornar uma abordagem ampla, tanto no sentido de envolver um número maior de fenômenos físicos, como no de contemplar um espectro maior de atividades profissionais.
## Algumas considerações preliminares
Não há como não ter, na tentativa de desenvolver a abordagem proposta, implicações É no trabalho docente. "É preciso sesempre considerar a realidade do aluno e da escola, e evitar sugerir novas disciplinas ou complicar o trabalho das já existentes". (BRASIL, 2002, p. 9). Concordamos com essa orientação, com a ressalva de que não signifique um desencorajamento ao desenvolvimento de reflexões teóricas e à implementação de metodologias e abordagens necessárias ao avanço de um reconhecimento da Física a ser desenvolvida no Ensino Médio como um dos elementos constituintes de uma cidadania plena construída no interior de sociedades do conhecimento.
A Teoria da Atividade pareceu-nos portadora de grande potencial para este estudo uma vez que foi desenvolvida tendo como objetivo principal relacionar a estrutura objetiva da atividade humana e a estrutura subjetiva da consciência, perpassando pelo significado social da ação individual. Ainda que se trate de uma opção pouco explorada na pesquisa em ensino e no ensino de ciências, em especial da Física, este referencial pode trazer contribuições originais, uma vez que considera a atividade humana na individualidade e na coletividade.
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