A BÚSSOLA COMO UM TIJOLO: UM POUCO DE PAULO FREIRE NO ENSINO DE FÍSICA
Ricardo Rechi Aguiar, Manoel Roberto Robilotta
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 26/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Pôster
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2005
Texto completo
1
## A BÚSSOLA COMO UM TIJOLO: UM POUCO DE PAULO FREIRE NO ENSINO DE FÍSICA
Ricardo Rechi Aguiar a,b [rrechi@uol.com.br] Manoel Roberto Robilotta [robilotta@if.usp.br] a
- a
Instituto de Física da Universidade de São Paulo b Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
## RESUMO
Foi feita uma análise comparativa entre a metodologia de algumas das propostas educacionais de Paulo Freire e o desenvolvimento de um conjunto de atividades experimentais, realizadas com alunos do Ensino Médio de uma escola pública em São Paulo, no estudo do campo magnético da Terra. Destacamos entre tais atividades uma proposta de mapeamento do campo geomagnético local executado nos arredores da escola. Fizemos, também, uma analogia da Bússola, instrumento utilizado para orientação e caracterizador da entidade campo magnético terrestre, com o Tijolo, usado por Paulo Freire na alfabetização de jovens e adultos, considerado ao mesmo tempo como símbolo e como objeto.
Palavras-Chave : Eletromagnetismo; Campo Magnético Terrestre; Paulo Freire.
## I - O TIJOLO, A FÍSICA E O CAMPO MAGNÉTICO
Dois dos princípios fundamentais da proposta educacional freireana são o diálogo e a conscientização[1]. Segundo Paulo Freire, o diálogo deve permear toda a ação educativa, desde as relações interpessoais entre educador e educandos até a definição/elaboração da proposta temática que será estudada. Já a conscientização faz parte da estrutura e da finalidade da educação. Com a problematização do objeto de estudo, procura-se observá-lo/entendê-lo por vários de seus lados possíveis, tomando consciência (daí o nome) das múltiplas possibilidades de abordagem e resolução do problema. Tal tomada de consciência levaria o educando a uma nova postura diante do conhecimento e do mundo.
Freire faz uma forte crítica ao ensino 'tradicional' que ele chama da 'concepção bancária' da educação. Nesta concepção o educador limita-se fazer uma narração do conteúdo a ser estudado: ' Há quase uma enfermidade da narração. A tônica da educação é preponderantemente esta narrar, sempre narrar ' (FREIRE, 1970, pág. 57). Diante deste quadro (descrito há mais de 30 anos, mas ainda muito presente no imaginário e na prática de muitos educadores atuais), Paulo Freire propõe o que chama de 'concepção problematizadora' da educação. Uma aplicação desta concepção educacional é o chamado ' Método Paulo Freire ' usado na alfabetização de adultos[2] e um exemplo clássico deste método é uso do tijolo: usando 'Tijolo' como palavra geradora[3], é feita uma discussão sobre o significado do objeto para a realidade do educando, uma vinculação semântica entre a palavra e o objeto que nomeia e, por fim, um reconhecimento de suas famílias fonêmicas e a construção de novas palavras a partir delas.
Neste trabalho observamos o paralelismo existente entre algumas atividades desenvolvidas durante o estudo do magnetismo terrestre, com uma turma de alunos do 3 . ano do Ensino Médio o noturno de uma escola pública paulista, e algumas das propostas educacionais de Paulo Freire. O eixo temático deste trabalho foi 'O Campo Magnético da Terra', escolhido por dois motivos: é um tema pouco abordado no ensino de Física, geralmente sendo apenas citado, e envolve uma parte
conceitual ampla, que facilmente pode ser relacionada com outras partes da Física e demais disciplinas, além de poder ser observado experimentalmente sem muitas dificuldades. Fizemos também, com base nas atividades, uma analogia da Bússola - instrumento utilizado para orientação e caracterizador da entidade campo magnético terrestre -, com o Tijolo de Paulo Freire.
## II - ATIVIDADES DESENVOLVIDAS
As atividades desenvolvidas no estudo do Campo Magnético da Terra foram divididas em dois grupos de experimentos: um primeiro conjunto de atividades que aconteceu no laboratório didático da escola e uma segunda atividade feita nas ruas ao redor da escola, mapeando o campo geomagnético local.
O primeiro conjunto de atividades usou basicamente ímãs e bússolas . Foi desenvolvido em pequenos grupos de alunos e buscou explorar os principais aspectos do magnetismo: atraçãorepulsão, ação à distância, características de um campo magnético e, por fim, o conceito de campo magnético terrestre. A seqüência dos experimentos foi ordenada de modo a permitir uma ampliação conceitual sistemática em nível de complexidade e em cada um deles partiu-se do conhecimento já elaborado pelos educandos sobre o tema e, ao final, foi feita uma análise de cada atividade. Segue uma apresentação resumida destas atividades: 1) Para introduzir os conceitos de campo magnético e linhas de força, delimitamos a região de ação de um ímã, usando uma folha de papel sobre um ímã de barra e jogamos limalha de ferro sobre ela; 2) Abordamos a questão da atração-repulsão e dos pólos magnéticos e fizemos um mapeamento bidimensional do campo magnético do ímã, usando dois ímãs e uma bússola. Nesta ocasião discutimos a existência do campo magnético no espaço ao redor do ímã, independente da presença de um indicador (limalha ou bússola); 3) Usando ímãs grandes e uma pequena bola de palha de aço presa por um fio de nylon bem fino, exploramos a tridimensionalidade do campo e iniciamos uma associação entre o campo gerado pelos ímãs grandes e o campo magnético terrestre; 4) Para observar a variação da intensidade do campo com a distância à fonte geradora, usamos uma bússola colocada próxima a um ímã e verificamos o período de oscilação da agulha da bússola; 5) usando alguns alfinetes e clips de papel, magnetizados por indução e posteriormente aquecidos, discutimos a Temperatura de Curie dos materiais magnéticos e a desmagnetização térmica; 6) Utilizando pequenos circuitos elétricos com pilhas, fios de cobre esmaltado, bússolas e alguns pregos, reproduzimos a experiência de Oersted e montamos pequenos eletroímãs. Discutimos as bases do eletromagnetismo, como a geração de campos magnéticos em espiras de materiais condutores percorridos por uma corrente elétrica; 7) Na última atividade provocamos uma discussão sobre o fluxo do campo magnético, abordando a possibilidade de variação do mesmo e de se fazer uma blindagem magnética.
A segunda atividade foi um mapeamento do campo geomagnético local com uso de uma bússola , feito nas ruas ao redor da escola, com a intenção de provocar um maior entendimento dos fenômenos magnéticos e uma visão, diferenciada da tradicional, sobre a dimensão espacial do campo magnético terrestre. Os alunos foram divididos em grupos e cada grupo levou algumas folhas pré-impressas, que compunham a 'caderneta de observações', uma bússola e um transferidor e realizou dez observações da direção do campo magnético com relação à direção das ruas, em uma área de aproximadamente dois quarteirões. Em cada folha da caderneta de observações foram registrados: a) uma descrição da posição onde a observação foi feita (estação de medida); b) data e hora da observação; c) medida obtida (ângulo formado entre o norte da bússola e a direção da rua); d) nome do observador; e) croqui da área de medida; f) comentários gerais (pontos de referência, objetos próximos, etc.).
Passamos, a seguir, para a análise dos resultados onde cada grupo marcou suas observações em um pequeno mapa, correspondente à área de suas medidas. Em cada local de medida, marcou-se a direção do campo magnético indicado pela bússola. Cada grupo discutiu e tentou levantar hipóteses sobre os resultados de seus dados. Finalmente, os mapas de cada grupo, forma reunidos formando um único mapa da região no entorno da escola. Claramente se percebeu que a maioria dos, quase, setenta pontos marcados no mapa indicavam uma certa direção predominante para o campo magnético terrestre - a norte-sul. Fizemos uma discussão sobre o que isso representava e quais hipóteses poderiam ser feitas a partir daí. Resgatamos os resultados dos mapeamentos bidimensionais, feitos com a limalha e a bússola ao redor de ímãs e da tridimensionalidade do campo magnético. Exploramos, também, hipóteses que indicavam o porquê de alguns pontos serem discrepantes. Dois deles haviam sido feitos próximos a automóveis estacionados, um deles sob um transformador da Eletropaulo fixado em um poste. Foram feitas propostas explicando que haveria uma alteração do fluxo do campo na proximidade dos carros e que haveria uma interferência eletromagnética do transformador. Outros dois pontos, que não se alinhavam à 'tendência geral', não puderam ser explicados com base nos comentários das cadernetas de observações.
Esta segunda atividade funcionou como uma síntese de toda a discussão feita sobre o magnetismo. Entendemos que ela atingiu seus objetivos, pois muitos educandos afirmaram possuir uma nova visão do campo magnético terrestre e do magnetismo. Também foi importante por motivar o aprofundamento no estudo do eletromagnetismo: boa parte dos estudantes demonstrou interesse em entender melhor alguns dos fenômenos vistos e discutidos - como o processo de geração do campo magnético terrestre.
## III - EXPLORANDO AS ATIVIDADES
Percebemos a importância e o valor do trabalho realizado com os educandos e que ele se assemelhava, processualmente, com as propostas freireanas. Lembramos que quando as atividades foram elaboradas, não havia a intenção de seguir nenhuma proposta educacional de forma rígida, possuíamos apenas uma intuição sobre o caminho a ser seguido.
Sabemos que poderia haver, pelo menos, dois olhares diferentes sobre as atividades desenvolvidas e as propostas freireanas. O primeiro deles sugere paralelos entre a utilização que fizemos da bússola em nossas atividades e o tijolo usado por Paulo Freire em sua proposta metodológica. O segundo olhar é sobre a proposta freireana de codificação e descodificação de situações significativo-existenciais, que apontaria para algumas aplicações desta proposta no ensino do conceito de campo magnético. Neste trabalho abordamos apenas o primeiro destes olhares.
Nas atividades realizadas, exploramos os fenômenos de atração e repulsão magnética e a região de influência magnética usando primeiramente apenas ímãs e, depois, uma bússola. Tal instrumento, à partir daí, começou a ter uma importância central nas atividades, pois passou a assumir o papel duplo de indicadora, tanto da direção, quanto da existência de um campo magnético. Como instrumento, ela transcendia seu próprio significado: era a caracterizadora da presença de um campo magnético. Um objeto tangível, confirmando a existência de algo intangível. Explicando melhor: a bússola foi usada no mapeamento bidimensional e tridimensional do campo magnético gerado pelos ímãs e na medida da variação da intensidade deste campo com a distância. Detectamos, com seu auxílio, o campo magnético produzido por correntes elétricas contínuas e, finalmente, o próprio campo magnético terrestre. Depois disso, a bússola foi usada na exploração espacial do campo magnético terrestre. E em conjunto com o transferidor, ela permitiu a determinação da direção das linhas de força do campo geomagnético local. A partir deste momento,
a bússola deixa de ser um simples objeto, para se confundir com a própria direção do campo da Terra: a representação 'viva', visível, tangível, de suas linhas de força.
Acreditamos, então, ser possível fazer uma comparação entre as atividades realizadas e as propostas de Paulo Freire: percebemos a bússola como um tijolo. A bússola é um artefato feito por mãos humanas, e, como tal, é um objeto construído intencionalmente. Expressa cultura e apresenta significados. É, ao mesmo tempo, objeto e símbolo. O tijolo, usado por Freire, também pode ser visto como objeto e símbolo. Ele é utilizado, na proposta freireana, tanto como 'palavra geradora' de uma discussão sobre o mundo do trabalho e as relações que o permeiam, quanto como um símbolo para desvendar os fonemas que formam a palavra e suas famílias fonêmicas; revelar o processo de construção das palavras e assim permitir aos educandos a possibilidade de criação de novas palavras.
Em nossas atividades, a bússola possibilitou os mesmos elementos estratégico-pedagógicos. Com seu auxílio foi possível desvendar os principais elementos do campo magnético, permitindo novas ligações e conexões teóricas e práticas, foram criadas novas imagens e visões de mundo. O uso da bússola, permitiu que fosse possível a construção de um conceito teórico fundamental para a física: o do campo. A exploração dos elementos fornecidos por sua análise poderia abrir novas fronteiras a serem desbravadas. Além disso, uma compreensão maior do conceito de campo, facilitaria ao educando um aprofundamento no universo físico e a construção de uma visão mais articulada das diversas áreas da Física. Porém, percebemos, que justamente aí surge uma diferença no 'produto final' destas duas propostas. O método de Paulo Freire busca, além de uma nova visão de mundo, um resultado processual: que o educando perceba o mecanismo de construção da palavra escrita e aproprie-se dele. Nas atividades que desenvolvemos, o resultado final é a reelaboração de um conceito, o do campo magnético terrestre. A diferença pode ser demonstrada através da seguinte comparação: a palavra tijolo, que é um símbolo gráfico, representa um objeto tangível. A nossa bússola faz o contrário; ela, que é um artefato, representa uma construção conceitual, simbólica: o campo magnético terrestre. Partimos do concreto para criar o abstrato - e acabamos por fazer concreto o próprio abstrato.
## IV - COMENTÁRIOS FINAIS
Sabemos que a análise apresentada neste trabalho é muito pouco significativa para provocar extrapolações ou grandes propostas e ducacionais. Diante dela, percebemos como a re-admiração da prática educativa docente é importante: mostra que ela é uma relação dinâmica, dialética, da construção do saber ensinar. Ao re-admirar sua atuação educacional, um educador provoca mudanças em suas práticas futuras
A análise que fizemos, aponta também para outra coisa que já intuíamos há tempos: temos Paulo Freire como um grande parceiro, um companheiro nas grandes intenções educacionais. Não o vemos como um mestre intocável, nem suas propostas como um credo a ser seguido. Mas, ao admirarmos sua obra, percebemos que caminhamos na mesma direção; algumas vezes seguindo a mesma trilha, outras não.
Finalmente, notamos que os resultados das atividades desenvolvidas com os educandos foram surpreendentes. Os brilhos nos olhos, a quantidade de questões levantadas, os sorrisos... Tudo isso nos faz crer que o caminho para uma educação que tenha significado para o estudante seja esse: o diálogo.
## REFERÊNCIAS
- [1] Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido , Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1970, 32a. edição, 2002.
- [2] Brandão, Carlos Rodrigues. O que é Método Paulo Freire , São Paulo, Ed. Brasiliense, 1981.
- [3] Freire, Paulo. Educação como prática da liberdade , Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1967, 25a. edição, 2001.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.