O ENSINO DE FISICA NO SÉCULO XIX POR MEIO DOS LIVROS DIDATICOS: O CASO DA CINEMATICA
Roberto B. Nicioli Junior, Cristiano Rodrigues De Mattos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2007
- Data
- 29/01/2007
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O O ENSINO DE FÍFÍSICA NO SÉCULO XIX X POR MEIO DOS LIVROS S DIDÁTICOS: O CASO DA CINEMÁTICA. A.
Roberto B. Nicioli Junior a [robnj@if.usp.br]r]
Cristiano Rodrigues de Mattos b [mattos@if.usp.br]r]
a IFUSP/Pós -Graduação em Ensino de Ciências - Modalidade Física b IFUSP/Departrtamento de Física Experimental
## RESUMO
O trabalho tem por objetivo apresentar características de como se encontrava o ensino de Física no século XIX. Para isso analisamos os currículos do Colégio Pedro II, pois o mesmo era referência na época, e os livros didáticos estrangeiros e nacionais desse período a fim de buscar evidências que comprovassem os objetivos educacionais daquela época. Em nossa análise observamos que o ensino era praticamente humanístico tornando o ensino de Física obsoleto, obtendo espaço o a partir da década de 1870. Nos currículos percebemos que a Física inicia-se com uma descrição bem superficial de seu conteúdo ganhando expressão ao longo do século chegando a ter 90 tópicos em 1882. Além disso, pudemos perceber a grande influência dos livros franceses, pois muitos constavam como livros sugeridos em nosso currículo. Sobre os livros didáticos levantados analisamos a cinemática como exemplo de conteúdo tendo em vista ser um assunto bem polêmico em nosso ensino nos tempos atuais. Procuramos traçar toda sua evolução histórica ao longo do século XIX, desde sua origem na "mobilidade" (Haüy, 1810) até quando se torna um tópico. Analisando os livros nacionais percebemos que os mesmos não satisfaziam os programas curriculares brasileiros tendo uma dedescrição muito superficial e qualitativa do conteúdo. Além disso, alguns tópicos não eram abordados nesses livros. Nos livros estrangeiros (portugueses e franceses) observamos uma abordagem bem quantitativa do conteúdo com fórmulas, deduções e exercícios prpropostos, se aproximando muito do sistema de ensino atual. Seu conteúdo de cinemática é exatamente o que está elencado nos currículos brasileiros daquela época. Analisando essas evidências, acreditamos ser o livro didático uma ferramenta capaz de nos propororcionar informações históricas não só sobre seu conteúdo, mas também sobre tudo que o permeia sendo uma ferramenta que ajuda na construção da história da educação e em nosso caso na história do ensino de Física.
## INTRODUÇÃO
A situação do ensino secundário no no início do século XIX era semelhante ao apresentado na segunda metade do século XVIII. O ensino era realizado pelas aulas régias, que eram realizadas pelos professores em suas próprias casas não necessitando de um local oficial para que a escola existisse (CARDOSO 2004). Em 1800 o Seminário Episcopal de Olinda que por intermédio de seu fundador, o Bispo Azeredo Coutinho, apresentava um projeto onde dava ordenação lógica e gradual às disciplinas, duração do curso e o regime de agrupar os alunos em classes, além de ser um marco na renovação educacional principalmente pela ênfase e introdução no currículo das cadeiras de Física, Química, Mineralogia, Botânica e Desenho (ALMEIDA JUNIOR 1979; VECHIA 2005). Porém o ensino das ciências não teve um expressivo papel, paralelo a isso havia uma necessidade muito grande em formar a elite intelectual do país. Foram criadas instituições de ensino superior com um caráter de satisfazer
exclusivamente as necessidades da época (VECHIA 2005). Vale ressaltar ainda que vivíamos em um período onde não era necessária a formação de indivíduos em prol do desenvolvimento tecnológico já que a mão-de-obra era exclusivamente escrava e não necessitávamos de máquinas para a produção. Esses fatores tornaram, então, o ensino estritamente humamanístico. Dessa forma o ensino secundário tinha um objetivo específico e de grande importância para o Império influenciando tudo que o cercava, inclusive o livro didático. O objetivo era necessariamente capacitar, ou preparar, pessoas para o ensino superior e, conseqüentemente, formar a elite intelectual que continuaria governar o país. No Império, foram os "exames parcelados" que determinavam o que seriam ensinados nos preparatórios e, obviamente, quem controlava esses exames era a Corte. O que se viu entã o foi uma educação que se restringia somente às disciplinas preparatórias. O ensino era por meio de estabelecimentos provinciais que no início ajustavam-m-se de acordo com essas disciplinas (PILLETI 1987).
Os estabelecimentos provinciais surgiram por meio do Ato Adicional de 1834. Esse Ato, em seu artigo 10, instituía competências que possibilitavam a criação de dois sistemas paralelos: o geral e o provincial. Além disso, o Ato conservava à Assembléia geral o direito de legislar sobre qualquer instrução públicica e estabelecimentos próprios. Porém a participação direta do Império se restringiu somente ao Município da Corte e, para manterem as influências no ensino secundário, proibiram as províncias de criarem estudos superiores, conservando a exclusividade do ensino superior e controlando, mesmo que indiretamente, o ensino secundário (PILETTI 1987). Uma das tentativas de dar controle e organicidade ao ensino da época foi a criação do Colégio Pedro II. Ex-x-seminário São Joaquim, o Colégio Pedro II introduziu, por meio do regulamento de 31 de janeiro de 1838, o estudo seriado e organizados de 6 a 8 anos, a exemplo dos colégios franceses.
Na verdade a partir do Ato Adicional criaram-m-se dois sistemas paralelos: o regular, oferecido pelo Colégio Pedro II, e eventualmente pelos Liceus provinciais; e o irregular, mantido pelos estabelecimentos provinciais e particulares, constituídos pelos preparatórios e exames parcelados. Porém, o fato dos Liceus provinciais não darem a aprovação necessária nos preparatórios seu ensino se tornou obsoletos sendo sugerida inúmeras maneiras de validar os estudos lá oferecidos, tais como o projeto dos deputados Tôrres Homem, Dias de Carvalho e Domingos José Gonçalves de Magalhães de 1846, a proposta de Dias de Carvalho de 1851 e o relatório do ministro João Alfredo Correia de Oliveira de 1871, todos sugerindo a equiparação ao colégio Pedro II. Sendo assim, o que marcou fortemente o ensino dessa época foi o ensino com caráter humanístico, a divisão entre dois sistemas de ensino (regular e irregular) ocasionado pelo Ato Adicional de 1834, e os inúmeras projetos, leis e ementas que foram sugeridas ao longo do século a fim de padronizar o ensino nacional (PILETTI 1987).
## O currículo científico do século XIX
Paralelamente às reformas educacionais propostas, o enfoque humanístico do ensino nesse período vinha sofrendo influências que visavam uma abordagem mais científica do currículo. Devido às necessidades do desenvolvimento crescente da indústria na Europa, a abordagem de ensino naqueles países tininha uma forte tendência à formação comercial, industrial e agrícola e influenciaram o currículo brasileiro. Por exemplo, no decreto de 24 de janeiro de 1856 o currículo de Física teve uma importante mudança. Os programas, que muitas vezes eram uma descrição exata do que se encontrava nos livros franceses, proporcionaram um desenvolvimento dos estudos científicos com a introdução das experiências e demonstrações. Nessa época os livros didáticos brasileiros de Física não satisfaziam o estilo de abordagem que se pretendia enforcar, adotando-se compêndios franceses (HAIDAR 1972).
A década de 1870 foi muito importante para o ensino de Física. Com um ensino científico sem expressão1 o1 , começaram a ser exigida, em 1877, noções de ciências físicas e naturais para o iningresso na Medicina (PILETTI 1987). É nessa época que a disciplina Física se torna preparatória para ingresso em alguns cursos superiores e, devido a isso, sua estrutura perante o ensino começa a ganhar espaço. Somente no final do século XIX alguns acontecimentos ajudaram no enfraquecimento, mas não desaparecimento, do ensino humanístico. A abolição da escravatura, a chegada de grande contingente de imigrantes e a experiência de um novo regime político (República) aconteceram exatamente na época do primeiro surto industrial. Nesse período, por meio da Reforma de Benjamin Constant (decreto nº 891 de 8 de novembro de 1890), marcou-u-se o início da ruptura com uma tradição de ensino humanístico (ALMEIDA 1980).
Por meio desse recorte histórico pudemos perceber alalgumas tendências educacionais que, por meio dos livros didáticos, tentaremos evidenciar, já que ele sofre influências de natureza histórico-osocial. Dessa forma tentamos buscar caminhos para responder às seguintes questões: Quais livros foram usados?; Como o o conteúdo de cinemática foi abordado em cada livro e como foram apresentados?; Que tipo de influência os livros estrangeiros provocaram no ensino brasileiro?; Qual a tendência curricular desse período e o início de sua mudança?.
## REFERENCIAL TEÓRICO
Usamos como referencial teórico Alain Choppin (2004), estudioso dos livros didáticos e de sua história à mais de 30 anos. Choppin fornece um referencial sobre a complexidade do livro didático, na qual devem ser considerados o papel do autor, do editor, dos conteúdos explícitos, o conteúdo pedagógico e o papel formativo do livro didático. Nos baseamos também em Pêcheux (1990) que argumenta não podermos analisar o texto como uma seqüência lingüística fechada sendo necessário referí -lo a um conjunto de discursos possíveis a partir de um estudo das variáveis que o constrói. Devido a isso levamos em consideração nesse trabalho o cenário da época, as políticas envolvidas e a tendência formadora dos cidadãos do século XIX. Pudemos perceber que houve tentativas em inserir o ensino científico no currículo nacional sendo o Colégio Pedro II um exemplo disso.
Para analisar alguns discursos envolvidos na época nos fundamentamos em Foucault (1996) que salienta ser o discurso construído e estruturado com finalidades de impor seus poderes sem expor seus objetivos. Por exemplo, durante a maior parte do século XIX, tinha-se a preocupação em formar a elite que iria continuar a governar o Brasil Império. Percebemos essa preocupação na fala de Gonçalves Dias: "Se algum dos Liceus provinciais tem querido introduzir no quadro do ensino secundário noções de ciências naturais e exatas como as matemáticas puras, a química, a física, a botânica, a agricultura, a agrimensura, vêem definhar esses estudos, porque não são necessárias para nenhum m grau literário. As duas cadeiras de química e física, e a botânica e agricultura da Bahia contam com um aluno apenas!" (Gonçalves Dias apud HAIDAR 1972, p. 22).
Apesar de haver preocupações com o ensino das ciências exatas, o tradicionalismo era tão forte que os projetos para inclusão do ensino científico e críticas sobre o ensino humanístico passavam despercebidos. A seguir Rui Barbosa fala sobre o descontentamento do ensino da época: "Perceber
fenômenos, discenir relações, comparar as analogias e desemelhlhanças, classificar as realidades e induzir as leis, eis a ciência, eis portanto o alvo que a educação deve ter em mira. Espertar na inteligência nascente as faculdades cujo concurso se requer nesses processos de descobrir e assimilar a verdade, é o que devem tender os programas e métodos de ensino. Ora nossos métodos e os nossos programas tendem precisamente ao contrário: a entorpecer as funções, a atrofiar as faculdades que habilitam o homem a penetrar no seio da natureza real e prescrutar-lhes os segredos (...) a ciência e o sopro científico não passam por nós" (Rui Barbosa in Obras Completas 1942, p. 36-38 apud HAIDAR 1972, p. 123).
Foi a partir de 1870 que o currículo científico começou a ganhar forças no ensino secundário brasileiro devido aos acontecimentos históricos em favor de um ensino mais científico. Em 1867, Liberato Barroso escreveu sobre essa necessidade. Chamando esse ensino de "especial" comenta que "essa criação ou generalização do ensino especial que se desenvolve a par do ensino clássico, apropriase às necessidades do novo estado da sociedade que exigem para as classes abastadas da indústria, do comércio e da agricultura uma instrução superior à instrução primária, e mais prática, embora menos elevada do que a instrução clássica" (BARROSO, J. L. 1867, p. 46-51 apud HAIDAR 1972, p. 121).
Percebemos que o ensino das ciências exatas era solicitado nessa época, mas sem êxito. Algumas mudanças começaram a acontecer na Reforma Benjamin Constant de 1890, porém com alguns prejuízos para a área dadas ciências pois o currículo era bastante abrangente e sem especificidade, a idade dos alunos não se adequava ao nível de ensino que objetivava e os cálculos matemáticos dominavam o conteúdo (ALMEIDA JUNIOR 1980). Fato também observado nos currículos e livros didáticos aqui analisados. A seguir tentaremos mostrar mais precisamente como era o ensino de Física e, para isso, tomamos como exemplo a cinemática.
## A A PESQUISA
## Livros e currículos
Para o levantamento dos livros foram visitadas diversas bibliotecas: Bibiblioteca do livro didático da FEUSP, Escola Politécnica da USP, Instituto de Física da USP, Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, Biblioteca do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Além dessas bibliotecas foi realizada uma pesquisa no banco de dados LIVRES - Livros Escolares Brasileiros (1810 - - 2005). Este banco já conta com, aproximadamente, 10000 livros didáticos cadastrados de todo o Brasil. Para que o levantamento e o tratamento dos dados sejam coerentes, as informações constituídas do Banco de Dados LIVRES seguiram normas pré-estabelecidas e procedimentos metodológicos comuns que foram seguidos por todos os membros da equipe de pesquisa 2 . A partir desse levantamento foram elencados 8 livros: Haüy (1810), Guedes (1868), Gama (1876), Ganot (1887), Ganot (1894), Langlebert (1892-93), Nobre (1896) e Langlebert (1896-97) e Gouveia (1907). O livro de Gouveia (1907) está sendo elencado neste trabalho pois, o próximo programa curricular é de 1912, fazendo esse livro parte da reforma de 1878. O número de livros mostra a dificuldade em encontrá -los. Foram encontrados mais livros desse período, mas como não apresentavam o conteúdo de cinemática não entraram em nossa análise.
Os programas curriculares foram levantados baseando-se em três referências: HAIDAR (1972), VECHIA & LORENZ (1998) e nos programas originais do Colégio Pedro II, que podem ser encontrados na biblioteca do Colégio Pedro II. Foram levantados 16 programas curriculares. Esses programas, de um modo geral, contêm informações sobre os itens dos conteúdos os de todas as matérias e sua distribuição nas séries ou anos, podendo conter ou não o número de lições atribuídas a cada tópico, a carga horária semanal de cada disciplina e a referência do livro e autor utilizado nos respectivos anos.
## Análise dos livros dididáticos e currículos do século XIX
## A origem do conteúdo de cinemática
Em 1810 com a instalação da imprensa régia no Brasil os livros começam a ser publicados. Um exemplo de livro de Física brasileiro escrito nesse período é "Tratado elementar de Physica" do Abade René Just Haüy (1810). É um exemplar produzido pela impressão régia trazendo todo o conteúdo de Física e, conseqüentemente, riquíssimas informações de cunho histórico. Em particular se destaca o conteúdo de nosso interesse, a cinemática. Com um cononteúdo totalmente qualitativo pudemos identificar que a cinemática encontra-se dentro do tópico Mobilidade.
Analisando o conteúdo da Mobilidade no final desse tópico é descrito o que chamamos hoje de cinemática: "O movimento he uniforme, quando o móvel cororre sempre o mesmo espaço no mesmo tempo; he acelerado ou retardado, quando o móvel corre, em tempos iguais, espaços que vão sucessivamente augmentando ou diminuindo" (Haüy 1810, p. 32). Ainda no tópico da mobilidade são discutidos alguns conceitos de velocidade "Dividindo o número que reprezenta o espaço pelo qual reprezenta o tempo, tem-m-se a velocidade de cada corpo. Suppondo-se, por exemplo, que hum dos corpos tem corrido 35 metros em 7 segundos, e o outro 24 metros em 6 segundos a velocidade do primeiro o será 35/7 e a do segundo 24/6 ..." (Haüy 1810, p. 33). Por esse livro vemos que o conteúdo de cinemática nos livros didáticos brasileiros se inicia no tópico "Mobilidade" e durante sua evolução ao longo do tempo o conteúdo do movimento uniforme se separa da mobilidade e, juntamente com o movimento uniformemente variado em seus aspectos gerais, torna -se a cinemática.
## Os currículos do Colégio Pedro II e os livros didáticos desse período
Iniciamos nossa análise pelos programas de 1850 e 1856 onde todo o conteúdo de Física é tratado (16 lições) sem menção à cinemática. Nesse último programa é citado o livro de "Guerin - Verry - Elementos de Chimie, precédes de notions de Physique" (VECHIA & LORENZ 1998, p. 30). O livro é de "Roch Théogéne Guerin (Guerin-Varry), publicado em 1833 e reeditado em 1840, com o título de "Nouveaux éléments de chimie théorique et pratique à l'usage dês établissements de l'université, precedes dês notions de physique nécessaires à l'intelligence dês phenoménes chimiques" (1833)" (LORENZ 1984, p. 429). Nesse ano o programa de Física aparece, individualmente no segundo ano.
Na reforma de 1858 surge a primeira menção sobre o conteúdo de cinemática. É intitulado como "Noções sobre as forças e o movimento" e "Lei da queda dos corpos - intensidade da gravidade" (VECHIA & LORENZ 1998, p. 61). Ambos os tópicos são repetidos no programa de 1862 sendo citado nesse ultimo programa o compêndio do Dr. Meirelles - "Lições Elementares de Physica" (Programa do Colégio Pedro II 1862, p. 21). Com o intuito de dar ênfase aos estudos das riquezas naturais do Brasil foram introduzidos textos e livros de autores do Colégio Pedro II, justificando a
adoção da única obra brasileira de Física no século XIX (LORENZ 1984). Para esse período encontramos em nossa pesququisa o compêndio "Physica Elementar" de Joaquim Rodrigues Guedes (1868), destinado ao Colégio Militar. No caso do conteúdo da Mobilidade, esse tópico se restringe apenas no que diz respeito aos conceitos de repouso e movimento (relativo e absoluto). No contnteúdo de cinemática não foram encontradas fórmulas e nenhum exercício. Todos os conteúdos apresentam uma descrição qualitativa. Como exemplo podemos citar a explicação usada para definir velocidade angular: "N'este movimento todos os pontos se movem uniformemente segundo arcos de circulo e com velocidades que são proporcionaes às distâncias d'esses pontos aos eixos de rotação; de modo que a velocidade angular representa o caminho percorrido na unidade de tempo pelo ponto situado à unidade de distância do eixixo de rotação" (GUEDES 1868, p. 32).
Os programas de 1863 e 1865 apresentam conteúdos idênticos ao de 1862. No programa curricular de 1870, observamos um maior detalhamento nos conteúdos elencados em 25 tópicos, porém a cinemática continua com os tópicos superficiais "Noções sobre movimento" e "Lei da queda dos corpos" (Programa do Colégio Pedro II 1870, p. 34).O compêndio sugerido nesse programa é o "Traité élémentaire de Physique" de Ganot (Programa do Colégio Pedro II 1870, p.46). "Dado o forte prestígio do Traité Élémentaire e o forte programa de matemática desenvolvido no colégio, é possível que este tenha sido adotado na escola até a Reforma de Benjamim Constant" (LORENZ 1984, p. 431). No decreto de 1º de fevereiro de 1870 podemos perceber que a Física não tinha um peso muito importante na época pois não aparece com as matérias de aprovação obrigatória. Para esse período encontramos o livro "Noções de Physica e Chimica" de Ayres de Albuquerque Gama (1876). Nesse livro a cinemática não é tratada e por ser um livro brasileiro podemos ter uma idéia da inexpressiva importância da cinemática nos livros didáticos.
No programa de 1877 o conteúdo de Física torna -se mais detalhado que o anterior (30 tópicos). É nesse programa que encontramos o primeiro registro da disciplina Física como obrigatória. O conteúdo de cinemática em particular ainda é bem reduzido no programa sendo citado apenas "Generalidades sobre forças e movimentos, alavancas" e o livro citado é "Lições Normaes de Physica" de D. Pouille (D' Amiens) (Programa do Colégio Pedro II 1877, p. 59). Para esse autor e sua obra adotada não foram encontradas informações concretas, mas Lorenz (1984) acredita que, se o autor citado é o famoso professor da École Politéchinique Caude Matthias Poulliet, a obra adotada no Colégio deve ser "Notions générales de physique et de météorologie à l'usage de la jeunesse" de 1850. No programa de 1879 não há mudanças. Nos programas de 1881 e 1882 mudanças consideráveis acontecem no currículo de Física. Os programas são enciclolopédicos, chegando a elencar 90 tópicos para descrever todo o conteúdo de Física. Abaixo o trecho que elenca o conteúdo de cinemática: "4. Movimento. Equilíbrio. Principio da Inércia. Principio da independência dos movimentos. Principio da igualdade da ação e reação; 5. Movimento de translação e rotação. Movimento Uniforme e sua velocidade. Movimento Variado e sua velocidade. Movimento Uniformemente Variado. Aceleração" (Programa do Colégio Pedro II 1881 e 1882, p. 48 e 21).
Posterior aos anos de 1881 e 1882 houve um decreto de 2 de outubro de 1886 também muito importante para o ensino da Física. Nesse decreto é definido que a aprovação em Física, e outras matérias, era necessária para matrícula na Faculdade de Medicina (exames gerais preparatórios 1886). Para esse período foi encontrado o livro "Traité Élémentaire de Physique" de Ganot, 20ª edição (1887). Para o caso da cinemática encontramos um conteúdo bem desenvolvido com 20 páginas. Podemos perceber nesse livro que o tópico "Mobilidade" não é elencado, sesendo seu conteúdo (movimento, repouso, relativo e absoluto) citado no tópico "Cinemática". São usados desenhos geométricos como
ilustrações, várias fórmulas dos movimentos e em alguns casos são usados conceitos mais complexos, como o de limite: "Fazendo tender Dt Dt a zero, o limite deste produto dá a aceleração instantânea no instante t do movimento curvilíneo g g = lim. (mm'/ Dt). A direção limite de mm' é a direção de g. Ela esta comprimida na posição limite do plano determinado através da tangente à curva dos os pontos infinitamente vizinhos M e M'"(GANOT 1887, p. 35). No final do livro são trabalhados exercícios resolvidos de todos os conteúdos, totalizando 29 páginas (99 exercícios) das 1447 páginas de todo o livro.
No programa de 1892, novamente o conteúdo é alterado e com apenas 24 tópicos todo o conteúdo é elencado. Não há o nome do livro sugerido no programa, sendo citado o nome dos autores "Drion e Fernet", porém no trabalho de Lorenz (1984, p. 431) a obra é intitulada como "Traité de physique élémentaire, , suivi de problèmes sendo publicado em 1861 e provavelmente foi a décima ou décima primeira edição que foi adotada no colégio". (LORENZ 1984, p. 431). Para a cinemática observamos pela primeira vez nos programas curriculares o conteúdo composição e decomposição de movimentos, uma vez que era presente nos livros e ausente nos programas: "2. Características gerais da matéria. Movimento: simples. Composição e decomposição de movimentos" (Programa do Colégio Pedro II 1892, p.21).
No programa de 1893 o conteúdo de Física é elencado por meio de lições em um total de 42. Na terceira lição o conteúdo de cinemática é citado: "3ª LIÇÃO - a) Movimento simples - Composição e decomposição de movimentos - Dinamômetro - Diferentes expressões da Velocidade; b) Leis físicas do movimento - máquinas simples e compostas - - Trabalho e rendimento" (Programa do Colégio Pedro II 1893, p. 31). Para esse período encontramos dois livros: "Physica" de Langlebert, 51ª edição (189293) e "Traité Élémentaire de Physique" de Ganot, 21ª edição (1894). No livro de Langlebert, em suas primeiras páginas, há o programa curricular francês e, de uma forma geral, pudemos observar uma semelhança muito grande com o programa curricular brasileiro desse período. Nesse livro a Mobilidade trata apenas conceitos de movimento e repouso (relativo e absoluto). Na cinemática a descrição do conteúdo não se relaciona como uma manifestação da natureza ou acontecimentos do dia-a-dia. Podemos observar isso na definição de Movimento Uniformemente Variado: "... é aquele le no qual o móvel percorre em tempos iguais sucessivos espaços que aumentam ou diminuem seguindo uma regra constante; ou, em outros termos, o movimento cuja velocidade aumenta ou diminui de quantidades iguais em tempos iguais" (LANGLEBERT 1892-93, p. 14).
No livro de Ganot (1894), há uma redução do conteúdo de cinemática em relação a sua edição anterior principalmente no Movimento Uniformemente Variado e Composição de Movimentos. Além disso o Movimento circular é retirado do livro. Não é tratado o tópico Mobilidade, porém o conteúdo (movimento, repouso, relativo e absoluto) está presente no tópico da cinemática. O conteúdo não é reescrito sendo conservada partes dos enunciados e descrições da edição anterior. Os exercícios também são os mesmos e ocupam 29 páginas em um total de 1207 páginas.
No programa de 1895 a Astronomia é inserida no ensino da mecânica. Intitulado "Mecânica e Astronomia" seu ensino se resume a três partes, sendo na segunda parte elencado o conteúdo de cinemática: "Estudo do movimento retililíneo; Estudo do movimento curvilíneo. Força centrífuga; Movimento dos sistemas invariáveis; Propriedades gerais dos movimentos; Idéias gerais sobre o movimento de rotação" (Programa do Colégio Pedro II 1895, p. 26). Curiosamente não foi elencado o restante te do conteúdo de Física nesse programa, o que foi encontrado somente no programa do ano seguinte (1897). Nesse programa, além de ser ensinado Mecânica e Astronomia no quinto ano com
alguns conceitos de cinemática, no sexto ano a cinemática é descrita da mesma forma que nos anos anteriores: "3ª LIÇÃO - a) Movimento simples - Composição e decomposição de movimentos - Dinamômetro - Diferentes expressões da Velocidade; b) Leis físicas do movimento - máquinas simples e compostas - Trabalho e rendimento" (Programa ma do Colégio Pedro II 1895, p. 33). Ao todo são 42 lições, como nos anos anteriores, e nenhum livro é citado para o ensino de Física no sexto ano. Para o ensino de Física em conjunto com a Astronomia o compêndio citado é "Materiais para o estudo da Mecânica Geral" de Eulálio da Silva Oliveira. Além disso, no programa de 1897, a Física é ensinada no sexto e sétimo ano por meio de revisões. Para o conteúdo de cinemática do sexto ano são sugeridos "Problemas sobre movimento retilíneo e curvilíneo" e para o sétimo ano, a queda dos corpos sendo citada dentro do tópico "Barologia Dinâmica" (Programa do Colégio Pedro II 1897, p. 71). Para esse período foram encontrados três livros. Um é "Physica Elementar" de Francisco Ribeiro Nobre, 2ª edição (1896), " Physica" de J. Langlebert, 51ª edição (1896-6-97) e o brasileiro Nerval Gouveia (1907).
No livro de Nobre (1896) a "Mobilidade" é elencada e descreve apenas os estados de movimento (relativo e absoluto) e repouso (relativo e absoluto) seguindo o mesmo padrão dos livros didáticos franceses. Algumas passagens desse livro são idênticas às definições dos livros de Ganot. Por exemplo, ambos usam a mesma definição para o Movimento Uniforme: "O movimento chama -se Uniforme quando o móvel percorre espaços iguais em tempos iguais, por mais pequenos que os tempos sejam..." (NOBRE 1896, p. 18; GANOT 1894, p. 13). No final do livro de Nobre (1896) são apresentados problemas relacionados com todo o conteúdo de Física em 5 páginas de um total de 549 páginas. O livro de Langlebert (1896-97) aborda o conteúdo de cinemática de maneira idêntica ao seu livro da 47ª edição, inclusive a "Mobilidade". A única exceção é que os capítulos "Lei da queda dos corpos -Plano inclinado de Galileo -Máquina de Atwood - Máquina de Morin" (1896-97, p. 27) não estão mais na parte complementar sendo agora o capítulo 2. Esse livro também apresenta exercícios em 13 páginas de um total de 486 páginas.
No livro de Gouveia (1907), apesar de ter mais de 400 páginas, a cinemática é descrita em 2 páginas, com 1 gráfifico para cada movimento. Em todo o livro não há exercícios propostos ou resolvidos. Sua abordagem é bem qualitativa como podemos observar no trecho que segue: "Chama -se também velocidade o espaço percorrido na unidade de tempo. De modo que, si chamarmos v a velocidade no espaço percorrido no tempo1, no tempo 2 será 2vn no tempo 3 será 3v... e no tempo t será vt" (GOUVEIA 1907, p. 18). Mais uma vez percebemos o elementar tratamento no conteúdo de cinemática nos livros brasileiros.
Em um resumo geral sobre o número de aulas de Física e Química encontrada no programas curriculares pudemos observar mais claramente a mudança no enfoque do ensino do século XIX. Em 1862, Física e Química tinham 6 horas-aula/semana, sendo metade dessas aulas destinadas a experiências, em 1863 3 horas-aula/semana, em 1865 6 horas-aula/semana, em 1870 2,5 horasaula/semana, em 1877 6 horas -aula/semana e em 1893 6 horas -aula/semana. Em todos os anos a Física e Química eram ensinadas no 5 ano, com exceção do ano de 1877 que era ensinada no sexto ano. Podemos observar que até 1877 o número de aulas variou bastante sendo a partir desse ano, ou seja, por pelo menos 20 anos, o ensino de Física e Química mantido com seis horas-aula/semana. Outra coisa que pode ser observada é que o ensino de FíFísica e Química está nos últimos anos (5º e 6º) o que torna essas séries praticamente sem freqüência uma vez que até 1877 as disciplinas de Física e Química não eram preparatórias.
## CONCLUSÃO
Observando os programas curriculares aqui analisados, percebemos que a maioria das obras usadas nesse período eram predominantemente francesas. Com exceção do autor Saturnino de Meirelles, todos os outros autores eram franceses. Ainda vale ressaltar que esses autores eram pessoas de renome e com destaque na época (LORENENZ, 1984). Detectamos também que o conteúdo dos livros estrangeiros usados no ensino da época era muito mais detalhado que os livros brasileiros. Mesmo quando a Física não era uma disciplina preparatória, os conteúdos elencados nos programas eram totalmente satisfeitos pelos livros didáticos estrangeiros. No caso dos livros brasileiros de Haüy (1810), Guedes (1868) e Gama (1876) o conteúdo foi predominantemente qualitativo quando não foi totalmente.
Citando Moreira (1986), que classifica as ênfases curriculares em dez tipos, podemos destacar aqui a ênfase da "fundamentação sólida" onde "o ensino de ciências em cada nível de escolarização deve servir de base para o aprendizado de ciências no próximo nível (...) a mensagem é comunicada ao estudante é a de que ele está aprendendo algo que se encaixa em uma estrutura pensada e planejada" (p. 37). O currículo dessa época se baseia nessa ênfase curricular já que tem uma tradição basicamente preparatória, onde o interesse do aluno era apenas em conseguir as aprovaçõeões nas disciplinas preparatórias para ingressar no ensino superior (MOREIRA 1986). Além disso, observamos que o conteúdo dos livros analisados, tanto dos brasileiros como dos estrangeiros, tinham uma ênfase curricular do tipo "explicações corretas" que tem m como essência "um conjunto de mensagens sobre a autoridade dos especialistas como fator de legitimidade da correção de determinadas explicações científicas (...) a instrução deve transmitir com segurança ao aluno um conjunto de idéias (explicações corretas) aceitas pela comunidade científica" (MOREIRA 1986, p. 37). Em todos os livros analisados e em todas as transcrições sobre conteúdos feitas aqui isso é nitidamente observado.
Observamos nos livros didáticos que os tópicos elencados nos currículos "Leis dos movimentos" e "Movimentos simples" são na verdade a descrição completa do MU, MUV e MCU nos livros estrangeiros. A "Composição e Decomposição de movimentos" muitas vezes não apresentadas nos currículos eram tratadas nos livros didáticos estrangeiros de forma detalhada. Em 1877 o currículo nacional de Física se torna um pouco mais específico, já que a disciplina Física se torna preparatória. No início do século as aulas variaram de 2,5 horas -aula/semana até 6 horas -aula/semana sendo, a partir de 1877, fixado o número de aulas em 6 horas -aula/semana.
Vimos também que a cinemática não era tão fundamental para o ensino da época, diferentemente do ensino de hoje, onde esse conteúdo ocupa um grande período do calendário escolar quando não é o único aprendido popor nossos alunos. Podemos concluir, então, que esse foi um período de construção da identidade do livro didático brasileiro de Física, pois a maioria dos livros usados aqui ou eram traduzidos para o português ou eram usados na língua de origem sendo esse esestilo de abordagem incorporado pelos livros nacionais no século XX (NICIOLI & MATTOS, 2005; NICIOLI & MATTOS, 2006). Observamos que a pesquisa com livros didáticos atua na construção da história da Educação e, em nosso caso, na história do ensino de Física. a. Por meio dele podemos ter uma idéia real de como se encontrava o ensino da época sendo os currículos apenas um caminho para que isso aconteça. Além disso, a pesquisa evidencia que os professores atuais podem e devem procurar ensinar outros conteúdos além m da cinemática, pois o tradicionalismo de hoje é resultado de mais de uma centena de anos.
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