Revelando o Imaginário de Estudantes de Física através da Técnica dos Brasoes
Mônica Maria Biancolin, Nelson Fiedler-Ferrara
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2007
- Data
- 02/02/2007
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## REVELANDO O IMAGINÁRIO DE ESTUDANTES DE FÍSICA ATRAVÉS DA TÉCNICA DOS BRASÕES
Mônica Maria Biancolin 1 [mbiancolin@ig.com.br] Nelson FiedlerrFerrara 2 [ferrara@if.usp.br]
- 1 Universidade de São Paulo, Instituto de Física
- 2 Universidade de São Paulo, Institituto de Física
## RERESUMO
O interesse do trabalho caracterizaase pela compreensão do imaginário na construção das representações dos modelos da Natureza propiciado pela Física objetivando compreender as origens das dificuldades apresentadas pelos estudantes de de física em relação à disciplina. Para tal, parte do pressuposto de que a relação entre o indivíduo e o mundo não é direta, mas mediada por processos de pensamento. Tais processos configuram-se através das significações que o homem institui das coisas a pa rtir da sua interação com o mundo. As significações estão alicerçadas no plano simbólico, justificando o estudo dos símbolos, das imagens e do imaginário. Para o acesso ao imaginário dos estudantes de física utilizamos a técnica dos brasões de Pascal Galvani. Tal técnica projetiva consiste no preenchimento de escudos, com figuras, a partir de temas propostos. A análise do imaginário revelado pelos brasões está ancorada na Antropologia do Imaginário de Gilbert Durand que classifica o imaginário em dois regimes: o regime diurno definido como o regime das antíteses e o regime noturno que se caracteriza por estar constantemente sob o signo da conversão e do eufemismo. O trabalho insere -se numa visão sistêmica do mundo representada pela abordagem bio-cognitiva que ue considera a educação segundo a perspectiva existencial de formação. A formação do sujeito é concebida como um processo tripolar, ou seja, a interação do sujeito com as coisas e com as pessoas e a tomada de consciência do sujeito sobre o seu funcionamento. A coleta de dados da pesquisa foi realizada durante sete encontros, com um grupo de cinco alunos, da disciplina Física, do terceiro ano do ensino médio da escola pública, localizada em Poá -SP. A cada encontro uma proposta de trabalho foi apresentada pela pesquisadora resultando num conjunto de 21 brasões.
Palavras -chave: Antropologia, imaginário, bio-cognitiva.
## REVEALING THE IMAGINARY OF PHYSICS STUDENTS THROUGH THE TECHNIQUES OF HERALDRIES
## ABABSTRACT
The interest of this work characterizes itself by comprehension of imaginary in the construction of nature standard's representation propitiated by physics; pretending to understand the origins of the difficulties presented by physics students in relation to the discipline. For that, it begins by the presupposition that the relationship between the individual and the world is not direct, but mediated by thought processes. Such processes are configured through the significances that man conceives of the things starting from your interaction with the world. The significances are found in the symbolic plan, justifying the study of the symbols, of the images and of the imaginary. To access the imaginary of physics students it was used the Pascal Galvani's technique of heraldries. Such projected technique, consists ts in the completion of shields, with illustrations, starting from proposed themes. The analysis of the imaginary revealed by the heraldries is anchored in Gilbert Durand's Anthropology of Imaginary which classifies the
imaginary in two regimes: the diurna l, which is defined as the regime of the antitheses and the nocturnal, which is characterized by being constantly under the sign of the conversion. The work inserts in a systemic vision of the world represented by the bio-cognitive approach that considers the education according to the existential perspective of formation. The formation of the subject is conceived as a tripolar process, i.e., one's interaction with things, with people and the realization of the subject of his or hers operation (operational l closing). The collection of data of the research was accomplished during seven encounters, with a group of five students, of the third year of physics discipline of public High School, located in Poá-SP. To each encounter, the researcher presented a work proposal, resulting in a group of 21 heraldries.
Keywords: Anthropology, imaginary, bio-cognitive.
## 1. Introdução
O interesse pelo trabalho surgiu da prática da pesquisadora (um dos autores do artigo), que é professora de Física do ensino médio da rerede pública e particular do estado de São Paulo. Observou -se que alguns alunos apresentavam dificuldades na compreensão de conceitos e na resolução de problemas de física. Essas dificuldades eram múltiplas: não compreensão de enunciados que exigiam uma inteterpretação denotativa, dificuldades em elaborar um raciocínio que relacionasse as variáveis presentes nos fenômenos estudados, pouca familiaridade na utilização da linguagem matemática, entre outras. No início pensou-se que as influências culturais do meio fossem determinantes para o aparecimento de tais dificuldades. Contudo elas se apresentavam em alunos pertencentes a escolas de realidades culturais distintas. Começamos a compreender a natureza da relação que se estabelece entre o homem e o mundo e percebemos que esta ocorre através das significações que o homem atribui ao real. Desse modo, os processos de pensamento não são reproduções de cópias da realidade mas passam por interpretações simbólicas que o indivíduo tece a partir de sua relação com o meioio.
Percebemos a importância da compreensão dos processos de simbolização realizados pelos alunos para o entendimento dos conceitos de física, a leitura e estruturação dos problemas e sua consecutiva resolução. Observamos a necessidade do estudo do imaginário dos alunos, visto que este é formado pelo conjunto de imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do ser humano (Durand, 2002, p.18).
Para acessar o imaginário dos alunos utilizamos a técnica dos brasões de Pascal l Galvani que utiliza um método projetivo de imagens. Visando a análise das imagens usamos a antropologia do imaginário de Gilbert Durand que reconhece a importância das contribuições pulsionais do ser e das fortes influências do meio sobre o sujeito.
Nossa perspectiva de educação é existencial, portanto a educação é compreendida como um processo de formação do ser e insere-se na abordagem bio-cognitiva que considera a formação um processo tripolar formado pelas interações entre o indivíduo e o seu meio (incluindo as pessoas e as coisas) e os processos de retroações e de tomada de consciência do indivíduo sobre o seu funcionamento.
Na seção 2 apresentamos a técnica dos brasões de Pascal Galvani, a qual nos possibilitou acessar o imaginário dos alunos de Física. Na seção 3 introduzimos sinteticamente a Antropologia do Imaginário de Gilbert Durand que constitui o referencial teórico para a leitura do imaginário dos alunos representados nos respectivos brasões. A abordagem bio-cognitiva que embmbasa a perspectiva educacional e a visão de mundo do trabalho será apresentada na seção 4. Na seção 5 descrevemos a coleta de dados do trabalho. Como exemplo, realizamos a análise de oito brasões na seção 6. A seção 7 apresenta a conclusão do trabalho indicando algumas relações entre o imaginário e o ensino de física.
## 2. A Técnica dos Brasões de Pascal Galvani
Diante da percepção da importância que a representação do real tem para a compreensão dos conceitos de física, resolvemos utilizar uma técnica que nos possibilitasse acessar o imaginário dos estudantes. Para tal, usamos a técnica dos brasões de Pascal Galvani que apresenta uma abordagem desenvolvida a partir das histórias de vida.
O método do brasão tem uma dimensão projetiva, sua proposta é a representação de um indivíduo ou de um grupo com o preenchimento de um escudo com desenhos figurativos a partir de certas considerações. Diante da crise vivida na pós-modernidade, percebemos a importância de "olhar" cada aluno, conferindo -lhe uma individualidade face ao massacre da uniformização. Os encontros de brasão podem ser um local e um dos meios de posicionamento diante dessas questões.
Segundo (Galvani 1997, p.58), os encontros de brasão podem constituir-se um meio para os formadores oferecerem a busca do sentido, propiciando:
- 1 -um suporte de reflexão e de conscientização pessoal;
- 22um local de expressão onde cada um cuida do domínio que o revela;
- 3 -um espaço de troca e de reflexão coletiva sobre a busca interior do sentido que é orientada para um aprofundamento de nossa busca permanente.
Para assegurar que o encontro de brasão atinja as características citadas acima, o formador, pessoa que conduz o encontro de brasão, deve assumir as características de um mediador. Desse modo, cabe ao formador criar laços sociais de diversos tipos: entre instituições e entre pessoas. Além disso, o formador deve também assegurar uma mediação sobre o plano cognitivo entre a pessoa e o objeto de sua aprendizagem. Podemos sintetizar definindo concretamente a função do mediador como a de ativar as mediações e de proteger os locais de mediação. o. Esse tem por função propor e garantir uma situação de intersubjetividade.
As s condições metodológicas que serão apresentadas são fruto do trababalho de Galvani (1997, p. 59), com diversos grupos. A função do mediador, ou coordenador do grupo que participará dos encontros do brasão, se define por cinco critérios metodológicos principais:
- 1 -Ter o próprio mediador vivido o processo proposto;
- 22Negociar com os participantes a forma da situação de intersubjetividade. O formador ou mediador deve propor uma situação de intersubjetividade na apresentação do processo e garantir a fluidez das mediações, deve também pesquisar as condições de abertur a de uma situação de intersubjetividade, tomando atenção às condições institucionais e pessoais do encontro.
- 3 -Garantir para cada participante a propriedade e a restrição da utilização de suas produções. Esta condição é fundamental na medida onde de o olhar para si mesmo só pode ser feito com serenidade se a comunicação do resultado aos outros não é imposta.
- 44Explorar o sentido a partir de uma situação exploratória. A análise do brasão não é interpretativa, ao contrário utiliza-se o métododo da convergência para explorar o alcance das significações que sugere o símbolo. A análise coletiva dos brasões é então um colocar em comum, uma exploração coletiva das significações.
- 55Registrar a exploração do sentido dentro de uma dimensão sócio-histórica e antropológica. Há uma dialética entre a tomada de consciência subjetiva das formas que simbolizam a própria formação e a tomada de consciência das influências culturais e sociais. É necessário cruzar o sentido subjetivo dos símbolos com as significações que são tomadas dentro de diferentes culturas, permitindo uma tomada de consciência e uma relativização das significações simbólicas hereditárias do meio cultural e social.
Contudo, é necessário um referencial teórico para a análise dos brasões. Isso é feito a partir da Antropologia do Imaginário de Gilbert Durand, a qual é introduzida na próxima seção.
## 3. A Antropologia do Imaginário de Gilbert Durand
Gilbert Durand (2004, pp. 9-9-30), realiza um amplo estudo sobre a evolução do conceito de imagem e percebe que o pensamento binário fundamentado na lógica do certo-errado buscava a verdade suprema através do uso da razão. Diante das múltiplas significações que a imagem podia remeter ela não se enquadrava como parâmetro confifiável de análise num mundo regido pela lógica da razão binária.
Na obra As estruturas Antropológicas do Imaginário (2002), Durand faz uma síntese de trabalhos desenvolvidos em diversas áreas e percebe que as análises realizadas sobre a imagem aprpresentavam características incompletas por considerá-la um signo. Essa suposição representou um forte empecilho a compreensão da imagem, pois signo, segundo a lingüística é arbitrário (Saussure, 2002, p. 82). Durand (2002, p. 29) concebe a imagem como símbmbolo, pois este tem como característica não ser jamais completamente arbitrário.
- O autor percebe que além de estudar a imagem como símbolo, não poderia adotar um caminho reducionista limitandooa a um estudo psicológico ou sociológico. O caminho adotado para o estudo do imaginário é o trajeto antropológico, constituído pela incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e as influências que emanam do meio cósmico e social, Durand (2002, p. 41).
Desse mododo, o imaginário é concebido segundo seu caráter simbólico, percorrendo o trajeto antropológico. Para a classificação do imaginário adota-se o ponto de partida psicológico (centrado no sujeito) e admite-se que as imagens convergem, formando constelações de símbolos isomórficos, por terem um mesmo tema arquetipal. Além desses dois pressupostos utiliza-se a teoria de Piaget (1976, p. 292) que considera a imagem simbólica a interiorização de um esquema de representação. Para o estudo da motricidade adota-se a rereflexologia detchereviana da Escola de Leningrado. A reflexologia preocupa-se em estudar o aparelho de recém-m-nascido e em particular o cérebro. Essa teoria utiliza a noção de "gestos dominantes" ou "reflexos dominantes", os quais são concebidos como os mais is primitivos conjuntos sensório-motores que constituem os sistemas de "acomodações" mais originários na ontogênese (Durand, 2002, p. 47-48). Com a reflexologia, Betcherev (1933, citado por Durand 2002, p.48) descobre duas dominantes no recémmnascido: a domiminante da posição ou dominante postural e a dominante de nutrição ou dominante digestiva. A terceira dominante denominada copulativa ou cíclica está relacionada ao reflexo sexual e só foi estudada no animal adulto por J. M. Oufland (1925-1926, citado por Durand, 2002, p. 49). Considera-se que há uma estreita relação entre os gestos do corpo, os centros nervosos e as representações simbólicas. As três dominantes reflexas são as matrizes sensório -motoras nas quais as representações vão naturalmente integrar-se, sendo a este nível que ocorrerá a formação dos grandes símbolos.
Para a a classificação das imagens Durand recorre ao conceito de estruturas que são esquemas originais que agrupam certos protocolos bem definidos e relativamente estáveis das representações imaginárias. O agrupamento de estruturas vizinhas constitui um Regime do Imaginário. As imagens classificam-m-se em dois regimes: o diurno e o noturno.
O regime diurno é entendido como o regime das antíteses. Seus principais símbolos são aqueles da ascensão, os símbolos especulares e os símbolos diairéticos (estes relacionados com separação).
- O regime noturno caracteriza-se por estar constantemente sob o signo da conversão e do eufemismo. Ele apresenta uma organização de imagens ns que une os opostos. Esse regime se subdivide em:
- a) regime noturno sintético - esse regime apresenta como característica marcante a complementaridade dos pólos e o caráter cíclico. A estrutura sintética representa os ritos usados para assegurar r os ciclos da vida, equilibrando os contrários, através de uma trajetória histórica, utilizando os símbolos cíclicos.
- b) regime noturno místico - esse regime apresenta como característica principal a fusão de pólos antagônicos, supera-se assim, a complementaridade de pólos e o caráter cíclico. Os símbolos que representam esse regime são: os símbolos da inversão e os símbolos da intimidade.
- O trabalho apresenta uma perspectiva existencial da educação, inserida na abordagem biocognitiva, , a qual está sintetizada abaixo.
## 4. A Abordagem Bio-Cognitiva
A A visão de mundo que embasa o trabalho concebe a educação como um processo de formação, diferindo dos pensamentos que compreendem a educação como um processo único de instrumentalização ou de adequação do indivíduo às regras sociais. Na abordagem bio-c-cognitiva a formação é concebida como um processo complexo pilotado por três pólos: o si (autoformação), os outros (heteroformação) e as coisas (ecoformação) (Fig. 1).
A A heteroformamação é gerada pelo meio ambiente cultural. Ela comporta as influências sociais da família, do meio social, da cultura, da educação, entre outras.
O pólo representado pela ecoformação está relacionado às influências do meio físico, como o clima, a a vegetação, a metrópole, a região rural, as florestas, bem como as interações físico-ocorporais que dão forma à pessoa. Este pólo também admite uma dimensão simbólica, pois o meio físico também colabora na formação do imaginário do indivíduo.
A aututoformação é representada por três processos conduzidos pelo sujeito. Denominaremos dois desses processos de acoplamentos estruturais. Esses processos representam as tomadas de consciência e as retroações do indivíduo sobre as influências físicas e sociais recebidas. O terceiro processo, denominado de fechamento operacional, representa a tomada de consciência pelo indivíduo sobre o seu próprio funcionamento.
Fig. 1 - A formação concebida como um processo tripolar constituída pela autoformação, heteroformação e ecoformação. Os processos S-1 e S-2 são denominados acoplamentos estruturais e o processo S-3 é denominado fechamento operacional.
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A autoformação é a dinâmica reflexiva que permite ao sujeito agir sobre si mesmo e sobre os elementos físicos e sociais que o formam. O fechamento operacional e o acoplamento estrutural constituem o duplo círculo imbricado da autoformação. A pessoa não é mais concebida
como um indivíduo isolado, mas como afirma Gaston Pineau (1995), a pessoa passa a ser considerada um local de relações.
A abordagem bio-cognitiva da autoformação baseia-se neste triplo movimento de tomada de consciência e de tomada de poder da pessoa sobre sua formação.
Na abordagem bio-cognitiva o símbolo passa a desempenhar o papel de mediador entre os universos "interior" e "exterior", por operar as superposições de sentidos e de níveis. A abordagem bio-cognitiva considera a interação do sujeito e do meio como uma superposição de universos unidos pelo seu isomorfismo. A distinção entre o interior e o exterior é dada pela atualização de seus isomorfismos (Galvani, 1997). Nos estudos do imaginário simbólico a base de todo conhecimento simbólico é justamente o isomorfismo das estruturas.
## 5. A Coleta de Dados da Pesquisa
A coleta de dados da pesququisa foi realizada durante sete encontros, com alunos da escola estadual, localizada na cidade de Poá, a qual pertence à região da grande São Paulo. O trabalho de campo desta pesquisa foi realizado pela professora de física dos alunos, um dos autores deste te trabalho (MMB).
## 5.1. Caracterização dos Alunos
A coleta foi realizada com cinco alunos do ensino médio. Três alunos cursando o período noturno: um aluno de 17 anos (aluno A), um de 18 anos (aluno B) e uma aluna de 18 anos (aluna C). DuDuas alunas cursando o período noturno: uma aluna de 18 anos (aluna D) e uma de 24 anos (aluna E). Os alunos moram próximos à escola e freqüentam as aulas de reforço de física ministrada pela professora que conduziu a pesquisa em horário extra-aula.
As s alunas C e E apresentam muitas dificuldades na compreensão dos conteúdos trabalhados em sala de aula, necessitando de explicações individualizadas para uma melhor desempenho. A aluna D tem uma boa compreensão dos conteúdos ministrados, muitas vezes toma o papel de líder do grupo quando dúvidas surgem nas aulas ou quando os outros alunos não compreendem o conteúdo. O aluno A, tem um bom desempenho mas não se dispõe a ajudar os amigos em sala quando domina um assunto específico. O aluno B é muito reservado, fala pouco em sala de aula e tem um desempenho médio. Todas estas observações são referentes aos alunos antes dos encontros com os brasões.
## 5.2. Caracterização do Material Utilizado nos Encontros
Os alunos utilizaram papel sulfitite A4, lápis preto, borracha e giz de cera colorido para a confecção dos brasões. No segundo e no terceiro encontro, foi utilizada a apresentação de textos e imagens no computador, preparado previamente pela pesquisadora.
## 5.3. Caracterização Sintntética dos Encontros
No primeiro encontro explicou-se que as atividades realizadas objetivavam a coleta de dados para uma pesquisa científica e que os participantes tinham total liberdade durante os encontros, em seguida, foi pedido para que os os alunos fizessem um brasão que representasse eles mesmos, as coisas (o mundo) e as pessoas.
No segundo encontro houve uma explicação mais detalhada do trabalho a ser realizado, alguns alunos demonstravam dúvidas e não entendiam como a atividade de poderia estar relacionada ao ensino de física. Foi preparada uma apresentação em power point sobre os objetivos da pesquisa e seus pressupostos teóricos seguida de uma apresentação.
O terceiro encontro também foi uma atividade preparada pela pesquisadora no power point. Ela consistiu na apresentação de alguns brasões para tornar mais claro a simbologia que os mesmos poderiam apresentar.
- O quarto encontro foi todo gravado e foi pedido aos alunos que fizessem o brasão da escola. Foi pe dido para que representassem como percebiam, pensavam e sentiam a escola.
No quinto encontro o tema trabalhado foi a Física. Foi pedido para que eles representassem o modo como percebiam a Física. Os alunos acharam esse brasão mais difícil.
Sexto encontro: este momento foi dividido em dois blocos e teve duração total de duas horas e trinta minutos. No primeiro momento foi pedido para que os alunos fizessem o brasão de sua participação nas atividades do grupo de brasões.
No segundo momento, os alunos permaneceram sentados em círculo e construíram o brasão coletivo. Houve uma negociação entre os elementos do grupo.
No sétimo encontro todos os brasões foram expostos e foi pedido para que fizessem um olhar retrospectivo sobre os mesmos. Alguns alunos colocaram a mudança das representações em relação aos brasões originais, outros as mantiveram. Após esse olhar retrospectivo, o grupo reuniu -se em círculo e foi pedido pela pesquisadora para que contassem um pouco de suas vida s.
## 6. Análise dos Brasões de Dois Alunos
Para exemplificar a técnica da pesquisa e por limitação de espaço (temos um total de 21 brasões) será realizada a análise dos brasões construídos pelos alunos A e E, (fig. 2 e fig.3). Fica registrado que a aluna E não conseguiu representar o brasão do primeiro encontro através de imagens, utilizando a linguagem escrita para a representação pedida.
Fig.2- Brasões da aluna E construídos respectivamente no 1 o , 4 o , 5 o e 6 o encontros.
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Fig.3-Brasões do aluno A construídos respectivamente no 1 o , 4 o , 5 o e 6 o encontros.
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Para a leitura dos brasões utilizaremos o Dicionário de Símbolos Jean Chevavalier (2005) e a tabela 1, construída por Durand (2002, p.443) que apresenta uma síntese dos regimes do trajeto
antropológico. A tabela 1 forneceu elementos para a categorização dos brasões construídos pelos alunos. Os brasões dos dois alunos foram analisados e as conclusões são apresentadas na tabela 2.
Percebemos com clareza que a aluna E apresenta em todos os brasões analisados o imaginário estruturado segundo o regime noturno místico, com exceção do princípio de explicação do brasão construído no 1o 1o encontro, que pertence ao regime noturno sintético. Os brasões construídos pelo aluno A, em contrapartida, concordam plenamente com todas as características do regime diurno. Gostaríamos de salientar que a análise não esteve restrita somente a leitura dos significados dos símbolos estudados no dicionário acima citado, mas se deteve em elementos mais complexos, como as estruturas dos regimes, os reflexos dominantes, os princípios de explicação, os esquemas verbais e os arquétipos.
A questão o que se coloca é da relevância e pertinência do conhecimento do imaginário de estudantes para o Ensino de Física. Primeiramente gostaríamos de argumentar que a Física trabalha com a construção de modelos sobre a realidade, ou seja, ela trabalha com a representação do real. A compreensão dos modelos sobre a realidade depende do modo como se processam as representações para cada aluno. Por isso, acreditamos que o conhecimento do imaginário dos alunos, que é a matriz de todas as representações que o mesmo irá construir sobre a realidade, é um instrumento poderoso a ser utilizado pelos professores de física. A prática em sala de aula nos faz acreditar que a superação das dificuldades encontradas por alunos no Ensino da Física tem como caráter central o modo comomo o imaginário de cada aluno está estruturado. Acreditamos na importância do conhecimento de novas metodologias para o Ensino de Física, desde que estas estejam adequadas para uma comunicação efetiva com o aluno. Imaginários estruturados segundo o regime noturno, característicos dos alunos que têm pouco contato com o modo "científico" de ler o mundo, colaboram para uma representação do real permeada por princípios de explicação não embasados no pensamento cartesiano que domina toda a física newtoniana, bem m como o Ensino de Física tradicional.
Tabela 1 - Tabela Sintética das Características dos Regimes do Imaginário
Tabela 2 - Resultado da Análise dos Brasões dos Alunos A e E.
Visando pensar o Ensino de Física que contemple a diversidade de imaginários e possa criar uma comunicação efetiva entre o modelo de realidade que está sendo ensinado e a representação que o aluno consegue construir desse modelo, utilizaremos a antropologia genética que considera que os esquemas de interação sensório-motores se interiorizam em imagens e depois em linguagem. Desse modo, os conceitos da razão epistêmica são oriundos das interações gestuais e das imagens simbólicas. Para uma melhor compreensão da conexão entre os regimes do trajeto antropológico, os níveis de interação com o meio ambiente, os níveis de representação e os níveis de consciência individual apresentamos a tabela 3 construída por Pascal Galvani (2002, p.6). A conexão importante para o Ensino de Física apresenta o regime diurno do imaginário relacionado a uma interação epistêmica entre a pessoa e o meio ambiente, enquanto o regime diurno sintético está relacionado a uma interação prática e o regime noturno místico a uma interação simbólica.
Poderíamos pensar num Ensino de Física que contemplasse todos os regimes do imaginário, com atividades que englobassem os diversos níveis de interação entre o sujeito e o meio, bem como provocasse uma comunicação efetiva com cada nível de consnsciência do indivíduo. Desse modo, as atividades práticas (experimentos, construções de maquetes, resoluções de exercícios de fixação) estariam contemplando os imaginários estruturados segundo o regime noturno sintético. As atividades que promovessem uma fufusão com o meio, como um projeto que estuda um tema da física, porém imerso no cotidiano, com suas implicações sociais,
culturais e econômicas, contemplaria o nível simbólico das representações e o regime noturno místico. Já os processos de dedução lógica de expressões físicas, bem como a resolução de exercícios -problema, ou de questões abertas contemplam o imaginário do regime diurno e um nível de consciência pautado pela análise reflexiva.
Tabela 3 - Os diversos níveis de interação e os regimes do imaginário
## 7. Conclusões
O conhecimento do imaginário é fator relevante para a compreensão do modo como se processam as representações que se tem da realidade. Desse modo é de fundamental importância que o professor de física conheça como é o imaginário de seus alunos para poder empregar a metodologia mais adequada para que haja uma representação significativa do modelo de realidade apresentado. Acreditamos que o conhecimento do imaginário dos alunos, além de propiciar uma melhor compreensnsão dos conteúdos abordados também pode contribuir para um desenvolvimento de imaginários não estruturados, através de atividades que desenvolvam diferentes níveis de relação entre o indivíduo e o meio.
## 8.Referências Bibliográficas
CHEVALIER, Jeaean. Gheerbrant, Alain. Dicionário de Símbolos. 19a 9a edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.
DURAND, Gilbert. As Estruturas Antropológicas do Imaginário . 3 a edição. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
DURAND, Gilbert. O Imaginário: ensaio acerca das ciências as e da filosofia da imagem. 3 a 3 a edição. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 2004.
GALVANI, Pascal. Quête de sens et formation: antropologie du blason et de l'autoformation.n.1 a edição. Paris: L'Harmattan, 1997.
GALVANI, Pascal. A Autoformação, uma perspectiva traranspessoal, transdiciplinar e transcultural . áwww.cetrans.futuro.usp.br/galvani1.htmlñlñ. Acesso em: 29 de janeiro de 2002.
PIAGET, Jean. A formação do Símbolo na Criança. 3 a a edição. Rio de Janeiro: LTC, 1990.
PINEAU, Gaston. Recherches sur l'autoformation exexistentielle: dês boucles étranges entre auto et exoréférences. Éducation Permanente, 1995, no no 122, p. 165-5-178.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.