Monitoria Discente na Física do Ensino Médio: Promovendo Singularidades
Eraldo Rizzo De Oliveira, Yassuko Hosoume
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 26/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## MONITORIA DISCENTE NA FÍSICA DO ENSINO MÉDIO: PROMOVENDO SINGULARIDADES
Oliveira E.R. a
[eraldopj@bol.com.br] Hosoume Y. [yhosoume@if.usp.br] b
a Mestrando do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo b Instituto de Física da Universidade de São Paulo
## RESUMO
Num mundo de constantes mudanças a efemeridade parece pautar o conjunto de valores que se desenham nas inter-relações sociais. Se por um lado conquistamos avanços preciosos em áreas técnico-científicas, a democratização e a humanização dessas conquistas se afiguram como dos maiores desafios de nossos tempos, cientes ao menos de que a sustentabilidade desse desenvolvimento só se dá por essa via. Nesse contexto, a trama social forjada no ambiente escolar pode contribuir na construção de uma sociedade para além do estado de prontidão ao aperfeiçoamento contínuo e permanente, o que em princípio despertaria um espírito combativo de competitividade e conquista. A escola há de encontrar brechas na lógica da formação dos alunos para assumir o desafio de criar ambientes que evidenciem os ganhos que podem ser obtidos com o exercício da cooperação, da partilha e do crescimento mútuos balizados não propriamente por ideários metafísicos, mas por acordos firmados entre sujeitos desejantes, uma vez que somos seres fadados à interdependência 1 . Isso seguramente pode se dar de diversas formas e adaptado à realidade local, mas o desafio se torna gritante justamente no momento da prática, do método, da estratégia pedagógica e nas ações concretas que visam promover as singularidades detectadas no ambiente escolar. Ante as várias possibilidades atitudinais frente ao conhecimento, existem aqueles alunos que demonstram as habilidades apropriadas para contribuir com os desafios acima pontuados. A detecção dessas singularidades seria o primeiro desafio do docente que, pautado por uma visão de mundo solidária, nem por isso ingênua, promoveria situações de interações em que as negociações dos interesses das diversas partes envolvidas serviriam de substrato educacional para um convívio social em que todos se sentissem efetivamente partícipes e importantes no processo de construção do conhecimento . Implicando-se nessa prática, o docente compromete-se com um gesto 2 essencial para o bom funcionamento da proposta feita aqui: a escuta. Escutar para seduzir. Seduzir para uma aventura de descoberta do conhecimento, de descobertas de si mesmos frente a um mundo com o qual deverão se implicar inevitavelmente . 3
## A PROPOSTA DE MONITORIA DISCENTE DE FÍSICA NO ENSINO MÉDIO
- O Ensino Médio, segundo os PCNs, ' deve, sem ser profissionalizante, propiciar um aprendizado útil à vida e ao trabalho, desenvolvendo instrumentos reais de julgamento, atuação e
1
aprendizado permanente ' . 4 É com esse objetivo que se desenvolve há três anos um projeto de monitoria discente nas turmas dos 1 o anos do Ensino Médio de Física de uma escola particular de um bairro de classe média alta de São Paulo. Por enquanto, o sonho de se ter essa estratégia como o carro-chefe do projeto pedagógico escolar, no qual cada professor teria sua equipe de monitores discentes apoiando sua disciplina em cada turma, está mesmo no plano do interlúdio, como algo que pulula temporariamente os ânimos de um ou outro professor, mas que acaba por não se efetivar quando se compreendem as necessidades que essa estratégia, bem implementada e adaptada à realidade local, demanda.
A monitoria discente, comum no meio acadêmico, não é tão freqüente quanto deveria no Ensino Médio, o que poderia representar um ótimo exercício para a adaptação à fase seguinte da formação dos alunos. Entretanto, a experiência aqui apresentada revelou ganhos para além desse aspecto propedêutico, que dinamizaram o ambiente escolar e potencializaram os recursos pedagógicos para o ensino dos conteúdos da disciplina: formação de grupos de estudos regulares e coordenados, correção e retorno célere de listas de exercícios, encaminhamento mais ágil e pronto de dúvidas acerca dos conteúdos ou dificuldades com habilidades necessárias, tutoria a alunos com dificuldades específicas, apoio e acompanhamento no processo de recuperação paralela, plantões de dúvidas e aprofundamentos temáticos, apoio pedagógico em aulas programadas em classe e no laboratório, retorno e conselhos da parte dos alunos acerca das aulas e atividades aplicadas etc. Essas foram algumas das atividades realizadas por monitores de Física selecionados em suas turmas de 1 anos do Ensino Médio sob coordenação do professor, que conseguiu aumentar a gama de o recursos pedagógicos aos alunos através da descentralização dessas atividades de sua pessoa, além de garantir um ritmo de aulas apropriado às turmas, sem deixar de dar assistências aos alunos com dificuldades.
Mas essa estratégia revelou ganhos de outra ordem ainda, quando se articularam monitores de séries posteriores para trabalharem em apoio aos alunos de séries precedentes. Tendo a Mecânica como temática do 1 ano do Ensino Médio, seus conteúdos serviram de mote para o aprimoramento o de uma educação científica mais contextualizada, pautada no cotidiano dos alunos num recorte tecnológico apropriado à uma formação cidadã consciente . Esse enfoque favoreceu as trocas de 5 experiências e expectativas, modelos e projetos de vida, decisões que demandaram reflexões prévias, a partilha das diferenças entre iguais compartilhando uma mesma linguagem, valores e sentimentos, vivenciando cada qual sua etapa de formação. As freqüentes rivalidades entre turmas de séries distintas foram postas à prova frente às situações em que monitores mais experientes interagiram construtivamente com os alunos das demais séries. O respeito e admiração mútuos puderam ser percebidos tanto em relatos orais gravados para coleta de dados desse estudo, quanto em questionários periódicos aplicados aos monitores e aos demais alunos. Esses foram os instrumentos de pesquisa aplicados a esse estudo e que permitiram elaborar uma proposta de monitoria discente de Física adaptada à realidade local, construída por práxis, com constantes adaptações conforme demandas das turmas e sugestões dos próprios monitores. Além disso, um diário de campo foi elaborado para registrar as reuniões regulares dos monitores com o professor, assim como os resultados das atividades desenvolvidas por eles.
## A MONITORIA DISCENTE PENSADA A PARTIR DAS SINGULARIDADES
- 4 Brasil. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnologia. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio - Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias - Brasília - 1999.
- 5 GREF: Grupo de Reelaboração do Ensino de Física. Física 1: Mecânica / 5a edição - São Paulo, Edusp, 1999.
Dentre os enfoques que um trabalho de pesquisa como esse possibilita, há que se destacar o potencial transformador da monitoria quando pensamos na promoção dessas singularidades-alunos na cultura escolar local. O que, numa cultura escolar local de descompromisso, poderia ser tratado com segregação e desvalor, ao serem postos planejada e estrategicamente a serviço da comunidade escolar, esses alunos monitores catalisam em si uma revaloração que passa pelas suas próprias imagens frente aos colegas, pela dos colegas em seus conceitos e dos conhecimentos trabalhados em sala de aula. Nesse sentido a guarda rígida montada por experiências educacionais anteriores ou mesmo por preconceitos vigentes na cultura escolar local, é baixada permitindo-se que o diferente seja notado como um valor da ordem do possível e contido na estética do desejável. Foi com essa mentalidade que se institucionalizou a monitoria discente como promotora de singularidades na cultura escolar local. A singularidade se destaca justamente por não guardar traço de semelhança com o entorno, através do contraste social que a denuncia, diferentemente da individualidade que se destaca justamente pelo que o diferencia dentre seus semelhantes. A monitoria discente pensada a partir da singularidade se inspira em elementos de originalidade e ousadia postas a serviço da comunidade escolar, particularmente quando se propõe promover atitudes segregadas da cultura escolar local discente como pouco virtuosas ou concebidas como da ordem de predisposições genéticas, ainda mais quando se trata do 'enigmático e insondável mundo da Física'.
Entretanto não devemos nos furtar a acreditar num conto de fadas sem bruxas. Desafios se afiguram a todo momento e mesmo a implementação e manutenção do projeto requerem tempo extra aulas de dedicação do professor, ponto em que a maior parte das iniciativas docentes impactam. A começar pela seleção dos monitores, o estabelecimento dos acordos prévios quanto aos compromissos assumidos e as retribuições, a instituição da monitoria nas diversas turmas, orientações para as diversas atividades a que se dedicarão, as reuniões regulares que demandam por conta de encaminhamentos e reordenamentos de ações, chegando finalmente à avaliação do processo todo, o docente assume o papel de coordenador de grupo buscando a todo momento, mantê-lo numa postura operativa, diminuindo ao mínimo os momentos de apatia e distúrbios . A 6 administração de conflitos parece consumir uma boa parte da energia do docente que coordena esses grupos, não somente desses alunos, mas também de seus pais que vez por outra, preocupam-se com o impacto que essa carga de responsabilidade poderá causar em sua vida estudantil. A quebra da mentalidade discente do 'nerd bonzinho' estigmatizando a figura do monitor representa o primeiro passo para a implementação do projeto, que dia a dia, interação a interação, vai quebrando essa pecha com o apoio constante do professor a estimular esses encontros, essas buscas por apoios, esses momentos de trocas. A medida que se compreende que ninguém é ingênuo no papel que representa e que o romantismo altruísta está longe de pautar aquelas ações, os alunos vão compreendendo que o mundo do estar permanentemente atualizado para competir não prescinde de cooperações bem acordadas e o mais conscientes possível de suas conseqüências . A racionalização 7 desse fato, desvelando a camuflagem cultural do imaginário infértil da solidariedade universal, coloca o discurso das inter-relações em outro plano de reflexão, que obriga ambas partes refletirem melhor sobre os ganhos e as perdas nessas trocas e que os acordos realizados devem ser honrados eticamente, guardando para a dimensão do ideário o princípio fundamental da democracia através do fortalecimento e da manutenção de canais de comunicação efetivos e permanentes.
A experiência aqui apresentada se configura num projeto com 5 etapas:
- 1. Divulgação do projeto de monitoria discente junto aos alunos;
- 2. Seleção dos primeiros monitores mediante critérios;
- 3. Formalização dos compromissos mútuos: professor e monitores;
- 4. Encaminhamento das atividades da monitoria;
- 5. Avaliação dos monitores.
Dentre as dificuldades percebidas nesses anos de projeto a primeira que surgiu foi justamente das mais vitais para a credibilidade do projeto: a seleção dos monitores. Diferentemente do que comumente ocorre no meio acadêmico, onde os monitores são selecionados mediante iniciativas próprias ou mesmo por deliberação quase que exclusiva do docente, nessa experiência o critério meritocrático revelou-se como apenas um dos que devem ser considerados. Faz-se necessária a consulta das turmas para se ter uma maior chance de escolha de monitores que sejam operativos em suas turmas. Isso revela algo que, de tão óbvio surpreende: a sociabilidade do monitor é fator determinante para sua a ção nos diversos grupos que se formam em sua turma. Dessa forma, pesquisas periódicas foram aplicadas às turmas para se coletar as opiniões das turmas sobre suas indicações para a função de monitoria e os critérios utilizados por eles nessas indicações. Em outros momentos, buscou-se um retorno acerca dos resultados obtidos com o apoio dos monitores, sobre o andamento do curso, além das opiniões dos próprios monitores sobre suas funções.
Na formalização dos compromissos mútuos levaram-se em consideração os valores da cultura escolar local, quanto à moeda de troca pelos serviços bem realizados: uma bonificação em suas notas. No contexto específico de aplicação do projeto, apesar de se perceber o desvalor à excelência nas disciplinas, observa-se também a preocupação em se atingir a nota mínima para promoção. Isso reforça a cultura do mínimo esforço que rege boa parte dos discursos informais dos alunos e se revela nas avaliações das diversas disciplinas. As negociações para atuação da monitoria trabalham com esse atrator em primeiro momento, mas o efeito dessa bonificação não se revela definidor da média final, sequer é substancial, impelindo os monitores a refletirem no que realmente os mantém nessa função. Seja a oportunidade de aprimorarem seus conhecimentos de Física, seja o prazer de sentir-se útil ajudando os colegas, seja qualquer outra razão que os mova, seguramente suas promoções ficam em segundo ou terceiro planos e o exercício da organização, da negociação e da administração de talentos e conflitos tomam a cena mediados pelos conhecimentos da Física com os quais terão de se implicar.
As reuniões semanais de monitoria garantem o espaço institucional em que questões de ordem prática são encaminhadas, além de discussões que revelam a essência das imagens mútuas que se estabelecem quando das interações dos monitores com suas turmas. Em virtude do tempo escasso tanto para o professor quanto para os monitores, as reuniões foram concebidas para serem bastante objetivas, mas com espaço suficiente para ouvir a fala dos monitores que, não raramente, apresentam desafios concretos do dia-a-dia escolar, bem como propostas efetivas a problemas partilhados.
Dessa forma, o projeto de monitoria discente vem revelando elementos reflexivos tanto de ordem pedagógica, psicológica quanto sociológica. Mas a experiência da monitoria na vida daqueles que se dispuseram a enfrenta-la deixou suas marcas, tanto nos próprios monitores, nos alunos por eles apoiados, quanto no professor que, com essa estratégia, vivenciou uma outra possibilidade pedagógica: a de coordenador de lideranças, a canalização de competências e o exercício de habilidades para os diversos objetivos que se faziam desafiadores.
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