UTILIZAÇÃO DE MAPAS CONCEITUAIS COMO INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO NA DISCIPLINA DE FÍSICA DA MODALIDADE NORMAL: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA EM SALA DE AULA
Marcelo Araújo Machado, Fernanda Ostermann
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 26/01/2005
- Linha de pesquisa
- Formação Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
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## UTILIZAÇÃO DE MAPAS CONCEITUAIS COMO INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO NA DISCIPLINA DE FÍSICA DA MODALIDADE NORMAL: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA EM SALA DE AULA
Marcelo Araújo Machado a [mig12@brturbo.com.br] Fernanda Ostermann [fernanda@if.ufrgs.br] b
a Colégio Santa Catarina - Novo Hamburgo RS e Colégio São José- São Leopoldo RS; Aluno do mestrado profissionalizante em ensino de Física do Instituto de Física - UFRGS b Professora Adjunto, Instituto de Física - UFRGS.
## INTRODUÇÃO
Não é novidade que o ensino de Física em todos os níveis carece de urgentes modificações. Uma reestruturação na forma de se trabalhar a Física e na estrutura curricular de nossos cursos, quer seja no nível fundamental, médio e superior, urge. São inúmeros os problemas que fazem necessárias estas reformulações. Dentre vários pode-se citar: a excessiva matematização da Física, a completa descontextualização da mesma, a falta de reciclagem de docentes e a disseminação de erros conceituais por muitos professores, que podem gerar concepções alternativas que, muitas vezes, permanecem arraigadas na estrutura cognitiva do estudante. Acredita-se que tais modificações devem começar desde as séries iniciais do ensino fundamental e que a formação dos docentes deste nível de ensino deve ser fortemente repensada.
O ensino de Física para futuros docentes das séries iniciais do ensino fundamental deve ser completamente diferenciado das demais modalidades de nível médio, pois nesta modalidade existe a preparação de um docente que necessita entender os conceitos físicos existentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de Ciências das Séries iniciais do ensino fundamental, para que estes evitem a disseminação de erros conceituais e também não se utilizem apenas de conceitos relacionados à Biologia nas aulas de Ciências. Este docente também deve ser preparado para fazer uma transposição didática adequada a tais níveis de ensino. Também é necessário que o futuro docente não encare a Física como uma Ciência fria, pesada, extremamente difícil e muito distante de poder ser inserida no programa de Ciências das séries iniciais. Porém o que ocorre é justamente o contrário (Ostermann e Moreira, 1999). Os futuros docentes das séries iniciais ao passarem pela disciplina de Física, em sua maioria, levam adiante os estigmas anteriormente citados, pois, quando estudaram Física, tiveram suas aprendizagens muito mais próximas da aprendizagem mecânica do que da aprendizagem significativa, dentro do contínuo que liga esta duas aprendizagens (Moreira, 1999).
O que se verifica no ensino de Ciências nas séries iniciais é uma extrema biologização em detrimento da Física e da Química. Esta tendência é acentuada pela falta de conhecimento em Física que os docentes destas séries possuem. Estes não trabalham com tópicos de Física porque não compreendem determinados fenômenos físicos e, quando o fazem, muitas são as vezes que os conceitos apresentados estão impregnados de erros conceituais(Ostermann e Moreira 1999).
Acredita-se que uma forma de diminuir tais problemas seja ensinando Física a partir daquilo que o aluno já conhece. Desta forma, tem-se a intenção de que o aluno construa uma aprendizagem muito mais próxima da significativa.
## CONTEXTO
Este relato descreve uma proposta de avaliação, realizada no primeiro semestre de 2004, que foi baseada na construção de mapas conceituais por alunos de uma turma de segundo ano do curso normal (antigo magistério) , do Colégio Santa Catarina, uma tradicional escola privada na cidade de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Tal turma possui 37 alunos e estes possuem a disciplina de Física somente no primeiro e no segundo anos do curso, sendo que em cada ano a carga horária semanal é de duas horas/aula.
## APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA E MAPAS CONCEITUAIS
De acordo com o psicólogo norte-americano D. P. Ausubel, a aprendizagem pode ser classificada de duas formas distintas (Ausubel et al, 1980). A primeira é a chamada aprendizagem mecânica, na qual o novo conhecimento relaciona-se de forma arbitrária com aquilo que o indivíduo já conhece. Desta forma, há uma ênfase apenas na memorização dos conhecimentos. Porém, não é neste tipo de aprendizagem que se está interessado, mas sim naquela que considera aquilo que o indivíduo já conhece, isto é, o seu conhecimento prévio, o que Ausubel denomina de subsunçor. É importante salientar que as duas aprendizagens acima citadas não são dicotômicas, mas fazem parte de um contínuo onde temos cada uma em um extremo. A aprendizagem mecânica pode, dentro de um processo dinâmico, contribuir para que o estudante aprenda significativamente.
A aprendizagem significativa, segundo Ausubel, ocorre quando existem os subsunçores na estrutura cognitiva do indivíduo e estes elementos servem de ancoragem para uma nova idéia potencialmente significativa. Nesta relação, a nova idéia se relaciona com o elemento já incorporado na estrutura cognitiva do indivíduo, sendo que esta interação não é apenas um processo estático de mera ancoragem, mas sim um processo dinâmico, onde o produto interacional representa um novo subsunçor na estrutura cognitiva do indivíduo (Moreira e Ostermann, 1999). É importante salientar que a pré-disposição para aprendizagem por parte do indivíduo é também um elemento de vital importância para que ocorra a aprendizagem significativa. Se o indivíduo quiser apenas memorizar alguma informação tem-se apenas a aprendizagem mecânica. Na prática docente, deve-se então buscar primeiramente aquilo que o aluno já conhece, a partir disto proporcionar condições para que ocorra a aprendizagem significativa. Com base nestes elementos, esta proposta de avaliação teve a preocupação real de levar ao aluno-professor elementos da Física de forma que possam ser aprendidos de modo significativo.
Não é novidade a utilização de mapas conceituais como elementos de avaliação, porém, dentro de uma busca de elementos instrucionais com um caráter fortemente significativo eles são extremamente úteis, quase que imprescindíveis. Dado o caráter idiossincrático da aprendizagem significativa, os mapas conceituais são uma forma de avaliar o tipo de estrutura que o aluno vê para um determinado conjunto de conceitos (Moreira, 1992). Na utilização de mapas conceituais como elementos de avaliação temos um rico instrumento, mas é importante lembrar que tal utilização exige uma mudança na maneira de se enxergar a avaliação, devendo-se abandonar por completo a idéia da classificação do aluno em termos de nota com base no mapa que ele possa apresentar. Até mesmo porque não existe o mapa conceitual 'correto', ou seja, cada aluno representa em seu mapa a relação que ele dá para aquele conjunto de conceitos. É claro que se quer avaliar uma evolução,
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um enriquecimento na relação entre conceitos que o aluno possa vir a fazer. Também deve-se atentar para o fato de um mapa conceitual não ser auto-explicativo, carecendo de explicação escrita ou oral das relações entre os conceitos nele representadas.
## METODOLOGIA DE ENSINO
A metodologia utilizada teve como início uma apresentação do tema 'aprendizagem significativa'. Esta apresentação teve como objetivo introduzir aos alunos os principais elementos presentes neste tipo de aprendizagem. Em um segundo momento o tema 'mapas conceituais' foi introduzido, seus principais elementos, objetivos e detalhes foram apresentados de forma expositiva. Nesta apresentação se construiu em conjunto um mapa conceitual sobre a estória da 'Cinderela', com o objetivo de se discutir a construção de um mapa conceitual, seu caráter idiossincrático e também mostrar que a utilização de tais elementos pode ser estendida a qualquer tema.
Dentro do programa de Física do segundo ano do curso normal, trabalhou-se de forma expositiva e contextualizada, com ênfase em uma abordagem qualitativa que se valia de experimentos com um bom potencial significativo, envolvendo tópicos como trabalho de uma força, energia e moto-contínuo. Para cada assunto trabalhado foi solicitada a construção de um mapa conceitual. No primeiro tópico citado a construção foi feita em grupos de quatro alunos, e nos dois assuntos seguintes a construção dos mapas foi feita de forma individual. Nas apresentações feitas, tanto em grupo como individuais, aconteceram excelentes discussões sobre conceitos físicos e também sobre a construção dos mapas em si. Após a construção do mapa conceitual sobre energia, foi aplicado um teste de caráter fortemente conceitual com questões que não privilegiavam respostas diretas, mas sim respostas que envolviam relação entre conceitos. Tal teste teve por objetivo verificar a habilidade do aluno relacionar os conceitos físicos estudados, como também eventuais erros conceituais presentes em suas estruturas cognitivas.
## RESULTADOS
Não existiu a preocupação de se levantar resultados quantitativos, mas sim, uma preocupação de caráter observacional, em que a evolução da relação dos conceitos apresentados nos mapas foi notória. No teste realizado a maior parte dos alunos apresentou uma boa desenvoltura na elaboração das respostas. Também se verificou um maior interesse nas aulas de Física, uma diminuição considerável na temerosidade que alguns alunos apresentavam em relação à Física no inicio do ano letivo e também conscientização da necessidade dos docentes das séries iniciais do ensino fundamental terem firmemente presentes em suas estruturas cognitivas conceitos físicos livres de erros conceituais.
## CONCLUSÕES
O ensino de Física para futuros docentes das séries iniciais do ensino fundamental é sem dúvida alguma algo que deve ser pensado e trabalhado com muito cuidado e preocupação. Este docente trabalha com alunos que têm como natureza a curiosidade sobre o mundo que os cerca, e ele deve estar devidamente preparado em termos conceituais e metodológicos. Desta forma, o
docente pode inserir em suas aulas os conceitos relacionados à Física de um modo agradável, de modo a fomentar o interesse da criança pela ciência e proporcionar uma alfabetização científica séria e honesta.
O uso de elementos potencialmente significativos em nossas aulas, tais como os mapas conceituais, contribui para uma mudança desejada neste âmbito. Os mapas conceituais são uma poderosa ferramenta, e podem contribuir como elementos inovadores em nossa práxis docente.
Esta experiência tenta mostrar que como professores de Física devemos lançar mão de recursos metodológicos que estão ao nosso alcance. A utilização de mapas conceituais deve vir acompanhada de pesquisa, mas toda experiência docente deve estar assim fundamentada.
## REFERÊNCIAS
AUSUBEL, D. P. et al. Psicologia Educacional. Rio Janeiro: Ed. Interamericana Ltda, 1980. 625p.
MOREIRA, M. A. Mapas Conceituais no Ensino de Física. Textos de apoio ao professor de Física .Porto Alegre: Instituto de Física: UFRGS, 1992 .n.3, 44p.
MOREIRA, M. A. Aprendizagem significativa. Brasília: Ed. UnB, 1999a.129 p.
MOREIRA, M. A., OSTERMANN, F. Teorias Construtivistas. Textos de apoio ao professor de Física. Porto Alegre: Instituto de Física: UFRGS, 1999. v.10, 56 p.
OSTERMANN, F., MOREIRA, M. A. A Física na Formação de Professores de Ensino Fundamental. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS. 1999. 151 p.
Apoio parcial da CAPES.
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