Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

POPULARIZAÇAO DA ASTRONOMIA:RELATO DE EXPERIENCIA

José Nivaldo Mangueira De Assis, Marcelo G. Germano

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
31/01/2007
Linha de pesquisa
Divulgaçao Científica E Comunicaçao No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2007

Texto completo

## POPULARIZAÇÃO DA ASTRONOMIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA

José Nivaldo Mangueira de Assis a (nivaldomangueira-rural@bol.com.br) Marcelo Gomes Germano b b (mggeramno@ig.com.br)

a Universidade Estadual da Paraíba – – UEPB

b b
Universidade Estadual da Paraíba ; Universidade Federal da Paraíba UEPB/UFPB

## RESUMO

Visão do Cosmos construída através de observações e conceitos operacionais da ciência moderna, a Astronomia, considerada por alguns historiadores como a mais antiga das ciências, é, sobretudo, um legado cultural da humanidade que deveria ser minimamente conhecido pela maioria dos cidadãos. Infelizmente, a literatura sobre o assunto ainda persiste em uma linguagem hermética, de publicações especializadas e ao alcance de poucos. Construído a partir de experiências concncretas no universo da educação não formal, este trabalho objetiva discutir as limitações e possibilidades de intervenções no universo que estamos chamando de popularização da astronomia. Com esse objetivo, procuramos resgatar um pouco da nossa experiência em palestras, aulas e observações astronômicas, como estudante do Curso de Física da UEPB, radialista e apresentador do Programa "Amigos da Ciência" na Rádio Comunitária Ariús e como participante do programa "Amigos da Escola". Acreditamos que ao lançar um m olhar crítico sobre nossas intervenções, possamos contribuir para identificar falhas, corrigir erros e, sobretudo, encorajar novas ações nessa apaixonante aventura no caminho do diálogo e da comunicação científica.

Palavras Chave: Astronomia, popularização, experiência.

## 1. INTRODUÇÃO

- O céu, com seus eternos pontos luminosos, tem uma longa história para contar. História cheia de poesia e encantamentos, feita de lendas e mistérios, de hipóteses e de leis matemáticas, de estudos e descobertas, de paixões e sacrifícios (BOSCHETTI, 1977).
- A Astronomia é a ciência dos sonhos. É a ciência da realidade. É a ciência da eternidade. É a ciência de nossa paixão. E foi justamente essa paixão incondicional pelo estudo da astronomia que impulsionou o desejo de compartililhar com outras pessoas os poucos conhecimentos que adquirimos como astrônomo amador e estudante de física. Não era possível permitir que um conhecimento tão importante e atrativo continuasse restrito aos domínios da academia e de alguns poucos iniciados. O povo simples dos vários pontos de nosso estado também tinha o direito de compartilhar conosco do prazer de contemplar o céu por intermédio de um telescópio e do ponto de vista de um conhecimento elementar em Astronomia. Foi assim que nos embrenhamos por mais de 150 municípios do estado da Paraíba, visitando escolas, praças e logradouros públicos, numa intervenção voluntariosa no sentido de permitir o acesso das pessoas a um conhecimento mínimo da Astronomia.

Hoje, resolvemos revisitar a nossa experiência e tentar recuperar muito do que foi vivenciado, produzindo uma reflexão que possa revelar erros, identificar acertos, mas, sobretudo, auxiliar e motivar novas intervenções nesse apaixonante e urgente desafio no sentido de p popularizar o conhecimento científico.

Construído a partir de experiências concretas no universo da educação não formal, este trabalho objetiva discutir as limitações e, sobretudo, as grandes possibilidades e necessidade de intervenções no que estamos chamando de p popularização da astronomia.

De fato, como sugere Gonsalves (2004, p.35), "O conhecimento pela experiência dá visibilidade às formas de solidariedade, conflitos, tensões e paixões que são constitutivas das configurações sociais". Dessa forma, a ênfase nas relações cotidianas permimite aos educadores populares destacar a criação e a paixão como elementos constituintes do esforço de compreensão. Nesse sentido, embora reconhecendo limites no que se refere à sistematização de momentos fundamentais de nossa vivência, acreditamos que este trabalho aproxima-se das características de uma pesquisa-ação. Pelo menos, no sentido cololocado por Gonsalves de que a participação dos sujeitos permite a substituição dos ideais teóricos de explicação e controle pelos de compreensão, significados e ação.

Incluídas a introdução e as considerações finais, o trabalho encontra-se dividido em quatro partes. InInicialmente apresentamos (parte 2) alguns fundamentos teóricos que permitam ao leitor uma compreensão prévia dos termos mais freqüentes ao longo da discussão: astronomia, educação não formal e e popularização da astronomia; além de algumas justificativas para as intervenções no campo da popularização da a ciência e, em particular, da astronomia. Em seguida a (parte 3), reunimos alguns relatos de momentos fundamentais de nossa experiência em Popularização da Astronomia, recuperando algumas falas e depoimentos importantes para a a a construção de uma reflexão. Durante a colusão (parte 4), lançamos um olhar crítico sobre a experiência, reconhecendo os seus limites, principalmente no que diz respeito à à qualidade de sua sistematização.

## 2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS

## 2.1 - - - O que é Astronomia?

Para alguns historiadores a Astronomia pode ser considerada a mais antiga das ciências. Pode -se dizer com Hamburger (1984, p.104) que a própria Física nasceu da Astronomia, já que foram as observações dos movimentos das estrelas e dos planetas que levaram à revolução copernicana e aos trabalhos de Galileu e de Newton. Depois a Física segue seu caminho e mais tarde passa a contribuir para o o aperfeiçoamento das observações astronômicas. Em termos atuais, pode-se afirmar r que a Astronomia é uma visão do Cosmo, construída através de conceitos operacionais da ciência moderna. Mas também pode ser r vista como a a ciência dos astros, aquela que tem por r objetivo o estudo da origem, posição, forma, grandeza, constituição, distância, organização e movimentos de todos os corpos celestes.

Embora existam diversos ramos da astronomia, em linhas gegerais, ela pode ser dividida em quatro ramos principais: astronomia de posição ou geometria celeste; astronomia física ou astrofísica; mecânica celeste ou astronomia teórica, e cosmologia ou origem do universo.

Uma importante contribuição ao estudo deste ramo da ciência tem sido dada por astrônomos amadores, que em todos os cantos e em todos os tempos, têm contribuindo para descoberta de astros, principalmente na área dos cometas, onde parte significativa das descobertas se deve a

amadores 1 , que também acabam sendo responsáveis por grande parte da popularização da Astronomia em quase todo mundo. Contudo, não se pode esquecer que, aliado aos esforços e iniciativas de amadores, muitos profissionais têm se dedicado ao trabalho de difusão e popularização desta ciência, sobretudo no âmbito da educação não formal.

## 2.2 - - - Popularização da Astronomia

De fato, grande parte das iniciativas no universo da difusão e popularização do conhecimento científico e tecnológico têm sido desenvolvidas por intermédio da educação não formal. Embora toda a base esteja na escola 2 , que é fundamemental para a formação do cidadão, o caráter sistemático e organizado de ensino, estruturado segundo determinadas leis e normas, e apresentando um currículo relativamente rígido em termos de objetivos, conteúdos e metodologias, não possibilita acompanhar a velocidade de penetração dos novos conhecimentos na sociedade. Nesse caso , conforme lembra Gaspar (1993, p.32), a educação não formal3 l3 ao fugir da a rigidez de objetivivos, conteúdos e metodologias, caracterizando-se por processos educativos com currículos e memetodologias flexíveis , tem se constituído num importante espaço educativo de popularização da ciência.

Popularização, conforme garantem os lexicógrafos, é o ato ou ação de popularizar: tornar popular, difundir algo entre o povo. O que remete a dois novos conceitos também problemáticos. O conceito de popular: agradável ao povo; próprio do povo ou destinado ao povo. E ao conceito de povo: "vulgo, massa, plebe, multidão, turba, ralé ou escória". (GERMANO, 2005). Nesse caso, como lembra Wanderley apud Brayne r (2004, p.1), é necessário reconhecer a imprecisão do termo povo, e também do uso do adjetivo popular nas Ciências Sociais. Ao utilizar o conceito, o referido autor r lança mão de uma estratégia dualista: p povo e não-povo; povo e antipovo; povo e elite; povo e indivíduo. Na opinião de Sales (1999, p.116), povo "é uma situação e um posicionamento na sociedade. Povo são os excluídos, os que vivem ou viverão do trabalho e os que estão dispostos a lutar ao seu lado".

Restringindo o conceito à esfera dos textos escritos e aos meios de comunicação, Mueller, (2002, p.1) define p popularização da ciência como um "processo de transposição das idéias contidas em textos científicos para os meios de comunicação populares". Mora (2003, p. 9), numa concepção mais abrangente, acredita que "popularizar é recriar de alguma maneira o conhecimento científico , tornando acessível um conhecimento super especializado " . Mas, acrescenta logo em seguida, não se tratar de uma tradução, no sentido de verter de uma língua para outra, e sim, de criar uma ponte entre o mundo da ciência e os outros mundos.

Incorporando o conceito de povo proposto por Sales ao de Mora, pode-se afirmar que Popularizização da Astronomia, é é uma tentativa de recriar de alguma maneira esse conhecimento milenar de modo a torná -lo acessível ao povo, fazendo uma ponte entre o universo da Astronomia e os outros olhares que também nos revelam os segredos do Céu. Mas, por que esta tarefa é importante?

## 2.3 - Por que e para que popularizar a Astronomia?

No artigo 4 do colunista ta Roberto Pompeu sobre a educação do povo japonês, o mais significativo naquele modelo de educar era justamente a popularização. O povo japonês dava tremenda importância a tudo que fosse popular, ao que muitos usassem, ao que muitos usufruíssem. As crianças japonesas, em bandos organizados pelas escolas, com freqüência visitavam m museus, bibliotecas, observatórios e espaços destinados à ciência. Não era a alta tecnologia que marcava e impressionava o modo de ser japonês, mas a capacidade de se organizarem em multidões, de participarem coletivamente. De difundirem sua cultura, de espalhar seus conhecimentos científicos e tecnológicos. Parece ser assim também com outras culturas de povos orientais como os chineses e coreanos. No Brasil ainda impera o individualismo e são raras as oportunidades de colégios promoverem excursões e passeios a locais onde às crianças possam, m, desde cedo, tomar contato com ciência . Faltam iniciativas dos poderes competentes, interesse dos educadores, divulgação, enfim, falta, um plalanejamento escolar para que alunos, principalmente da rede pública, possam ter acesso a locais tão importantes na formação científica. Como lembra a Carl Sagam (2003), é muito gratificante observar pessoas comuns profundamente encantadas ao entender ou simplesmente conhecer alguns aspectos da natureza que antes lhes eram estranhos: por que o céu é azul, por que existem os eclipses, as fases da Lua, as estações do ano? Não adianta insistir r no modelo de uma ciência para poucos, aumentando cada vez mais a distancncia do fosso que separa os que têm informação científica e os que dela não tomam o menor conhecimentnto. Certamente existirão as críticas daqueles que defendem a a tese de que a ciência a é coisa de cientista. Neste particular, prefeferimos concordar com Krieger para quem, m,

... dadas às diferenças entre as realidades, as aspirações e as habilidades dos homens e mulheres do planeta, uns poucos vão se tornar cientistas. Mas, mesmo não sendo cientista é possível ao cidadão adquirir a compreensão da ciência, apreciando os encantos do universo e usufruindo os benefícios do conhecimento e da tecnologia (KRIEGER, 2004).

De fato, como afirma o professor José Alexandre Ribeiro 5 , o conhecimento mínimo dos instrumentos e a lógica de sua distribuição no corpo de uma orquestra sinfônica, certamente possibilitará uma maior capacidade de apreciação e desfrute da bele za de um concerto. O mesmo se aplica a para a ciência da Astronomia. Ao observar o Céu com um mínimo de conhecimento sobre estrelas, constelações, planetas e satélites, com certeza se desfruta de um cenário diferente e de um assombro ainda maior diante da grandeza e da beleza de um novo Cosmo.

No entanto, a popularização do conhecimento científico não é importante apenas pela maior possibilidade de apreciação da beleza, mas, sobretudo, para garantir o mínimo controle social da ciência pelo povo. A esse respeito Germano (2005) chama a atenção para o fato de que os vários encaminhamentos s de natureza científica geralmente envolvem m riscos e custos, além de asaspectos culturais que deveriam passar necessariamente por uma apreciação popular. Questões como, produção de alimentos transgênicos, clonagem humana, eutanásiaia, utilização de células tronco, e muitas outras, são exemplos de como um conhecimento mínimo de assuntos pertinentes à ciência e suas aplicações é fundamental para a garantia de uma democracia, pelo menos, representativa e de qualilidade razoável. Para Candotti,

[...] a circulação das idéias e dos resultados de pesquisas é fundamental para avaliar o seu impacto social e cultural, como também para recuperar, por meio do livre debate e confronto de idéias, os vínculos e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes, rompe ou fere (2(2002, p.17).

De fato, em uma sociedade alienadamente dependente da ciência e da tecnologia, um número freqüente de decisões que envolvem diretamente o quotidiano das pessoas, continuam sendo tomadas por técnicos e especialistas na maioria das vezes orientados pelos interesses do mercado. E mesmo a mais ingênua e aparentemente despretensiosa observação do céu pode estar imbuída de interesses outros que transcendem em muito os limites da contemplação desinteressada. A decisão de participar de um prorojeto conjunto para enviar um astronauta brasileiro 6 em certa missão espacial que envolve gagastos da ordem de 20 milhões de reais, ou se é preferível usar esse recurso para financiar novos s laboratórios de pesquisa ou recuperar os já existentes, é uma questão de estabelecer prioridades, que em uma sociedade democrática exige a participação de cada vez mais interlocutores, com razoável soma de conhecimentos que lhe permitam opinar diretamente ou delegar as pessoas certas à responsababilidade de fazê-lo.

## 3. RELATO DE EXPERIÊNCIA

## 3.1 - - - O começo de tudo

O nosso interesse pelas coisas do céu remonta o tempo em que morávamos em um sítio no Bairro de Bodocongó, na zona Oeste da cidade de Campina Grande. Àquela época, costumávamos olhar o céu com maior freqüência, visto que, nos fins dos anos cinqüenta e início dos anos sessenta, as poucas diversões notururnas possíveis eram escutar o rádádio e contemplar o céu nas noites escuras. Assim, após o silenciar dos rádios e das pessoas, ficávamos na calçada a observar a imensidão do cosmo, discutindo seus mistérios, as lendas sobre os astros, e as aparições de objetotos estranhos. Tudo aquilo causava admiração, espanto e medo. Quase todos os anos o padre Frederico 7 , ia nos visitar e acabou se tornando amigo da família. De vasta cultura, contava histórias sobre o universo e mesmo com pouca idade, entre 10 a 15 anos, já imaginava as distancias enormes que nos separavam das estrelas e a quantidade delas no céu. Ainda recordo os esforços do pároco na tentativa de construir uma imagem plausível da quantidade de estrelas visíveis. Se juntássemos vários grãos de areia um ao oututro e enfileirássemos até São Paulo (para nós um lugar muito distante), haveria muito mais estrelas no céu. Dezenas de vezes mais do que os grãos enfileirados.

Uma das primeiras e mais fortes influências literárias relacionadas com as coisas do céu, foi sem dúvida, a obra, Eram Os Deuses Astronautas, de Erich von Daninikem, relançada recentemente. A influência das teorias de Daniken foi profunda, sobretudo a leitura do livro De Volta às Estrelas, em sua edição d de 1973. A Apaixonado pelos astros e pelos mistérioios do universo, independentemente da veracidade das afirmações de Danikem, aquelas leituras primeiras, ainda meio ufológicas e místicas, serviram para aguçar e aumentar ainda mais o nosso interesse pela observação e contemplação do céu.

O primeiro telescópio foi adquirido em viagem ao Rio de Janeiro no ano de 1989. Naquele mesmo ano iniciamos as nossas visitas às escolas do estado de Pernambuco, realizando palestras e

observações. Na década de 70 e de 80, na companhia do Padre Cristiano, à época, pároco de Sertânia -PE, visitamos um observatório localizado no bairro da Várzea em Recife e a Torre Molokov no Bairro do Recife Antigo onde, no espaço do terraço, existe um telescópio refletor que oferece espetaculares visões do céu.

O interesse pela Astronomia, lologo se transformou em uma paixão que foi crescendo a cada dia. Novos livros foram adquiridos, além de cursos e encontros que discutiam e aprofundavam o conhecimento dos fundamentos principais desta ciência. No entanto, era preciso dialogar com outras pessoas e compartilhar aquele conhecimento e aquela beleza. Embora não possamos esperar que todos se tornem compositores, é possível lutar para que todos tenham o direito de ouvir e apreciar a obra de Beethoven; mesmo não sendo astrônomo, é possível ao cidadão comum uma compreensão mínima desta ciência, que lhe permita apreciar os encantos do universo e usufruir dos benefícios deste conhecimento. Nesse sentido, é que realizamos centenas de palestras e observações em escolas, colégios, faculdades, praças, hospitais e outros lugares públicos, chagando a atingir, ao longo desta experiência, um público aproximado de 40.000 (quarenta mil pessoas).

## 3.2 - - - Como eram realizadas as palestras e observações

O convite era feito, na maioria das vezes, por estudantes da rede pública que alegavam escassez de palestras e aulas sobre ciência, em particular de Astronomia. As palestras duravam em torno de duas horas e eram realizadas em locais amplos, sempre que possível , auxiliadas de um retro -projetor, utilizado principalmente parara expor imagens de galáxias, estrelas, planetas, cometas e outros objetos celestes. A novidade de nossa presença, sempre despertava grande curiosidade nos estudantes, participando das exposições, em média 150 pessoas, chegando às vezes até mais de quinhentntas. O público interagia alegremente, fazendo perguntas e contando fatos sobre os astros.

Durante as palestras eram feitas representações do Sol, da Terra e da Lua, e de como esses astros se movimentam e sobre os fenômenos dos eclipses e das fases da Lua. Após as explanações procedíamos às observações a olho nu e com telescópio. Durante o dia projetávamos a imagem do Sol em uma tela, utilizando lentes especiais para observação direta, como também o fogão solar8 r8 para demonstrações. Nas observações noturnas s o telescópio refrator era utilizado e a imagem da Lua quando na sua fase de quarto crescente sempre foi a que mais impressionou, devido à possibilidade de observar traços bem definidos do relevo e das crateras do nosso satélite. Planetas como Júpiter com suas luas e Saturno com seus anéis, também causavam admiração e curiosidade do público. Outros planetas e as estrelas causam uma certa decepção nos observadores, por não apresentarem imagens tão grandes, como imaginavam ser no telescópio.

Nas escolas das cidades do interior os professores geralmente participavam e apoiavam a iniciativa. Nas grandes cidades, quase sempre existiam restrições por parte dos professores que alegavam que o assunto não deveria ser posto, visto que não era cobrado nos vestibulares s e nem fazia parte da grade curricular. Alguns chegavam a boicotar de forma sutil as palestras e aulas sobre Astronomia.

Mais recentemente, quando preparávamos uma turma de estudantes do Colégio PREMEN para as Olimpíadas de Astronomia e Astronáutica de 2005, vários estudantes desistiram, porque alguns professores introduziam atividades extra classe, coincidentes com o horário das aulas de Astronomia. Também não admitiam a presença na escola de um professor voluntário da educação 9 . Assim, de uma turma de mamais de cem inscritos, apenas 30 fizeram o curso e, pela primeira vez,

participaram efetivamente de uma Olimpíada Brasileira de Astronomia. Apesar dos boicotes, o resultado geral foi excelente. Seis alunos e alunas ganharam medalhas de prata e outros seis de de bronze.

## 3.3 - - - O público atingido: um quantitativo

Como já mencionamos, durante as nossas falas e observações, infelizmente, não nos preocupava, os registros sistemáticos das falas, imagens e depoimentos. No entanto, ao longo desses dezesseis anos, guardamos na memória o nome de quase todos os Municípios em que atuamos. Conforme dados relativos aos nomes oficias das escolas, obtidos através das Secretarias Municipais e Estaduais, entre escolas e colégios, chegamos a um número aproximado de 80 Colégios Estaduais na Paraíba; 69 Escolas Municipais em Campina Grande, 06 Colégios e Escolas no Estado de Pernambuco, 01 Escola Agrícola no município de Bananeiras - Pb, 09 Escolas e Colégios da rede particular de ensino em Campina Grande, além de duas Universidades públicas -UEPB e UFCG, em Campina Grande, e 02 Faculdades particulares, sendo 01 em Afogados da Ingazeira - PE, e a Facisa em Campina Grande. Totalizando, 167 educandários visitados.

Na maioria desses estabelecimentos realizamos palestras e atividades, pelo menos, em dois turnos, e em média participavam 150 pessoas. Feito esse levantamento podemos avaliar que só nessas instituições devemos ter atingido um público entre quarenta e cinqüenta mil pessoas.A população atingida nos locais públicos e a céu abertrto, como: praças, ruas, quadras, praias, e outros logradouros públicos, é difícil estimar, sobretudo, porque era grande a vavariação, podendo crescer de 500 a 1000 pessoas, ou cair de 10 a 20 participantes, dependendo de fatores incontroláveis.Seguramente, popodemos afirmar com boa margem de convicção que foi grande o número de pessoas com as quais mantivemos contatos nesta jornada de diálogos suscitados em torno do conhecimento popular da Astronomia.

É comum, ao revistarmos os lugares que atuamos, reencontrar pessoas, principalmente estudantes e professores que, tendo participado de nossas palestras e debates, reconhecem a importância e necessidade de ações daquela natureza. De certo, esses depoimentos são confortadores e tem nos encorajado a seguir o nosso sonho voluntário, e gratificante. Mesmo porque, o que se realiza com vontade, prazer e paixão não pode ser dimensionado com números ou títulos.

## 4.4 - - - Acontecimentos marcantes

## Astronomia ou u Astrologia?

Nas várias palestras que temos realizado e nas conversas com as pessoas, sempre observamos a confusão que se faz entre o que seja astronomia e astrologia. Mesmo entre alguns estudantes universitários de física e de outras ciências, essa distinção não fica bem clara. As mulheres, principalmente, pediam para que ue fizéssemos previsões baseadas nos seus signos astrológicos. Aproveitávamos a ocasião para explicar que astronomia é uma ciência que estuda os astros no que se refere aos seus movimentos, a interação entre eles, à sua constituição e as suas origens, enquanto a astrologia é uma crença de que os astros têm influencia na vida e no comportamento das pessoas. Resumindo: Astronomia é ciência e Astrologia é crença.

É importante ressaltar, como nos lembra Caniato (1982, p.12), que em quase todos os povos primitivos os conhecimentos astronômicos foram acumulados pelos sacerdotes. A eles cabendo o dever de observar e saber se os astros estavam "propícios". Assim, associado ao primitivo conhecimento dos astros desenvolveuuse também uma espécie de pré-determinação do fufuturo e do

destino das pessoas. A astrologia nasce, portanto, como uma prima irmã da astronomia e é natural que esse parentesco permaneça vivo na memória do povo até os dias de hoje.

## O cavalo de São Jorge e o coelhinho.

Certa vez após uma palestra sobre Astronomia em um colégio na cidade de Monteiro-PB, fomos para a praça central da cidade e ficamos a observar a Lua, com um telescópio refrator. A Lua na fase quarto crescente, apresentava excelente visibilidade de suas crateras, montanhas e mares. Dezenanas de alunos estavam na fila para observação quando uma senhora de uns 70 anos, aproximadamente, perguntou o que estávamos a observar naquele objeto. Dissemos que era a Lua, vista mais de perto. Ela zombou de todos, afirmou que era mentira, e pediu para olhlhar. Enquanto procurava observar, a meninada gritava: é a Lua! É a Lua! É a Lua! Ela riu e afirmou com bastante convicção que, certamente estávamos enganados, pois o que estava vendo, certamente, não poderia ser a Lua, pois aquilo estava cheio de buracos e não aparecia o cavalo de São Jorge. A gozação foi geral e não houve meios de convencê-la de que realmente tratava-se de nosso satélite.

De certo este não é um acontecimento isolado. É muito comum, principalmente no interior do nordeste brasileiro, associar -se as manchas escuras do nosso satélite com a figura do Santo Guerreiro, montado no seu cavalo empunhando uma lança e combatendo o dragão do mal. Mas, a experiência nos revelou que essas associações variam de acordo com as regiões do Brasil.

Em outra ocasião, fazíamos observações no calçadão da Praia de Tambaú, em João Pessoa PB, e era grande o número de turistas do Sul e do Sudeste do Brasil, que ao observarem a Lua se referiam à figura de um coelhinho. As crianças dessas regiões eram as que mais fa ziam essa associação. Aquela constatação foi surpreendente, pois, imaginávamos que a imagem do cavalo de São Jorge fosse unanimidade nacional.

## Astronomia no Hospital

Nas várias andanças com o objetivo de dialogar com as pessoas sobre a ciência da Astronomia, freqüentamos lugares em que essa ciência despertava reações as mais diversas. Nas escolas, como já mencionamos em seções anteriores, essas reações eram diferenciadas dependendo da cidade, do bairro, do setor desse bairro e, evidentemente, do perfil econômico social do público participante. Um local marcante no que diz respeito ao impacto provocado pela nossa visita, foi, sem dúvida, uma palestra realizada em um hospital público. Não recordamos a data, do ano 2000, recebemos o convite de uma enfermeira do quadro de funcionários do Hospital Universitário Alcides Carneiro -HU, em Campina Grande, que tendo presenciado uma das nossas palestras, solicitou que repetíssemos uma atividade semelhante no hospital. Propôs que atuássemos na ala de internos destinados às crianças. Em princípio, o desafio nos deixou temerosos. Não tínhamos experiência de abordar aquela temática em um local onde predominava problemas de saúde, agravados também pela pouca idade dos pacientes. Lugar triste. Lugar sombrio.

Arranjada e arrumada a sala, começamos a falar para a criançada, seus familiares e funcionários, sobre as coisas do universo, as estrelas, os planetas, o Sol, a Lua e a Terra. Foi surpreendente vê-los participando ativamente e o local, aos poucos, se transformando, de um ambiente triste para um lugar de forte astral, e de aprendizagem. Em pouco tempo todos estavam imitando o piscar das estrelas, o girar dos planetas em volta do Sol, fazendo perguntas e interagindo com todas as atividades realizadas.

Sem dúvida, foi uma das palestras que mais nos incentivaram a continuar com o trtrabalho voluntário de popularização da astronomia, sobretudo, por evidenciar que a informação científica e a educação, como muito bem coloca Marandino (2003), pode se fazer presente em locais que não sejam necessariamente a sala de aula. Hospitais, presídios, clubes, igrejas, enfim, todo e qualquer lugar onde haja público disposto a receber informações, inclusive de ciência, pode ser um local de letramento, de aprendizagem e de construção da cidadania.

Poderíamos continuar enumerando aqui muitos outros fatos marcantes de nossa experiência ao longo desses 16 anos de trabalho voluntário no sentido de difundir o conhecimento da astronomia para a população, principalmente, os menos favorecidos e aqueleles a quem continua sendo negada uma educação de qualidade. No entanto, os limites desse texto nos impõem algumas restrições necessárias.

## 4. CONSIDERAÇOES FINAIS

Todo esse trabalho de visita às escolas, colégios, faculdades e outros locais, foi realizado sem uma metodologia preconizada pela academia, sem esquemas prévios, a não ser aquele conhecimento da experiência adquirida em outras atividades exercidas ao longo de nossa vida como engenheiro e professor de escolas públicas e privadas, nos Estados da Paraíba e de Pernambuco. Nesse sentido reconhecemos os prejuízos acumulados em termos de falta de sistematização das experiências. De fato, muita coisa se perdeu, desde os registros de falas e imagens, expressões e depoimentos, até acontecimentos marcantes quque se dissiparam no tempo, simplesmente por falta de cuidado e planejamento prévio de nossas ações. Em certo sentido esta atitude compromete um pouco os relatos desta pesquisa. No entanto, o resultado advindo do esforço de revisitar a prática, mesmo apoiado quase que exclusivamente na memória do autor, acabou revelando-se extremamente proveitoso, sobretudo, porque lançou "um olhar mais pré-ocupado com as coisas da vida, com a rede humana, fragmentada e tecida, aos poucos, na e pela a sabedoria popular" (GONSALVES, 2004, P.35).

Por outro lado, temos que reconhecer a afirmação de Holliday (1996, p.15) de que "Os centros e instituições não têm definida como política institucional efetiva a dedicação da equipe à sistematização das experiências que realizam (ainda que no discurso seja mencionada como importante)". É certo que detectamos falhas, porém temos que considerar que os recursos empregados, tanto materiais quanto humanos, foram limitados, até por tratar-se de uma empreitada quase que solitária, quase que inindividualizada, não fosse a participação espontânea do público visitado e de pessoas que colaboraram despretensiosamente .

Esta experiência, que acabou se configurando em conhecimento teórico, nos revelou, entre tantas outras coisas, a face de um povo curioso, inteligente, aberto ao diálogo e disponível a mergulhar no universo de novos conhecimentos. Denunciou também a carência e a violências em nossas escolas, mas, sobretudo, revelou a estranha alegria e esperança de um povo que não desiste nunca de acreditar em seus sonhos e lutar para conquistá-á-los. Esperamos que esse trabalho possa ser uma pequena semente para fecundar outras ações nesse campo, aprimorando e aumentando nossos conhecimentos e fornecendo elementos embasadores e estimulantes para continuarmomos na gratificante tarefa de educadores educando-se.

Como bem sugere Sagan (1996), somos feitos de matéria estelar... quem sabe essa vontade, essa paixão, esse amor pela Astronomia não seja mesmo proveniente da "saudade que sentimos das estrelas"?

## REFERENCIAS

BOSCHETTI, C. M.; SEVIN, M.; FLEURIOT, R. Os Segredos da Astronomia . Rio de Janeiro, RJ. Otto Pierre Editores, 1978.

BRAYNER, F., Ora et trans/formare: o povo em Luiz Eduardo Wanderley . [onleine], http://www.educacaoonleine.pro.br/art\_ora\_et\_transformare.asp, capturado em 2004.

CANDOTTI, E. Ciência na Educação Popular. In MASSARANI, L.; MOREIRA, ILDEU DE C. & BRITO, F. (orgs.) Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro, Casa da Ciência. UFRJ, 2002.

CANIATO, R. R. O que é Astronomia. São Paulo, SP, Brasiliense, 1982.

DANIKEN, Erich von. De Volta as Estrelas. São Paulo, SP, 12 a , Melhoramentos, 1973.

Eram os Deuses os Astronautasas? São Paulo, SP, Melhoramentos, 1969.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_. E

GASPAR, A. Museus e centros de Ciências: conceituação e proposta de um referencial teórico . Tese de Doutorado. São Paulo, SP, FEEUSP, 1993.

GASPAR, A., A Educação Formal e a Educação Informal em Ciências. In MASSARANI, L.; MOREIRA, ILDEU DE C. & BRITO, F. (orgs.) Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro, Casa da Ciência. UFRJ, 2002.

GERMANO, M. G. Popularização da ciência como ação cultural libertadora. V Colóquio Internacional Paululo Freire, Recife - - PE, 2005.

GONSALVES, E. P. Da Ciência e de Outros Saberes: Trilha da Investigação Científica na Pósmodernidade . Campinas, SP. Editora Alínea, 2004.

HAMBURGER, E. O que é Física? São Paulo, SP, Brasiliense, 1984.

HOLLIDAY, O. J. P Para Sisistematizar Experiências. João Pessoa, Ed. Universitária, UFPB, 1996.

KRIEGER, E. M. A Abertura do Encontro Sobre Popularização da Ciência. R Rio de Janeiro, fevereiro de 2004. www.academiabrasileiradecienciashtm m .

LÚCIO, P. Educação Formal e não Formal: um diálogo necessário. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Educação, João Pessoa, UFPB, 1995.

MARANDINO, M. A Prática de Ensino nas Licenciaturas e a Pesquisa em Ensino de Ciências: Questões Atuais . . Cad. Cat. Ens. de Fís., v.20, p. 168-192, agosto, 2003.

MUELLER, M. S. P Popularização do conhecimento científico. Revista de Ciência e Informação, V.3 n.2, abril de 2002.

RIBEIRO, J. A. Sobre Os Instrumentos Sinfônicos e em torno deles. Rio de Janeiro , Record, 2005.

SALES, I. Educação Popular:uma perspectiva, um modo de atuar(alimentando um debate). In: Melo Neto, José Francisco & Scocuglia, Afonso Celso Caldeira. E Educação Popular - - - outros caminhos. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1999.

SÁNSHEZ MORA, A. M. A A divulgação da ciência como literatura. Tradução: Silvia Perez Amato. Rio de Janeiro, Casa da Ciência, UFRJ, 2003.

SAGAN, C. P Por que os cientistas deveriam popularizar ciência? Traduzido por Henrique Carvalho, Jul 16, 2003 http://www.ifi.unicamp.br/

SAGAN, C ., O mundo Assombrado Pelos Demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. 13 a ed. Traduzido por Rosaura Eichemberg. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.