Um estudo exploratório para a inserção da Astronomia na formação de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental
Rodolfo Langhi, Roberto Nardi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 26/01/2005
- Linha de pesquisa
- O Ensino De Física Para A Graduação (Física, Engenharias, Química, Biologia, Arquitetura, Arte, Etc.)
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
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## UM ESTUDO EXPLORATÓRIO PARA A INSERÇÃO DA ASTRONOMIA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL
Rodolfo Langhi [rlanghi@fc.unesp.br] a Roberto Nardi [nardi@fc.unesp.br] b
- a Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências - Mestrando em Educação para a Ciência. Faculdade de Ciências - UNESP Câmpus de Bauru
## RESUMO
O estudo objetivou identificar padrões relativos às perspectivas de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental em relação ao ensino da Astronomia, bem como suas expectativas sobre a inserção deste tema na formação de docentes. Justifica-se o estudo pelo fato da Astronomia ser altamente interdisciplinar, além da necessidade de reverter um quadro no qual constata-se empiricamente uma grande difusão de concepções de senso comum referentes aos fenômenos astronômicos. A pesquisa, de natureza qualitativa, foi norteada por uma revisão crítica da literatura, que incluiu estudos já realizados sobre concepções prévias, erros conceituais encontrados em livros didáticos, análise das orientações contidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e, principalmente, na interpretação dos discursos de uma amostra de docentes que atuam nos anos iniciais do Ensino Fundamental em escolas públicas, recolhidos através de entrevistas semi-estruturadas. A leitura das mesmas entrevistas pôde sinalizar para as preocupações de ordem didática dos professores, segundo os quais, a inserção da Astronomia se daria por meio de sugestões fornecidas pelos docentes, que são consideradas ao final do estudo, culminando com a proposta de uma seqüência didática destinada à capacitação de professores dos anos iniciais para o ensino de Astronomia.
Palavras-chave: Formação de professores; ensino da Astronomia; erros conceituais em livros didáticos; concepções alternativas; educação continuada; análise do discurso.
## INTRODUÇÃO
No ensino da Astronomia encontram-se diversos problemas que necessitam ser estudados visando a melhoria da qualidade do ensino nesta área, principalmente nas escolas de nível fundamental e médio (CAMINO, 1995; CANALLE, 1997; TREVISAN, 1997). Esse estudo objetivou investigar esses problemas e identificar padrões relativos às perspectivas de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental em relação ao ensino da Astronomia, bem como suas expectativas sobre a inserção do tema na formação de docentes. Buscou-se assim: a) analisar a literatura da área sobre: as concepções alternativas mais comuns presentes em docentes e alunos sobre temas relacionados à Astronomia, como por exemplo, em Nardi (1989 e 1996), Baxter (1989), e Camino (1995); os erros conceituais mais freqüentes em livros didáticos, como em Bizzo (2000 e 1996), Boczko (1998), Trevisan (1997), Canalle (1994 e 1997), e Paula e Oliveira (2002); as sugestões presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais sobre o tema (BRASIL, 1997; BRASIL, 1998; BRASIL, 1999); b) interpretar os discursos de uma amostra de professores de Ciências dos anos iniciais do Ensino Fundamental sobre suas perspectivas para com o ensino da Astronomia, mapeando suas dificuldades e sugestões didáticas sobre este tema; c) a partir dos discursos dos professores, juntamente com os resultados de pesquisas contemporâneas sobre a Educação em Ciências indicados no item 'a', subsidiar o desenho de uma seqüência didática sobre o tema
destinada a docentes do Ensino Fundamental, visando contribuir para uma mudança de postura dos mesmos.
Portanto, a questão central que este estudo procurou responder foi a seguinte: Como a interpretação dos discursos de uma amostra de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental pode indicar alguns padrões relativos às suas perspectivas em relação ao ensino d a Astronomia e à inserção desse tema em sua formação?
Relatam-se aqui os alguns pontos principais deste estudo, principalmente aqueles derivados da interpretação dada às entrevistas semiestruturadas realizadas com uma amostra de docentes que atuam em escolas públicas nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
## MÉTODOS DA PESQUISA E FORMA DE ANÁLISE DOS RESULTADOS
A pesquisa aqui relatada e classificada como de natureza qualitativa, contou com uma amostra final de cinco docentes (denominadas A,B,C,D,E) dos anos iniciais do Ensino Fundamental na região da Nova Alta Paulista, no Estado de São Paulo. O instrumento escolhido para a recolha de dados em campo foi a entrevista semi-estruturada, que proporcionou a interpretação dos discursos dos docentes. Todas as entrevistas foram filmadas e gravadas em fitas de videocassete, as quais foram transcritas em sua íntegra com numeração de linha.
A análise das falas dos professores foi inspirada nos princípios e procedimentos da análise do discurso em sua linha francesa, a partir de estudos de D. Maingueneau (1997), Orlandi (2000) e Brandão (2002). Segundo esses autores, o suporte do discurso ou o meio pelo qual se concentram ou se materializam vários discursos se dá pelo indivíduo, do grupo ao qual representa. A análise do discurso possibilita ao investigador descobrir os meandros do pensamento expresso por um determinado indivíduo ou grupo social.
## INTERPRETAÇÃO DOS DADOS COLETADOS
Considerando inicialmente que uma análise não pode ser igual a outra pelo fato de interpolar conceitos diferenciados, um pesquisador que trabalha com este tipo de análise adquire o seu próprio dispositivo analítico de tal forma que outro pesquisador poderá assumir resultados distintos (ORLANDI, 2002). Assim, entende-se que a polissemia esteja contida nos enunciados dos entrevistados da amostra desse trabalho, admitindo que haja a possibilidade de múltiplas interpretações para um mesmo texto extraído das suas falas.
Apesar da polissemia, porém, através das enunciações das entrevistas extrai-se, de um modo geral, significações preocupantes no que tange à formação do professor de Ciências, que apresenta problemas com relação ao ensino da Astronomia. Aliás, a formação de professores dos anos iniciais parece não estar contemplando a inclusão de conteúdos de um modo geral, conforme previsto pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica (BRASIL, 2001). No entanto, as inquietações podem ser estendidas para além da formação do professor da área de Ciências apenas, pois há os professores que se graduaram em Letras e Matemática, como exemplificado pelas entrevistas. É preocupante imaginar quais noções de Astronomia tais docentes revisaram em sua formação para se sentirem aptos ao trabalharem com conteúdos dessa natureza com seus alunos. As interpretações dos discursos da amostra também perecem indicar um descompasso entre a universidade e o professorado, juntamente com a Secretaria da Educação, resultando em cursos de formação continuada que não atingem as necessidades dos professores,
uma vez que não se realiza pesquisas e estudos antecipados para investigar o que o professor de fato precisará aprender em tais cursos para a sua prática docente.
Uma comparação entre os discursos das entrevistas das professoras A, B, C, D e E mostra que apesar de existirem diversidades entre elas, é possível encontrar também algumas semelhanças, que parecem estar confirmadas com a fundamentação teórica. Embora exista uma variedade de características - suas idades, tempo de experiência, i nstituições escolares e cursos de graduação -alguns aspectos em comum que são considerados importantes para esse estudo são: determinadas dificuldades com o conteúdo de Astronomia que geram concepções alternativas, formação deficiente com relação ao ensino deste tema, e as fontes de consulta nas quais buscam suas informações, o que inclui o livro didático, em primeiro lugar e os PCN. De acordo com outras pesquisas, esses resultados corroboram com a situação da Astronomia no ensino brasileiro, sobretudo nos cursos de formação de professores, conforme especificada no levantamento bibliográfico do estudo mais amplo do qual este artigo faz parte.
Por se atribuir um sentido de significação aos discursos dos entrevistados da amostra, e se apoiar na fundamentação teórica contida no início do trabalho, levando em consideração a historicidade dos sujeitos, os quais estão em um contexto comum - a instituição ideológica da Educação - é possível inferir que uma certa padronização de atitudes da parte do docente para com o ensino da Astronomia parece ter se delineado: mesmo antes de iniciar sua formação, algumas concepções alternativas sobre fenômenos astronômicos estão firmemente arraigadas no futuro docente, que podem ter tido sua origem nas mais diversas fontes, incluindo a própria educação que recebeu enquanto criança, nos seus anos iniciais do Ensino Fundamental. Atingindo a formação, essas concepções normalmente persistem, em parte resultado de um curso de graduação falho ou isento de conteúdos em ensino de Astronomia. Uma formação inadequada, por sua vez, leva à inquietações, inseguranças e dificuldades, que o conduz a buscar informações em outras fontes, muitas vezes questionáveis, talvez provocando mais concepções alternativas, fechando um ciclo. Daí a importância da inserção da Astronomia na formação desses docentes, numa tentativa do rompimento desse ciclo, o que corrobora com o levantamento bibliográfico inicial. Estas interpretações unidas com algumas preocupações de ordem didática dos professores encontradas nas entrevistas são consideradas ao final do estudo, que culmina com a proposta de um curso destinado à capacitação de professores dos anos iniciais para o ensino de Astronomia, que incluem conteúdos e metodologias levando em consideração os aspectos sinalizados pelos professores, alguns dos quais citados acima.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo mostra que, além da falta quase que absoluta de conteúdos de Astronomia na formação de professores dos anos iniciais de escolarização, a formação de professores para esta faixa etária é inadequada no que tange a questão da educação científica em geral. As sugestões por parte dos professores entrevistados, em termos de conteúdos a serem trabalhados nos anos iniciais, bem como a preocupação com a metodologia de ensino, mostra que não basta que os cursos de formação inicial ou continuada privilegiem a capacitação em termos de conteúdos, divorciados das metodologias de ensino correspondentes; o grande desafio é a questão da transposição didática, ou seja, investir também, concomitantemente, no conhecimento pedagógico do conteúdo.
As preocupações dos professores do Ensino Fundamental presentes neste estudo também são semelhantes com relação a formação de professores para o Ensino Médio. Isto nos leva a questionar o ensino superior que forma professores que deverão atuar nos outros níveis de ensino e que, salvo raras exceções, tem negligenciado o ensino da Astronomia. Mais que o ensino de conteúdos em si, a
as questões relativas à construção do conhecimento pedagógico do conteúdo têm sido apontadas como uma das falhas dos cursos de licenciatura, de uma forma geral.
## Referências
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