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INTERAÇOES, AFETIVIDADE E APRENDIZAGEM EM AULAS DE FISICA

Silvana Pavao Teixeira Papalardo, Maria Lucia Vital Dos Santos Abib

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
02/02/2007
Linha de pesquisa
Formaçao Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## INTERAÇÕES , AFETIVIDADE E APRENDIZAGEM EM AULAS DE F FÍSICA

Silvana Pavão Teixeira Papalardo1 o1 [s\_papalardo@yahoo.com.br] Maria Lucia Vital dos Santos Abib 1 [mlabib@usp.br]

1 Instituto de Física e Faculdade de Educação da USP

## RESUMO

Entre os diversos fafatores que dificultam o ensino de física, a indisciplina freqüente e muitas vezes generalizada, tem ocupado o centro das preocupações e problemas dos professores que precisam ser solucionados para viabilizar uma aprendizagem efetiva pelos alunos. Nossas preocupações voltam-m-se para questões como: É possível nesse contexto escolar desenvolver aulas de física que possam promover a participação e o interesse dos alunos? Quais as características que essas aulas deveriam ter? Como deveriam ser as relações entre os os professores e os alunos?

A pesquisa foi desenvolvida segundo os parâmetros de uma metodologia qualitativa e para coletar os dados utilizamos o recurso de videogravações acompanhando uma turma do 2ºano do ensino médio em uma escola pública do período noturno. O tratamento destes, foi organizado em episódios que foram selecionados de algumas aulas transcritas e analisadas. Também foram realizadas entrevistas com a professora e com os alunos e analisadas provas e atividades.

Constatamos excelentntes resultados quanto à disciplina e a participação dos alunos em sala de aula o que possivelmente estão relacionados com as atitudes éticas e afetivas da professora. Embora, o ótimo relacionamento da professora com os alunos e a participação destes em aula la não garantiram que ocorre-se aprendizagem significativa para a maioria dos alunos, devido a diversos fatores que também podem ter interferido na aprendizagem.

Esse trabalho é uma parte de uma pesquisa desenvolvida como monografia no curso de Licenciatura em Física, no qual procuramos focalizar algumas das questões, no sentido de compreender as relações entre as interações que ocorrem em sala de aula, alguns aspectos da aprendizagem dos alunos e o relacionamento afetivo entre estes e o professor.

## INTRODUÇÃO

No panorama atual do ensino veiculado em nossas escolas, em grande parte das situações, tem ocorrido um ambiente marcado por uma desorganização e indisciplina, que dificulta enormemente ou, em casos extremos inviabiliza o trabalho dos professores em sala de aula.

No caso das aulas de Física, os professores tem destacado como fatores dificultadores a falta de conhecimentos de matemática, as dificuldades na interpretação de problemas e exercícios, a extensão dos programas, a falta de recursos dididáticos, o

desinteresse pelos assuntos tratados. Além desses, ressaltam que a indisciplina freqüente e muitas vezes generalizada tem ocupado o centro das preocupações e problemas que precisam ser solucionados para viabilizar uma aprendizagem efetiva pelos alunos.

Diante dessa problemática, nossas preocupações voltam-m-se para questões como: É possível nesse contexto escolar desenvolver aulas de física que possam promover a participação e o interesse dos alunos? Quais as características que essas aulas deveriam ter? Como deveriam ser as relações entre os professores e os alunos para potencializar uma participação efetiva em sala de aula e uma formação voltada para a preparação de um cidadão crítico e participativo?

Esse trabalho é uma parte de uma pesquisa desenvolvida como monografia no curso de Licenciatura em Física, no qual procuramos focalizar algumas das questões, no sentido de compreender as relações entre as interações que ocorrem em sala de aula, alguns aspectos da aprendizagem dos alunos e o relacionamemento afetivo entre estes e o professor. Mais especificamente, focamos as interações discursivas, a afetividade das relações e aspectos mencionados da aprendizagem dos alunos m aulas de física.

## REFERENCIAL TEÓRICO

Notamos uma grande preocupação entre os pepesquisadores, em torno do que fazer e como fazer, para que os alunos sintam-m-se motivados a aprender. Cunha (1998) ao tratar da relação professor - aluno relata-nos sua busca sobre o que seria o bom professor a partir da opinião dos alunos de uma escola. Aponta que os alunos valorizam o professor que: tem compromisso em sua forma de ser e de agir, sabe se expressar, procura formas de inovar as aulas, se preocupa se os alunos estão aprendendo ou não, tem prazer em ensinar e usa uma linguagem que relaciona os conceitos à realidade do aluno.

As atitudes do professor implicam na relação que tem com seus alunos e no processo de ensino e aprendizagem. Como destaca Aquino (1998), quando refere-se ao "aluno problema" e como a escola em geral não sabe lidar com isso. É necessário que o professo leve em consideração alguns dos princípios éticos que são fundamentais em nosso trabalho: conhecimento -objeto exclusivo da ação do professor, a relação professor-aluno e a distinção dos papéis - a sala de aula contexto privivilegiado para o trabalho, o contratopedagógico - uma proposta de regras de convivência que orientam o funcionamento da sala de aula.

Villani e Pacca (1997), também enfatizam que a relação doo professor com seus alunos são fatores essenciais para influluenciar a aprendizagem. Sendo necessário ao professor ser capaz de apresentar em sala de aula comportamentos coerentes com uma interação dialógica. De modo convergente, Mortimer (2002) apresenta o conceito sobre abordagem comunicativa e nos propõe uma análilise sobre o discurso do professor em sala de aula, classificando -o em diferentes formas de interação: dialógica, a, o professor considera o que o estudante tem a dizer do ponto de vista do próprio estudante, mais de uma voz é ouvida e há a participação de tododos; de autoridade , o professor considera o que o aluno tem a dizer do ponto de vista do discurso científico.

Dentro das duas classificações, distingue ainda: discurso interativo, participação de mais de uma pessoa; discurso não-interativo, participação de uma única pessoa.

Sendo combinadas as classificações, originam-m-se quatro tipos de abordagens comunicativas: interativo/dialógico, professor e alunos exploram idéias, formulam e oferecem perguntas autênticas; não-interativo/dialógico, professor reconsidera a na sua fala,

vários pontos de vista, destacando similiaridades e diferenças; interativo/de autoridade professor conduz os estudantes por meio de uma seqüência de perguntas e respostas, com o objetivo de chegar a um ponto de vista específico; não-interativivo/de autoridade , professor apresenta um ponto de vista específico.

Para Ausubel, a interação que ocorre em sala de aula tem papel fundamental para a aprendizagem significativa que se dá, quando o aluno consegue fazer uma associação de idéias novas a concnceitos relevantes que existem em sua estrutura cognitiva. Então, a nova informação é vista como "pontes cognitivas" ao se relacionarem com os conceitos préexistentes, originando reestruturações (Moreira, 1986).

Em contraposição, a aprendizagem mecânica para Ausubel é a que se relaciona pouco com o que o aluno pode reconhecer ou associar. Na aprendizagem significativa as idéias estabelecidas na estrutura cognitiva do aluno podem, no decorrer de novas aprendizagens, ser reconhecidas e relacionadas . Num processo de modificação do conhecimento, o aluno pode atribuir significados à fala do professor e de seus colegas podendo organizar e construir novos significados através da estrutura cognitiva que possui. Por esse motivo é essencial que o professor considere e o aluno um sujeito ativo em sala de aula, como protagonista de sua aprendizagem e seja capaz de manter uma interação dialógica entre eles e seus alunos (Moreira,1996).

## OBJETIVOS , CONTEXTO E DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO DA PESQUISA

Tendo como norteadora a finalidade de compreender algumas das possíveis relações entre as interações que ocorrem em sala de aula, aspectos da aprendizagem e o relacionamento afetivo entre os alunos e o professor, nosso objetivo consiste em analisar essas relações em um caso espepecífico, particularmente interessante, pelo que pudemos observar na fase inicial do trabalho, pelo marcante envolvimento entre a professora em que focamos o estudo e alunos. Desta maneira, visamos caracterizar para o estudo deste caso, alguns aspectos das relações afetivas, as interações discursivas em aulas de física e as possíveis aprendizagens dos alunos.

Assim tornou -se essencial conhecer o professor, caracterizar a sua atuação no relacionamento com os alunos e com a escola. A pesquisa foi desenvolvidida segundo os parâmetros de uma metodologia qualitativa, devido aos limites desse trabalho, em caráter exploratório.

Desenvolvemos a investigação em uma escola estadual de ensino fundamental II e ensino médio que está localizada num bairro pobre da Zona LeLeste na cidade de São Paulo circundada por uma favela, sendo considerada de difícil acesso e na Zona de risco (classificação usada pela Diretoria de Ensino para escolas situadas em bairros marcados por muita violência e criminalidade). A prprofessora escolhida para a pesquisa é formada em Licenciatura em Fïsica, pela Universidade de São Paulo, está fazendo Doutorado em Tecnologia Nuclear no IPEN e tem 7 anos de experiência como docente. Consentiu em participar da pesquisa, concordando com a divulgação do seu trabalho de forma não anônima.

Entre as turmas da professora escolhemos uma classe de 2ª ano do ensino médio, do período noturno com 44 alunos matriculados. Para coletar os dados, com as informações necessárias para essa pesquisa, utilizamomos o recurso de videogravações, durante 4 semanas seguidas nas aulas de física, num total de 8 aulas com 50 minutos cada.

- O tratamento dos dados foi organizado em episódios que foram selecionados de algumas aulas transcritas e analisadas. Também foram realizadas entrevistas com a professora e com os alunos e analisadas provas e atividades dos alunos.

## AS AS INTERAÇÕES DISCURSIVAS OBSERVADAS NAS AULAS

A seguir serão apresentadas e analisadas interações discursivas típicas e alguns tipos de explicação observadodos em uma aula selecionada para análise:

## Cenário da Sala

A sala de aula tem aproximadamente 30 alunos presentes. Todas as carteiras estão enfileiradas e todos permanecem sentados durante a aula. A professora pede silêncio para iniciar a aula e rapidamemente todos ficam atentos à sua fala.

Durante a aula anterior, foi ditado pela professora um texto sobre ondas mecânicas e eletromagnéticas, referente ao assunto que seria abordado durante as aulas seguintes.

Devido ao projeto da escola "parceria com a comomunidade", a escola de samba da comunidade se apresentou, oferecendo possibilidades para a professora contextualizar a física com o dia -a-dia dos alunos e trabalhar o conceito de ondas mecânicas, em especial o de ondas sonoras. De início, a professora lembmbra aos alunos, sobre o dia em que a escola de samba da comunidade havia ido à escola e como todos que estavam presentes haviam gostado.

## Episódios

Os episódios a seguir foram selecionados, pois apresentam situações típicas que ocorrem na sala e represesentam algumas caracteristícas da aula.

## 1° Episódio: discurso interativo/dialógico

Professora: então, depois de ter a apresentação da escola de samba, vamos falar sobre ondas....

Professora: o que tem em comum escola de samba e ondas ?

Alunos : sei lá...sei lá...(vários respondem ao mesmo tempo)

Aluno A: ondas sonoras ( responde em voz baixa, com expressão de interrogação).

Professora : porquê ?

Alunos : sons, das pessoas cantando, dos instrumentos....

Professora: é tudo igual?

Professora: cada um tem um tipo de onda diferente?( alunos ficam em silêncio )

Professora: nós vamos estudar fisicamente porque todos aqueles sons impressionaram a gente!!

Neste episódio, a professora tentou mostrar que a física faz parte do que eles gostam, contextualizando o assunto. Nos diálogos com os alunos ela busca situações que possam ser aceitas como verdadeiras evidências para que eles aceitem sua explicação, assim como define Dagher (apud Castro, 1992). A professora tem um discurso interativo/

dialógico com os alunos, não existindo a preocupação em apresentar fórmulas nem em utilizar a lousa, mas apenas em discutir o conceito sobre ondas.

## 2° Episódio: discurso interativo/dialógico

Professora: e se eu conseguisse chegar no sol e desse um grito, de lá do sol, será que vocês conseguiriam me ouvir ?

Alunos: não !! ( alunos falam algo em voz baixa, e dão risadas... ) Professora: hã ? eu não sou Deus ? ( todos ririem.. e neste momento não se entende o que os alunos estão falando, porém, a professora entende dando

risadas com os alunos )

Professora: ah... tá !! estou fazendo uma hipótese....

Neste episódio, a professora levanta uma hipótese para identificar a causa a do fenômeno num discurso interativo/dialógico, parecendo que os alunos querem explorar e questionar as idéias da professora.

Percebemos que os alunos sentem-se à vontade com a professora, pois dão risada da maneira como ela tenta explicar e neste momento o ela demonstra sua afetividade pelos alunos ao compartilhar, dando risadas com eles.

## 3° Episódio: discurso não - interativo/dialógico

Professora: ( pede silêncio duas vezes ), vamos....Pega uma garrafinha descartável, coloca perto de você, e fica observando ...o que acontece é que vem uma ondinha e...

Aluno: ela pula!

Professora: ela pula? Vai embora.. e aí ? ( todos querem falar ao mesmo tempo..)

Professora: ela sobe junto com a onda ? ( a professora desenha na lousa uma onda, e pede silêncio, pois os alunos estão querendo explicar todos ao mesmo tempo ).

Professora: quando a onda passar a garrafinha vai, sobe e desce, e vai ter uma hora que você vai ver a garrafinha e a ondinha indo embora! Todo mundo consegue enchergar isso ? ( professora faz gestos com os braços como o da onda e da garrafinha......todos prestam atenção ).

A professora tenta explicar apresentando uma situação que os alunos já presenciaram ou mesmo já ouviram falar. Nesse caso, o discurso da professora demonstra ser não interativo/dialógico, pois reconsidera em sua fala similiaridades e diferenças, não abre espaço para as manifestações dos alunos.

## 4° Episódio: discurso interativo/dialógico

Professora: a primeira coisa que a gente tem que saber, é o que é que tem uma onda ! Do mesmo jeito que se eu pegar agora um sapato e falar : O que eu tenho num sapato ?

Alunos : cadarço, sola, palmilha, sujeira na sola....

Aluno: meia, chulé....( todos dão risadas.. )

Professora : não, não, isso não faz parte do sapato !!

Professora : se eu chegar aqui e perguntar; tem palmilha na geladeira ?

Alunos: não, não, tem palmito! ( todos dão risadas...inclusive a professora ).

Professora : tem cadarço na geladeira ? tem sola ?

Alunos: não !!! ( brincam e dão risadas.... ).

Professora : então, isso são coisas características de sapato ( fala com expressão séria, aumentando o tom da voz).

Professora : agora tem coisas características de onda. ( mostra na lousa o desenho de uma onda e seus elementos ).

Trata -se de uma explicação analógica, cocomo destaca Dagher (apud Castro, 1992) pois, uma situação familiar que se assemelha ao não familiar, foi usada para ajudar na interpretação do aluno. Quando a professora busca na resposta dos alunos os elementos que um sapato tem, notamos que está tentando fazer uma "ponte", para que os alunos entendam que ondas também têm elementos, num discurso interativo/dialógico.

Novamente, notamos que os alunos sentem-m-se à vontade com a professora, pois dão risadas, brincam quando ela faz perguntas. Nesta atitude, ela demonstra sua afetividade ao dar risada com eles, aceitando suas brincadeiras.

## 5° Episódio : discurso interativo/de autoridade

Professora: ( usando uma pequena corda, pede a um aluno para ajudá -la segurando uma das pontas, demonstrando várias vezes uma onda com a corda) isso é um onda? Todos já brincaram, não é ?

Alunos: é......alguns dão risadas..

Professora: isso daqui é uma onda.......( alunos demonstram com a cabeça que tem dúvidas, negando e até mesmo com expressão de dúvidas tentam respondnder..

e de repente, um aluno responde..).

Aluno: mecânica! ( todos batem palmas, e elogiam o amigo ).

Professora: porque mecânica ?

Aluno: ( falando em voz baixa, demonstra ter medo de errar, mas a professora entende.. ..)

Professora: Ah ! eu estou fazendo uma onda e ela é mecânica.....

A professora apresenta uma situação que possa convencer os alunos de sua resposta, algo que eles podem visualizar, ser mais concreto, porém tem um discurso interativo/de autoridade, induzindo os alunos à resposta correta. A A ação da sala perante a resposta correta do amigo, parece mostrar que se espelham nas ações da professora, ao elogiarem o amigo.

Observamos nos episódios que o discurso da professora varia entre discurso interativo/dialógico, interativo/de autoridade e não interativo/dialógico. Sendo que o discurso predominante da professora é o discurso interativo/dialógico.

## Afetividade no relacionamento e dificuldades de aprendizagem: vozes dos alunos

A seguir são apresentadas e analisadas parte das entrevistas que foforam realizadas com os alunos e com a professora. Esta entrevista foi realizada em grupo numa conversa informal em uma das salas da escola. Estavam presentes 11 alunos(as) das várias turmas que a professora leciona e ao fazermos as perguntas, abrimos a oportunidade para todos

responderem. Como são vários alunos que falaram, as respostas de cada aluno são diferenciadas por letras: A a, A b, At, A d, As.

Pesquisadora: Eu percebi que durante as aulas, vocês falaram bastante com a professora e ela demonstrou dar " liberdade " para vocês falarem. Vocês também demonstraram estar sempre atentos ao que ela explicava, isso ocorre sempre ?

A b: com a professora Estela ! ( todos concordam, com o colega ).

A t : ( todos querem responder ) é sempre do jeito que você viu !

Pesquisadora: por quê ?

A t : (todos concordam quando falam) é porque ela é compreensiva, se você não tá legal ela vem e pergunta o que tá acontecendo...ela é uma amiga, não tem o nariz empinado! Pra ela professor é amigo, dá conselhos...

- A d : se você tá com a cabeça abaixada, ela vem e fala: vamos lá, acorda Peterson, acorda ! Ela quer que a gente preste atenção...se preocupa com a gente, a Estela olha no rosto e percebe que eu não entendi ( todos concordam com o colega ).

A e: se você falta, você não pode mais faltar, se não... você vai ter que repor a aula, ela quer saber o porquê você faltou.

Pesquisadora: vocês estão querendo dizer, é que, querem ser reconhecidos pelo professor ?

A b: isso ! O professor tem que saber que a gente tem capacidade de aprender, não é chegar lá e passar entendeu ?

Pesquisadora: então.....o professor que se preocupa em saber se estão aprendendo ou não estimula vocês a se interessarem pela matéria ?

A b: com certeza, as atitudes que a professora tem, dá gosto de fazezer.....se você não entende ela explica, duas, dez vezes..

Pesquisadora: vocês poderiam falar um pouco, sobre a matéria que foi trabalhada este bimestre...ondas ? é isso ?

- A: ( neste momento, ficam em silêncio por alguns instantes e depois dão risadas, tentam falar algo, mas gaguejam.. demonstrando ter dificuldades para responder...).
- A a: foi legal, muito bem explicado ! ela explicou, passou trabalho, dá prá você compreender, mesmo que na aula você não entende tudo.... depois com os trabalhos você entende .
- A b: não é como alguns professores, que passam o texto na lousa, e depois fazem umas perguntinhas......prá mim isso não significa nada, sabe ? Não pode ser professor !

Pesquisadora: vocês conseguem relacionar, o que aprendem na sala de aula com o dia -a- dia de vocês ?

A : ( todos dão risadas.....e não conseguem dar exemplos).

Percebemos que a relação da professora com os alunos caracteriza-se por um marcante relacionamento afetivo. Em seus depoimentos os alunos reconhecem a preocupação e importância que ela demonstra por todos, o que aponta que os alunos querem ser reconhecidos pela professora: reconhecer quando não estão entendendo, estimular os que estão desinteressados e acreditar na capacidade que tem em aprender. r.

Ao perguntarmos o que eles podederiam falar sobre os conceitos que foram trabalhados, notamos que mostram-se inseguros e tem dificuldades para expor suas idéias.

Levantamos a hipótese, de que possa ter ocorrido no geral uma aprendizagem mecânica pois, suas explicações, e até mesmo suas expressões, não demonstram que aprenderam algo significativamente sobre o conteúdo que foi trabalhado.

## Reflexões da professora: envolvimento e esforços para a superação das dificuldades de aprendizagem

A entrevista foi realizada, numa conversa informal num ambiente totalmente descontraído e a professora sentiu-se à vontade para falar.

Pesquisadora: Então, você poderia falar sobre a relação que você tem com seus alunos, e a escola em geral ?

- P: Com meus alunos não tenho problema nenhum. É lógico que alguns que não gostam de física, o relacionamento é mais difícil...mas a relação em geral, é que todos me respeitam, e eu procuro relevar sempre algumas coisas.

No 1° dia de aula, eu faço um contrato pedagógico, um acordo com os alunos, eles também falam.. ( ( professora relata como fazem juntos o acordo, onde todos levantam seus deveres e direitos, etc.. ).

- É claro que pondero o acordo, perdendo provas e atividades, somente com atestado, não aceito nada depois de 15 dias, etc.. e eles levam isso adiante. Quando falto, aviso com antecedência, pois conforme forem minhas atitudes posso cobrar também..

Pesquisadora: A maneira como você tem desenvolvido suas aulas, tem sido satisfatória ?

- P: Ainda não! Pois eu planejei, passei tudo pela coordenação, dei aula teórica, usamos sites com simulações, demonstrações em classe, produção conjugada com outras disciplinas.... Mas partiu de uma necessidade, que os alunos precisam melhorar as notas, deixaram claro para todos!

Se eles aprenderam algo, não garanto, pois, no ponto de vista da nota não melhoraram....

Eu gostaria de arrumar o laboratório, vivenciar com os alunos experiências, pois na sala com demonstrações não tem graça! A escola só tem um laboratório, mas ainda não posso usar.

- P: A meta, era que apenas 20% tirassem nota vermelha, consegui 20% com notas azuis em algumas salas!! Me desgastei, briguei, perdi tempo, preparei textos, etc..

Com relação aos alunos, compro briga por eles sim! Quando sei que um aluno está sendo prejudicado sem motivos, procuro ajudá-á-lo, mas deixo claro que ele não pode deslizar, portanto tem que dar o melhor. Eles costumam me olhar como uma defensora eu acho, como alguém que abre espaço e que eles podem contar ! Todo mundo me procura quando tem algum problema !

As declarações da professora nos mostram que ela tem consciência que apesar de todos os seus esforços do seu bom relacionamento com os alunos e da participação destes nas aulas, não houve aprendizagem significativa dos alunos.

## O que os alunos aprenderam?

As entrevistas com os alunos e com a professora evidenciaram a enorme dificuldade de aprendizagem dos conteúdos tratados. Além disso, as provas formadas com problemas tradicionais e perguntas teóricas que também analisamos, mostraram que os alunos não aprenderam o conteúdo, pois a maioria das notas não foram satisfatórias.

## CONCLUSÕES

Nossa finalidade em compreender algumas das possíveis relações entre as interações que ocorrem em sala de aula, aspectos da aprendizagem e o relacionamento afetivo entre os alunos e o professor, nos levou a respostas e indagações para futuras pesquisas.

No caso específico focado nesta investigação observamos um quadro em que comparecem um forte relacionamento afetivo entre a professora e os alunos, um predomínio de um discurso marcadamente interativo e, apesar da intensa participação dos alunos nas aulas, os resultados da aprendizagem não foram satisfatórios.

Os resultados e a natureza exploratória da presente pesquisa não permitem inferências sobre correlações entre esses conjuntos de fatores, nem generalizações para outras situações. No entanto colocamos como possíveis hipóteses, a serem estudadas em futuras investigações, que a participação intensa dos alunos está fortemente associada ao relacionamento afetivo positivo e a um discurso interativo o predominante dialógico.

Esses pontos não garantiram que ocorre -se aprendizagem significativa a para a maioria dos alunos. Possivelmente, outros fatores também podem interferir na aprendizagem como os tipos de explicação utilizados pela professora, a falta de recursos didáticos, pouco tempo de aula, falta de pré-r-requisitos dos alunos.

De qualquer modo, queremos destacar como essa professora consegue conduzir aulas envolventes apesar de todas as dificuldades que existem diante dela e de seus alunos, em um contexto escolar marcado por indisciplina generalizada. Além disso, o carinho que os alunos demonstram com a professora, em suas atitudes e depoimentos, parecem refletir suas atitudes éticas e afetivas: respeito, compromisso, prazer e amor com todos os alunos.

Não há dúvidas, que é necessário o professor se propor a conhecer o aluno e aceitálo com suas dificuldades preocupando-o-se com ele em vários aspectos e, principalmente, quando ele não está aprendendo. Acreditar que seus alunos são pessoas inteligentes e que

são capazes de aprender é fundamental para estabelecer condições para motivá-los e envolvê -los no processo de aprendizagem.

Este estudo nos traz novas perspectivas quanto às possíveis características que uma aula de física deve ter, e como devem ser r as relações entre professores e alunos para promover a participação e o interesse destes em sala de aula.

## REFERÊNCIAS

CASTRO, R. S. de. As interações na sala de aula e a construção do conhecimento. Dissertação de Mestrado. Instituto de Física, Instituto de Quimica e Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2005.

DAGHER, Z; COSSAMAN G. Verbal Explanations Given by Science Teacher. Their Nature and Implications. Journal of Research in Science Teaching, 29(4), 361-374, 1992.

MORTIMER, E. F. e SCOTT, P. Atividade discursiva nas salas de Ciências: Uma ferramenta sociocultural para analisar e planejar o ensino. Investigações em Ensino de Ciência. Porto Alegre: Instituto de Física da UFRGS. Vol. 7, nº 3, p.1-26, dez/2002.

MOREIRA, M. e outroros. Aprendizagem: Enfoques teóricos. Editora da Universidade, UFRGS, 1986.

VILLANI, A e PACCA, J. L. A. Construtivismo, conhecimento científico e habilidade didática no ensino de ciências. Revista da Faculdade de Educação, v.23, n.1/2, p.196-214, jan./de z. 1997.

AQUINO, J. G. A indisciplina e a escola Atual. Revista da Faculdade da Educação, v.24, n.2, p.181 - - 204, jul./dez.1998.

CUNHA, M. I. da. Repensando a Didática. Campinas. SP: Papirus, 1996.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.