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DIFICULDADES E QUALIDADES NA AULA DE ASTRONOMIA NO ENSINO FUNDAMENTAL

Deolinda Puzzo, Rute Helena Trevisan, Cleiton Joni Benetti Lattari, Everaldo José De Lima

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
26/01/2005
Linha de pesquisa
Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
Tipo
Pôster

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Texto completo

## DIFICULDADES E QUALIDADES NA AULA DE ASTRONOMIA NO ENSINO FUNDAMENTAL

Deolinda Puzzo [deolindapuzzo@yahoo. com.br] 1 Rute Helena Trevisan [ trevisan@uel.br] 1 Cleiton Joni Benetti Latari [latari@sercomtel.com.br] 2 Everaldo José de Lima 1 [everaldolima@uel.br] (1) Universidade Estadual de Londrina - UEL - PR (2) Fundação Educacional do Município de Assis - FEMA - SP

Apesar da Astronomia fazer parte do programa da 1 a a 8 a série do Ensino Fundamental na maioria d os estados brasileiros (Trevisan, 1999) e estar sempre nos noticiários, o professor precisa promover espaços para a interação e o debate no qual os alunos possam expressar seus conhecimentos anteriores. Nesta ação, surgem muitas dificuldades para o professor que se depara com um conteúdo completamente desconhecido para ele. Na maioria das vezes ele é biólogo, e para preparar sua aula toma como única fonte o livro didático, cujo conteúdo apresenta uma abordagem conceitual e informações factualmente incorretas predominando ao longo do livro, o que leva a um reforço dos conceitos errados e a formulação de novos conceitos, também errados nos alunos, gerando o falso aprendizado. Nesse trabalho, estamos avaliando o conteúdo de Astronomia nas aulas de ciências (Planetas do Sistema Solar e Estações do Ano) e a ação pedagógica do professor de 5ª série do Ensino Fundamental, visando detectar qualidades e dificuldades e assim melhorar o ensino-aprendizagem, favorecendo a interatividade para que os alunos possam, juntamente com o professor, construir os saberes necessários ao pleno exercício da cidadania e ainda possibilitar uma aprendizagem significativa.

## RESUMO

Palavras chave : Astronomia, ensino fundamental, aprendizagem, dificuldades.

## INTRODUÇÃO

No Ensino Fundamental, Astronomia é um conteúdo de Ciências e, apesar de ser um tema necessário e muito importante para o desenvolvimento integral do sujeito, esse conteúdo muitas vezes não é desenvolvido como deveria ser, e algumas vezes colocado 'de lado' pelo professor, para evitar constrangimentos.

- É importante salientar que os conteúdos de astronomia são praticamente inexistentes na formação inicial de professores de ciências, na maioria Biólogos de formação, que por conta disso acabam seguindo orientações e sugestões dos autores de livros didáticos utilizados em sala de aula, os quais trazem muitos problemas quanto ao conteúdo de astronomia (Canalle et.all., 1997; Trevisan et.all.; 1997).

No Ensino Fundamental, as crianças estão sempre muito interessadas em descobrir como os fenômenos astronômicos acontecem e com que freqüência e são sempre muito curiosas e motivadas em relação aos fenômenos celestes que ocorrem no Universo. Essa motivação deve ser considerada no planejamento e na metodologia do professor ao ministrar esse conteúdo. Deve-se considerar ainda, a investigação verbal feita pelo professor em relação aos conhecimentos pré-existentes dos alunos sobre esse conteúdo, para poder identificar as concepções alternativas. Isso poderá facilitar o trabalho do professor e conseqüentemente a aprendizagem do aluno.

A seguir mostraremos, em linhas gerais, o andamento de nossa pesquisa que tem como um dos objetivos a investigação de como se desenvolvem as aulas com conteúdos de Astronomia na 5ª série do Ensino Fundamental. Neste trabalho descrevemos a análise da aula sobre o tema Planetas do Sistema Solar e Estações do Ano, feito com professores de escola pública do Estado do Paraná, na cidade de Londrina. Nossa pesquisa tem seu foco no domínio de conteúdo do professor e nas dificuldades e facilidades do professor no desenvolvimento do assunto.

## DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA

1

Nossa pesquisa utiliza gravação de áudio e vídeo para a análise da aula e também um questionário individual, com o objetivo de esclarecer o domínio de conteúdo pelo professor, sua formação e qual a metodologia que ele utiliza em suas aulas de ciências com conteúdo de astronomia. Nosso universo se restringe às aulas de Ciências de 5ª série do Ensino Fundamental.

Utilizamos a pesquisa qualitativa de acordo com LÜDKE e ANDRÉ (1986): o contato direto da pesquisadora com o contexto estudado, aqui descrito pelos professores de Ciências de 5º série do Ensino Fundamental, o que possibilitou o desenvolvimento do estudo no sentido de não limitar apenas em descrições detalhadas daquilo que se observa tornando possível registrar também as suas observações, sentimentos e especulações ao longo do processo de coleta. O questionário foi aplicado após a filmagem da aula, o qual foi respondido na presença da pesquisadora.

## ANÁLISE DOS DADOS

Apesar de um dos professores ter em seu currículo um curso rápido (16h) de astronomia básica (professor 01), não deixaram de ocorrer errros graves de conteúdo em sua aula. A seguir, vamos transcrever alguns dos trechos de duas das aulas gravadas, de dois professores diferentes, mostrando o erro conceitual com um comentário em seguida. Perceba que os trechos em negrito estão incorretos.

## PROFESSOR 01

Ao se referir à observação a vista desarmada do céu noturno, o professor explica a diferença entre um planeta e uma estrela:

- ' Porque que uma estrela pisca e outra que parece estrela não pisca? A diferença é, quando ela não pisca é um planeta, quando ela pisca é uma estrela . 1 Porque? Porque a estrela produz a luz, não é isso e aí ela manda a luz pára um pouquinho e manda mais luz. Então esses intervalos que fica sem mandar a luz é como se ela se apagasse, mandou luz, acende, deixou de mandar luz, apaga. 2 '

Apenas neste parágrafo, foram quatro abordagens conceituais incorretas:

- (1) Dizer que uma estrela pisca e o planeta não pisca, não está correto, pois tanto as estrelas, como alguns planetas também 'piscam'. Na verdade este 'pisca' está relacionado com a cintilação de um objeto luminoso que é um efeito atmosférico de palpitação apresentada por uma fonte pontual de luz devido às turbulências da atmosfera que atravessa antes de chegar ao observador. É um erro muito comum na maioria dos livros didáticos afirmar que: 'as estrelas piscam e os planetas não piscam', o que seria um critério para se determinar qual objeto está sendo observado. Como a cintilação depende do diâmetro do objeto, ele vai provocar efeito em fontes pequenas, que podem ser também os planetas. Marte por exemplo, quando está mais próximo da Terra tem brilho mais fixo, mas, quando está mais distante pisca como as estrelas. Quanto mais próximo do horizonte o objeto luminoso estiver (tanto estrelas quanto planetas) ou se houver vento forte, o efeito de cintilação será maior.

(2) Dizer que a estrela emite luz, p ára de emitir, apaga, é a abordagem conceitual incorreta mais grave de todas. O dano causado na formação do conceito definição de estrela, o que é a fonte de energia luminosa, emissão de radiação, reações termonucleares no núcleo das estrelas, será difícil de ser recuperado.

## PROFESSOR 02

- O professor 02 discorreu sobre as Estações do Ano, com uma abordagem conceitual e informações factualmente incorretas em toda a extensão da aula. Ouve confusão terminológica, desatualizações e pequenas incorreções de informação. As situações de aprendizagem presentes na aula não levaram em conta o princípio da progressão, e estabeleceram analogias impróprias Citamos a seguir alguns pontos.
- '... Porque a Terra tem um ângulo de inclinação para o Sol de 23,5º, 1 então vocês vão notar agora. Aqui é Sol. Nós sabemos através de telescópios, telescópios muito potente, o Hubble, certo? que o Sol está no meio e os planetas em volta. Vamos pegar o planeta Terra aqui e vamos dividir ele em dois pólos: o Pólo Norte e o Pólo Sul . 2 O mesmo planeta Terra que está fazendo a

Translação em volta do Sol, agora ele está aqui. Vocês podem notar que o planeta Terra tem uma inclinação para o Sul de 23,5º. 1 ...'.

- (1) Dizer que a Terra tem um 'ângulo de inclinação' , citando um referencial (que seria 23,5 o em relação à perpendicular ao plano da órbita terrestre) e mostrando com uma oficina feita com palitos e bolas de isopor (Canalle, 1999), já é de difícil aprendizado para os alunos de 5 a série, neste caso, onde não é dado nenhum referencial, e ora é para o Sol, ora é para o Sul, então fica completamente impossível entendimento do conceito.
- (2) Aqui o professor quis dizer 'dividir a Terra em dois Hemisférios' mas o erro conceitual já estava feito.
- '-Não é que tem a mesma inclinação. A inclinação continua a mesma, mas nessa posição, nessa posição tem mais espaço, os raios solares no hemisfério norte do que no hemisfério sul, vocês podem ver os raios de Sol, as ondas eletromagnéticas do Sol que chega ao nosso planeta através das fusões nucleares 1 que acontecem no núcleo da esfera solar vão chegar com mais intensidade e maior número no hemisfério norte que tem mais espaço no hemisfério norte que no hemisfério sul , 2 então vocês estão certos; aqui é verão e aqui é inverno porque ta pegando menos sol , certo. Falando de uma maneira mais simples, aqui ta pegando mais Sol no hemisfério norte e ta pegando menos Sol no hemisfério sul. . 2 ...Pelo mesmo motivo que lá, por causa dessa inclinação prá cá, agora essa parte de cá é que está mais exposta aos raios solares, no Hemisfério Sul. Então agora aqui é verão e aqui é inverno. Então quando ele tá nessa posição aqui é verão e aqui é inverno.'
- (1) As ondas eletromagnéticas do Sol não chegam a Terra 'através das fusões nucleares'. No núcleo do Sol fica a região do Sol onde a energia é produzida p or fusão nuclear. Mas não é só o núcleo que emite radiação! Temos radiação originada também nas outras regiões solares (da Fotosfera, da Cromosfera e da Coroa) que a envia a todo o Sistema Solar.
- (2) Outro conceito incorreto dizer que 'tem mais espaço no Hemisfério Sul' ou 'tá pegando mais Sol...'.
- ' - Aqui é inverno e aqui é verão. A primavera e o outono aí é de acordo com...para onde que a Terra está fazendo o movimento translação, certo ? Aí nos vamos ter que imaginar tridimensionalmente , como a Terra aqui e a Terra lá dentro do quadro negro, né?. Pegando 1 essas duas outras posições dividindo em quatro posições, um quarto cada posição dela, certo. Quando a Terra tivesse aqui, certo...lá era verão em cima e aqui vai ser outono em cima, lá era inverno embaixo, aqui vai ser primavera em cima . E lá dentro do quadro, depois que saiu...Terra saiu dessa posição e foi lá pra dentro do quadro, aqui era inverno em cima, vai ser primavera embaixo, aqui era verão embaixo vai ser outono embaixo. Lá dentro do quadro , eu tô pedindo para vocês terem uma imaginação fértil, né...Então, agora depois de todas essas curiosidades e conceitos e conhecimentos que eu passei para vocês eu vou fazer algumas questões que eu quero que vocês respondam agora no caderno.'
- (1) Pedir ao aluno que faça uma análise tridimensional na 5 a série ainda é um pouco prematuro, pois eles tem dificuldades para abstração, estando ainda na fase do concreto.
- '-Bem, eu quero que vocês respondam e me chamem na dúvida para mim explicar, certo?...Um estudo dirigido me chama que eu vou. E aqui no canto para fechar nossa aula eu vou escrever uma frase tá, que Jesus disse; que é uma frase astronômica.

## 'Na casa de meu Pai tem muitas moradas'

Uma 'frase astronômica' fica sendo uma confusão terminológica que pode acarretar erros de conceitos. A mistura da ciência com a religião é uma falha conceitual muito comum entre os professores do Ensino Fundamental, e leva a um reforço de conceitos errados.

- - Bem, em termos astronômicos a interpretação dessa frase...
- A casa é o Universo as moradas são os planetas. É uma frase que induz a gente a pensar que pode existir vida também nos outros planetas, ta. Talvez esse mesmo tipo de vida que foi

## elaborado em cima do carbono pode ser que não, nós temos outro átomo, o silício também tem quatro elétrons em sua camada. Mas isso é pra pensar, ta?'

A pesquisa da vida extraterrestre é um tema extremamente interessante e poderia ser utilizado como um gancho para o aprendizado da astronomia. Mas aqui não foi respeitado o princípio da progressão.

## CONCLUSÃO

Foi possível perceber até o momento, que os professores enfrentam muitos obstáculos quando o assunto é Astronomia em relação ao conteúdo, ao planejamento, as estratégias de ensino e ao conhecimento da proposta curricular do E stado do Paraná, e que utilizam como recurso principal o livro didático. Nota-se também que a disponibilidade de materiais para pesquisa do professor, é muito precária nas escolas investigadas. Diante disso, é notório que os professores de Ciências do Ensino Fundamental, principalmente aqueles que atuam na 5ª série que foi o nosso universo de pesquisa, necessitam urgentemente de cursos de formação continuada para que consigam vencer todos os obstáculos que se apresentam no seu dia-a-dia. Quanto à metodologia foi possível perceber que também necessita de muita atenção, uma vez que os professores investigados ainda sentem-se bastante inseguros para ousar e mudar sua metodologia, ou ainda para tentar entender quais são os processos cognitivos que os alunos utilizam quando estão em processo de ensino-aprendizagem, sugerido por Moreira (1999). Apesar de todos esses obstáculos, aparecem alguns pontos positivos: ficou muito claro que os professores estão bastante preocupados em melhorar a sua atuação em sala de aula. Foi tentado durante sua aula contextualizar o conteúdo por meio de exemplos orais, foi sugerido aos alunos que fizessem observação do céu à noite e ainda para melhorar o seu planejamento ele buscou informações em outras fontes além do livro didático, apesar de não ter conhecimento para analisar se essa fonte era verdadeiramente cientifica. Apesar do nosso universo se restringir apenas à dois indivíduos, notamos o curso de formação continuada (Lattari e Trevisan, 1993), forneceu ao professor 01 subsídios básicos para que não houvessem muitos problemas em suas aula. A astronomia sempre desperta muito interesse nas crianças e adultos. A idéia passada ao professor é que ele pode aproveitar este grande interesse, aliado a uma fonte de informações segura, tal como a interação com as universidades, museus e centros de ciências, e mudar a situação atual no ensino de astronomia. O entendimento desse processo todo conduz ao objetivo principal da escola que é formar o cidadão para atuar na sociedade de forma crítica e consciente.

## BIBLIOGRAFIA

LATTARI, C. J. B.; TREVISAN, R. H.; Curso Básico de Astronomia para Professores de Ciências segundo a Nova Proposta do Estado do Paraná no Programa de 5.ª e 6.ª series. Atas do X SNEF, p. 487-493, 1993.

LUDKE, M.; ANDRÉ, M.E.D.A. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPV, 1986.

MOREIRA, M. A.. Aprendizagem Significativa. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. TREVISAN, R. H. A Astronomia no Ensino Fundamental e Médio- Palestra. IV Encontro Brasileiro de Ensino de Astronomia, Rio de Janeiro, 1999.

CANALLE J.B.G in Caderno Catarinense de Ensino de Física, Explicando Astronomia Básica com uma Bola de Isopor. v.16,n.3:p 314-331,dezembro, 1999.

CANALLE, J. B.; TREVISAN, R.H.; LATTARI, C.J.B.. Avaliação do Conteúdo de Astronomia nos Livros de Geografia da 5ª série. Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, v. 14, n. 3, p. 254-263, 1997.

TREVISAN, R.H.; LATTARI, C. J.B.; CANALLE, J.B. in Caderno Catarinense de Ensino de Física, Assessoria na Avaliação do Conteúdo de Astronomia dos Livros de Ciências do Primeiro Grau. v 14, nº 1: p. 7-16, abr. 1997.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.