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A Construçao de um Episódio de Ensino com Abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente e o Imaginário de Licenciandos em Física

Thirza Pavan Sorpreso, Maria José Pereira Monteiro De Almeida

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
29/01/2007
Linha de pesquisa
Formaçao Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A Construção de um Episódio de Ensino com Abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente e o Imaginário de Licenciandos em Física

Thirza Pavan Sorpresoa oa [thirza.ps@gmail.com] * Maria José P. M. de Almeidab ab [mjpma@unicamp.br] **

a Universidade Estadual de Campinas

b Universidade Estadual de Campinas

## RERESUMO

Neste estudo apresentamos uma reflexão sobre a utilização da abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente no planejamento e execução de um episódio de ensino que tratava da 'questão nuclear', na na Prática de Ensino e Estágio Supervisionado para o Ensino de Física, realizada por licenciandos em física numa das três universidades paulistas no ano de 2005. O programa da disciplina, ministrada por uma das autoras do presente estudo, com a participação o da outra como pesquisadora fazendo gravações das aulas e recolhendo materiais produzidos pelos estudantes, esteve dentro das temáticas E=mc 2 / Física Nuclear, com as quais foram realizados seminários e organizadas aulas inseridas nas seguintes abordagens: Linguagens; História da Ciência; Solução de Problemas e Ciência, Tecnologia e Sociedade. Neste estudo, buscamos compreender o imaginário dos licenciandos, apenas sobre elementos da abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente. Para isso analisamos seus discursos enquanto trabalhavam e refletiam sobre a utilização daquela abordagem. Notamos que eles demonstraram algumas vezes: falta de compreensão sobre o que trata a abordagem; visão linear simplificada sobre relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente; certa dificuldade em planejar episódios de ensino de forma a colocar o aluno no foco do processo de ensino e aprendizagem (conforme recomendado na literatura em Ensino de Ciências) e que para eles tal abordagem serviria mais como motivador a do que proporcionadora de uma aprendizagem diferenciada para seus futuros alunos. Entretanto, notamos que para alguns desses licenciandos, o trabalho com essa abordagem parece ter sido fonte de reflexão sobre o ensino, a ciência e sobre suas próprias concepções.

PALAVRAS CHAVE: Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente; Física Nuclear; Imaginário; Formação Inicial .

## INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVAS

É fato que, grande número das publicações que se referem ao ensino da física em nível médio, apontam a necessidade de mudanças curriculares nessa disciplina, quer se refiram aos conteúdos do ensino propriamente ditos, quer remetam para as maneiras de abordá-los.

- Os parâmetros curriculares nacionais, já nas suas primeiras versões no final dos anos noventa, diziam que erera preciso rediscutir qual física ensinar para possibilitar uma melhor compreensão do mundo e uma formação para a cidadania. Por outro lado, artigos de revisão da literatura existente sobre o assunto, como o de Ostermann e Moreira (2000), abrangente às pesquisas sobre Física Moderna e Contemporânea no ensino médio, uma área certamente com grande potencial de fornecer subsídios para mudanças significativas nesse nível de ensino, apontam que são poucas as propostas testadas em sala de aula com apresentação de resultados de aprendizagem.
- O programa da disciplina Prática de Ensino e Estágio Supervisionado para o Ensino de Física, ministrada numa das universidades paulistas em 2005 por uma das autoras do presente estudo com a participação da outra como pesquisadodora, fazendo gravações das aulas e recolhendo materiais produzidos pelos estudantes, esteve dentro das temáticas E=mc2 c2 /Física Nuclear, com as quais foram realizados seminários e organizadas aulas inseridas nas seguintes abordagens: Linguagens; História da Ciência; Solução de Problemas e Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS).

No presente estudo, selecionamos e analisamos falas dos estudantes em situações relativas a essa última abordagem, sobre a qual podem ser encontrados vários estudos em publicações brasilileiras.

Dentre essas publicações encontramos aquelas que apresentam o contexto de origem do movimento (Auller e Bazzo, 2001; Angotti e Auth, 2001; Santos e Mortimer, 2001; Teixeira, 2003). Muitas apontam os objetivos do movimento CTS na educação em ciência, sendo que prevalece a preocupação com a educação para desenvolvimento da cidadania e alfabetização científica visando maior participação social, ou ação social responsável em decisões que envolvam assuntos científicos e/ou tecnológicos. Tal desenvolvimento seria possível, de acordo com as publicações, principalmente através da compreensão da natureza da ciência e do trabalho científico através do ensino não fragmentado e interdisciplinar unindo a ciência e a tecnologia com outras áreas do conhecimento e de forma a desenvolver uma visão mais crítica da ciência (Santos e Mortimer, 2001; Andrade e Carvalho, 2002; Teixeira 2003; Samagaia e Peduzzi, 2004; Vieira e Vieira, 2005; Angotti et al, 2001; Reis e Galvão, 2005; Angotti e Auth, 2001; Gouvêa e Leal, 2001). Vale destacar que Auller e Bazzo (2001), no entanto, afirmam que não há um consenso nas publicações no que diz respeito aos objetivos da educação CTS.

As publicações também apontam possíveis obstáculos ou implicações para a educação CTS; entre eles Auler e Bazzo (2001) afirmam:

"formação disciplinar dos professores incompatível com a perspectiva interdisciplinar presente no movimento CTS; compreensão dos professores sobre as

interações entre ciência, tecnologia e sociedade; não contemplação do enfoque CTS TS nos exames de seleção; formas e modalidades de implementação; produção de material didático - pedagógico; e redefinição de conteúdos programáticos. Cabe destacar que são escassas as publicações sobre a utilização do enfoque CTS no ensino, no contexto brasasileiro."(p.2)

Ou ainda o pouco tempo de trabalho que o professor dispõe, formação e condições de trabalho insuficientes e ensino voltado exclusivamente para o vestibular. (Andrade e Carvalho, 2002; Samagaia e Peduzzi, 2004; Reis e Galvão, 2005).

Muitos artigos apontam as implicações para a formação do professor (Teixeira 2003; Vieira e Vieira, 2005; Reis e Galvão, 2005). Encontramos também artigos que se preocupam com as concepções dos professores e estudantes sobre tecnologia e relações CTS (Utges e et al , 2001; Teixeira, 2003; Andrade e Carvalho, 2002; Reis e Galvão, 2005).

Nenhum desses trabalhos, , no entanto, analisou u o imaginário de licenciandos em fífísica trabalhando com tal abordagem m durante a formação inicial. Assim procuramos neste estudo refletir sobre a utilização da abordagem Ciência, Tecnologia a e Sociedade durante a disciplina de práticas de ensino e estágio supervisionado.

## SUPORTE TETEÓRICO

O referencial em que se apoia este estudo é a análise de discurso (AD), principalmente como foi desenvolvido o no Brasil por Eni Orlandi. Nesse enfoque:

[...] a linguagem, além de suporte do pensamento e instrumento para transmissão de informação, ou seja, meio de comunicação, é, essencialmente, produto do trabalho dos homens, num processo de interação social e, poportanto histórico. Daí decorre que, para compreender o seu funcionamento, não bastam mecanismos lingüísticos, os quais, por si só, não apreendem os confrontos ideológicos que a constituem. (Almeida, 2004, p.33).

Sendo assim admite -se a não transparência da linguagem e podemos dizer que essa não transparência para a AD "[...] se manifesta pela consideração do equívoco, como constitutivo da linguagem. Ou seja, a ambigüidade, a não unicidade do sentido, a possibilidade de interpretação são inerentes à linguagem". (idem, p.36)

Assim, os dizeres, no caso dos licenciandos, permitem diferentes sentidos. Procuramos então relacionar tais dizeres com sua exterioridade, suas condições de produção, que consistem da situação em que são ditos, ou seja, o contexto imediato, e em sentido mais amplo do contexto sócio-histórico, ideológico, já que as palavras ditas por esses licenciandos carregam em si sentidos pré-construídos sócio-historicamente, para a AD o já dito está na base do dizível. Relacionando os dizeres dos licenc iandos com a exterioridade, procuramos encontrar regularidades já que os sentidos possíveis não são únicos, pois de acordo com Orlandi (2005): "[...] nem o discurso é visto como uma liberdade em ato, totalmente sem condicionantes linguísticos ou determinações históricas, nem a língua como totalmente fechada em si mesma, sem falhas ou equívocos"p22 . Dessa forma as condições de produção desses discursos são de fundamental importância.

Ainda de acordo com Orlandi (2005) "[...]também a memória faz parte da produdução do discurso. A maneira como a memória "aciona", faz valer, as condições de produção é fundamental [...]"pp30. Através desse acionamento da memória, o imaginário dos licenciandos materializa -se em seus dizeres. Através da memória eles trazem para seus didizeres os já ditos esquecidos em seus imaginários e que carregam em si sentidos pré-c-constituídos antes das enunciações. É o imaginário que torna possível a relação entre os sujeitos e suas condições de existência.

Consideramos então, neste trabalho, como condições de produção, a formação dos licenciandos, tanto básica quanto superior, também a sociedade específica em que estão inseridos e sua história, mas de forma a nos concentrarmos nas relações dessas condições com o foco específico do trabalho, a abordagem CTS, procurando regularidades em seus dizeres, sem a pretensão de esgotar seus sentidos, já que não consideramos que seja possível. Também são condições de produção o contexto específico da enunciação de seus dizeres, ou seja, os acontecimentos durante a disciplina Prática de Ensino e Estágio Supervisionado para o Ensino de Física .

## PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Os discursos analisados fizeram parte da disciplina Prática de Ensino e Estágio Supervisionado para o Ensino de Física numa universidade pública de de São Paulo durante o ano de 2005 onde uma das autoras atuou como docente e a outra como pesquisadora acompanhando e gravando as aulas da disciplina. A pesquisadora/autora também teve acesso a todo o material produzido pelos licenciandos durante o curso. Na referida disciplina, os estudos estiveram dentro das temáticas E=mc 2 /Física Nuclear, em comemoração ao ano internacional da física, que homenageou Albert Einstein.

Gostaríamos de observar que a dimensão Ambiental foi acrescentada durante o plano de curso. A maior parte da bibliografia em ensino de física considera apenas as relações Ciência, Tecnologia e Sociedade, porém dado que alguns trabalhos já consideram a dimensão Ambiental, principalmente na área de geociências, considerou-se pertinente incluir o ambiente. Assim, quando tratarmos da literatura em ensino de ciências usaremos a sigla CTS e a abordagem na disciplina usaremos a sigla CTSA.

Na primeira aula da disciplina os licenciandos responderam um questionário com perguntas, entre elas algumas relacionadas às suas expectativas sobre a disciplina e ao seu imaginário sobre o ensino de ciências.

Após o questionário a professora sugeriu a 'questão nuclear' como tema da disciplina, tendo em vista a montagem de aulas para o ensino médio. Os licenciandos dudurante o curso preparariam episódios de ensino com o tema, utilizando abordagens da pesquisa em Ensino de Ciências, entre elas Ciência, Tecnologia, Sociedade. Tais episódios deveriam ser elaborados supondo sua aplicação numa aula dialógica e seriam apresentados nas aulas de prática de ensino através de um seminário, envolvendo a apresentação da abordagem para o resto da turma e a descrição do que seria a aula propriamente dita.

Concomitantemente às atividades realizadas na Faculdade de Educação, os licenciandos acompanharam aulas em escolas de ensino público na região da cidade de Campinas e suas observações foram constantemente discutidas em salas de aula. Eles também

leram e discutiram a bibliografia selecionada pela professora, relacionadas à Física Nuclelear, às abordagens metodológicas selecionadas, e as concepções de ciência e de ensino.

## ANANÁLISES DOS D DISCURSOS DOS LILICENCIANDOS

## Questionário Inicial

Em respostas ao questionário inicial, respondido por todos os estudantes da turma, a maioria dos licenciandos considerou que os conteúdos usualmente trabalhados no ensino de física no nível médio deveriam ser mantidos, com alguns tópicos de Física Moderna sendo acrescentados.

Perguntamos se a Física Nuclear poderia/deveria ser tratada no Ensino Médio, e em caso o afirmativo, o quê deveria ser tratado e ainda de que forma. Em suas respostas, os licenciandos citaram tópicos que consideravam importantes e que evidenciavam que eles acreditavam que a Física Nuclear deveria ser ensinada, porém apenas de forma qualitativa. Possivelmente, tendo como única memória de Física Nuclear as aulas da disciplina na Universidade e as dificuldades encontradas, os licenciandos partiram de imediato ao pressuposto de que estudantes de ensino médio não poderiam trabalhar com qualquer tipo de quantificação nesse conteúdo.

Sobre as possíveis vantagens de ensinar Física Nuclear apontaram:

"todo conhecimento se 'bem passado' é válido"; "despertar curiosidade e interesse"; "disseminar um conhecimento que não deveria ser restrito aos que optam pela área de exatas, mais especificamente a física"; "assunto que de certa forma está mais presente no cotidiano"

Essas repostas apontaram a valorização do conhecimento por eles considerado como um novo conteúdo: a Física Nuclear. Também foi considerado por or um licenciando, que talvez ela estivesse mais ligada ao contexto dos estudantes, possivelmente devido à influência da mídia. Esteve presente também a idéia desse conteúdo como meio de despertar o interesse dos estudantes. E ainda foi possível notar numa das falas a Física Nuclear como algo que deveria ser conhecido por todos. Para esses licenciandos, no entanto, essa "nova informação" parecia não estar ligada ao conhecimento para atuação social. Principalmente quando utilizaram termos como "se bem passado"o", parecia não fazer parte de seu imaginário a consideração de metodologias diferentes das aulas expositivas (com as quais estavam acostumados, na universidade e, provavelmente antes, no ensino médio), que incentivem a participação crítica do aluno.

## O Plano da Disciplina e o Planejamento dos Seminários

Após a discussão do plano da disciplina, a classe foi dividida em duplas para que escolhessem entre as abordagens. Enquanto a professora finalizava as explicações, um dos

alunos a interrompe. A transcrição ababaixo, de um diálogo entre a professora e a dupla José e Alan 1 , ilustra a separação, no imaginário dos licenciandos, dos componentes CTSA:

- “Alan: Professora, nós já escolhemos esse aqui [risos da dupla].

Professora: O quê? Alan: Sociedade e Ambiente. Professora: Alguém mais quer este tema?[...] Professora: Ninguém?[...] já que são os primeiros vamos por no primeiro dia. Alan: Não , não professora [todos dão risada, pequeno tumulto]. José para Alan: Tá vendo, você é afobado. Alan: Professora [inaudível] atitude de falar de meio ambiente tem que ter uma. José: Tem que ser o último pela atitude, pela coragem Professora: CTSA [escreveu na lousa] Quem mais?

Alan: Professora, o que é o CTSA aí?

Professora: Ciência, tecnologia, não é isso que vocês escolheram?

Alan: Tudo junto? Eu pensei que era separado.

Ao notarem que seriam a primeira dupla a apresentar o seminário, os licenciandos argumentaram que seria uma atitude corajosa tratar a questão ambiental (sem citar a sociedade), talvez por estar mais distante da sua formação em física, ou/e porque consideravam, naquele momento, a questão ambiental mais complexa. Outra consideração que podemos fazer é que a falta de conhecimento sobre as recomendações da abordagem CTS os fizesse acreditar que deveriam tratar apenas aspectos isolados e não relações s entre ciência, tecnologia, sociedade e ambiente.

No entanto, em aula posterior, com as abordagens já escolhidas pelas duplas, os licenciandos escreveram as primeiras idéias para o planejamento do episódio e nessas idéias podemos notar que muito do que é trabalhado em CTS estava presente no imaginário dos estudantes:

"Uma coisa interessante a se tratar seria a energia nuclear. Os prós e contras, de uma usina nuclear. Impactos ambiental e social caso haja um acidente ,... " Falar sobre alguma aplicação da física nuclear: submarino nuclear, energia nuclear,... Mostrar as vantagens de se conhecer a física nuclear."

- " Política x decisões em tempo de guerra, o que a energia nuclear mudou na política internacional atual, debates, opiniões, ..." [grifos nossos]

Nessas falas notamos aspectos da abordagem CTS, tais como impacto ambiental, tecnologia e política social, ainda que esses aspectos não se relacionem entre si. Nas posições que manifestam, pode-se notar a ciência e tecnologia influe nciando a sociedade e não o inverso, ou seja, a sociedade influenciando a ciência e a tecnologia. Trata-se aparentemente de um imaginário em que a Ciência e Tecnologia ocupam o centro das atenções.

## Apresentação do Seminário

A apresentação do seminário da dupla que escolheu a abordagem CTSA foi marcada por conflitos entre a abordagem CTS pesquisada e as concepções dos licenciandos sobre a utilização dessa abordagem, dada a realidade da sociedade em que vivem e do ensino brasileiro. A dupla dividiu a apresentntação em duas partes, um dos licenciandos apresentou a abordagem CTS, enquanto o outro, o episódio de ensino preparado.

Nos trechos seguintes podemos notar um imaginário marcado pela contradição entre concepções do movimento CTS presentes na literatura lida e as concepções do licenciando, devidas à própria sociedade onde esse imaginário vem sendo constituído:

"porque a gente tem que lembrar que o CTS que estamos chamando agora de CTSA foi um movimento que surgiu nos países capitalista centrais, numa época que eles já tinham todas as condições materiais para ter esse movimento tecnológico [...] e a idéia inicial do movimento era contestar o modelo da sociedade deles [...] então, é um modelo de contestação, só que no Brasil parece que esse modelo de sociedade é onde a gente quer chegar, a gente quer chegar no primeiro mundo, a gente quer ter um desenvolvimento tecnológico e econômico, não se importa com custo social ou ambiental disso, [...] se tornaria um pouco difícil implantar o CTS no Brasil, isso falando num contexto geral [...] acho que essa solução é muito genérica, muito difícil da gente chegar, não dá para pensar em mudar todo, toda a grade educacional, eu acho que é uma maneira de se apresentar a Física Nuclear e que pode funcionar até para tirar essa concepção de que a ciência é isolada e também para gerar informação sobre o assunto, eu acho que as informações são importantes,[...] mesmo porque [...] a sociedade cobra essa formação cultural, o último ponto que eu queria falar é que eu discordo um pouququinho[...] concordo que a sociedade cobre essa formação cultural.[...] exatamente neste ponto, que ele fala que a sociedade cobra que a escola forme o aluno culturalmente, não só passar o conceito, a escola tem que dar uma formação cultural, eu concordo com isso, mas o que a gente não pode esquecer é que embora a sociedade cobre isso, principalmente no ensino médio, há uma cobrança dos próprios alunos de que a escola tem que preparar para o vestibular, a gente goste ou não, essa cobrança existe, então acho que só o enfoque CTSA ficaria extremamente limitado, filosoficamente isso é bonito, mas na prática, a gente tem que formar e preparar o aluno para o vestibular"

Notamos que a questão do vestibular está bastante presente no imaginário desse licenciando, de maneira a impedir a consideração de novas abordagens como a CTSA. O licenciando ainda pareceu entrar em conflito no que diz respeito à relação entre a formação cultural e o vestibular, de maneira que formação cultural seria algo mais, filosoficamente bonito, mas que não ajudaria o aluno no momento do vestibular, seriam assim "tipos" de ensino mutuamente excludentes.

Na segunda parte do seminário o licenciando apresentou o episódio de ensino preparado. Comentou uma notícia então recente de jornal sobre a realização de testes nucleares na Coréia do Norte e partiu para a apresentação de uma aula expositiva, em que

apresentou a evolução de conceitos e experimentos importantes na Física Nuclear. Explicou a penetração de radiação no corpo humano, leis de decaimento, enriquecimento de urânio e funcionamento da bomba atômica. Assim esses licenciandos procuraram assimilar de maneira genérica algumas concordâncias com o movimento CTS, porém quando apresentaram o episódio de ensino específico, que pretendia ter enfoque CTS, acabaram reproduzindo um modelo "tradicional" de aula com que estão acostumados. Possivelmente pelo pouco tempo durante a licenciatura para reflexões sobre isso.

## O Questionário Final e Algumas Conclusões

Na semana seguinte ao seminário todos os licenciandos responderam um questionário relacionado ao ensino de física com abordagem CTS.

Com o questionário final pudemos notar que o trabalho realizado, para os que apresentaram o seminário CTS e a participação nesse seminário para os demais fez com que dentrtre as respostas dos sete alunos presentes no dia do questionário, em três fosse possível notar deslocamentos quanto ao conhecimento manifesto sobre CTS. No entanto, quando davam exemplos práticos, sempre colocavam a ciência como determinante de mudanças socociais e nunca a sociedade influenciando a produção da ciência.

Por outro lado, a literatura evidencia que propostas CTS supõem o aluno no foco do processo de ensino, tendo em vista o desenvolvimento de atitudes coerentes com a natureza da proposta. Já para a os licenciandos estudados, embora o desenvolvimento de atitudes pareça ser desejável, eles demonstraram acreditar que apenas fornecendo certo tipo de informação aos estudantes, estes conseguiriam o intento.

Constatamos também que alguns dos licenciandos passaram a considerar preocupações não só com conteúdo, mas com valores éticos, o que não é normalmente considerado em aulas de física.

Dessa forma, procuramos neste estudo trazer elementos do imaginário de licenciandos em física trabalhando e refletindo sobobre a abordagem CTSA com o tema 'questão nuclear'. Notamos que os licenciandos estudados viam metodologias diferentes muitas vezes como uma solução para problemas de motivação e interesse, porém - - talvez por estarem acostumados com aulas expositivas - não viam metodologias diferentes como proporcionadoras de aprendizado diferente, ou como auxiliares no desenvolvimento da cidadania.

Vemos também que, provavelmente por falta de conhecimentos sobre a abordagem CTS e talvez por sua formação disciplinar ou por influência e reforço da mídia, os licenciandos têm uma idéia linear em único sentido das relações CTS, ou seja, a ciência como produtora de tecnologia e esta interferindo na sociedade e ambiente. Mostramos que esse imaginário sofreu conflitos no trabalho com a abordagem CTS, pelo menos em parte dos estudantes.

Vemos também que há um certo conflito com relação a formação cultural e o vestibular sendo, para alguns dos licenciandos, tipos de ensino mutuamente excludentes. Parece que a formação cultural é algo a mais e dispensável para um ensino que visa exclusivamente o vestibular.

Para finalizar acrescentamos que apesar do pouco contato, durante a licenciatura, com abordagens alternativas ao ensino tradicional e a forte presença em seu imaginário de

elementos tatambém ligados a esse ensino, para esses licenciandos o trabalho com a abordagem CTS com enfoque em Física Nuclear gerou reflexões e deslocamentos no sentido de práticas diferenciadas para o ensino de física.

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