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TRÂNSITO DE VÊNUS 2004: RELATANDO UMA EXPERIÊNCIA DIDÁTICA

Célio Galante Pinheiro

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
26/01/2005
Linha de pesquisa
Interdisciplinaridade E Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## TRÂNSITO DE VÊNUS 2004: RELATANDO UMA EXPERIÊNCIA DIDÁTICA

Pinheiro, Célio [cpgalante@ig.com.br]

Centro de Ensino Médio 01 do Cruzeiro/Secretaria de Educação do Distrito Federal

## RESUMO

O artigo a seguir descreve o relato de uma experiência didática envolvendo o trânsito do planeta Vênus ocorrido em 2004. O fenômeno foi acompanhado por alunos do ensino médio de uma escola da rede pública do Distrito Federal. Durante a observação, foram feitos registros escritos e fotográficos, saindo das atividades convencionais de sala de aula. Durante os trabalhos, os estudantes puderam se aproximar da prática científica, fazendo da observação ingrediente fundamental na construção do conhecimento. A reação dos estudantes foi de grande entusiasmo diante da magnitude do fenômeno. Muitos tópicos e curiosidades sobre o sistema solar vieram à tona de forma natural, aumentando o fascínio de todos pelos fenômenos físicos em geral.

PALAVRAS CHAVE : [Trânsito de Vênus], [Observação], [Fenômenos físicos] .

## INTRODUÇÃO

Em 8 de junho de 2004, Vênus - planeta irmão da Terra - cruzou o disco solar. Este acontecimento -que os astrônomos designam por 'trânsito', é extremamente raro - o último ocorreu em 1882 - há 122 anos. Este fenômeno atraiu a atenção de milhares de pessoas em vários países, inclusive no Brasil, com grande cobertura dos meios de comunicação. O presente trabalho pretende relatar a experiência de observação do trânsito de Vênus por alunos de uma turma de primeira série do ensino médio. Esta atividade foi preparada para satisfazer a curiosidade dos alunos com respeito a este fenômeno e ao mesmo tempo enriquecer as discussões sobre o sistema solar, já que trabalhávamos em sala de aula o tema Gravitação Universal .

## JUSTIFICATIVA

É inegável o fascínio que os fenômenos celestes exercem sobre as pessoas e em especial sobre as crianças e adolescentes. Fenômenos relacionados às estrelas, planetas, cometas, mexem com a imaginação, tornando natural o fascínio de todos pela astronomia. Vivemos na chamada 'era da informação'. Os estudantes adquirem conhecimento por meio dos livros, pela internet e por muitos outros recursos paradidáticos. Mas a pergunta que poderíamos fazer como educadores é: Qual a importância que temos dado ao papel da observação da natureza ? Nos parece que os alunos aprendem muito sobre tudo, mas observam muito pouco a physiké ao seu redor. Ensinamos tudo sobre óptica, espelhos, lentes, mas nunca perguntamos: Alguém observou o céu ontem ? A Lua estava crescente ou minguante ? Viram a beleza do planeta Vênus logo após o pôr do Sol ?

Muitas das grandes civilizações da antiguidade chegavam às suas conclusões sobre o mundo natural pela simples observação. Foi assim que se estabeleceram os primeiros calendários ordenando os ciclos do plantio e da colheita. É nesse c ontexto que esta atividade foi concebida.Tirar os alunos da sala de aula e colocá-los a contemplar um fenômeno tão raro e carregado de mistério, tornou-se uma experiência excitante e inesquecível para muitos deles. Mesmo que daqui a alguns anos não se lembrem em detalhes as leis de Kepler por exemplo, certamente se lembrarão daquele dia em que viram o pequenino Vênus 'desfilar' diante do Sol. Certamente terão uma ótima história para contar.

## DESENVOLVIMENTO

- O fenômeno, de acordo com as efemérides astronômicas para a cidade de Brasília, teve seu início por volta das 06 h: 30 m horário local e seu término por volta da 8 h : 30 m. No dia anterior a atividade, foram dadas todas as instruções de como seria feito o trabalho de observação. Nesta ocasião, discutimos o funcionamento do instrumento (telescópio) e a maneira como a imagem seria captada, informando as precauções necessárias para se observar o Sol. Desta forma, optamos pela observação por projeção, feita com um telescópio Newtoniano de 7,5 polegadas de propriedade do professor. Um anteparo de aproximadamente 1 m x 1 m foi posicionado aproximadamente a 20 cm da ocular do telescópio . A partir das 06:20 horas da manhã, grande parte dos estudantes já estavam prontos para acompanhar o início do fenômeno. Alguns alunos em especial foram incumbidos do manejo do telescópio e outros, do registro das imagens com fotografia.

## COMENTÁRIOS

- O Trânsito do planeta Vênus foi acompanhado por aproximadamente duas horas. O que mais intrigou os alunos inicialmente, foi a diferença entre os diâmetros do disco solar e o do Vênus. A perplexidade dos estudantes estava na constatação de quão insignificante é o tamanho de Vênus em relação ao Sol. Essa perplexidade aumentou quando informamos que a Terra é tão insignificante quanto. Vênus e Terra têm aproximadamente o mesmo diâmetro. Parecia impossível acreditar que poderiam viver dentro de um ponto tão pequeno quanto aquele.

Durante a observação uma das primeiras questões a serem levantadas foi o porquê da raridade d este fenômeno, já que Vênus, como se sabe, está sempre orbitando entre o Sol e a Terra. Mostramos que este caso é semelhante ao dos eclipses do Sol. A órbita de Vênus não está no mesmo plano da órbita terrestre. A inclinação de seu plano de órbita é de cerca de 3 o em relação à da Terra. Desta forma, nem sempre em que o Sol, Vênus e Terra estão alinhados (conjunção), podemos observar o trânsito. Ele acontece somente quando Vênus se encontra sobre a linha dos nodos (Figura 1). Caso contrário, estará acima ou abaixo do plano definido pela órbita da Terra em torno do Sol (Eclíptica) e não cruzará o disco solar.

De acordo com as coordenadas geográficas para a cidade de Brasília, não foi possível acompanhar o trânsito a partir do primeiro contato de Vênus com o disco solar. Neste caso, o primeiro contato se dava na alta madrugada, período em que o Sol estava abaixo do horizonte.

Um fato bastante curioso é que, mesmo que a imagem estivesse diante de seus olhos, muitos alunos relutavam em aceitar o fato de que aquele era o planeta Vênus e não uma 'manchinha' na lente do telescópio. Esse tipo de postura não é nova na história da ciência. Muitos dos críticos mais ferozes de Galileu Galilei (1564-1642) não aceitavam as imagens fornecidas pelo seu telescópio, pois, achavam que aquilo que enxergavam eram efeitos causados pela própria lente do instrumento e, portanto, não correspondiam a realidade.

Figura 1 - Inclinação do plano de órbita de Vênus em relação à eclíptica .

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## CONCLUSÃO

Ao término d a atividade, percebemos o grande impacto pedagógico que ela proporcionou. O fato de prepararmos uma atividade com antecedência, de sairmos da sala de aula e acompanharmos um fenômeno com tanto cuidado, mostrou claramente aos estudantes como funciona a prática científica. Ficou bastante claro que, dentro desta prática estão incluídos o valor do trabalho em grupo, o respeito às idéias dos colegas, o esmero e a exatidão durante a observação. Nesta atividade, discutimos a importância de estarmos sensíveis à natureza ao nosso redor. Podemos ter acesso a beleza da natureza, usando simplesmente nossos órgãos dos sentidos. Não precisamos, necessariamente, de modernos instrumentos ou sofisticadas ferramentas matemáticas para podermos contemplá-la.

## REFERÊNCIAS

MOURÃO, Ronaldo R.F. Da Terra às Galáxias : Uma introdução à astrofísica. Editora Vozes, 1984. 359p.

BOCZKO, Roberto. Conceitos de Astronomia . São Paulo: Editora Edgard Blucher LTDA, 1984. 429p.

BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores : De como o homem procurou conhecer-se a si mesmo e ao mundo. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1989. 646p.

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