ENSINO DE FÍSICA E DIVERSIDADE CULTURAL: POR UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR E EPISTÊMICA PARA ALUNOS SURDOS
Frederick Moreira Dos Santos, Fábio Henrique De Alencar Freitas
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 24/01/2005
- Linha de pesquisa
- Ensino De Física E Estratégias Para Portadores De Necessidades Especiais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA E DIVERSIDADE CULTURAL: POR UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR E EPISTÊMICA PARA ALUNOS SURDOS
Frederick Moreira dos Santos* [fredsantos@gmail.com]
Fábio Henrique de Alencar Freitas * [fabiofreitas@gmail.com]
* Instituto da Física de Universidade Federal da Bahia
## RESUMO
Nesta comunicação estarei apresentando o trabalho que venho desenvolvendo com 5 alunos surdos no Centro Educacional Sons no Silêncio. Onde foi percebido um atraso no desenvolvimento de competências básicas de abstração e generalização por parte dos alunos, que já passaram em sua maioria por um razoável isolamento social. Isto levou a se questionar a viabilidade do sucesso de um ensino de Física para esta turma de 2º grau. Então se pensou numa estratégia interdisciplinar em que se está buscando articular história, informática e filosofia na disciplina de física. Um primeiro momento desta estratégia já ocorreu com aulas expositivas, leituras e discussões sobre Física Aristotélica X Física Clássica. No segundo momento lançaremos mão do ensino por analogias usando recursos de programação hipertextual em HTML. Porém, novas respostas levantam novas perguntas, que tentarei amarrar na sala de aula no terceiro momento da estratégia. Este trabalho exemplifica a necessidade constante de um pensar epistêmico da educação por parte do professor que pretende trabalhar com um público heterodoxo.
## INTRODUÇÃO
Um recorte da História das sociedades Ocidentais do século XX nos traz como um dos vetores de transformação os conflitos que emergiram das tensões provenientes dos grupos sociais marginalizados. O uniformismo e o idealismo estético nas formas do sensível e do pensar foram institucionalizados explicitamente nos governos fascistas na primeira metade do século passado, e ainda implicitamente pelas políticas de governo que estão a serviço dos mercados multinacionais através da simulação das culturas ditas de massa.
As décadas de 60 e 70 testemunharam um levante dos grupos sociais marginalizados em posicionamentos entrincheirados. Muitos partiram do discurso agressivo contra a estrutura social que mantinha o sistema excludente de pé até a discursos pacifistas que aguardavam uma maior tomada de uma consciência coletiva em direção ao respeito do sujeito diferente, pertencente a um ambiente multicultural.
Passados estes períodos de conflitos, debates e posicionamentos gerais chegou-se as duas últimas décadas passadas ao período das ações de reparação aplicadas às instituições do Estado e aquelas ligadas a este. Agora que as tensões passadas abriram espaço para transformações de agora, novas tensões surgem de debates ligados às ações de políticas públicas nas instituições governamentais. Muitas destas discussões são intermediadas por Instituições Não Governamentais (ONG's), principalmente quando se trata de políticas públicas educacionais.
Neste artigo polemizaremos estes debates no que se refere às políticas públicas referentes à educação especial para surdos na cidade de Salvador. Através de posturas metodológicas tomadas
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em sala de aula que partiram da observação de determinadas vivências realizadas com alunos surdos.
Este artigo é também um relato da ampliação da percepção do perfil diferenciado de um grupo de alunos provenientes das diversas escolas da rede pública e privada de Salvador que hoje se encontram atendidos no Centro Educacional Sons no Silêncio.
Este Centro nasceu com a iniciativa de pais insatisfeitos com os resultados da política inclusiva realizadas pelas diversas redes de ensino de Salvador (via de regra os surdos são locados nas salas de aula sem nenhuma atenção à sua língua ou particularidades). Onde seus filhos se desenvolviam como exímios copistas de uma 'cultura' de signos sem sentido. Estes pais se viram obrigados a entrar, há três anos atrás, na luta pela criação de uma instituição não governamental, pelo menos inicialmente, que garantisse a inserção de seus filhos nesta sociedade tecno-científica e multicultural. Para que garantisse se a realização ao menos parcial destes objetivos, estes pais reuniram uma equipe de professores que tivessem um certo domínio da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) ou pelos menos uma mínima empatia com as necessidades especiais destes alunos. Aqueles que não fossem imersos na língua teriam o apoio de um interprete em sala de aula. E assim estes pais com muito tempo e esforço reuniram uma equipe de professores para ensinar numa escola onde todos falavam a mesma língua e que as barreiras da comunicação do saber diminuiu-se a ponto de não incomodarem tanto. Mas, ao rompermos os portões que os trancafiava nestes guetos quase incomunicáveis com o mundo exterior, revelou-se um mundo heterodoxo e complexo que a cada dia tentamos decifrar um pouco mais.
## PROBLEMATIZAÇÃO
Este mundo se revelou de forma diferente a cada professor dentro das relações interdependentes de cada disciplina. Como participo desta equipe de professores entre aqueles que são imersos em LIBRAS, não enfrentava muitas dificuldades de articular, selecionar e improvisar os conteúdos de física e matemática com suas atividades relacionadas. O único grande desafio que acreditava enfrentar era o alto grau analfabetismo funcional entre os alunos surdos que se manifesta como mais uma das graves seqüelas do isolamento social que trazem dos espaços de formação, tais como a escola e/ou igreja que participavam e, também, na maioria das vezes na família. Até que em uma de nossas vivenciais externas resolvi levar os alunos a um Centro de Ciência e Tecnologia da cidade chamada Universidade da Criança e do Adolescente (UNICA), nos meses de maio e outubro de 2003.
Nesta vivência percorri o espaço com as turmas da 8ª série e 1º ano deixando-os interagir com cada experimento. Segui um certo roteiro de perguntas que eram lançadas naturalmente de acordo com o nível de interação da turma e com o seu ritmo de investigação.
Estas investigações, porém, nunca ou dificilmente partiam deles. Havia uma certa dificuldade de se entender uma pergunta sobre conceito e de como determinado experimento funcionava, como já se havia apontado nos estudos de Oliver Sacks em 1988, os alunos tinham dificuldade de entender perguntas que fossem do tipo: 'Como isto pode acontecer?' e/ou 'Por que isto acontece assim?' Como resposta ou eles descreviam a digressão do fenômeno ou, quando indagados do porquê, respondiam que era a forma de determinado(s) objeto(s) agir(em) e que o experimento foi concebido assim. Só faltavam dizer: 'Ôh! E era pra ser diferente?!'.
Havia uma descrição fenomenológica com fraco encadeamento causal juntamente com a dificuldade de se compreender perguntas que apontem para aparentes contradições, tais como: 'Por
que este cilindro sobe o plano inclina sozinho e este outro desce o mesmo plano?' Percebi que esta dificuldade de visualização abstrata de generalização era uma das principais barreiras para entender os questionamentos. Provavelmente os alunos não estavam acostumados a ter um deslocamento do olhar do mundo das particularidades para um mundo que parte para um outro ponto de vista possível. Para um grupo que muito insipientemente tem acesso ao discurso científico durante sua vida escolar e muito menos familiar, não se poderia esperar coisa diferente.
## METODOLOGIA
Foi por isso que na escola elaborei uma estratégia de abordagem do conteúdo de física para o Ensino Médio que levasse em conta essas barreiras do olhar particular da turma. Esta estratégia se realizará em três etapas, na qual a primeira se encontra em fase final.
Nesta primeira etapa pretendeu-se expor historicamente os modelos e suas construções buscando abarcar as observações desde os Babilônicos até Galileu. Ao realizar esta jornada histórica buscouse pontuar os principais debates entre os defensores de cada modelo nos períodos, Helênicos (Platônicos X Atomistas) e do fim do Renascença (Galileu X Inquisição). Este apanhado histórico ilustrou o surgimento do discurso científico e serviu como uma satisfatória introdução ao conteúdo dos livros tradicionais. Esta etapa se realizou dos meados do ano passado até agosto deste ano de 2004. No momento estou colhendo os resultados de forma sistematizada em questionários e textos realizados pelos alunos, como forma de registrar os avanços já observados em sala de aula no momento das discussões.
A segunda etapa está sendo pensada como uma forma de se introduzir, por analogia, o significado de uma linguagem formal para descrever um ambiente recortado da natureza. Uma linguagem que pode ser usada para descrever qualquer ambiente deste espaço natural e que interage com o homem. Este ambiente pode ser, a priori, qualquer fenômeno natural em que se observe. E a linguagem utilizada pela física é a matemática. Esta segunda estratégia partirá do gancho histórico deixado quando Galileu lança mão da matemática para descrever os fenômenos observados por ele na Terra (algo que era abominável para a filosofia platônica e aristotélica). E para ilustrar uma forma de significar esta nova forma de ver o mundo regido por leis matemáticas, levado, ainda, mais a cabo por Newton, usaremos uma linguagem de computador bem simples. Utilizaremos editores de Html (Dreamweaver ou FrontPage) para criarmos, juntamente com o professor de informática, ambientes interativos construídos por eles. Quando tivermos uma noção razoável da causalidade regidas por códigos que também constroem objetos, então estarei pronto para introduzir as leis físicas encontradas nos livros didáticos tradicionais. O livro adotado para esta fase é o do Grupo de Reelaboração do Ensino de Física da USP, por lançar mão de um português simples e de uma física contextualizada.
Existe, porém, pelo menos uma questão que ainda se está pensando em alguma determinada estratégia para abordá-la. Ao se fazer esta analogia da 2ª etapa pode arriscadamente se cair numa visão parcial da física. Pois, assim como os códigos expressam a realidade por detrás da interface criada, então as leis físicas que temos disponíveis nos levaria a crer que elas são a descrição direta e absoluta da verdade. Isto maquiaria o caráter aproximativo do conhecimento físico e humano em que a história da ciência também não legitima. Acredito na necessidade de se relativizar esta compreensão se discutindo de várias formas que o ser humano não possue acesso direto a estes 'códigos' da natureza e é justamente isto que justifica a existência do método de conhecer da ciência. O homem não está no lugar de um Deus legislador. As leis naturais já estavam estabelecidas quando o homem apareceu. Acredito também que muitas questões exclarecedoras e
instigantes podem ser levantadas ao se continuar nesta passagem pelos principais debates históricos que culminarão no surgimento da física moderna do século XX.
## CONCLUSÃO
Este projeto está sendo aplicado inicialmente a um grupo de cinco alunos que são os mais antigos da instituição, ou seja, são os filhos do grupo dos primeiros pais que acreditaram num projeto de escola com proposta bilíngüe. Estes pais ajudaram a fundar uma instituição que fornecesse uma boa base na formação das competências escolares dos seus filhos que agora se preparam para um ensino científico mais sólido. Com a continuação deste trabalho com as turmas anteriores, do ginásio, este grupo no próximo ano deve passar para um número um pouco mais representativo.
Acho importante destacar aqui que as dificuldades de generalizações e reflexão dentro de uma certa racionalidade científica estão muito mais atreladas ao tipo de mediação exercida sobre o aluno ( comunicação extremamente limitada, não passando de enunciações básicas de necessidade, com os pais e antigos professores ) quando criança do que pelo tipo de 'deficiência' ou interação li ngüística. Este fator aponta ao potencial de universalidade que um projeto como este pode ter em diversos espaços de ensino-apredizagem, no qual a despeito de se trabalhar com qualquer outro público, este pode apresentar as mesmas dificuldades no processo de acomodação sobre novas experiências.
Acredito porém, que o fio condutor que deve mover as ações de qualquer professor que se propõe a atuar no ensino de um público com certas especifidades como este é um pensar epistêmico sobre sua disciplina em relação as competências exigidas pelos PCN's. Afim de se buscar obter um resultado satisfatório em relação a estas exigências e os conteúdos desta disciplina tive que construir ações em sala baseado em algumas leituras teóricas e discutindo com companheiros de sala e trabalho sobre os caminhos psicogenéticos das construções cognitivas destas competências.
Portanto com a aplicação desta estratégia acreditamos que estamos contribuindo para a diminuição do fosso do non-sense. Pois este fosso as possibilidades de ações na zona de desenvolvimento potencial do aluno. Assim estamos cooperando para uma maior possibilidade de interação do indivíduo surdo sobre os valores de uma cultura cientificista-dogmática (presente em alguns discursos oralistas) que este cada dia mais interage.
## BIBLIOGRAFIA
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- Lévy, P. A Ideografia Dinâmica - rumo a uma imaginação artificial? São Paulo. Edições Loyola: 1998.
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Tura, Maria de L. Rangel. A cultura escolar e a construção de identidades . Rio de Janeiro, Revista Espaço - INES, Dezembro/01.
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