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Aula boa é aula que (nos) faz pensar Relato de experiência

Simone Aparecida Fernandes*, Arnaldo De Moura Vaz

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
26/01/2005
Linha de pesquisa
Interdisciplinaridade E Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## AULA BOA É AULA QUE (NOS) FAZ PENSAR

## RELATO DE EXPERIÊNCIA

Simone Aparecida Fernandes [simonef@fisica.ufmg.br] a Arnaldo de Moura Vaz [Arnaldo@coltec.ufmg.br] b

a Departamento de Física / Universidade Federal de Minas Gerais b Colégio Técnico / Universidade Federal de Minas Gerais

## RESUMO

Ao prepararmos nossas aulas planejamos cada passo já esperando determinadas respostas dos alunos às atividades que propomos. Porém, a preocupação em fazer com que tudo ocorra conforme o planejado muitas vezes nos impede de perceber e aproveitar oportunidades ricas, que na maioria das vezes nos pegam de surpresa e acabam se apresentando como um desvio em nossos planos. A percepção de que determinada oportunidade, que se apresenta em sala de aula, poderia gerar uma atividade a inda mais enriquecedora muitas vezes só é percebida em experiências posteriores. Nesse relato eu apresento uma situação concreta de sala de aula cujo valor eu só percebi depois, mas que, mesmo assim, contribuiu para o meu aprendizado enquanto professora.

## INTRODUÇÃO

Quando preparamos uma aula pensamos na melhor estratégia e 'programamos', passo a passo, a maneira de iniciar o trabalho, a melhor forma de conduzir a aula, como avaliaremos, etc. Na maioria das vezes, pensamos que podemos até prever a forma como os alunos responderão à determinada situação. Realmente até conseguimos prever algumas coisas, esperar algumas respostas, estar preparados para as possíveis perguntas, ou seja, conseguimos ter o que um colega de trabalho chamava de 'controle da situação'. Ele prezava muito isso e me dizia: ' você tem que ter o controle da situação, senão [ ... ] ', 'os alunos não podem perceber que você está contra a parede, senão ... '. [ ]

O relato aqui apresentado é sobre uma aula que preparei e que, no final, tomou um rumo completamente diferente daquele que eu havia planejado. Como este trabalho se trata de um relato de experiência, sobre o qual só fiz reflexões pessoais, não tenho referências bibliográficas. Dessa forma, deixarei, àqueles que quiserem entender melhor o que será apresentado, algumas referências consultadas.

## O CONTEXTO

Em 2002 fui designada para dar aula de Física no Ensino Médio noturno em uma cidade muito pequena. Como muitas escolas públicas essa escola era pequena e muito precária, faltavam

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folhas, não havia livro didático, as salas tinham muitos alunos e as carteiras e quadros estavam em mal estado.

Uma das turmas com as quais trabalhei fazia parte de um projeto desenvolvido no Estado de Minas Gerais que visava oferecer o curso de Ensino Médio a estudantes fora da idade escolar adequada. Tal programa, intitulado 'Acertando o Passo Rumo à Cidadania', era composto por três semestres, cada um deles correspondendo a cada uma das séries do Ensino Médio Regular.

A turma na qual lecionei estava no último semestre de estudos e era composta, em média, por quarenta alunos com idades variando entre vinte e cinco e quarenta anos. A maioria deles era pais e mães de família com profissões diversas como, donas de casa, empregadas domésticas, atendentes de lojas, serventes de pedreiro, carpinteiros, entre outras. Algumas alunas levavam os filhos para sala de aula ou os deixavam brincando no pátio enquanto assistiam às aulas.

Quanto às formas de avaliação, não existia um sistema de notas. Os alunos deveriam ter uma certa porcentagem de presença em sala de aula e existia, ainda, para cada um deles, uma lista de objetivos a serem cumpridos em cada semestre. À medida que esses eram cumpridos, seja através de avaliação, trabalhos em classe, trabalhos extra-classe e outros, o p rofessor os assinalava na lista individual de cada aluno. Como era o final do curso recebi a lista construída pelo antigo professor e, dessa forma, meu trabalho era cumprir os objetivos do último semestre e recuperar aqueles não cumpridos anteriormente. Porém, cada estudante 'devia' objetivos distintos e a saída encontrada, juntamente com a direção da escola, foi tentar recuperá-los através de atividades extras e, ao final do semestre, aplicar uma prova que ficaria arquivada na escola.

As aulas começavam às dezoito horas, porém, como a maioria dos alunos trabalhava, o primeiro horário era praticamente perdido. Além disso, às sextas-feiras estudantes muitos faltavam às aulas e, parte daqueles que compareciam, costumavam 'matar' os últimos horários.

## O RELATO

Quando assumi a turma fiquei muito preocupada com relação à forma de trabalhar e 'o quê' trabalhar com esses alunos. Percebi que poderia fazer um trabalho diversificado, levando para a sala de aula diversos materiais que contribuíssem para um ensino mais conceitual, contextualizado, ligado a situações e fenômenos mais cotidianos; como orientam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNEM) e as Orientações Complementares aos PCNEM (PCN+). Assim, baseando-me nesses documentos e em vários artigos já lidos -que discutem a interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, contextualização e o trabalho com textos de divulgação científica em sala de aula -, decidi investir em atividades que envolvessem leitura, fenômenos físicos ligados ao cotidiano, demonstrações, entre outras. Comecei a preparar meu material utilizando alguns livros didáticos que eu possuía, o GREF e alguns textos com informações sobre o funcionamento de alguns aparelhos elétricos e sobre alguns cientistas que contribuíram para o desenvolvimento da Física. Além disso, procurei artigos de revistas como a ' Super Interessante ', ' Galileu ' e ' Física na Escola '. Porém, geralmente os textos tirados de revistas de divulgação científica não são adequados para o trabalho em sala e, dessa forma, eu procurava fazer uma re-elaboração do conteúdo dessas revistas. As aulas em que eu trabalhava com esses materiais geravam comentários e, às vezes, discussões interessantes por parte dos alunos, o que contribuía muito para o meu trabalho.

Certa vez, decidi finalizar um conteúdo falando sobre rigidez dielétrica e, como meio de introduzir o assunto, levei para a sala de aula um artigo 1 da revista Física na Escola. Aproveitando o dia em que teria duas aulas com a turma, planejei fazer, ao final , uma avaliação que já incluísse alguns objetivos a serem cumpridos. Como os estudantes chegavam atrasados, planejei a aula de forma que, primeiro, eles lessem o artigo individualmente. Quando a maioria deles já estava presente começamos a leitura juntos, de forma que cada um lia uma parte do artigo. Logo que começamos essa atividade surgiu uma avalanche de estórias a respeito de relâmpagos, várias delas ligadas a superstições. Todos começaram a contar suas estórias e a me indagar a respeito de inúmeras coisas como: ' Por quê a tesoura e faca atraem relâmpago? '; ' Por quê quando alguém morre atingido por raio o corpo fica normal, mas o calcanhar fica pretinho e com um buraco? '; ' Quando meu pai era pequeno, a minha avó estava de mãos dadas com ele andando no campo lá na roça e aí um raio caiu em cima dela e ela morreu, mas meu pai ficou vivo. Por quê? '. Além disso, surgiram vários comentários como: ' Professora, você sabe, quando está relampejando temos que esconder os espelhos ou deixar todos virados para baixo '; ' Eu conheço um fulano que disse que uma pessoa morreu porque estava segurando uma faca num dia que estava dando muitos relâmpagos '; ' Eu conheço o caso de uma pessoa que estava em pé com uma das mãos encostadas no alambrado do campo de futebol e aí caiu um raio perto do campo e ele morreu eletrocutado '; ' Fulano perdeu um boi porque o raio caiu na cerca e foi andando até onde o boi estava encostado '.

Os alunos me faziam tantas perguntas e me pediam tantas explicações que acabei introduzindo o conteúdo antes de terminarmos a leitura do artigo. Tomei essa decisão acreditando que eles entenderiam melhor minhas explicações para os fatos e perguntas apresentadas. Porém, isso não pareceu ser suficiente e, quanto mais eu discordava de algumas colocações e tentava explicar os fatos - até onde eu podia -, mais estórias surgiam contestando as minhas colocações. Muitos daqueles alunos eram bem mais velhos que eu e estavam tão certos do que estavam falando, tão crentes nas estórias que conheciam, que nada que eu dissesse mudaria aquilo. A crença de morrer durante uma tempestade por estar segurando objetos de metal era fortíssima e surgiram várias outras estórias e perguntas que eu não me lembro mais. Então, chegou o momento em que eu não tinha mais resposta para as perguntas e não conseguia mais argumentar com eles. Eram pessoas mais velhas, com um conhecimento de senso comum arraigado e com uma crença muito forte em superstições. A aula chegou ao fim, não tínhamos terminado a leitura e eu não tinha conseguido responder às perguntas levantadas. Então, passei algumas questões para que eles respondessem em casa e propus que pesquisássemos a respeito daqueles assuntos que surgiram.

Ao sair da sala de aula me senti muito mal por não ter conseguido responder as questões e por não ter terminado a aula como havia planejado. Apesar de não acreditar que o professor tenha que ' ter o controle da situação '- como dizia um companheiro de trabalho -, o sentimento que eu tive foi, justamente, o de ter perdido esse controle. Eu tinha pouco mais de um ano de experiência, já havia levado outros materiais para trabalhar com essa mesma turma e nunca tinha passado por uma situação parecida. Assim, saí da sala achando que minha aula tinha sido horrível, que os alunos deveriam estar pensando várias coisas a meu respeito e fiquei me sentindo assim por um tempo.

Na aula seguinte levei mais algumas informações para a sala de aula, mas os alunos não tinham pesquisado nada a respeito e nem estavam mais interessados no assunto, o que me desanimou ainda mais.

Algum tempo depois, ao terminar o mesmo conteúdo com a turma do terceiro ano regular, me encorajei a fazer o mesmo trabalho que havia feito com os alunos do projeto. Porém, nessa turma a postura dos estudantes foi oposta. Apesar de terem achado o artigo interessante, surgiram poucas estórias e, mesmo depois que apresentei o conteúdo, poucos alunos se manifestaram a respeito do que tinham lido.

Percebi que a aula com os alunos do projeto tinha sido boa e que eu deveria ter aproveitado melhor aquele momento. Ao final da aula com a turma do curso regular, gostaria de poder voltar lá naquela aula do projeto, fechar o livro, sentar em uma carteira lá no meio dos alunos, ouvir atentamente as suas estórias, fazê-los buscar explicação para os fatos e concluírem o que era e o que não era plausível nas estórias que eles conheciam. Não sei se teria sucesso, mas acredito que seria, senão a melhor, uma das melhores aulas do meu início de carreira docente.

## CONCLUSÃO

Quando começamos a dar aula dedicamos tanto esforço à preparação que acabamos perdendo oportunidades ricas por elas nos aparecerem como um desvio em nossos planos. Nesse relato eu apresento uma situação cujo valor eu só percebi depois. Se eu não tivesse repetido o mesmo planejamento com outra turma e tido um resultado pior que na primeira vez, eu não teria aprendido essa lição como professora.

## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SABA, Marcelo M. E. A Física das tempestades e dos raios. Física na Escola , v.2. n.1, 2001.

## BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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MEC; SEMTEC. Parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio. Brasília: MEC; S EMTEC. 1999. 360p.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias. Brasília: MEC; SEMTEC. 2002. 144p.

PIETROCOLA, Maurício. Construção e realidade: o papel do conhecimento físico no entendimento do mundo. In: Ensino de física : conteúdo, metodologia e epstemologia numa concepção integradora. Florianópolis: Ed. UFSC. 2001. pp.9-32.

ROSSO, Ademir J.; SOBRINHO, Augusto C. M. O senso comum, a ciência e o ensino de ciências. Revista Brasileira do Ensino de Física . Vol. 19, n.3. set.1997.

SALÉM S.; KAWAMURA M. O texto de divulgação e o texto didático; conhecimentos diferentes? In: Anais do V Encontro de Pesquisa em Ensino de Física. 1996. São Paulo: Sociedade Brasileira de Física.

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