Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

A Música Popular Como Instrumento para o Ensino de Física

Renato Marcon Pugliese, Joao Zanetic

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
02/02/2007
Linha de pesquisa
Arte, Cultura E Educaçao Científica
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2007

Texto completo

## A Música Popular Como Instrumento para o Ensino de Física

Renato Marcon Pugliese a [rmpugliese@ig.com.br] João Zanetic a [zanetic@if.usp.br]

a. Instituto de Física da Universidade de São Paulo

## RESUMO

HÁ UMA NECESSIDADE DE DE ELABORAÇÃO DE NOVOS MÉTODOS DIDÁTÁTICOS E CONTEÚDOS, VISTO QUE A FORMA TRADICIONAL L DE ENSINO DE FÍSICA , FUNDAMENTADA BASICAMENTE EM TRANSMISSÃO DE EQUAÇÕES E ALGUMAS DEMONSTRAÇÕES EXPERIMIMENTAIS, NÃO É SUFICIENTE PARA ESCLARECER ER AS VÁRIAS DIMENSÕES DAS CIÊNCIAS FÍSICAS E FAZ COM QUE MUITOS ALUNOS NÃO SE INTERESSEM POR ESSA ÁREA DO CONHECIMENENTO. ASSIM, ALÉM DO ALGORITMO E DA EXPERIMENTAÇÃO, PODE -SE APRESENTAR TEMAS DA HISTÓRIA DA FÍSICA, DIFERENTES MODELOS EPISTEMOLÓGICOS E A RELAÇÃO DO CONTEÚDO DA FÍSICA COM OUTRAS ÁREAS DO CONHECIMENTO. CERTAMENTE AQUELES ALUNOS QUE GOSTAM DE LER ROMANCES, POESIAS E TEXTOS HISTÓRICOS E FILOSÓFICOS, QUE GOSTAM DA ARTE PLÁSTICA E/OU DA DA MÚSICA, PODERIAM SER ATRAÍDOS PARA O ESTUDO DA FÍFÍSICA SE ESTA CONTEMPLASSE OUTRAS DE SUAS DIMENSÕES CONSTITUTIVAS E E APLICAÇÕES .

COM A EXPANSÃO DOS RECURSOS TECNOLÓGICOS/AUDIOVISUAIS DAS ÚLTIMAS DÉCADAS, A MAIORIA DOS JOVENS DE GRANDES CIDADES TEM ACESSO A UMA GRANDE VARIEDADE DE LETRAS DE MÚSICA A POPULAR, SEJA ATRAVÉS DA TELEVISÃO, DO RÁDIO, DA INTERNET OU ENTRE RE AMIGOS. NO ENTANTO, DEVIDO À DIVERSIDADE DE MÚSICAS QUE SÃO TRANSMITIDAS, E A FORMA COMO ELAS O SÃO, MUITOS VERSOS CANTADOS NÃO SÃO COMPREENDIDOS, ÀS VEZES POR FALTA DE REFLEXÃO DO OUVINTE OU POR SIMPLES DISTRAÇÃO CAUSADA PELO COSTUME DE SE OUVIR MÚSICA COTIDIANAMENTE, SEM PRESTAR MUITA ATENÇÃO NOS CONTEÚDOS DAS LETRAS.

MOTIVADOS PELAS POSSIBILIDADES DE UTILIZAÇÃO DE LETRAS DE MÚSICA NA SALA DE AULA, PRETENDEMOS ESTABELECER R A RELAÇÃO CIÊNCIA -ARTE NO TOCANTE AO APARECIMENENTO DE CONCEITOS E FENÔMENOS FÍSICOS EM LETRAS DE MÚSICA A POPULAR, TÃO PRESENTE NA CULTURA JOVEM, EM AULAS DE FÍSICA. APRESENTAMOS NESTE TRTRABALHO A PROPOSTA DE DE UTILIZAR LETRAS DE E MÚSICA POPULAR COMO INSTRUMEMENTO PARA SE ENSINAR R FÍSICA, FIXANDO A PEPESQUISA NOS SEGUINTES TEMAS: : I. NECESSIDADE DE ELABORAÇÃO DE NOVOS MÉTODOS DIDÁTICOS E CONTEÚDOS; II. CRISE DE LEITURARA; III. INVASÃO CULTUTURAL E; IV. FÍSICA TAMBÉM É CULTURA. COM ESTA ESTRUTURA ESTE TRABALHO SE E INSERE NA LINHA DE PESQUISA A EM ENSINO DE FÍSICA A QUE PROCURA APROXIMAR FÍSICA E ARTE.

Palavras -

chave: Arte, Interdisciplinaridade, Música

## APRESENTAÇÃO

A pesquisa em Ensino de Física tem mostrado, durante os últimos anos, que há uma necessidade de elaboração de novos métodos didáticos e conteúdos, visto que a forma tradicional de ensino de física (denominada por PaPaulo Freire de educação bancária), fundamentada a basicamente em transmissão de equações e algumas (muitas vezes nenhuma, principalmente na rede pública de ensino) demonstrações experimentais, não é suficiente para esclarecer as várias dimensões das

ciências s físicas e faz com que muitos alunos não se interessem por essa área do conhecimento (Freire, 1975). A Assim, além do algoritmo e da experimentação, pode-se apresentar temas da história da física, diferentes modelos epistemológicos e a relação do conteúdo da física com outras áreas do conhecimento. Certamente aqueles alunos que gostam de ler romances, poesias e textos históricos e filosóficos, que gostam da arte plástica e/ou da música, poderiam ser atraídos para o estudo da física se esta contemplasse outras s de suas dimensões constitutivas e aplicações.

Motivados pelalas possibilidades de utilização de letras de música na sala de aula, pretendemos inicialmente estabelecer a relação Ciência-Arte sob três aspectos:

- i. A Acústica - - estudo físico -dos Instrumentos s Musicais e sua evolução;
- ii. As semelhanças epistemológicas entre a História da Música e a da Física e;
- iii. O aparecimento de conceitos e fenômenos físicos em letras de música popular.

No decorrer das leituras e discussões, resolvemos restringir o estudo ao terceiro aspecto citado, como forma de aprofundar a utilização da música popular 1 , tão presente na cultura jovem, em aulas de física. Apresentamos neste trabalho a proposta de utilizar letras de música popular como instrumento para se ensinar física, fixando a pesquisa nos seguintes temas: i. Necessidade de elaboração de novos métodos didáticos e conteúdos; ii. Crise de leitura; iii. Invasão Cultural e; iv. Física também é Cultura. Com esta estrutura este trabalho se insere na linha de pesquisa em ensinino de física que procura aproximar física e arte (Zanetic, 2006). E essa aproximação pode se dar tanto na identificação de conceitos científicos quanto de "metáforas epistemológicas"2 "2 nas letras de música. Sempre alertando que a metáfora epistemológica não iguala a imaginação poética à racionalidade científica, embora nesta última também compareça a imaginação.

Com a expansão dos recursos tecnológicos/audiovisuais das últimas décadas, a maioria dos jovens de grandes cidades tem acesso a uma grande variedade de letras de música popular, seja através da televisão, do rádio, da internet ou entre amigos. No entanto, devido à diversidade de músicas que são transmitidas, e a forma como elas o são, muitos versos cantados não são compreendidos, às vezes por falta de de reflexão do ouvinte ou por simples distração causada pelo costume de se ouvir música cotidianamente, sem prestar muita atenção nos conteúdos das letras.

Esse costume pode ser um exemplo característico da atual crise de leitura, que se reflete também na escrita e no ato de pensar (Fidalgo, 2006), pela qual estamos passando no Brasil e no mundo, onde os jovens lêem cada vez menos textos elaborados (que necessitam de reflexão por parte do leitor) e o hábito de 'ler' as letras de músicas que ouvimos se torna escasso, pois a música atual faz pano de fundo a outras atividades, como dirigir, conversar ou até mesmo estudar (Wisnik, 2005, pg. 57).

Analisando atentamente letras de música popular tocadas nas rádios, percebemos que algumas apresentam conceitos físicos que são mencionados, às vezes de forma cientificamente correta, às vezes incorreta, mas que podem servir como instrumento pedagógico em aulas de Física, mesmo que na forma de metáforas epistemológicas. Isso pode ser útil para trabalhar certos temas que causam repulsão em muitos alunos devido à sua complexidade, ao tratamento matemático referido ao mesmo e ao aparente distanciamento seja das atividades da vida cotidiana, seja do imaginário emanado do mundo contemporâneo. Essa situação, como diria Paulo Freire, dificulta que a física, ou qualquer outra área do conhecimento que seja processada na escola segundo o mesmo modelo, participe do necessário diálogo entre educador e educandos. Esse é o principal foco da nossa pesquisa.

## NECESSIDADE DE ELABORAÇÃO DE NOVOS MÉTODOS DIDÁTICOS E CONTEÚDOS

A A proposta de utilização de letras de música em aulas de física visa proporcionar ao aluno uma visão mais aberta do conhecimento humano, relacionando a cultura científica (física acadêmica) com a cultura popular (músicas populares), distanciando do ensino que possui o foco apenas nos vestibulares ou na educação profissional.

Os PCN+, Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais, (MEC, 2002) reforçam que

"o novo ensino médio, nos termos da lei, de sua regulamentação e de seu encaminhamento, deixa de ser, portanto, simplesmente preparatório para o ensino superior ou estritamente profissionalizante, para assumir necessariamente a responsabilidade de completar a educação básica. Em qualquer de suas modalidades, isso significa preparar para a vida, qualificar para a cidadania e capacitar para o aprendizado permanente, em eventual prosseguimento dos estudos ou diretamente no mundo do trabalho." (pg. 8)

Dessa forma, procuramos elaborar atividades que possibilitem uma maior criticidade no desenvolvimento de conteúdos específicos do conhecimento físico.

## CRISE DE LEITURA

Atualmente é comum ouvirmos que o Brasil (e o mundo como um todo) passa por uma crise de leitura generalizada, e que o jovem perdeu o prazer de ler e escrever. Em aulas de física, é fácil identificar a dificuldade com que os alunos lêem textos científicos, enunciados de exercícios e, como em qualquer outra área do conhecimento, não conseguem estabelecer relações entre textos distintos. Além disso, podemos perceber também que as dificuldades aumentam quando adentramos o campo da escrita, onde encontramos falta de articulação de idéias e argumentos e diversos erros na gramática da língua portuguesa.

Contudo, essa crítica merece um tratamento mais cuidadoso, visto que alguns analistas afirmam que existe ainda gente que leia:

"A proliferação de bancas de jornais (...) no contexto urbano mostra, ao lado de periódicos e "quadrinhos", uma literatura de "gosto duvidoso" e consumo rápidodo, que se enquadra no gênero de ação, aventura e romance, bem como livros de autores clássicos (de ficção e ciência) em edições de baixo custo, o que significa em edições populares. É possível inferir que existe um público leitor curioso a ser cativado, pois a difusão dessas publicações insere-e-se em uma lógica de mercado. " (Dauster, 2000)

Sendo assim, destacando melhor o que é essa 'crise de leitura' de que estamos falando, precisamos discutir também a crise da escrita, que acompanha a crise de leitura de maneira imediata. Antônio Fidalgo (2006) observa que

"(...) a escrita é a forma disciplinada do pensar. O que torna a escrita difícil não é o desenhar as letras, é o ordenar as palavras, é seguir a estrutura lógico-g-gramatical que a escrita impõe. É verdade de que a língua é oral e que é a língua, e não a sua escrita, a exigir essa estrutura. Mas as infracções que passam despercebidas ou que se desculpam na oralidade, tornam-se patentes e insuportáveis na escrita. Há quem fale, e até quem o faça publicamente na na pele de

político ou de personalidade, e não construa uma frase bem feita. Mas isso seria inaceitável na escrita.

A crise da escrita, a dificuldade de escrever um texto sentida pela maior parte das pessoas, incluindo os universitários, é sintoma de uma cr ise do pensamento, do pensamento ordenado."

Relacionando as idéias acima, podemos dizer que existe, então, uma 'crise de leitura reflexiva', isto é, os jovens lêem muitos textos diariamente em jornais, em revistas, no computador, em livros populares (como os denominados de auto-ajuda) etc., mas não são levados a refletir sobre os mesmos. De uma forma mais direta, esses textos fornecem informações rápidas e objetivas, onde o leitor não precisa pensar para compreendê-las.

Essa crise de leitura também está projetada em outros setores. Ao assistir um noticiário pela televisão, por exemplo, o espectador acostuma-se a não refletir sobre as informações e as aceita como terminadas. Em meios artísticos como o cinema, a música, o teatro, entre outros, podemos perceber o mesmo fenômeno. Wisnik (2005) inclui a idéia de que a música de massa (superficial) atual, onde o ouvinte pode desligar e ligar a onda sonora a qualquer momento, e pode ouvir música enquanto atua em outras atividades, não possibilita reflexão sobre a obra musical, ou seja,

"(...) O mundo da repetição generalizada decompõe e desconstrói a onda sonora na sua produção e na sua recepção. (...) O consumidor liga e desliga a onda no momento que quiser. (...) a onda não tem poder, o cosmos não tem nenhum poder diante do ouvinte aparelhado ou desatento (grifo nosso). (...) Nesse mundo, a música faz fundo (...)" (pg. 51)

Dessa forma, as atividades de conhecimento físico que propomos, intermediadas por letras de música que contenham termos ou conceitos físicos, permitem dialogar, implicitamente, com essa crise de leitura, onde o ouvinte será levado a refletir sobre as letras de música que ouve cotidianamente.

## INVASÃO CULTURAL

Partindo da afirmação de Paulo Freire (1970), onde diz que

"(...) somente o homem, como um ser que trabalha, que tem um pensamento -linguagem, que atua e é capaz de refletir sobre si mesmo e sobre a sua própria atividade, que dele se separa, somente ele, ao alcançar tais níveis, se fez um ser de práxis. Somente ele vem sendo um ser de relalações num mundo de relações" (pg. 39),

podemos discutir a idéia de que a física, enquanto ciência, existe num mundo de relações entre cientistas, que a criam, transformam, e permitem que o desenvolvimento científico ocorra da forma como conhecemos. Desse modo, ao trabalhar conhecimentos físicos com alunos do ensino médio, precisamos ficar atentos para não os invadirmos culturalmente. Paulo Freire prossegue, descrevendo que

"toda invasão sugere, obviamente, um sujeito que invade. Seu espaço histórico -cultural, que lhe dá sua visão de mundo, é o espaço de onde ele parte para penetrar outro espaço histórico-cultural, superpondo aos indivíduos deste seu sistema de valores" (pg. 41)

assim, como os alunos têm seus conhecimentos de vivência com os fenômenos físicicos no cotidiano, quando o professor impõe (de forma autoritária) o conhecimento físico acadêmico sobre o conhecimento físico espontâneo dos jovens, há uma relação entre invadido e invasor, e então

"o primeiro (professor) atua, os segundos (alunos) têm a ilusão de que atuam na atuação do primeiro; este diz a palavra; os segundos, proibidos de dizer a sua, escutam a palavra do primeiro. O invasor pensa, na melhor das hipóteses, sobre os segundos, jamais com eles; estes são "pensados" por aquele. O invasor prprescreve; os invadidos são pacientes da prescrição". (pg 41-42)

Essa invasão cultural que acontece diariamente nas escolas médias do país dificulta o processo de ensino-aprendizagem, visto que todo ser 'invadido' tende a rejeitar as idéias do 'invasor' (Freire, 1975).

Diferentemente desta forma de ensino, nossa proposta caminha no sentido de enaltecer um constante diálogo entre professor e aluno através da música, que está fortemente presente na cultura do aluno e do professor, e através da física (acadêmimica), a qual permeia o universo cultural docente.

"O que se pretende com o diálogo, em qualquer hipótese (seja em torno de um conhecimento científico e técnico, seja em torno de um conhecimento experimental), é a problematização do próprio conhecimento em sua indiscutível reação com a realidade concreta na qual se gera e sobre a qual incide, para melhor compreendê-la, explicá-la, transformá-la." (pg. 52)

## FÍSICA TAMBÉM É CULTURA

Como argumento final de nossa justificativa, porém, não menos importante, vavamos explorar a idéia de que se a Física (e toda ciência) é cultura humana, assim como a Música (e toda forma de manifestação artística) o é, consideramos vá lido utilizar a ponte entre essas duas culturas para se ensinar e aprender física. Isso porque

"(...) cultura popular faz pensar em capoeira, num samba de Noel ou num tango de Gardel. Dificilmente, porém, cultura se liga ao teorema de Godel ou às equações de Maxwell" (Zanetic, 1989, pg. 146)

## Doravante,

"o ensino de física não pode prescindir da presesença da história da física, da filosofia da ciência e de sua ligação com outras áreas da cultura, como a literatura, letras de música, cinema, teatro, etc." (Zanetic, 2006, pg. 3)

Além disso, podemos destacar que muitos escritores (de literatura) trabalhlham em suas obras métodos e conceitos científicos, são os escritores com veia científica, enquanto muitos cientistas possuem, claramente, veia literária (pg. 3). Paralelamente, nossa proposta de utilização de letras de música pressupõe a busca de autores que contenham essa veia científica.

Nesse sentido, devido à conhecida rejeição da maioria dos alunos do ensino médio perante o conteúdo do conhecimento físico, a utilização da arte (em sua forma musical) como ponte entre a cultura elaborada e a cultura primimeira (Snyders, 1988) proporcionaria uma aproximação maior entre os alunos que geralmente se afastam do conhecimento físico do modo como ele é ensinado.

## PROPOSTAS DE ATIVIDADADES

Elaboramos algumas atividades com letras de músicas, dentre as diversas que podem servir como fonte para outras atividades em sala de aula, para estudar conceitos e fenômenos físicos, abrangendo temáticas diferentes. Essas atividades, ainda não aplicadas em sala de aula, seguirão o roteiro abaixo:

- i. Apresentação do tema da aula la ou da seqüência didática;
- ii. Apresentação da música acompanhada de sua respectiva letra;
- iii. Levantamento, entre professor e alunos, dos versos relevantes ao estudo;
- iv. Discussão conceitual e/ou poética dos versos selecionados e;
- v. Conclusão ou continuação da discussão com embasamento físico.

Esse roteiro foi elaborado levando em considerações alguns aspectos prévios. O fato de o tema da aula ser citado primordialmente (item i), indica que os alunos deverão ouvir (e ler) a música (item ii) procurando versos que estejam relacionados com o assunto da aula. Isso os levará a prestar atenção na letra da música, ação que geralmente não ocorre, como discutido anteriormente. O levantamento dos versos relevantes em conjunto (item iii) também busca incitar o diálogo entre as culturas elaborada e primeira, permitindo uma discussão mais concreta (iten iv) sobre o conhecimento físico/poético em questão. Por fim, o professor de física existe para ensinar física (!), o que pressupõe que os conceitos físicos, sua ua matematização e experimentação devem aparecer como seqüência didática (item v). Vale ressaltar ainda que esse roteiro pode sofrer inversão e, ao final de um ciclo de aulas sobre conhecimentos físicos, pode-se trabalhar com a ponte entre arte e ciência como atividade conclusiva.

Dentre as diversas letras de música que podemos utilizar em sala de aula para trabalhar conceitos físicos, escolhemos algumas que abrangem temáticas diferentes:

## A. Não Pare na Pista (Seixas, 1985)

- 1 Não pare na pista, é muito cedo prá você se acostumar
- 2 Amor, não desista, se você pára o carro pode te pegar
- 3 Bi, bi, fon, fon, ne ne
- 4 Se você pára o carro pode te pegar
- 5 Você me xingando de louco pirado
- 6 E o mundo girando e a gente parado
- 7 Meu bem me dê a mão que eu vou te levar
- 8 Sem carro e sem medo do guarda multar
- 9 Meu bem me dê a mão que eu vou te levar
- 10 Sem carro e sem medo prá outro lugar

A sugestão da utilização desta letra em uma aula de física seguiria então um roteiro como o seguinte:

- i. Apresentação do tema da aula ou da seqüência didática;
- Geocentrismo ou Heliocentrismo?
- ii. Apresentação da música acompanhada de sua respectiva letra;
- iii. Levantamento, entre professor e alunos, dos versos relevantes ao estudo;
- Como exemplo, versos 5 e 6.
- iv. Discussão conceititual e/ou poética dos versos selecionados e;
- O professor de física pode partir desta música para trabalhar com algumas questões referentes ao período histórico do Renascimento, através de cientistas como

Copérnico, Bruno e Galileu, os quais foram considerados loucos 3 ("Você me xingando de louco pirado") e condenados por sugerirem que a Terra girava em torno do Sol ("e o mundo girando"), ao passo que o senso comum nos apresenta a Terra em repouso ("e a gente parado") .

- v. Conclusão ou continuação da discussão com embasamento físico.

Essa atividade, portanto, permite trabalhar a questão histórica, política e social do fazer ciência, bem como o conceito de referencial, de velocidade relativa, de heliocentrismo e geocentrismo, entre outros.

## B. Geração da Luz (Seixas, 1984)

- 1 Eu já ultrapassei a barreira do som
- 2 Fiz o que pude, às vezes fora do tom
- 3 Mas a semente que ajudei a plantar já nasceu
- 4 Eu vou, eu vou m'embora apostando em vocês
- 5 Meu testamento deixou minha lucidez
- 6 Vocês vão ter um mundo bem melhor que o meu
- 7 Quando algum profeta vier lhe contar que o nosso sol tá prestes a se apagar
- 8 Mesmo que pareça que não há mais lugar, vocês ainda têm, vocês ainda têm
- 9 A velocidade da luz pra alcançar
- 10 Além, depois dos velhos preconceitos morais
- 11 Dos calabouços, bruxas e temporais
- 12 Onde o passado transcendeu há um reinado de paz
- 13 Vocês serão o oposto dessa estupidez
- 14 Aventurando tentar outra vez
- 15 A geração da luz é a esperança no ar

Para contextualizar de forma breve o assunto chave desta letra a de música, vale explicitar que a expressão Geração da Luz (título) remete ao conceito místico da Nova Era (Novo Aeon), período cosmológico que estataria nascendo e que duraria a cerca de 2600 anos, e que, de acordo com os adeptos, corresponde a Era de Aquário. Os homens nascidos nesse período fariam parte da Geração da Luz. Pierre Weil (1987), define a Nova Era como um

"movimento holístico de renovação dos valores fundamentais de nossa sociedade, através de uma mudança de paradigma. Traduz-se por:

- -Um aspecto ecológico, o respeito à harmonia da natureza.
- -Um retorno à simplicidade da existência.
- -Uma seleção criteriosa e consciente dos verdadeiros aspectos positivos do progresso técnico em relação a estes valores holísticos. "

No entanto, longe desta temática, esta canção poderia ser utilizada em aula de física por diversos aspectos. Seguindo nosso roteiro:

- i. Apresentação do tema da aula ou da seqüência didática;

Velocidade da Luz e do Som

- ii. Apresentação da música acompanhada de sua respectiva letra;
- iii. Levantamento, entre professor e alunos, dos versos relevantes ao estudo; Possivelmente, versos 1, 7, 8 e 9.
- iv. Discussão conceitual e/ou poética dos versos selecionados e;

Já no primeiro verso ("Eu já ultrapassei a barreira do som"), o professor de física pode levantar questões sobre 'o que é o som', 'quais velocidades o som atinge', 'o alcance da velocidade do som no ar pelo homem', entre outras. Além disso, pode ser trabalhada a relação entre o momento histórico da ultrapassagem da barreira do som pelo homem em 1947 (Wikipédia, Barreira do Som) e o nascimento do compositor Raul Seixas (1945), autor da frase.

A segunda estrofe também nos abre, integralmente, um grande leque de possibilidades, pois podemos explorar seus versos ("Quando algum profeta vier lhe contar que o nosso Sol tá prestes a se apagar / Mesmo que pareça que não há mais lugar, vocês ainda têm a velocidade da luz pra alcançar") para estudar a 'velocidade da luz (c)', 'o apagamento do Sol', 'os constituintes do Sol', 'a produção de enenergia solar', 'o valor absoluto de c (independência do referencial)' e 'a relatividade restrita'. Esse último exemplo em especial, pois a estrofe permite a interpretação de que se o Sol se apagar, ainda temos um intervalo de tempo para alcançar a velocidade da luz e não deixar que o Sol realmente se apague, pois sua luz final nunca nos alcançaria - caso a velocidade da luz dependesse do referencial.

## v. Conclusão ou continuação da discussão com embasamento físico.

Essa letra de música pode, portanto, permitir que o professor de física explore os temas citados acima, além de abrir caminho para uma discussão sobre a relatividade einsteiniana, no sentido de entender o absolutismo da velocidade da luz.

## C. Queremos Saber (Gil, 2001)

- 1 Queremos saber
- 2 o que vão fazer
- 3 com as novas invenções
- 4 Queremos notícia mais séria
- 5 sobre a descoberta da antimatéria
- 6 e suas implicações
- 7 na emancipação do homem
- 8 das grandes populações
- 9 homens pobres das cidades
- 10 das estepes, dos sertões
- 11 Queremos saber
- 12 quando vamos ter
- 13 raio laser mais barato
- 14 Queremos de fato um relato,
- 15 retrato mais sério,
- 16 do mistério da luz
- 17 luz do disco -voador
- 18 pra iluminação do homem,
- 19 tão carente e sofredor,
- 20 tão perdido na distância,
- 21 da morada do Senhor
- 22 Queremos saber
- 23 queremos viver
- 24 confiantes no futuro
- 25 por isso de faz necessário
- 26 prever qual o itinerário da ilusão
- 27 a ilusão do poder

Esta música, primeiramente publicada na década de setenta (Gil, 1976), recentemente foi regravada pela cantora Cássia Eller (Gil, 2001), o que fez ela voltar aos ouvidos dos jovens, facilitando assim a inserção desta atividade na sala de aula.

- i. Apresentação do tema da aula ou da seqüência didática;

## Atividade científica

- ii. Apresentação da música acompanhada de sua respectiva letra;
- iii. Levantamento, entre professor e alunos, dos versos relevantes ao estudo;

## A música como um todo

- iv. Discussão conceitual e/ou poética dos versos selecionados;

A letra abre uma discussão sobre o 'fazer ciência'. De um modo geral, às vezes a ciência (e o cientista) é apresentada ao público leigo como algo bom, que só traz benefícios, outras vezes como algo mal, prejudicial ao homem. No entanto, o jovem dificilmente consegue refletir sobre essa temática, já que as respostas sempre vêm prontas (sobre o bem e o mal) e mesmo porque em aulas de ciência esse assunto também não está presente.

- v. Conclusão ou continuação da discussão com embasamento físico.

O professor de física pode apresentar o debate sobre "o papel da ciência na sociedade atual", "o papel do cientista como divulgador da ciência", "os meios de divulgação científica" e "a relação entre ciência e tecnologia". Nossa proposta é feita com o objetivo de que estas discussões possam servir para o aluno criar uma visão mais crítica sobre a ciência.

## CONCLUSÕES

De forma conclusiva, mas ressaltando que o trabalho está em andamentnto, podemos notar que a dialogicidade em sala de aula é necessária e deve ser incentivada através de atividades que proporcionem a troca de idéias. Dentre essas atividades, temos percebido diversas pesquisas que envolvem experimentação no ensino de física, propostas com problemas e laboratórios abertos e questões interdisciplinares.

Estamos elaborando atividades, como as descritas acima, que permitam aproximar da física aqueles alunos que geralmente não se sentem atraídos pelo algoritmo e pela experimentação. Além disso, o tão esperado diálogo inteligente entre educador e educando pode ser favorecido, em atividades interdisciplinares entre, primordialmente, arte e ciência.

## BIBLIOGRAFIA

Brasil, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - - LDB/96, Presidência da República, Casa Civil, Subchefia para Assuntos Jurídicos, http://www.planalto.gov.br/CCIVIL\_03/LEIS/L9394.htm, m, 1996.

Dauster, T. Leitores, Autores Leitura e Escola. In: Leia Brasil - - ONG de Promoção da Leitura: www.leiabrasil.org.br. Simpósio Internacional Transdisciplinar de Leitura, Rio de Janeiro, Setembro de 2000.

Eco, U. Obra Aberta. Editora Perspectiva, São Paulo, 1991.

Fidalgo, A. A A Crise da escrita. Jornal da Universidade da Beira Interior (UBI), In: Editorial: urbi.ubi.pt/060110/editorial.html, 10/01/2006.

Freire, P. E Extensão ou Comunicação. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1970.

Freire, P. P Pedagogia do Oprimido. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1975.

Gil, G. Queremos Saber. In: Acústico MTV - - Cássia Eller, Gravadora: Universal Music, Rio de Janeiro, 2001.

Gil, G. Queremos Saber. In: O Viramundo - Gilberto Gil, Gravadora: Universal, Rio de Janeiro, 1976.

MEC - - Ministério da Educação. PCN+: Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 2000.

Seixas, R. e Coelho, P. Não Pare na Pista . In: Let Me Sing My Rock And Roll - Raul Seixas, Gravadora: Raul Rock Club / Independente, São Paulo, 1985.

Seixas, R. e Coelho, P. Não Pare na Pista. In: O Baú do Raul -Vários, Gravadora: Som Livre, São Paulo, 2004.

Seixas, R. e Seixas, K. Geração da Luz. In: Metrô Linha 743 - - Raul Seixas, Gravadora: Som Livre, Rio de Janeiro, 1984.

Seixas, R. A Lei. In: A Pedra do Gênesis - - Raul Seixas, Gravadora: Copacabana, Rio de Janeiro, 1988.

Snyders, G. A A alegria na escola. São Paulo, Ed. Manole, 1988.

Weil, P.; Nova Linguagem Holística: Um Guia Alfabético; co-edição: Espaço e Tempo/CEPA, Rio de Janeiro, 1987.

Wisninik, J. M. O som e o sentido - - Uma outra história das músicas. círculo do Livro/Companhia das Letras, São Paulo, 1989.

Zanetic, J. Física e Arte: uma ponte entre duas culturas. In: Pro-posições - Ensino de Ciências: História e Linguagens. Vol. 17, N° 1, Jan-n-Abr de 2006.

Zanetic, J. Física também é cultura. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1989.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.