EDUCAR PELA PESQUISA E OS MUSEUS DE CIÊNCIAS: UM ESTUDO DE CASO NA NANOAVENTURA
Cláudia De Oliveira Lozada, Mauro Sérgio Teixeira De Araújo, Marcelo Moraes Guzzo
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- X
- Ano
- 2006
- Data
- 18/08/2006
- Linha de pesquisa
- Pôster - Resultados Parciais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## Educar pela pesquisa e os museus de Ciências: um estudo de caso na Nanoaventura
Cláudia de Oliveira Lozada, Mauro Sérgio Teixeira de Araújo Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL) - SP - - - Brasil
Marcelo Moraes Guzzo Instituto de Física Gleb Wataghin - Universidade Estadual de Campinas
## Resumo
Os espaços não formais de ensino e aprendizagem de Ciências, quando adequadamente explorados, tendem a permitir o desenvolvimento de valores, competências e habilidades, além de promover a aproximação do público com conhecimentos científicos, capazes de auxiliá-los a compreender diversos aspectos do mundo que os cerca. Estes espaços são propícios para a alfabetização científica, o letramento científico e o educar pela pesquisa, possibilitando na maioria das vezes uma a grande interação entre os visitantes e as equipes de monitores, interação com os equipamentos que compõem as mostras científicas, bem como a realização de diferentes atividades lúdicas que tendem a despertar a curiosidade e o interesse do público em geral .
Neste artigo pretende-se abordar alguns aspectos do educar pela pesquisa, segundo as concepções de Pedro Demo 1 , no contexto dos espaços não formais de ensino de Ciências, destacando a importância do planejamento de um trabalho que vise articular os conhecimentos escolares aos conhecimentos presentes nestes espaços, propondo um projeto de visita e de atividades baseados na aprendizagem significativa.
Para tanto, foi planejado e desenvolvido um projeto de visita com grupos de alunos do Ensino Médio ao espaço Nanoaventura, uma iniciativa do Museu Exploratório de Ciências de Campinas e temporariamente situado na cidade de São Paulo, tendo em vista avaliar algumas características do processo educativo que se realiza nesse espaço, cujos resultados devem conduzir r a uma prática reflexiva sobre ensinar Física.
Palavras -chave: Espaços não formais de ensino, Educar pela pesquisa, Ensino de Física
## Introdução
- O presente trabalho está relacionado ao desenvolvimento de uma etapa de pesquisa e visa analisar os resultados de um estudo comparativo entre grupos de alunos escolares cuja visitação ao espaço Nanoaventura, um projeto do Museu Exploratório de Ciências de Campinas (SP), precedera ou não de um planejamento.
- O objetivo central da pesquisa consiste na identificação dos efeitos produzidos por um trabalho articulado entre a educação escolar e a educação museal, tendo por base a concepção de Pedro Demo 1 sobre educar pela pesquisa, visando propagar a educação científica nas escolas, atualmente deficiente, e melhorar a qualidade do ensino de Física.
Nesse estudo, busca-se verificar a ocorrência de aquisição de valores de natureza conceitual, procedimental e atitudinal, com a adoção de novas posturas não só pelos alunos como também pelos professores em relação ao ensino de Física, no sentido de se
caracterizar a vivência de uma experiência que propicie um repensar a prática pedagógica capaz de contribuir para que a aprendizagem se tornasse de fato significativa.
Deste modo, para atingir-se o objetivo proposto ao trabalho, discorre-se, inicialmente, sobre a relação existente entre os museus de ciências, abordando divergências conceituais, com a educação e a influência cultural, concentrando-se na concepção de educar pela pesquisa. Na etapa final, é apresentado o estudo de caso o centrado no espaço da Nanoaventura e suas implicações para o ensino de Física.
## 1. Museus de Ciências e educação
Ao longo da história da humanidade, os museus desempenharam relevante papel ao aproximar a sociedade do conhecimento científico. De uma maneira não sistematizada, contribuíram para a educação científica, muitas vezes complementando o trabalho das escolas. Nestes espaços, as exposições frequentemente são apresentadas de maneira interativa, experimental e lúdica (Sabbatini, 2003:1).
Os museus de ciência e tecnologia tal qual são apresentados atualmente foram inspirados no Deutsches Museum, fundado em 1903, em Munique na Alemanha, no qual os visitantes interagiam com os objetos da exposição.
Nesse sentido, os propósitos do Deutsches Museum eram o entretenimento, a preservação de artefatos marcantes da História da Ciência e da técnica e a difusão do ensino de princípios científicos. Enfim, pode-se afirmar que a preocupação dominante era o aspecto educativo e divulgador (Cazelli et al, sd:a, 3). Delineava-se a partir de então os contornos pedagógicos que comporiam também o perfil de muitos museus ao redor do mundo, intensificando-se com o passar do tempo o desenvolvimento de pesquisas sobre os processos de aprendizagem ocorridos nestes espaços e qual o papel educacional que desempenham. A esse respeito, Marandino afirma:
"Os anos de 1960 foram marcantes para os museus de ciências já que estes passam a ser fortemente influenciados pelas teorias educacionais, as quais nesse momento enfatizam processos de aprerendizagem inspirados no aprender fazendo. (...) Nos anos de 1980 surgem vários museus de ciências de natureza interativa no Brasil, no bojo do desenvolvimento dos movimentos de alfabetização científica e de preocupação com o ensino de ciências no país." (MaMarandino,sd:2)
Deve -se então se questionar o que significa interação na perspectiva da educação museal. Segundo Cazelli et al, 1996 (apud Sousa, sd: 2):
" interação entende-se não só manipular módulos, acionar botões, acender lâmpadas, (...) mas também fazer associações e comentários, reagir com expressões verbais ou não, trocar impressões entre pares. Estudar os padrões de interação é compreender como se dá a apreensão dos conteúdos expostos e investigar o modo pelo qual se estabelece o processo comunicativo no Museu com sua clientela."
Dessa forma, concebe-se o processo de interação nos museus de ciências de três formas: interação entre sujeitos por meio da linguagem, entre sujeitos e objetos e entre sujeitos e contextos. A ação do sujeito na concepção ão construtivista é fundamental nos processos cognitivos, ou seja, nos processos de formação e apropriação de conhecimentos (Colinvaux, 2005).
## 1.2. Modalidades de educação: divergências conceituais
Acredita -se que a educação não é exclusiva do ambiente escolar. Segundo Libâneo (1999), a educação deve ser considerada sob duas modalidades: a educação informal e a educação formal. O que as diferencia é o caráter de intencionalidade, sendo que essa intencionalidade abrange a educação formal e não formal, não constituindo característica da educação informal. Apesar disso, Libâneo afirma que isso não significa, absolutamente, que sejam negados seus efeitos educativos, mesmo porque é muito em virtude desses fatores e influências não intencionais que se dá o processo de socialização. A importância desses espaços para a aprendizagem assume destaque na medida em que a LDB estabelece em seu artigo art. 3º, X, que as experiências extra-escolares devem ser valorizadas.
Assim, a educação formal para Libâneo é estruturada, organizada, planejada intencionalmente, sistemática, afirmando ainda o mesmo que onde haja ensino (escolar ou não) há educação formal. Nessa concepção, o autor define educação não formal como aquelas atividades com caráter de intencionalidade, porém com baixo grau de estruturação e sistematização, implicando certamente relações pedagógicas, mas não formalizadas .
Por sua vez, Gohm (apud Vieira), define educação não formal como a que proporciona a aprendizagem de conteúdos da escolarização formal em espaços como museus, centros de ciências, ou qualquer outro em que as atividades sejam desenvolvidas de forma bem direcionada, com um objetivo definido. Concepção semelhante a essa também é seguida por Sabattini (ibid).
Diferentemente dos autores anteriormente citados, Gaspar e Hamburger (2004) definem os museus de ciências como espaços informais de ensino, por considerarem diversas variáveis, tais como a diversidade de público, o que pode implicar na necessidade de se utilizar mais de uma linha pedagógica, e a liberdade de abordagem de conteúdos sem compromisso com currículos pré-estabelecidos. Observam esses autores que inúmeras pesquisas sobre a abordagem e a ocorrência de alguma forma de aprendizagem nos museus e centros de ciências têm sido realizadas, sendo ainda pouco conclusivas. Nessa concepção pode ser inserido Barros (1998), que também entende que os museus de ciências estão inseridos na educação informal.
- O Relatório Jacques Delors para a UNESCO, da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, assevera que diante de uma educação pluridimensional, desenvolvida ao longo da vida, as instituições assumem novos papéis:
"Por um lado, as instituições culturais como os museus ou as bibliotecas tendem a reforçar as suas funções educativas, já não se limimitando apenas a tarefas científicas ou de conservação do patrimônio. Por outro lado, o sistema escolar tende a cooperar mais com essas instituições. "( Delors, 1999:115)
Isto evidencia que há uma "complementaridade das formas e dos espaços educativos correrespondentes" " ( ibid,116).
Consta -se, assim, que o debate não foi exaurido, possibilitando fortalecer os estudos para a formulação teórica da identidade dos museus. Contudo, acredita-se ser inegável a influência dos museus no processo educacional, seja com m maior ou menor intensidade.
## 1.3. Museus de Ciências, a cultura e a escola
Educar pela pesquisa no contexto atual em que o pensamento complexo nos confronta com a incompletude e com a incerteza é um desafio. Esse desafio é alimentado pela proposição de uma a inteligência coletiva, associada inclusive à idéia de uma aprendizagem coletiva, e pela difusão da cibercultura, promovendo mutações na educação e nos saberes. Desse modo, a educação se coloca sob a égide da transculturalidade para suportar as transformações ocorridas na sociedade. Conforme destaca Oliveira (2001:101):
"Portanto, para discutir a função da escola no mundo contemporâneo e estabelecer de forma mais realista os objetivos do ensino de ciências, é preciso estar atento à complexidade do fenômeno cultura(...)"
- O mesmo autor afirma ainda que nos dias de hoje, ensinar ciências é também ter atenção para as questões ligadas a hábitos, costumes, crenças, tradições, que não são deixados pelo alunado do lado de fora da sala de aula (ibid, 121). A educação deve considerar a diversidade e promover um ensino de cunho dialógico e problematizador (ibid, 120) que considere o saber científico, o saber escolar e o saber cotidiano.
Nesse sentido, os museus de ciências trazem implícitos também a cultura dos povos em suas exposições por meio dos artefatos e dispositivos, que concebem a evolução do pensamento científico, os esforços para se aprimorar determinado objeto, o que demonstra a essencialidade da pesquisa. A esse respeito, Aranha (1989:16) ressalta que:
"Cultura é a produção intelectual de um povo, expressa nas manifestações filosóficas, científicas, artísticas, literárias, em resumo, nas suas manifestações espirituais"
Sobretudo, há que se considerar também a existência da Etnociências 2 , segundo a qual os membros da sociedade geram, acumulam e transmitem seus conhecimentos.
## 2. Educar pela pesquisa: as concepções de Pedro Demo
Qual a idéia que os alunos possuem acerca da pesquisa?
Analisando a herança do ensino livresco, que se perpetuou ao longo do tempo como procedimento arraigado, ainda que combatido por especialistas em educação, não é difícil de se responder a questão acima. Os alunos atrelam a pesquisa a cópias intermináveis de livros, enciclopédias, com caráter reprodutivo e não reflexivo ou associam a a pesquisa à condição apenas de cientistas ou pesquisadores das Universidades, que exercem suas atividades como parte de sua profissão (Demo, 2003). Demo (2003: 5) coloca os 4 pressupostos fundamentais para se educar pela pesquisa:
- -a convicção de que a educação pela pesquisa é a especificidade mais própria da educação escolar e acadêmica,
- -o reconhecimento de que o questionamento reconstrutivo com qualidade formal e política é o cerne do processo de pesquisa,
- -a necessidade de fazer da pesquisa atitude cotidiana do professor e do aluno,
- -a definição de educação como processo de formação da competência histórica humana.
Estes pressupostos explicitam que não se pode conceber a escola como mecanismo reprodutor de conhecimentos que contempla a educação bancária, a papassividade do aluno. A escola é o centro epistemológico (Antunes, 2006) e como tal não pode assumir uma postura endógena diante do saber, nem constituir-se um sistema fechado, hermético, no qual prevalecem regras impostas para se ensinar e aprender Física. A escola precisa enfrentar o desafio de ensinar Física não como algo incontestável, pronto, acabado, e o educar pela pesquisa pode ser considerado como ponto de partida desse enfrentamento. Os PCNs enfatizam que as escolas devem propagar a ciência como uma construção humana,
falível, e como tal pode ser revista, repensada. Além disso, permitem que se faça uma análise da evolução do pensamento científico e da queda dos paradigmas na Ciência, residindo ai o questionamento reconstrutivo, que contempla a elaboração própria.
- O questionamento reconstrutivo começa com o saber procurar e questionar, em outras palavras, com o ato de pesquisar. Naturalmente, o fator motivação torna-se essencial, de modo que por meio do saber adquirido o aluno vai exercitando seu espírírito crítico e autocrítico, valorizando posturas dialéticas. Para o autor, o discurso escolar deve ser baseado em expressões fundamentadas, no sentido de que as argumentações sejam consistentes, com lógica, embasadas em pesquisas.
Em sua obra Demo (2003: 31-33) destaca estratégias que facilitam ou instigam o questionamento reconstrutivo, tais como as motivações lúdicas, o hábito de leitura, hábito este que inclusive está sendo resgatado por nossas escolas em face aos problemas que os alunos têm apresentado em relação à interpretação de textos e enunciados, o manejo eletrônico relacionado às novas tecnologias de informação e comunicação, o apoio familiar, pois o processo de aprendizagem não é apenas um problema escolar, pois necessita de acompanhamento familiar, e o uso intensivo, racional e produtivo do tempo escolar.
Sob o olhar do educar pela pesquisa, o planejamento das atividades a serem desenvolvidas requer vários cuidados, em especial com o planejamento da aula, que deve considerar a seleção adequada de conteúdos, a introdução de formas de avaliação alternativas, o desenvolvimento de competências e habilidades, bem como a criação de um ambiente positivo para que se dê a participação ativa do aluno e que nos trabalhos em equipe se cultive a disciplina e a organização em favor do crescimento do grupo (op. cit).
## 2.1. O educar pela pesquisa e os museus
A base da educação escolar, conforme defende Pedro Demo, é a pesquisa e esta deveria ser uma prática cotidiana em nossas escolas. No entanto, o que se verifica na maioria das situações é que essa não é uma característica que se faz presente, que foi incorporada, vivificada por nossos sistemas educativos. Desse modo, os museus de ciências podem impulsionar, "acordar", desencadear o processo de educar pela pesquisa, possibilitando uma articulação entre o trabalho escolar e a educação museal, propondo-se atividades que aprofundem os temas presentes nas exposições dos museus ou conduzam a outros temas relacionados ou ainda constituam fator gerador de pesquisa em outros temas de ciências. Desse modo, acredita-se que os museus podem motivar o educar pela pesquisa na área de Física, bem como estimular o desenvolvimento das inteligências intrapessoal e interpessoal (Antunes, 2001).
Contudo, o papel do professor e do aluno sob a ótica do educar pela pesquisa assume outra faceta, uma vez que o profissional da educação deve ser um educador pesquisador capaz de manejar a pesquisa como princípio científico e educativo e a tenha como atitude cotidiana, tendo o aluno como um paparceiro de trabalho. Por sua vez, os alunos tendem a ganhar autonomia, tornam-se responsáveis pelo processo de aprendizagem e cultivam o hábito do auto conhecimento, desenvolvendo ainda a capacidade de saber pensar e cultivar o aprender a aprender. Além disso, muitos dos problemas em relação a apreensão de conceitos científicos por parte dos alunos poderão ser sanados por meio da pesquisa e da discussão dos mesmos, até mesmo porque poderão ser construídos, desconstruídos e reconstruídos adquirindo assim significado para o aluno. O educar pela pesquisa em Física, baseado na articulação entre educação escolar e educação museal, pode contribuir para a educação científica, na medida em que proporciona a alfabetização científica, pois promove a aprendizagem de conteúdos e da linguagem científica, e o letramento científico decorrente do uso da ciência e do conhecimento científico no cotidiano, no interior de um contexto sócio -histórico específico (Zimmermann, sd: 3).
Propõe-se então que as visitas ao museus de ciências sejam inicialmente inseridas no contexto escolar como projetos de trabalho. Segundo Hernández (1998: 89) apud Queiroz (2005: 64-65) os projetos de trabalho levam em conta:
- -a abertura para os conhecimentos e problemas que circulam foram da sala de aula e que vão além do currículo básico;
- -a importância da relação com a informação que, na atualidade, se produz e circula de maneira diferente do que acontece em épocas recentes;
- -a importância de saber reconhecer " os lugares" dos quais se fala;
- -a função dos registros sobre o diálogo pedagógico que acontece na sala de aula e em diferentes cenários, para expandir o conhecimento do aluno e responsabiliza-a-lo pela necessidade que tem de aprender dos outros e com os outros;
- -a avaliação que passa a fazer parte das experiências substantivas de aprendizagem, na medida em que permite a cada aluno reconstruir seu processo e transferir seus conhecimentos e estratégias a outras circunstâncias e problemas.
Ressalta -se, ainda, que o educar pela pesquisa não se constitui uma metodologia de ensino, mas um princípio educativo, como se vê na transcrição adiante:
- "O educar pela pesquisa não é uma metodologia de ensino. Não se acredita que possa existir uma metodologia única, um currículo único, uma forma única de fazer escola, ensino, pesquisa. Pensar em objetivos universais vai de encontro a diversidade de realidades, salas de aula, escolas, alunos, professores, culturas, sociedades." (Moraes & Mancuso, 2004: 97)
## 4. Nanoaventura: um estudo de caso envolvendo o educar pela pesquisa
A Nanoaventura é uma iniciativa do Museu Exploratório de Ciências de Campinas, que apresenta como objetivo, além de despertar a curiosidade para o mundo das ciências, possibilitar o contato com a Nanociência e a Nanotecnologia, empregando quatro jogos que simulam situações reais, ou seja: 1) laboratório virtual, 2) nanocircuito, 3) nanomedicamento e 4) preparação de amostra. Trata-se de uma exposição itinerante, interativa, lúdica, educativa e que trabalha sob o enfoque CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade).
A Nanociência é a área do conhecimento que estuda as estruturas que têm ao menos uma de suas dimensões físicas da ordem de dezenas de nanômetros. Por sua vez, a Nanotecnologia caracteriza-a-se pela capacidade de observar, medir e mexer nos átomos, bem como criar novos materiais a partir deles (Contier, sd: 5), sendo uma área do conhecimento físico que teve seu início com os estudos de Richard Feynman em 1959. A pesquisa realizada na Nanoaventura foi baseada na coleta de dados, entrevista e análise documental, contando ainda com uma avaliação de natureza qualitativa. Além disso, um relatório fornecido pelo Museu Exploratório de Ciências de Campinas sobre avaliações realizadas do espaço, contribuiu para identificar as variáveis apresentadas pelos grupos escolares que visitaram o museu em meses anteriores.
Analisando o relatório citado acima, percebeu-se que os alunos costumam confundir os conceitos de átomo, molécula e célula. Ademais, a pesquisa observacional realizada nos meses de fevereiro e março de 2006 com grupos escolares, permitiu identificar a ausência de um planejamento para a visitação ao espaço. Pôde-se identificar também que grande parte das escolas que visitaram a exposição consistia de estabelecimentos particulares de ensino, o que pode configurar um baixo engajamento das escolas públicas em promover o contato de seus alunos com museus de ciências. Duas possíveis justificativas chamaram a atenção para esse fato:
- 1) As escolas técnicas justificavam a visita a exposição como uma oportunidade de " entrar em contato com uma nova tecnologia". Em geral, os professores dessas escolas se limitavam a fazer um breve comentário sobre o local antes da visitação, não se aprofundavam nos temas ali abordados e nem sequer desenvolviam um trabalho de pesquisa com os alunos sobre o tema da exposição.
- 2) Muitas escolas particulares justificaram que não realizaram um trabalho anterior com os alunos sobre o tema da exposição, pois utilizam sistemas próprios de ensino e possuem prazos para cumprir os conteúdos, de modo que se limitavam a fazer breves comentários sobre o tema da exposição ou, em alguns casos, nada comentavam com eles.
Constatou -se também que em geral os professores não costumam fazer uma visita prévia para conhecer o local.
Assim, tomando como base alguns pontos cruciais acima citados, iniciou-se a elaboração de um projeto de visitação, cuja concretização ocorreu levando-se em consideração as concepções de Pedro Demo sobre educar pela pesquisa, utilizando-se de uma metodologia de visita orientada adaptada do trabalho de Freitas & Martins (2005: 3).
Após a elaboração do projeto de visitação à Nanoaventura, entrou-se em contato com uma instituição de ensino particular que agendara previamente sua visita, sendo apresentado o projeto para que pudesse apreciar r e efetuar as adaptações necessárias com vistas a sua aplicação, levando em conta as especificidades da instituição. Com a anuência da instituição ao projeto, foi possível realizar o acompanhamento da atividade.
Efetuou -se um estudo de caso baseado na instituição particular selecionada, sendo que o primeiro desafio enfrentado consistiu em encaixar o projeto "Educar pela pesquisa no contexto dos museus de ciência" no prazo dos conteúdos programáticos dessa instituição, uma vez que a escola já utiliza um sistetema de ensino. A coordenação da execução do projeto ficou a cargo da professora de Química, que previamente visitou o espaço da Nanoaventura e efetuou a adaptação do projeto à realidade de sua escola e de sua turma do 1º ano do Ensino Médio. Cabe ressaltar r que a professora em questão havia entrado em contato com o trabalho de Henrique Eisi Toma3 a3 , "O mundo nanométrico -a dimensão do novo século", o que ampliou seus horizontes, consagrando a perspectiva do educador pesquisador. Procurou-se ainda viabilizar um um trabalho interdisciplinar com as disciplinas de Biologia, tendo em vista as implicações na Nanotecnologia na Medicina, na Farmácia e na Microscopia, bem como com a Matemática, por meio do uso de escalas.
Na fase final foi ministrada uma aula sobre o tema, sendo fornecidas orientações aos alunos sobre como pesquisar, destacando-se que a utilização de recursos de pesquisa deve estar associada com uma atitude crítica e reflexiva sobre o material pesquisado, visando aprofundar o tema e promover as discussões desejadas. Após as discussões, os alunos elaboraram questões para serem esclarecidas na Nanoaventura.
Durante a visita ao espaço da Nanoaventura foram identificados indícios de mudança de postura por parte dos alunos em decorrência do trabalhado realizado na pré-visita. Houve um interesse maior por parte dos alunos em interagir com os jogos, pois puderam aplicar muitos conceitos que haviam desenvolvidos na pesquisa. A interação entre os alunos também foi positiva, uma vez que eles se instruíam mutuamente trtrocando orientações na execução dos jogos. Muitos alunos levaram gravadores portáteis e pequenas câmeras digitais para registrar as informações transmitidas pelo vídeo que antecede aos jogos.
Ao final, levantaram questões que haviam elaborado, recebendo o adequado esclarecimento. A visita foi acompanhada pela professora responsável por viabilizar a aplicação do projeto e pela coordenadora pedagógica do colégio.
O acompanhamento desse trabalho continua sendo realizado, pois os alunos estão elaborando painéis, maquetes e outras pesquisas complementares visando à realização de uma feira cultural a ser promovida pela escola. Após essa fase, serão distribuídos questionários para finalizar a avaliação processual e, assim, serem obtidos os resultados finais dessa a pesquisa.
Um segundo estudo de caso envolvendo uma instituição pública foi desenvolvido, sendo o grupo escolar que visitou a Nanoaventura composto por alunos da 1ª e da 2ª séries do Ensino Médio da rede pública estadual. Nessa nova situação, o projeto sofreu uma adaptação mais substancial visando articular os conteúdos desenvolvidos em sala de aula relativos a estrutura atômica com a Nanotecnologia. Nesse sentido, para os alunos da 1ª série do Ensino Médio, o projeto deveria conduzir a uma reapresentação do átomo por meio da tecnologia, pois o conteúdo átomo havia sido desenvolvido na oitava série. Constatou-se que o trabalho propiciou uma resignificação dos conceitos que foram apresentados na série anterior (8ª série) e que seriam aprofundados na disciplina de Química no Ensino Médio, pois dessa vez estavam devidamente contextualizados.
Um questionário com dez questões foi respondido pelos alunos anteriormente à realização da visita para identificar suas concepções acerca de conceitos físicos como o átomo e a molécula, além da Nanociência e da Nanotecnologia.
A análise do questionário mostrou que os alunos apresentam deficiências na compreensão de escala e de notação científica. Sessenta por cento dos alunos afirmaram não fazer idéia do tamanho do átomo e 9090% afirmou não ser capaz de representar o tamanho do átomo por notação científica. Setenta por cento afirmou que não há nada no interior do próton, o que demonstra que desconhecem a existência de uma estrutura fina dos átomos. Outros resultados obtidos permitiram constatar que havia apreensão prévia de alguns conceitos: 90% afirmaram ter estudado sobre átomo na série anterior; 90% informaram existir diferença entre átomo, molécula e partícula; 100% dos alunos respondeu que o átomo é composto por prótons, nêutrons e elétrons; 70% afirmou ser possível manipular moléculas, embora 90% tenha afirmado não saber o que era Nanociência e 60% desconhecia o que era Nanoctecnologia.
Analisando -se as respostas, algumas iniciativas foram tomadas, com destaque para a decisão de não promover uma aula sobre o tema, mas sim oportunizar a realização de uma pesquisa pelos alunos. Dessa forma, os alunos foram orientados a pesquisar por inúmeras fontes, devendo apresentar um trabalho sobre o tema e os sub-temas propostos, para somente em seguida poderem visitar a exposição.
Observou -se que o vídeo apresentado na exposição conseguiu explicitar dúvidas sobre escala e esclarecer os conceitos de Nanociência e Nanotecnologia. Os alunos conseguiram visualizar as aplicações da Nanotecnologia que haviam pesquisado, sendo capazes de relacionar vários ramos da ciência. Verificou-se que os alunos atuaram de maneira concentrada na execução dos jogos propostos, procurando conciliar a teoria com a prática, devendo-se ressaltar que houve uma visita prévia da professora de Física ao local.
Acredita -se que as mudanças atitudinais deverão se processar a longo prazo, o que poderá ser verificado na medida em que este grupo deverá ser acompanhado, orientado e envolvido em um projeto maior relacionado ao ensino de Física, que será proposto para melhorar o ensino desta disciplina na rede pública, com destaque para o ensino de Física. Para a avaliação da pós-visita à Nanoaventura os alunos deverão apresentar seminários e É responder a um questionário avaliap tivo que será oportunamente distribuído. É relevante destacar que neste grupo, a professora orientou e mediou o desenvolvimento da atividade realizada no espaço da Nanoaventura no sentido de prover aos alunos condições para que procurassem suas próprias respostas para as indagações.
O acompanhamento deste grupo demonstrou a deficiência do ensino de Física na rede pública, que apresenta características reprodutivas de conhecimento e passividade
diante dos processos de ensino e aprendizagem, indicando, porém, meios para que essas deficiências possam ser ao menos minimizadas.
## 5. Conclusões
O trabalho aqui desenvolvido, baseado nas atividades relacionadas ao espaço da Nanoaventura, apontou a necessidade dos museus de ciências 4 intensificarem a realização de um trabalho de orientação aos professores, que pode ser feito por meio de formação continuada sobre a utilização e finalidades dos museus de ciências. Além disso, os aspectos levantados permitem acentuar a idéia de valorização e preservação dos museus de ciências sob uma perspectiva histórico-o-social de divulgação da construção de conhecimentos científicos pela humanidade, pois permite aos visitantes perceber importantes aspectos relacionados à produção do conhecimento científico e as possibilidades de suas aplicações, gerando impactos em sua realidade.
Considera -se conveniente que as escolas insiram em seus planos de ensino visitas aos museus de ciências e concretize essas atividades, incorporando essas ações ao perfil escolar, avançando inclusive no sentido de propor uma mudança curricular. Tais medidas se mostram necessárias e podem ser discutidas no período de seu planejamento anual, que se dá no início do ano letivo, pois nota-se que a ausência de um planejamento de visita e de atividades elaboradas pelos professores conduz ao pouco aproveitamento do espaço durante a visita. Esse planejamento deve incluir uma avaliação diagnóstica sobre os conhecimentos prévios dos alunos para apontar deficiências e procurar supri-las adotandose a ótica do educar pela pesquisa.
Outro aspecto a ser trabalhado no planejamento da visita diz respeito ao comportamento dos alunos, tendo em vista abordar a questão da indisciplina, que não está presente apenas no ambiente escolar. Para tanto, cabe aos professores orientar os alunos quanto ao respeito pelos colegas, pelo espaço, pelos monitores dos museus, enfim, desenvolver o respeito que é um ponto básico de cidadania.
Embora se saiba que os museus de ciências não têm como escopo substituir a escola na formação dos conhecimentos científicos, fica bastante evidenciado que também possuem uma ação educativa como foi possível constatar ao longo do desenvolvimento desse trabalho.
Assim, considera-se oportuno e urgente a necessidade de se buscar uma articulação entre a educação escolar em em Física e a educação museal, bem como repensar a prática docente em Física e as características do aluno que se quer formar nessa área.
Nesse contexto, o educar pela pesquisa conjuga várias idéias de documentos oficiais que concebem o ensino como algo dinâmico, o aluno como sujeito do processo de aprendizagem, a formação crítica e consciente que pressupõe uma aprendizagem significativa, que não se esgota, mas que se reconstrói na medida em que se ganha É gqgq autonomia por meio da pesquisa. É preciso disseminar a educação pela pesquisa como prática cotidiana em nossas escolas desde as séries iniciais da educação escolar, para que faça parte da vivência e constitua elemento formador do perfil do aluno.
Outro ponto a destacar é a necessidade de orientar professores e alunos quanto a finalidade dos museus para que desfaçam a idéia de visita como atividade que se limite ao lazer, encarada apenas como um passeio, desvinculada da aprendizagem que pode propiciar, tendo apenas o caráter de diversão. Se faz mister, fomentar a formação
continuada dos professores como já se disse anteriormente, para que possuam subsídios para incrementar sua prática pedagógica e constituir o ideal de educador pesquisador.
Além do mais é preciso concretizar uma das ações pretendidas pela Secretaria da Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (SECIS - Ministério da Ciência e Tecnologia), que prevê apoio às unidades de ensino de ciências em escolas públicas e em espaços não formais de educação, objetivando aproximar de fato os alunos da rede pública, crianças e jovens carentes do conhecimento presentes nos museus, possibilitando propagar a cultura científica.
As considerações colocadas aqui não visam esgotar as discussões acerca do uso dos espaços não formais de aprendizagem e sua relação com o educar pela pesquisa, mas sim poder contribuir minimamente para que ocorram reflexões e tomadas de decisões com relação ao ensino de Física. O trabalho de pesquisa iniciado no espaço Nanoaventura deverá prosseguir visando à verificação e o estudo de outros aspectos da educação museal. Finalizando, agradecemos ao Prof Dr Marcelo Knobel, Coordenador da Nanoaventura, e a Sandra Murrielo (UNICAMP/SP), por permitirem o desenvolvimento deste trabalho no espaço Nanoaventura e às escolas por viabilizarem a aplicação do projeto.
## 6. Referências Bibliográficas
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