UM ESTUDO PRELIMINAR DAS DIMENSÕES MACRO E MICRO DO SISTEMA EDUCACIONAL NO USO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO PELO PROFESSOR DE FÍSICA
Flavia Rezende
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 26/01/2005
- Linha de pesquisa
- Tecnologias (Laboratório, Vídeo E Informática) No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## UM ESTUDO PRELIMINAR DAS DIMENSÕES MACRO E MICRO DO SISTEMA EDUCACIONAL NO USO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO PELO PROFESSOR DE FÍSICA
Flavia Rezende [frezende@nutes.ufrj.br]
## NUTES-UFRJ
## RESUMO
Freqüentemente presentes na escola e fazendo parte cada vez mais do cotidiano dos alunos do lado de fora das escolas, as Tecnologias da Informação e C omunicação ( TIC) têm sido pouco incorporadas à prática pedagógica dos professores. A spectos das dimensões macro e micro do sistema educacional estão envolvidos neste processo de inovação. E ste estudo faz um recorte desta temática, investigando o uso das TIC na prática de oito professores de física de escolas urbanas públicas e privadas do Rio de Janeiro e possíveis relações com aspectos das dimensões macro e micro do sistema. Respostas a um questionário com perguntas fechadas indicaram que ambas as dimensões estão envolvidas na utilização das TIC pelos professores investigados. D o ponto de vista macro, o sistema político e social é o responsável pela inadequação do laboratório de informática da escola pública estadual que impede o uso das TIC pelo professor. D o ponto de vista da perspectiva micro, que se refere aos significados dados à inovação pelos sujeitos envolvidos, todos os professores pesquisados parecem valorizar o uso das TIC na educação e apontam suas vantagens específicas para o ensino da física. Este resultado pode estar relacionado a características da formação do professor de física e com o uso disseminado da tecnologia nos grandes centros urbanos. Futuros estudos devem ser conduzidos para aprofundar essa hipótese envolvendo professores e professoras de física e de outras matérias, incluindo também escolas distantes dos centros urbanos.
## INTRODUÇÃO
Desde a década de 80, políticas educacionais voltadas para a introdução das TIC na educação brasileira têm sido implementadas. Hoje, apesar dos investimentos públicos e privados feitos neste sentido, o uso do computador na escola ainda é desarticulado da prática pedagógica dos professores, se restringindo, de um modo geral, a atividades de alfabetização em informática e de reforço da aprendizagem através de programas tutoriais. Mesmo quando presentes na escola e fazendo parte cada vez mais da vida cotidiana dos alunos do lado de fora das escolas, as T IC têm sido pouco incorporadas a processos de inovação da prática pedagógica dos professores.
Vários tipos de problemas estão envolvidos nesta questão, como por exemplo, a precariedade da infra-estrutura tecnológica, a falta de suporte técnico e de manutenção dos equipamentos, falta de software educativo e a falta da formação específica do professor. De fato, o processo de inovação na educação pode ser visto como um processo complexo que requer atenção a aspectos das dimensões macro e micro do sistema, para que uma mudança seja implementada satisfatoriamente (FULLAN, 2001). A dimensão macro se relaciona com o sistema político e social que envolve as instituições educacionais, enquanto a perspectiva micro se refere à realidade individual e aos significados s ubjetivos dados à inovação pelas pessoas envolvidas no processo. Professores, coordenadores e diretores são, obviamente, os atores principais neste cenário.
Este estudo faz um recorte desta temática, voltando-se especificamente para a realidade de professores de física de escolas urbanas públicas e privadas. Pretende-se estudar a utilização das TIC pelo professor de física na sua prática pedagógica e suas possíveis relações com aspectos das dimensões macro e micro do sistema educacional.
## DESCRIÇÃO DO ESTUDO
Este estudo foi realizado a partir da aplicação de um questionário com nove perguntas de múltipla-escolha (podendo ser complementadas pelo respondente) a professores de física de nível médio de escolas do Rio de Janeiro, que dispunham de laboratório de informática. As questões foram construídas com o objetivo de investigar se os professores utilizavam as TIC para ensinar física e de que forma (software usados, objetivos, motivação do professor, interesse do aluno). Oito professores de física de escolas diferentes participaram da pesquisa: três professores e uma professora (grupo 1) de uma escola privada de grande porte que atende alunos de um padrão sócio-econômico alto; dois professores e uma professora (grupo 2) de uma escola pública federal de grande porte; um professor de 45 anos e 21 anos de experiência que trabalha em uma escola pública estadual e em uma escola privada de nível sócio-econômico médio. 1
Os professores do grupo 1 têm, em média, 41 anos, 15 anos de experiência e pósgraduação. A escola, situada na zona sul do Rio de Janeiro, dispõe de excelente infraestrutura de informática, um laboratório equipado com mais de 20 máquinas, serviço de manutenção, além de contar com um auxiliar de informática. O projeto pedagógico da escola apóia o uso das TIC no ensino, mantendo, inclusive, um grupo de estudos sobre informática educativa.
Os professores do grupo 2 têm, em média, 30 anos, seis anos de experiência sendo que um deles tem pós-graduação. A escola na qual o grupo 2 atua, atende alunos de u m padrão sócio-econômico médio e é situada em um bairro central da cidade. Há motivação para o uso da informática na escola e um g rupo de estudos de informática educativa está se formando. Dispõe-se de boa infra-estrutura de informática, um laboratório equipado com 20 máquinas, auxiliar de informática e manutenção de equipamentos.
A escola pública estadual onde atua o professor pesquisado, atende a alunos de padrão sócio-econômico médio e baixo e é situada em um bairro central da cidade. Esta escola dispõe de um laboratório de informática equipado com dez máquinas e possui técnico de informática para manutenção dos equipamentos. A escola privada onde este professor também atua, atende a alunos de classe média e dispõe de um laboratório de informática com 20 máquinas.
## RESULTADOS
Os resultados obtidos dos grupos 1 e 2 foram muito semelhantes. As diferenças de gênero, de idade e de tempo médio de experiência profissional entre os professores e o fato das escolas serem uma pública e outra privada não levaram a diferentes usos das TIC no ensino. Todos os professores utilizam o laboratório de informática para ensinar f ísica e consideram que a informática proporciona recursos que não estão disponíveis em outros meios, destacando as facilidades para simular situações físicas e oferecer ao aluno uma compreensão conceitual mais completa. Os professores se consideram motivados a usar a informática em seu curso de física e utilizam o laboratório de informática uma vez por semana, em geral, com um aluno ou duplas de alunos em cada computador.
Os professores dos grupos 1 e 2 usam softwares educativos nacionais e estrangeiros, como por exemplo, Interactive Physics, Xlplot, Galileo, Educandos, Sei+Física, Java scripts e sites da Internet. Estes recursos são utilizados para construir simulações que são usadas para demonstração de conceitos, introdução, fixação, revisão de conteúdo e complementação da construção dos conceitos físicos e dos modelos mentais dos alunos. Os professores consideram que os alunos, de um modo geral, gostam das aulas de f ísica no laboratório de informática, são cooperativos e discutem o trabalho entre eles. Uma professora respondeu que os alunos se sentem indiferentes ao uso de materiais desenvolvidos pelo professor utilizando informática. O editor de textos é usado pelos professores para elaboração de projetos e preparação de aulas e o software de apresentação para apresentar conteúdo em aula ou para preparação de material didático. Um dos professores usa planilha de cálculo para elaboração de gráficos para acompanhamento da avaliação dos alunos.
O professor da escola pública estadual não usa as TIC para ensinar física nesta escola, mas faz uso do laboratório de informática na escola privada onde atua. Tomando por base suas respostas sobre o uso que f az da informática na escola privada, foi possível perceber que o professor se sente motivado a usar as TIC, conhece software educativos, leva os alunos para o laboratório de informática uma vez por mês e usa software educativos ou sites da Internet. Este professor usa editor de textos e planilha de cálculos para acompanhamento da avaliação dos alunos. O professor considera que os alunos gostam das aulas no laboratório de informática, são cooperativos e discutem entre si.
A partir deste resultado, a diretora adjunta da escola pública estadual foi entrevistada sobre a não-utilização do laboratório de informática na escola. A diretora explicou que o laboratório não é usado porque o número de máquinas não é suficiente para atender a todos os alunos de uma única turma, pois cada turma possui mais de 40 alunos. Para ela, e ste seria o motivo da resistência d os professores para desenvolverem projetos de informática educativa. A diretora informou também que atualmente o laboratório é utilizado apenas por um professor do ensino médio que desenvolve sites com grupos de alunos selecionados, como atividade extra-classe.
## DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Os dados coletados indicaram um nível alto de apropriação das TIC pelos professores dos grupos 1 e 2 na sua prática pedagógica. O nível de apropriação das TIC pelo professor da escola pública estadual é nulo nessa escola enquanto é semelhante ao nível dos demais professores pesquisados, na escola privada onde atua. Foi possível perceber que os professores atribuem um sentido positivo à utilização das TIC no ensino de física, reconhecendo vantagens desses meios, principalmente relacionadas à possibilidade de simular fenômenos físicos e assim complementar as aulas teóricas.
Pela entrevista com a diretora da escola estadual, parece que o fator determinante para a não-utilização das TIC pelo professor investigado é a infra-estrutura inadequada do laboratório de informática.
Olhando-se para os dados obtidos a partir das dimensões macro e micro as quais Fullan (2001) relaciona às inovações educacionais, é possível concluir que ambas as dimensões estão envolvidas na utilização das TIC pelos professores investigados.
A escola privada e a escola pública federal possuem infra-estrutura tecnológica adequada, atendendo turmas de no máximo 4 0 alunos em laboratórios de informática com 20 máquinas ou mais. Por outro lado, o sistema político e social é o responsável pela inadequação do laboratório de informática da escola pública estadual que impede o professor de física (e os demais professores) de usarem as TIC na sua prática pedagógica. De fato, o número reduzido de computadores nos laboratórios tem sido apontado, ao lado
da falta da formação docente (TRACTENBERG, 2003), como razões para que poucos professores usem as TIC na educação média.
A constatação da não-utilização das TIC na escola pública estadual investigada foi reveladora, porque o que chega ao público em geral é que os governos federal e estadual estão investindo na informatização das escolas. Entretanto, não é divulgado que esses investimentos, aliados às reais condições de funcionamento da escola pública, não promovem a inovação educacional prometida.
No caso da escola pública estadual investigada, a dimensão macro do sistema educacional teve repercussões negativas sobre a dimensão micro, pois o fato dessa escola ter participado do primeiro projeto governamental brasileiro para impulsionar o uso da informática na educação, poderia ter garantido as condições culturais necessárias para que os professores se apropriassem deste recurso até hoje.
Do ponto de vista da perspectiva micro, os professores pesquisados parecem valorizar o uso das TIC na educação, especificamente n o ensino da física. Este resultado pode retratar uma realidade particular do professor de física, relacionada a características específicas do conteúdo de sua formação, como a familiarização com cálculo matemático, com linguagens de programação e com o uso da tecnologia. Todos esses aspectos podem criar uma atitude favorável à mesma. Futuros estudos devem ser conduzidos para aprofundar essa hipótese envolvendo professores de outras matérias que não apresentam esse tipo de relação com a tecnologia.
O contato com as TIC em todos os setores da sociedade, comum nos grandes centros, também pode estar envolvido na familiarização com a tecnologia e na atitude do professores investigados em relação a ela. Por isso, também deverão ser incluídos, em futuros estudos, professores de escolas distantes dos grandes centros, onde o uso das TIC ainda não seja tão disseminado. A atitude com respeito à tecnologia pode também estar relacionada a gênero (BARRON, 2004), questão não investigada no limite do presente estudo, que também precisa ser aprofundada.
## REFERÊNCIAS
BARRON, B. (2004). Learning ecologies for technological fluencly: gender and experience difference. Journal of Educational Computing Research , Vol. 31, No. 1, pp 1-36.
FULLAN, M. G. (2001). The New Meaning of Educational Change (3rd Ed.) New York: Teachers Colllege Press.
TRACTENBERG, R. An analysis of PROINFO's implementation in Rio de Janeiro's public secondary schools . Anais do X Congresso Internacional de Educação a Distância, Porto Alegre, 2003.
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