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"UMA BOA AULA" NA PERSPECTIVA DE FUTUROS PROFESSORES DE FISICA

Tânia Maria F. Braga Garcia, Ivanilda Higa, Nilson Marcos Dias Garcia

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
31/01/2007
Linha de pesquisa
Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliaçao
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## "UMA BOA AULA " NA PERSPECTIVA DE FUTUROSPROFESSORES DE FÍSICA

Tânia Maria F. Braga Garcia a [taniabraga@terra.com.br]r] Ivanilda Higa a [ivanilda@ufpr.br]r] Nilson Marcos Dias Garciab ab [nilson@cefetpr.br]r]

- a Departamento de Teoria e Prática de EnEnsino e Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná -UFPR -Brasil

b Departamento Acadêmico de Física e Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná -UTFPR e Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná - UFPR Brasil

## RESUMO

Apresenta resultados de uma experiência de pesquisa e ensino que vem sendo desenvolvida desde o ano de 2001, nas disciplinas de Didática e Metodologia de Ensino de Física, na direção de discutir e propor estratégias para a formação inicial de professores, no curso de Licenciatura em Física da UFPR. Neste artigo, particularmente, serão destacados os resultados de investigação realizada com o objetivo de identificar elementos que, do ponto de vista de alunos do curso de Licenciatura em Física, contribuem para a produção de uma "boa aula", conceituação fundamental para as atividades de ensino nas duas disciplinas - - Didática, de caráter geral, e Metodologia de Ensino da Física, de natureza específica, e também para o trabalho em Prática de Ensino. Utilizouuse um instrumento de investigação dos conhecimentos prévios em forma de questionário, aplicado nos alunos de uma turma, ao início do semestre letivo, cujos resultados foram tomados como elementos para o planejamento do ensino nas duas disciplinas, articulando-as em torno de Estudo exploratório em escolas de Ensino Médio. A proposta foi desenvolvida a partir da organização e e realização de um estudo exploratório pelos alunos, em escolas da rede de ensino médio, de forma a efetivar uma aproximação em relação aos elementos que compõem o complexo cotidiano da escola e da sala de aula. A observação participante foi usada, aqui, como atividade estimuladora de uma atitude investigativa sobre o ensino e como atividade geradora de problematização. Apoiando-se em roteiros temáticos, os professores em formação realizaram suas observações e, a partir delas, levantaram questões de pesquisa que, com orientações específicas e individualizadas, foram trabalhadas do ponto de vista didático e metodológico. Os resultados permitem, após o trabalho desenvolvido nas duas disciplinas, afirmar que houve uma modificação nas concepções prévias dos alunos sobre o que é uma boa aula e sobre o significado dos conhecimentos didáticos para sua formação.

## PALAVRAS CHAVE: didática, metodologia do ensino de física, formação de professores

## INTRODUÇÃO

A compreensão de que a aprendizagem deve ser um processo de reconstrução e não de justaposição de elementos têm sido um dos pontos de confluência e acordo entre os pesquisadores que produzem conhecimento no campo educacional. Usando expressões s denotativas de diferentes opções por determinados pressupostos teóricos conhecimentos prévios, conhecimentos tácitos, conceititos cotidianos, cultura primeira, cultura expererieienciaial - os autores têm procurado destacar r o

papel relevante que o aluno ocupa nos processos de ensino, particularmente ao trazer, para as aulas, um conjunto de experiêcias individuais e coletivas que, de alglguma forma, interferem na sua apropriação dos conhecimentos escolares.

Tradicionalmente, as aulas têm sido desenvolvidas muito mais a partir da própria disciplina do que das experiências dos alunos (PÉREZ -GÓMEZ, 1998). Esse modelo de ensino -aprendizagem, m, que se estrutura independentemente dos conteúdos culturais que os alunos já construíram socialmente, também se expressa na forma como são organizadas as aulas no Ensino Superior, e em particular nos cursos de formação de professores, nos quais a idéia de que o conhecimento é algo a ser transmitido é aceita de forma hegemônica.

Ao lado disso, geralmente os cursos de e licenciatura permanecem estruturados sobre "uma perigosa e equivocada distinção de grau entre o domínio do conhecimento específico, acadêmico, e o domínio de técninicas de transmissão desse saber" (GARCIA e HIGA, 2003). Nessa perspectiva, a formação de professores se dá na medida em que os "conhecimentos específicos" são acrescidos de "conhecimentos p pedagógicos", estes últimos responsáveis por fazer a aproximação com as questões do ensino e da aprendizagem.

É importante localizar essa questão no âmbito da discussão que se fez presente ao longo dos últimos séculos sobre a a profissão docente, limitando a possibilidade de proposição de uma efetiva formação de professores por introduzir dicotomias de difícil superação, como as que se estabelecem entre as atividades de ensinar/pesquisar, entre saber científico/saber pedagógico, entre as funções de professor r e de pesquisador.

No entanto, contrariamente aos modelos dessa tradição, interessa que as disciplilinas voltadas à formação de futuros professores incluam elementos que contribuam para que se apropriem de novas formas de se estruturar as aulas. Acredita -se também que é relevante conhecer alguns elementos que compõem o pensamento desses professores em formação quanto ao que é ensinar, o que é aprender, o que é uma boa aula, tomando essas concepções como referenciais para o planejamento das atividades das disciplinas, buscando uma melhor articulação entre os conteúdos a serem ensinados e suas experiências anteriores para fazêlos evoluir na apropriação de novos conhecimentos.

De forma semelhante, interessa também propor alternativas de ensino para a formação inicial de professores a partir de outros referenciais, buscando substituir a idéia de um licenciamento - - marcada pela idéia equivocada de que se trata de adquirir certas técnicas para o ensino - pela idéia de uma formação profissional l que possibilite ao professor produzir conhecimentos no seu campo de atuação - - neneste caso específico, o ensino da Física.

Neste artigo, relatam-m-se os resultados de uma ma investigação que partiu do do levantamento dos conhecimentos prévios de professores de Física em formação inicial , para identificar o que eles pensam sobre uma boa aula e sobre o que é Didática, definindo em seguida elementos para proposta de intervenção de ensino nas disciplinas de Didática Geral e de Metodologia do Ensino de Física e , ao final, avaliando as mudanças ocorridas após o desenvolvimento dessas disciplinas.

## SUJEITOS

A pesquisa foi desenvolvida com alunos de duas turmas do Curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública da região Sul do Brasil (UFPR), que se encontravam no terceiro e no quarto anos. Nessa etapa, os alunos em geral já cursaram durante dois anos as disciplinas do ciclo

básico, chamadas "disciplinas de conteúdo específico", ministradas por professores especialistas em Física, oferecidas pelo Departamento de Física, do Setor de Cênciaias Exatas da Universidade. Em geral, já cursaram também uma disciplina ofertada pelo Departamento de Planejamento Educacional do Setor de Educação, na qual são abordadas questões ma is amplas de política e gestão educacional. É, É, entretanto, nas disciplinas de Didática e de Metodologia do Ensino de Física, do Departamento de Teoria e Prática de Ensino do Setor de Educação , que os alunos iniciam o contntato mais efetivo com os elementos didáticos que compõem a aula.

## O ESTUDO

No início io do semestre letivo, em função dos pressupostos já indicados, é prática comum nas disciplinas de Didática e de Metodologia do Ensino de Física, realizar um estudo diagnóstico para conhecer elementos que os alunos trazem de suas experiências culturais com a escola, com a aula e com o ensino, de forma a definir prioridades e estratégias para o trabalho do semestre . Dessa forma, o trabalho se estrututurura nanas seguintes etapas:

- a) lelevantamento dos conhecimentos prévios dos alunos, por meio de questionário de respostas abertas, no intuito de realizar um diagnóstico das expectativas e percepções dos alunos quanto às disciplinas em questão, bem como das idéias que já possuem m sobre o que é uma boa aula e sobre o papel que os conhecimentos didáticos têm na sua formação como professores;

b) análise e categorização dos tipos de respostas e dos níveis de compreensão dos alunos sobre o conceito de boa aula e sobre os conhecimentos didáticos;

- c) planejamento conjunto e desenvolvimento da ação didática, privilegiando a investigação em aulas e a produção de conhecimentos pelo aluno como estratégias de ensino que poderão contribuir para que reconceitualizem os elementos didáticos;
- d) reavaliação dos conhecimentos dos alunos;
- e) análise dos resultados da intervenção didática para verificar indícios de que os alunos reconstruíram suas concepções, incluindo elementos dos conhecimentos científicos que foram fornecidos pelas duas disisciplinas.

No que se refere à ação didática nas duas disciplinas, como já indicado, o eixo principal consiste num trabalho desenvolvido conjuntamente há cerca de cinco anos, com ênfase na investigação didática como uma estratégia para estimular os professores em formação à à reflexão sobre as diferentes dimensões da a prática de ensino. Esse trabalho está articulado na proposta denominada de Projeto de Estudo Exploratório em Sala de Aula, cujo objetivo é, em linhas gerais, proporcionar uma experiência de aproximação com a sala de aula no Ensino Médio, aprendendo a observar, registrar e investigar aspectos relacionados ao trabalho docente . A A atitude investigativa sobre o ensino por parte do professor em formação inicial é estimulada como atividade geradora de problematização, buscando "... efetivar uma aproximação em relação aos elementos que compõem o complexo cotidiano escolar e, particularmrmente, o cotidiano da sala de aula". (GARCIA, 2004) .

O planejamento do projeto envolve a discussão de conteúdos e temas a serem abordados , a escolha dos textos a serem trabalhados e, ainda, a seleção de atividades a serem realizadas, buscando -se a articula ção entre a Didática geral e a Didática Específica, neste caso a Didática da Física. Organiza-se, a partir desse planejamento, o projeto de estudo exploratório que é entregue aos

alunos e que contém, em detalhes, a descrição do trabalho a ser realizado, alélém de outros materiais orientadores da atividade.

- O projeto , descrito com mais detalhes em m Garcia e Higa (2003), é desenvolvido nas seguintes etapas:
- a) Primeiro contato com a escola, para identificar e registrar elementos que compõem o espaço escolar, seus us espaços e tempos, rotinas, relações. Os alunos são orientados por um roteiro e, além da observação da dinâmica da escola, procuram fazer contato com um professor que se disponha a recebê-los para acompanhar suas aulas de Física.
- b) Na segunda etapa, os alunos retornam à escola para acompanhar as aulas, realizando suas observações orientadas por roteiros que dirigem o o olhar dos licenciandos sobre elementos didáticometodológicos (relações entre professores, alunos e conhecimento; as formas do conhecimento presentes na aula, recursos e estratégias didáticas), que serão objeto de estudo ao longo do semestre letivo.

Acompanhando aulas em uma mesma série/turma do ensino médio, os alunos registram suas observações a partir dos itens sugeridos no roteiro escolhido. Após as observações de cada aula, s são elaboradas fichas de síntese contendo: elementos identificadores (escola, série/turma, data, horário, duração, nº de alunos presentes, local), anotações sobre conversas com o professor, descrição sucinta da estrutura ou "caminho" da aula, elementos significativos da relação professor/alunos.

Além da ficha de síntese, os alunos registram em detalhes suas observações sobre o tema escolhido, procurando acompanhar as sugestões dadas pelos roteiros que são, desse modo, tomados apenas como ponto de referência. Ao final das atividades de observação, é elaborado um comentário -síntese em que os alunos destacam os elementos mais relevantes de suas observações, relativos ao tema escolhido.

A partir dos comentários-síntese, cada aluno levanta hipóteses explicativas sobre aspectos do desenvolvimento das aulas que consideraram relevantes ou, ainda, questões que gostaria de estar considerando como pontos de partida para realizar um aprofundamento teórico a ser orientado pelos professores das disciplinas. Cada aluno recebe, então, orientações específicas sobre seu tema de estudo, discutindo individualmente com os professores as questões selecionadas no estudo exploratório e definindo, em conjunto, aspectos a serem aprofundados bem como referências bibliográficas a serem utilizadas.

Os alunos são orientados, ainda, a considerar em suas análises tanto as questões de natureza mais is ampla, derivadas do campo da Didática, quanto aquelas de caráter mais específico, dirigindo suas discussões para o campo do Ensino de Física. Resulta desse processo a elaboração de trabalho monográfico, produzido a partir da realização do estudo exploratório baseado na observação participante, processo em que os alunos acompanharam e registraram elementos das aula s de Física em diferentes escolas de ensino médio.

Alguns resultados obtidos com essa experiência foram explicitados em trabalhos anteriores (GARCIA e HIGA, 2003; GARCIA, 2004). ReRelata-se que os licenciandos, estimulados a explicar aspectos observados nas aulas e a apontar alternativas para as dificuldades observadas, aprofundaram sua compreensão sobre a atividade docente. Também se ressalta a compreensão de que a atividade de investigação produz um tipo de conhecimento diferenciado, quando os licenciandos identificam os elementos associados a essa questão, apontando para a possibilidade de

se tomar a pesquisa didática como um eixo central nas atividades de formação de professores, pelo menos por dois motivos: a aproximação do aluno com o espaço esescolar, tendndo como finalidade a busca, a investigação, a procura por questões e respostas; e, ainda, o contato com determinadas formas de investigar que são adequadas e necessárias para a situação específica do ensino. Também se observou uma ampliação do entendimento dos alunos sobre a especificidade da educação e do ensino, enquanto campo de investigação.

Estimulados a explicar aspectos observados nas aulas e desenvolver estudos para apontar alternativas para os problemas e dificuldades constatadas , os futuros professores aprofundam sua compreensão sobre a atividade docente. Do desenvolvimento de tal projeto resulta, também, uma modificação nas concepções dos alunos sobre o que é uma boa aula e sobre o significado dos conhecimentos didáticos para sua formação, conteúdo privilegiado neste trabalho e que será destacado a seguir .

## IDIDÉIAS DOS ALUNOS SOBRE "UMA BOA AULA DE FÍSICA"

Neste artigo, optou-u-se por colocar em destaque a análise dos resultados obtidos na aplicação dos instrumentos de levantamento de conhecimentos prévios dos alunos, tecendo algumas considerações acerca das idéias por eles expressas, tanto ao início quanto ao final do curso. É relevante lembrar que, nesta alternativa de ensino que tem sido tomada como opção na experiência relatada, trata -se de organizar as aulas na perspectiva de estabelecer um diálogo entre os conhecimentos científicos das disciplinas e os conhecimentos que os alunos já possuem, abrindo espaço para a problematização e a reconstrução dos significados.

Perguntados sobre o que, na sua opininião, constitui uma "boa aula", os futuros professores revelaram um grande distanciamento das teorias educacionais mais recentes. Constatou-u-se , na primeira fase (questionário aplicado no início do curso), a presença de maior número de respostas aproximadasas, mas não científicas em relação à produção de conhecimento no campo da Didática geral e Específica. Do total das respostas obtidas, 50% apresentaram a sala de aula como lugar da transmissão de conhecimentos. Os alunos revelam esse entendimento quando indicam que uma boa aula é aquela em que "o "os alunos entendem o que o professor expõe", ou aquela em que "o"os assuntos são expostos de forma clara e objetiva" e, ainda, em que "a maioria dos alunos compreende o pensamento do professor". .

Apenas 12,5% das respostas remeteram m à idéia de que uma boa aula é aquela que "desenvolve a curiosidade estimulando a pesquisa" ou aquela em que "o professor respeita o sentimento de descobrir". Estas respostas podem ser indiciárias da presença, entre os professores em formação, do entendimento de que a descoberta e a pesquisa, elementos essenciais na produção do conhecimento científico, também deveriam ser elemementos do método de ensino, que propiciariam uma efetiva ação dos alunos no processo de aprender .

No entanto, a a atividade do aluno foi muito mais identificada com participação por meio de perguntas e respostas nas aulas (37% das respostas) do que com ação sobre os conteúdos de ensino , verificando -se, portanto, uma falta de aproximação dos alunos com relação às teorias de aprendizagem que colocam o aluno como elemento-chave no processo de construção do conhecimento, tais como as perspectivas denominadas genericamente de construtivistas .

É É relevante, também, pontuar que mesmo tendo freqüentado aulas "práticas", ", ou tendo desenvovolvido atividades específicas de laboratório em algumas das disciplinas cursadas, os futuros professores de Física não destacaram a demonstração ou a experimentação como elementos

constitutivos de uma boa aula. Essa constatação permite levantar a possibilidade de que tais atividades desenvolvidas por eles, enquanto alunos, não foram reinterpretadas e incorporadas como conhecimento que lhes permite compreender o ensino sob outra ótica.

No caso das concepções prévias sobre a Didática, constatou-u-se que é identificada como um conjunto de técnicas e recursos para melhorar a a transmissão de conteúdos. A idéia de Didática como "forma" aparece em algumas respostas , quando os alunos dizem que ela é "uma maneira de ministrar as aulas", ou " uma maneira pela qual ao se explicar algo, consegue-se que um maior número de pessoas compreenda melhor o assunto " . Esse entendimento se associa a uma concepção instrumental da Didática, em que ela é explicada como "uma ferramenta que o professor utiliza para passar da melhor forma a disciplina que ministra " . A Didática também foi associada com "método" e apenas um aluno levantou a possibilidade de que pudesse ser "Ciência (ou algo semelhante) que tem o objetivo de preparar os professores para dar uma boa aula ".

Essa constatação deve ser compreendida pela presença ainda muito forte, na cultura dos cursos de formação de professores, de uma concepção instrumental e tecnicista da Didática. Na tradição brasileira, diferentemente do que ocorre em outros países como a França, por exemplo, o termo não é utilizado para identificar a especificidade do ensino das diversas disciplinas escolares, geralmente associada no Brasil à expressão "Metodologia do Ensino de...". Assim, as concepções prévias que os alunos apresentaram remetem apenas ao conceito de Didática como algo que se relaciona à facilidade de transmitir, de expor, de apresentar um conteúdo, conceito este bastante empregado pelo senso comum, como elemento resultante da própria história dessa disciplina na cultura escolar brasileira . 1

Na segunda fase, após o desenvolvimento das disciplinas em torno do Projeto de EsEstudo Exploratório, a idéia de aula como transmissão de conteúdo manteve-se presente apenas em uma das respostas, indicando uma importante alteração na perspectiva de compreensão dos alunos professores em formação quanto à natureza do conhecimento produzido no interior das aulas. A idéia de aula como produção de conhecimento, tanto do ponto de vista docente como discente, foi enfatizizada de diferentes formas, apontando para modelos que enfatizam o papel ativo dos sujeitos no processo de ensinar e aprender, particularmente para o que Becker denomina "modelo pedagógico relacional". (BECKER, 2002)

Destaca -se a afirmação feita por um dos alunos de que "uma boa aula é apenas uma conseqüência de um trabalho brutal (intenso) do professor no planejamento e na relação com o conteúdo", ", e ainda aquela em que "o professor não tem o objetivo de transmitir, mas de transformar o conhecimento para que os alunos possam comprereendê-lo", ambas indiciáriaias de um deslocamento em relação à concepção instrumental de Didática e na direção de uma compreensão que coloca os conhecimentos didáticos como resultados de processos de produção . A Didática foi associada, de forma mais adequada, a um campo de estudo, de investigação e de construção de alternativas para o ensino, perdendo as características de uma disciplina instrumental l se aproximando da idéia de campo científico , cujo papel é a a "problematização do ensino", ou ainda "promover reflexões a respeito do cotididiano escolar e dos processos envolvidos em sala de aula".

Outro elemento relevante foi a incorporação de referências específicas da Didática da Física, destacando -se a idéia de que uma boa aula deve "utilizar exemplos práticos do dia-a-dia dos alunos (...) para que possam observar e entender o meio social onde se encontram" ou, ainda, "aquela em que o professor procura a alternativa mais adequada para cada situação, cada conceito a ensinar". A primeira está relacionada a uma perspectiva que vem sendo enfa tizada por diferentes autores e, inclusive, pelos documentos nacionais de orientação curricular, que indica a importância de tomar o cotidiano dos alalunos como referência para o ensino da Física e, ainda, à idéia apresentada pelos PCN+ de que "o conhecimento de Física deixa de constituir um objetivo em si mesmo mas passa a ser compreendido como um instrumento para a compreensão do mundo" . E a segunda definição reflete as discussões sobre a necessidade de buscar estratégias diferenciadas e mais adequadas para o ensino de diferentes temas e conceitos, colocando em questão a possibilidade de existir um único modelo de aula para toda e qualquer situação de ensino.

## CONCLUSÕES

A ação didática proposta resultou em uma maior aproximação dos alunos aos conceitos científicos da Didática Geral e da Didática da Física, modificando suas concepções iniciais e trazendo a compreensão da aula como espaço de produção do conhecimento. A investigação e a produção de conhecimentos pelos alunos, tomada como estratégia de ensino, resultou em uma modificação substancial de suas concncepções sobre o que pode ser consnsiderada uma "b "boa aula " " de Física.

Um dos elementos a se destacar foi o entendimento expresso pelos futuros professores da impossibilidade de estabelecer uma única forma de ensinar válida para todas as situações e conhecimentos, e o reconhecimento de de que a pesquisa e, portanto, a produção de conhecimento é uma atividade inerente à função do professor e uma das condições essenciais para a existência de "b "boas aulas " .

Essas mudanças respondem aos objetivos centrais da intervenção didática propostas nas disciplinas analisadas e reafirmam a possibilidade de uma reconstrução da profissão docente incluindo a produção do conhecimento como elemento que deve estar presente de forma mais efetiva e explícita na formação inicial, l, destacando-se aqui, com relevância, a produção de conhecimentos no campo da Educação e do Ensino.

## REFERÊNCIAS

BECKER, Fernando. Modelos pedagógicos e modelos epistemológicos. In. BECKER, F. Educação e construção do conhecimento. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002, p. 15-32.

GARCIA, T. M. B. Didática e formação de professores de Física. XII ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino. Curitiba, Paraná, Brasil, p. 1348-1357 (2004).

GARCIA, T. M. B; HIGA, I. Contribuições da pesquisa didática na formação de professores de Física. In XV Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF), 2003, Curitiba-PR. Atas do XV SNEF, Curitiba -PR: CEFET -PR, 2003, p. 1760-1771.

PÉREZ GÓMEZ, A.I. A aprendizagem escolar: da dididática operatória à reconstrução da cultura na sala de aula. In: SACRISTÁN, J.G.; PÉREZ GÓMEZ, A.I.. Compreender e transformar o ensino. Trad. Ernani Rosa. Porto Alegre, RS: ArtMed, 1998, p. 53-65

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