Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

FISICA: ENTRE O DETERMINISMO E A CRIATIVIDADE

Marcelo Gomes Germano, Rodrigo R. D. De Andrade

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
31/01/2007
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2007

Texto completo

a

## FÍSICA: ENTRE O DETERMINISMO O E A CRIATIVIDADE

Marcelo Gomes Germano a (mggermano@ig.com.br) b

Rodrigo R. D. de Andrade (rodrigo\_ronelli@hotmail.com)

Universidade Estadual da Paraíba ; Universidade Federal da Paraíba UEPB/UFPB

b b Universidade Federal da Paraíba - - - UFPB

## RESUMO

Investigando a história da construção de alguns dos mais importantes modelos de conhecimento elaborados pela Física, observamos uma série de processos fragmentados que, ao longo do tempo vão sendo unificados dentro de um modelo único e mais abrangente que procura explicar diversos fenômenos a partir de uma lei única, mais simples e melhor articulada. Esta tem sido umuma idéia poderosa e persistente que acabou conduzindo a uma espécie de generalização determinista, sobretudo, após a formulação e aperfeiçoamento da mecânica Newtoniana a que estabeleceu uma universalidade para as leis físicas e tornou-u-se o principal alicerce da ciência moderna. Com este trabalho objetivamos discutir o problema do determinismo, desde a sua gradativa construção até a sua consolidação carregada de impasses e contradições.

## Palavras chave: Física, unificação, determinismo.

## 1. INTRODUÇÃO

Em quase todas as culturas primitivas e até mesmo na renascença, o posicionamemento dos astros era considerado fator determinante e de muitos acontecimentos da vida humana. Se fazemos parte da natureza, a Astrologia, prima irmã da Astronomia, pretendia que a vida humana fosse governada ou, pelo menos, influenciada pelos astros. Dessa foforma, a crença em uma existência completamente planejada e um destino irremediavelmente traçado por Deus, tornou-u-se um fenômeno persistente em várias culturas, e ainda nos perturba até hoje.

Se por um lado nos parece seguro e confortável a existência de uma ordem superior e natural governando tudo, por outro lado, também nos afigura incômoda à idéia de sermos completamente determinados, previsíveis e sem nenhuma liberdade. Gostamos de reconhecer o nosso livre arbítrio e a nossa capacidade criativa diante do mundo. Mas, é justamente este impulso criativo que se desenvolve fascinado pela regularidade e a quase inacreditável possibilidade de poder compreender e planejar o futuro. A coisa mais incompreensível sobre o universo, como mais tarde reconheceria Einstein, é que ele é passível de compreensão.

Certamente, forçados pela necessidade de reconhecer um mundo com um mínimo de previsibilidade e controle, os seres humanos, ao longo de sua história, foram construindo

possibilidades de generalizações e inteligibililidade que permitiram em cada época a visualização de um cosmos. Desde a linguagem mais ancestral, passando pelos mitos e a filosofia, até a construção da ciência moderna, toda a aventura humana tem sido orientada no sentido de compreender e controlar um mumundo que, em muitas situações, lhes parece adverso.

A partir de uma incursão principal no território da Física, sobretudo, no que diz respeito aos esforços desenvolvidos em busca da unificação de suas leis fundamentais, discutimos neste trabalho o problema do determinismo, desde a a sua gradativa construção até a sua consolidação e seus impasses.

A palavra unificação estará sendo utilizada aqui como descrição de fatos diversos, abrangendo campos cada vez mais amplos, a partir r de uma única (ou poucas) cacausa primária e subjacente a todos eles. Significa, pois, compreender de que modo efeitos aparentemente diversos são, de fato, explicáveis a partir de um único e particular modelo (ALVARENGA, 1997; SALAN, 1993). O determinismo, como um princípio filosófico segundo o qual todos os fenômenos da natureza estão ligados entre si por rígidas relações de causalidade, assegurando a existência de leis universais que excluem o acaso e a indeterminação, de tal forma que uma inteligência capaz de conhecer o estado presente do universo, necessariamente estaria apta também a prever o futuro e a reconstituir o passado.

## 2. ENTRE O SER E O DEVIR

A aventura histórica da construção do conhecimento humano está permanentemente marcada pela busca de unificação de idéias e concnceitos orientados por uma espécie de desejo de simplificação e crença de que a natureza seja organizada de forma a permitir uma explicação universal, simples, unificada e coerente de todos os fenômenos: a construção de um cosmos.

Como dizem os filósofos, a natureza nada faz em vão e seria em vão admitir muitas causas para o que pode ser feito com poucas. A Natureza é simples e não se dá ao luxo de se utilizar de causas supérfluas (NEWTON, apud, LUCIE, 1979, p. 60).

A invenção da linguagem é uma das primeiras e mais poderosas tentativas da espécie humana de dar um sentido ordenador ao mundo. O aparente caos toma feições humanas a partir da cumplicidade social da palavra. "No princípio era o verbo..." Mas, o fato de poder pronunciar-se sobre o mundo, não sigignifica que o tenha vencido em suas surpresas e adversidades. O homem primitivo encontra diante de si uma realidade desconhecida e aparentemente alheia as suas necessidades. A razão nascente exige, pois, uma ordenação que lhe permita sobrepor-r-se a esta sitituação de caos. De acordo com Teles, (1985, p.12), o pensamento mítico e e as cosmogonias vão fornecer esta a ordenação mental do mundo, capaz de responder algumas das primeiras perguntas e satisfazer às exigências raciona is da nascente mente primitiva .

Com o o tempo, verifica-se um "e "enfraquecimento " " do mito e da religião que vai dando lugar a uma outra forma de explicação do mundo: o pensamento filosófico que, embora não esteja totalmente desprendido das crenças religiosas e dos mitos, vai produzir as primeiras s tentativas de explicação dos fenômenos da natureza a partir da própria natureza.

- O novo estilo de perguntar inaugurado pelos ditos filósofos pré-socráticos, também conhecidos como filósofos da natureza pode ser considerado um marco fundamental na construção do pensamento ocidental e mesmo para futura consolidação da ciência moderna. De certo, foram os

primeiros a se perguntarem a despeito de uma unidade subjacente, um princípio (a(arqué), tal que, dele se pudessem tirar r as explicações para as estranhas mudançnças observavadas nos fenômenos da Natureza.

Independente da força de argumentação e da forma meio mítica de explicação da realidade, aquelas elaborações filosóficas foram importantes muito mais pelo conteúdo de sua intencionalidade: a busca de um ou poucos invariantes que possam dar sustentação, ordenamento e previsibilidade aos fatos. E neste particular, a escola pitagórica (582 - - 497 a.C.) parece muito à frente de seu tempo. Ao estabelecer uma forma de matematização do universo, ultrapassou, em muito, tudo o que foi proposto em termos de ordenação pelos seus antecessores. (CHAUÍ, 2002, p. 76).

Na opinião de Heráclito , outro importante filósofo pré-socrático, as constantes transformações eram, na verdade, a característica mais fundamental da natureza. Tudo "flui"; não há á uma substância ou princípio fundamental l que possa resistir à mudança. "Tudo se faz por contraste, da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia. Para os que entram nos mesmos rios correm outras e novas águas..." (HERÁCLITO, apud BORNHEIM, 1993, frag. 9 e 12, p.36).

- O pensamento Heracliano parece obscuro do ponto de vista de muitos de seus contemporâneos. Se tudo muda, o conhecimento torna-se impensável, pois o objeto cognoscível transforma -se constantemente. Paradoxalmente, alguns fenômenonos naturais parecem garantir a presença de grande regularidade.

Neste confronto, Parmênides, defende um ponto de vista ta diametralmente oposto, que nega o movimento e as transformações como mera aparência patrocinanada pelos sentidos e impõe apenas um único e radical caminho: o caminho do ser. Ao estabelecer uma proibição da geração a partir da contradição entre o ser e o não-ser (nada), Parmênides entra em confronto com o pensamento heracliano, inaugurando o dilema do ser r e do devir r que se torna uma obsessão para o pensamento ocidental, estando diretamente relacionado com o problema da imprevisibilidade de e e do determinismo.

- O desenvolvimento científico também é marcado por esse persistente embate e, de certa forma, podemos afirmar que a existência de "l "leis físicicas" revela uma tentativa de estabelecer permanência na frenética e estranha dança da realidade. Para Demócrito, tudo estava predeterminado, no sentido de que, era resultado do simples jogo de causa e efefeito entre os átomos. Tudo poderia ser explicado através dos átomos e seus movimentos, existindo até mesmo, os átomos da alma. Desta forma, o devenir heracliano estaria contemplado nas infinitas configurações possíveis dos átomos, enquanto o ser parmenidiano também sobreviveria na eternidade e indivisibilidade dos átomos, que não poderiam ser criados ou destruídos.

Na obra o Timeu, Platão (427-367, a.C.) também revela uma clara intenção de conciliar o pensamento de Heráclito e Parmênides ao estabelecer uma estranha contraposição entre o mundo de Deus e das ididéias, que nunca se transforma e sempre "é" , permitindo as elaborações cognoscíveis, e o mundo da realidade dos sentidos, em permanente mudança e que nunca "é", para o qual só podemos referir um conhecimento relativo e do campo da opinião.

Aristóteles (384 a.C. - 322 a C), depois de discordar dos dois mundos propostos por Platão e defender a unificação da idéia com o que ela representa, também vai retroceder e sugerir a existência de dois mundos: o mundo sublunar, das coisas transitórias e dos movimentos imperfeitos ligados diretamente ao homem, e o mundo supralunar destinado às coisas eternas e sagradas .

Esta, como muitas outras idéias e questões propostas pelos antigos filósofos ainda encontrammse na pauta do dia em muitas discussões filosóficas e científicas da atualidade. E ainda está longe o acordo entre Heráclito e Parmênides, entre o determinismo das leis e a imprevisibilidade do caos.

## 3. MECÂNICA CLÁSSICA: UNIFICAÇÃO E DETERMINISMO

Ao colocar a Terra junto às estrelas errantes e em movimento ao reredor do Sol, Copérnico dá o primeiro passo em direção a unificação de um mundo outrora separado em supra e sublunar, passando a incluir o homem como partícipe das glórias celestes, ao mesmo tempo em que os céus passaram a experimentar o pecado da condição humana. É um momento de grande revolução do pensamento e o modelo nascente exigirá toda uma nova visão de mundo com novas perguntas e novos problemas a serem enfrentados. Problemas que o próprio Copérnico não conseguirá responder, cabendo, dentre outros, a Bruno , Kepler e Galileu a confirmação e defesa de suas teses .

As descobertas do relevo da Lua, das manchas solares e das analogias entre os planetas e a Terra, levaram Galileu a rejeitar definitivamente à hierarquia do cosmos aristotélico. De fato, como previra Copérnico, o mundo supralunar não era nem mais nem menos "nobre" que o mundo sublunar, e como este, também estava sujeito a mudanças. Portanto, o obstáculo aristotélico, que dava aos corpos celestes um comportamento diferente do comportamento dos cocorpos terrestres, começava a ruir e a unificação dos mundos iniciada de forma tímida em 1543, ganha força e confirmação através da luneta e dos argumentos de Galileu. O modelo proposto por Copérnico e mais tarde confirmado por Kepler e Galileu exige uma nova dinâmica e, embora a maioria dos físicos da época estejam envoltos com o problema do movimento, é é pelas mãos de Newton (1642 1727) que esta nova dinâmica é formulada e a revolução científica do século XVII atinge o seu apogeu. Aqui é importante destacar alguns definições e postulados iniciais que fundamentam toda a formulação da Mecânica newtoniana para que possamos compreender o seu caráter universal, final e determinístico, que se integra perfeitamente à concepção de tempo e do ser parmenidiano.

O temempo absoluto, verdadeiro e matemático, em si e por sua natureza sem relação alguma com nada externo, flui uniformemente e se chama duração. [...] O espaço absoluto, sem relação, por sua natureza com as coisas externas, permanecem sempre igual a ele mesmo e imóvel. (NEWTON, apud LUCIE, 1979, p.58).

Depois de estabelecer com bastante clareza suas concepções de tempo, espaço e movimento absolutos, curiosamente apresentadas após a oitava definição do Livro I dos Principia, Newton apresenta as três famosas leis do movimento, os Axiomata sive Leges Motus 1 . Assim, com energia, matéria e o conhecimento das leis de interação, tudo poderia ser explicado. A geometria euclidiana, e mais tarde a geometria analítica de Descartes, aliados ao método das fluxões, permitiram m construir um rigoroso método de generalizações e a elaboração de um novo e coerente sistema do mundo, coroado pela formulação de uma lei de alcance universal: a lei de gravitação universal que resolvia a maior parte dos problemas astronômicos da época. Com a poderosa lei de causa e efeito, sustentada na crença de que não se devem admitir outras causas para fenômenos naturais além das verdadeiras e suficientes para explicá-los, e que a natureza prefere sempre as poucas causas, podia-se pensar em um controle total do universo.

Além de unificar o mundo em torno de sua mecânica com as leis que se pretendiam universais, Isaac Newton assentou os fundamentos para toda uma nova era de invenções científicas, respondendo aos apelos de uma nascente sociedade capitalista que já ansiava por uma grande Revolução Industrial. Contudo, havia ainda fenômenos estranhos na natureza cuja as leis propostas por Newton não explicava satisfatoriamente. A atração e repulsão elétrica e magnética são apenas

dois exemplos de fenômenos que não podiam ser totalmente compreendidos por intermédio da mecânica. Mas, é no campo da termodinâmica, principal motor da primeira revolução industrial, que vamos encontrar o adversário mais persistente ao determinismo newtoniano.

## 4. ELETROMAGNETISMO: UNIFICAÇÃO PROBLEMÁTICA

Com William Gilbert, conhecemos em 1600 o primeiro trabalho de pesquisa sistematizado sobre eletricidade e magnetismo . Todavia, foram necessários aproximadamente cem anos, para que os fenômenos elétricos pudessem ser r novamente observados com olhares científicos. Nesse sentido, uma a contribuição importante é feita pelo francês Charles Du Fay (1698 - 1739) queue, através de experiências, confirmou u a existência de dois tipos didiferentes de eletricidade: eletricidade vítrea e eletricidade resinosa. Caberá a Benjamin Franklin, a unificação das duas espécies de eletricidade em um único fluido.

À época de Franklin, não se conseguia manter a eletricidade viva por mais que pequenas frações de segundo . Com a a descoberta do anatomista L Luigi Galvani, mais tarde explicada pelo físico italiano, Alessandro Volta a foi possível l a construção da primeira bateria ia da história da eletricidade, disponibilizando aos pesquisadores, um fluxo contínuo e durável de eletricidade. Contudo, alguns físicos separavam os fenômenos elétricos dos fenômenos "Galvânicos" e só depois de várias décadas de pesquisas se chegou à conclusão que a corrente elétrica nada mais era que um deslocamento de fluido elétrico e que os fenômenos aparentemente distintos poderiam ser unificados como fenômenos provenientes de uma mesma realidade: a eletriricidade. Tanto as correntes voltaicas, a eletricidade das máquinas de fricção e relâmpagos, a eletricidade animal e até a termoeletricidade, todos tinham mostrado ser a mesma espécie de eletricidade. E o próprio Faraday declarou: " A eletricidade, qualquer que seja , é idêntica em sua natureza" (RONAN, 2001, p. 51).

De certo, cada nova vitória alcançada no caminho da unificação, inspirava novas tentativas . Assim, por volta de 1820, cerca de 150 anos após a síntese confirmada pela lei de gravitação universal, o físico dinamarquês Hans Christian Oersted, não por motivos acidentais como sugerem alguns autores, mas por razões filosóficas, conseguiu u provar experimentalmente que, a passagem de corrente elétrtrica através de um fio, produzia um campo magnético a ela associaiado (RONAN, 2001, p. 49; BEM-DOV, 1996, p.99). Acreditamos que, direta ou indiretamente, as regras newtonianas tenham influenciado também aqui.

Conhecendo os trabalhos de Àmpère e de Oersted, Faraday vai conjecturar que, se a eletricidade que corria por um fio, produzia efeitos magnéticos, o inverso poderia ser verdadeiro - um efeito magnético deveria produzir uma corrente elétrica. A hipótese de Faraday não demorou a ser confirmada em experimento idealizado por ele mesmo, ficando evidente que, "O que distingue a eletricidade do magnetismo é, portanto, uma questão de ponto de vista - - a saber, o fato de a carga elétrica estar em movimento ou não. Esta é a essência da ununificação da Eletricidade e do magnetismo " " (SALAM, 1990, p.15).

O "eletromagnetismo clássico" de Ampère e e Faraday y permitiu que, cinqüenta anos depois, Maxwell interpretasse os fenômenos eletromagnéticos e ópticos segundo uma mesma perspectiva. Maxwell mostrou que, se uma carga ga elétrica fosse acelerada, emitiria energia na forma de radiação eletromagnética. Calculou a velocidade de deslocamento dessas ondas - - introduzindo os valores das constantes elétricas e magnéticas e encontrou um valor igual à velocidade da luz. Ao determinar em seguida outras características dessas ondas, constatou que também elas correspondiam às propriedades já conhecidas da luz. A luz era, portanto, uma onda eletromagnética e chegou-u-se assim, a unificação entre o eletromagnetismo e a óptica.

Sem dúvida, um grande passo foi alcançado através da síntese eletromagnética. Mas, um passo que parecia seguir uma direção contrária à unificação proposta por Newton em sua mecânica. Com efeito, as duas grandes sínteses elaboradas entre os séculos XVII e XIX ainda continuavam separadas por um abismo aparentemente intransponível. No entanto, embora estabelecendo uma séria incompatibilidade com a mecânica, a grande síntese eletromagnética que unificava eletricidade, magnetismo e ótica em uma única teoria, continuou proroduzindo grandes esperanças nas leis físicas e seu alcance determinístico .

## 5. TERMODINÂMICA: UM ARRANHÃO NO DETERMINISMO

A A primeira lei da Termodinâmica é uma simples reafirmação do princípio mais geral de conservação da energia a que, particularizado para o campo da termodinâmica, define a sua primeira lei: "E "Em um sistema isolado a energia total permanece constante". De fato, em qualquer transformação a energia se conserva e, embora parte dessa energia seja dissipada na forma de calor tornando -se inaproveveitável, a energia total permanece constante. No entanto, um comportamento peculiar da natureza vai exigir mais do que a primeira lei podia ofeferecer como poder de explicação , pois, embora a conservação da energia ocorra em qualquer transformação, às transfoformações sempre acontecem em um único e radical sentido: do passado para o presente e dirigindo-se ao futuro. Todos os fenômenos espontâneos e naturais são, portanto, irreversíveis.

Embora conduzindo a uma séria controvérsia filosófica, a formulação da Segunda Lei da Termodinâmica está diretamente vinculada a um problema de ordem econômica, técnica e de engenharia. A questão era: como aumentar o rendimento e a eficiência das máquinas térmicas, gerando economia de combustível e maiores lucros para produção capitalista nascente? A primeira construção teórica que responde satisfatoriamente essa questão vai ser apresentada por Nicolas Sadi Carnot, um jovem engenheiro francês de apenas 28 anos que, estabelecendo um limite máximo para o rendimento das máquinas térmicas, possibilitou a generalização para o que hoje conhecemos como a Segunda Lei da Termodinâmica.

Apresentamos a seguir dois enunciados distintos e equivalentes para a Segunda Lei que, conforme Nussenzveig (1990, p.334-335) devemos a Kelvin e Clausius, respectivamente.

- É impossível realizar um processo cujo o único efeito seja remover calor de um reservatório térmico e produzir uma quantidade equivalente de trabalho.
- É impossível realizar um processo cujo o único efeito seja transferir calor de uma cocorpo mais frio para um corpo mais quente.

A conseqüência mais importante dos trabalhos de Clausius é a existência de uma nova função de estado associada a um estado de equilíbrio termodinâmico: a entropia. Segundo Prigogine e Stengers (1997, p.91), em 1865 Clausius realiza a passagem característica entre tecnologia e cosmologia. Embora parecendo limitar-r-se as suas antigas conclusões, agora o faz numa linguagem nova, centralizada em torno do conceito de entropia e revelando de forma mais clara a desnecessária vinculação mecânica entre os conceitos de conservação e reversibilidade. Uma transformação físico-química, por exemplo, pode conservar a energia sem permitir a reversibilidade. Assim, mantendo -se a idéia da conservação da energia enunciada no primeiriro princípio, torna-se possível fazer variar um estado através da entropia. Portanto, conclui Prigogine (op cit p.96), "para todo o sistema isolado, o futuro é a direção na qual a entropia aumenta". Mas, que sistema poderia ser mais bem isolado que o unive rso inteiro? Apoiado nesta premissa , Clausius

da aos dois princípios da termodinâmica um enunciado cosmológico que desde então ficou famoso: "A energia do universo é constante. A entropia do universo cresce na direção de um máximo". O crescimento da entropia designa, pois, a direção do futuro, quer no nível de um sistema local, quer no nível do universo como um todo.

A Segunda lei da Termodinâmica permite, pois, uma distinção muito clara entre passado e futuro: o futuro é o sentido em que a entropia aumumenta. Portanto, contrariando a mecânica newtoniana que não faz distinção entre passado, presente e futuro, o tempo que nasce do seio da Termodinâmica é mais próximo do tempo concebido pelo devenir heracliano e pela acepção do senso comum. No entanto, como sugere Bem-m-Dov (1996, p.80), o tempo da irreversibilidade termodinâmica não é mais otimista que o da mecânica de Newton, e aponta para o caminho da degenerescência e destruição, na qual a ordem e a informação desaparecem progressivamente e o universo tende a um estado homogêneo de equilíbrio e morte. Se por um lado à mecânica, com suas leis deterministas, não permite qualquer novidade ou futuro surpreendente, a termodinâmica dos sistemas em equilíbrio, embora sugerindo a permanente possibilidade do novo, também nos conduz a uma proposição de fundo metafísico, postulando um fatal e inexorável caminho rumo ao equilíbrio que, seguramente poderíamos assemelhar a eternidade do ser parmenidiano.

No entanto, mais que uma disputa de cunho filosófico, a polêmica gegerada entre energetistas e mecanicistas no final do século XIX era de natureza lógico-científica: como os fenômenos irreversíveis observados claramente nos estudos da termodinâmica poderiam resultar de movimentos atômicos perfeitamente reversíveis, conforme me ensinava à mecânica newtoniana?

Atomista convicto, o físico austríaco Ludwig Edvard Boltzmann, vai responder a essa questão propondo uma interpretação da entropia em termos de movimento atômico e remetendo a questão para o campo da eststatística e das probabilidades. EsEstudando as relações entre os estados macro e microscópicos de um sistema termodinâmico, Boltzmann chegou à conclusão que existe uma relação matemática e estatística entre a entropia de um estado macroscópico e o número de estados microscópicos a ele associado. Portanto, a Segunda Lei da Termodinâmica não teria um caráter absoluto como o princípio de conservação da energia e as leis de Newton, mas um caráter meramente estatístico e de possibilidade. Nascia assim, um terceiro enunciado para a Segunda Lei: "Em qualquer sistema físico a tendência natural é o crescimento da desordem; o restabelecimento da ordem só é possível mediante o dispêndio de energia". Com efeito, a entropia de um sistema tem uma probabilidade muito maior de aumentar do que de diminuir, por conseguinte, a ordem, seja ela qual for, é sempre um estado muito particular e estatisticamente pouco provável.

Mesmo arranhando o determinismo com o estabelecimento de aproximações e tendencialidades probabilísticas, os atomistas conseguiram estabelecer uma racionalização matemática do problema e venceram o debate com os energetistas, restabelecendo mais uma vez a crença na previsibilidade das leis físicas e no determinismo .

## 6. NOVAS RACHADURAS NO ALICERCE DETERMINISTA

Quando, em 1905, publica os seus três famosos artigos, dentre os quais, " sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento", Einstein (1879-1955) estabelece dois postulados fundamentais que inauguram a Teoria da Relatividade Especial. O primeiro afirma que as leis da física são as mesmas para quaisquer referenciais inerciais e o segundo postula que a velocidade da luz no vácuo tem o mesmo valor para todos os observadores, independente de seus estados de movimento. Aparentemente simples estes princípios são deveras revolucionários, conduzindo, como se sabe, ao conceito de espaço e tempo relativos e promovendo a estranha unificação o entre essas duas quantidades nunuma nova entidade física: o espaço-tempo. Além disso, revela a a inconsistência

do conceito de simultaneidade que também passa a depender do sistema de referência de cada observador, não havendo também, qualquer referencial privilegiado. Porém, diferente do que muitas pessoas acreditam, a Teoria da Relatividade não foi construída para dar vazão ao relativismo e postular queue, a partir de então, tudo é relativo. Muito pelo contrário, o objetivo maior de Einstein era salvaguardar as leis físicas, e o seu alcance determinístico, garantindo a sua invariância mediante as modificações dos referenciais, mesmo que para isso tivesse que sacrificar os conceitos absolutos de tempo e espaço e postular um absoluto para velocidade da luz, que se torna independente de qualquer sistema de referência.

É novamente do seio da termodinâmica, particularmente no que se refere ao estudo da radiação de cavidade, que uma nova crise vai resultar em uma forte rachadura nas estruturas deterministas da mecânica clássica. Uma nova e controvertida construção teórica relacionada ao universo das partículas subatômicas: a Mecânica Quântica, vai estabelecer como mo princípio a inevitável incerteza concernente às medidas simultâneas de posição e momento ? x.?p = h, como também, uma relação de incerteza relativa a medidas simultâneas do tempo e da energia, ?t.?E = h Nesse caso, não nos é permitido observar o átomo no momento exato de um decaimento, nem determinar com certeza a sua duração sem diminuir o conhnhecimento da energia.

Também nos é negado o conhecimento simultâneo da posição e da quantidade de movimento de partículas elementares, o que remete novamente a questão para o terreno das probabilidades. Nesse caso, como nos lembra Maturana (2001, p.137), o sistema muda de estado quando é observado, de modo que a própria intenção do observador de antever seu curso estrutural os arranca de seu domínio de previsão.

Embora as conclusões da Mecânica Quântica sejam, de fato, perturbadoras para o caráter determinístico da Mecânica Clássica, o que para muitos parece configurar como uma grande crise do paradigma que sustenta a ciência moderna, não nos parece poder ser entendido como tal. Sobretudo, se considerarmos que todo o problema, é resolvido dentro de uma mesma lógica matemática em que a realidade científica parece ser uma realidade ideacional. Assim, ao determinar o tamanho da incerteza e controlar as flutuações probabilísticas, novamente é fortalecida a crença nas possibilidades das leis físicas e de sua capacidade de descrever a realidade até mesmo em seus imprevisíveis escorregões .

## 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Caso acreditemos, como nos lembra Hawking (1988, p.32), que o universo não é arbitrário, mas governado por leis bem definidas, e se de fato há uma teoria ia completa e unificada, ela certamente determinará as nossas ações. De certo, as leis físicas não têm a pretensão de negar o devir em nome da verdade do ser. Mas, conforme nos mostra Prigogine (1996, p.19), ao procurar descrever a mudança, os movimentos cararacterizados por velocidades ao longo do tempo, seus enunciados acabaram constituindo um triunfo do ser sobre o devir . Levado as últimas conseqüências esse pensamento vai de encontro ao livre arbítrio, a criatividade e a responsabilidade do homem perante seus atos. A esse respeito, Einstein tinha uma visão especialmente clara.

Se a Lua, enquanto efetua o seu eterno curso ao redor da Terra, fosse dotada de consciência de si mesma, estaria profundamente convencida de que se move por sua própria vontade, em função de uma decisão tomada de uma vez por todas. Da mesma forma, um ser dotado de uma percepção superior e de uma inteligência mais perfeita, ao olhar o homem e suas obras, sorriria da ilusão que esse homem tem de agir segundo a sua própria vontade livre (apud PRIGOGINE, 1996, p.20).

Como se percebe, Einstein assume uma posição radical que, de seu ponto de vista, era a única compatível com os ensinamentos da ciência. Contudo, convenhamos, esta não é uma propositura simples de aceitar, e neste particular, temos que concordar com Popper quando afirma:

Considero o determinismo laplaciano, confirmado como parece estar, pelo determinismo das teorias físicas e pelo brilhante sucesso delas - - - o obstáculo mais sólido e mais sério no caminho de uma explicação e de uma apologia da liberdade, da criatividade e da responsabilidade humanas (apud PRIGOGINE, 1996, p.21).

De acordo com Popper, o determinismo torna impossível o encontro do homem com a realidade e só no tempo e na mudança encontraremos o fundamento essenc ial do realismo. A existência do tempo, conforme sugere Bérgson, prova que há certa indeterminação nas coisas, e a própria física não fecha questão nessa matéria, apresentando duas correntes bastante adversas no seu interior. A primeira representada pelas leis de Newton como protagonistas de um universo estático e determinístico, e a segunda pela termodinâmica, oferecendo uma descrição evolutiva associada à entropia, o indeterminismo e a irreversibilidade.

No entender de Prigogine apud Sevalho (1997) esta nova forma de ver as coisas considerando uma flecha do tempo e uma irreversibilidade, propicia o entendimento da ordem biológica orientada para uma complexidade cada vez maior e para a possibilidade de inovações. Portanto, no contexto de uma termodinâmica não linear e de não -equilíbrio, seriam aceitáveis os fenômenos de auto -organização, a associação intercelular e a formação de organismos superiores. Por outro lado, acredita que o tempo precede a criação do universo e que o Big Bang, além de não ser uma siningularidade, não significa o começo do tempo, mas apenas instabilidade , mudança de fase em um processo que se desenvolve em escala maior. "O universo tal como nós o vemos é, então, o resultado de uma transformação irreversível, e provem de um outro estado físico" (PROGOGINE, apud SEVALHO, 1997).

De hoje por diante, essas dimensões todas se articulam ao invés de se excluírem. O tempo reencontrado por Prigogine, com o qual queremos compartilhar, é também o tempo que não fala mais de um homem solitário em um universo que lhe é estranho, e sim de uma nova e eterna aliança do homem com a natureza que ele descreve, em um reencontro da onda com a partícula, da matéria com a energia, do ser r com o pensar. O futuro não é dado, mas está em perpétua construção, e é nesse permanente devenir que encontramos lugar para nossa liberdade. Embora careçamos de leis que nos permitam marchar com segurança, é no caos e na incerteza que encontramos a possibilidade da criação, da novidade e da vida . É nesta tensão que só se resolve colada na práxis histórica que encontramos o sentido de nossa liberdade.

Enganaram-m-se, portanto, todos os profetas que determinaram o fim da história, o fim da física ou o fim do mundo. Na verdade, quando tudo parece tranqüilo e acabado, uma nova fase de trtransição nos revela que estamos apenas começando. Hoje, mais humilde, a nova física, mais próxima das ciências sociais, nos ensina que é possível construir um mundo diferente e que a novidade é inerente à própria natureza.

## REFERÊNCIAS

ALVARENGA, B., 1997. Em busca da unificação. Abertura do XII Simpósio Nacional de Ensino de Física, Belo Horizonte, MG,1997.

BEM -DOV, YOAV. Convite à física, Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro. 1996.

BORNHEIM, G. A., Os Filósofos Pré-socráticos. Cultrix, São Paulo - SP, 1993.

CHAUÍ, Marilena, S. Introdução à história da filosofia: dos pré -socráticos a Aristóteles. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

HAWKING, S. W., Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros. Trad. Maria Helena Torres. Rocco, Rio de Janeiro, 1988.

LUCIE, P. A A gênese do método científico. Editora Campus, Rio de Janeiro,1977.

MARTINS, A.F.P., Concepções de estudantes acerca do conceito de tempo: uma análise à luz da epistemologia de Gaston Bachelard. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, IFUSP/FEUSP, São Paulo, 2004.

MATURANA R. & HUMBERTO VARELA, F. J. A Arvore do Conhecimento: As Bases Biológicas da Compreensão Humana. Campinas, Psy, 1995.

NUSSENZVEIG, H. M. Curso de Física Básica: 1 Mecânica. Ed. Edgard Blucher, 1981.

PRIGOGINE, I. & STENGERS, I., A A Nova Aliança. Trad. Miguel Faria e Maria Joaquina Machado Trincheira. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997.

PRIGOGINE, I., O Fim das Certezas: Tempo e caos e as leis da natureza. Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo, UNESP, 1996.

RONAN, C. História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge. Volume 4: a ciência nos séculos XIX e XX. Tradução Jorge Enéas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 2001.

SALAM, A.; HEISENBERG, W.; DIRAC, P. A. M. A unificação das forças fundamentais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, 105p.

SERVALHO, G., Tempos históricos, tempos físicos, tempos epidemiológicos: prováveis contribuições de Fernand Braudel e Ilya Prigogine ao pensamento epidemiológico. Cad. Saúde Pública vol.13 n.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 1997.

TELES, Maria Luiza Silveira. Filosofia para jovens: uma iniciação à filosofia. 2ª edição. Petrópolis, Vozes, 1996

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.