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As cinco condições e qualidades para o entendimento dos símbolos: uma articulação entre poesia e o ``quadro de lâmpadas''

Rodrigo Da Silva Batista, M. C. Barbosa Lima

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
24/01/2005
Linha de pesquisa
Arte, Cultura E Educação Científica
Tipo
Pôster

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Texto completo

1

## AS CINCO CONDIÇÕES E QUALIDADES PARA O ENTENDIMENTO DOS SÍMBOLOS: UMA ARTICULAÇÃO ENTRE POESIA E O 'QUADRO DE LÂMPADAS'

R. S. Batista [rodrigofortran@yahoo.com.br] 1

&

M. C. Barbosa Lima [barbosa@uerj.br]

Instituto de Física / Universidade do Estado do Rio de Janeiro 2

## Resumo

Neste trabalho, discutimos as cinco qualidades e condições para o entendimento dos símbolos - a simpatia, a intuição, a inteligência, a compreensão e a graça - proposta por Fernando Pessoa em seu texto Mensagem, através de uma atividade experimental dialógica-demonstrativa , que consiste na apresentação de um circuito elétrico com lâmpa3 das, onde é possível fazer a associação em série, paralelo e mista, fazendo uso de analogias. Corroborando ainda com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) que propõem que os alunos saibam: reconhecer e utilizar adequadamente na forma oral e escrita símbolos, códigos e nomenclatura da linguagem científica; ler, articular e interpretar símbolos e códigos em diferentes linguagens e representações; entre outras.

## 1. Introdução

Atualmente, o Ensino Médio passa por um processo de mudanças. Ele recupera seu perfil anterior, de consolidar a formação geral do educando, após um razoável tempo em que era olhado e admitido como trampolim para a Universidade e passa a oferecer subsídios que podem contribuir para a implementação das reformas educacionais orientando o trabalho de cada disciplina.

Ensinar hoje significa que para formar para vida é necessário mais do que reproduzir d ados, denominar classificações e identificar símbolos. Enfim, os alunos devem dominar elementos que lhes possibilitem entender o mundo e terem competências para nele agirem de forma mais conseqüente. Logo, o ensino deixa de ser centrado unicamente no conhecimento e passa a ser orientado pela construção de competências e habilidades, articuladas nas áreas de representação e comunicação, investigação e compreensão, e contextualização sócio-cultural, tendo como eixos norteadores a interdisciplinaridade e a própria contextualização.

Segundo Fernando Pessoa, 'o entendimento dos símbolos e rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles' . Desta maneira, procuramos discutir as cinco qualidades e condições para o entendimento de símbolos proposta por Fernando Pessoa (1986) em seu texto Mensagem, através de uma atividade experimental dialógica-demonstrativa que consiste na apresentação de um circuito elétrico com lâmpadas, onde é possível fazer todas as associações necessárias através do uso de analogias, de forma que os alunos saibam: reconhecer e utilizar adequadamente na forma oral e escrita símbolos, códigos e nomenclatura da linguagem científica; ler, articular e interpretar símbolos e códigos em diferentes linguagens e representações: sentenças, equações, esquemas, diagramas, tabelas, gráficos e representações geométricas; entre outras.

## 2. O texto 'Mensagem' de Fernando Pessoa

'O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão mortos para ele, e ele morto para eles.

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe a interpretar. A atitude cauta, a ironia, a deslocada  todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar.

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, ordena, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que se usou da simpatia e da intuição. Um dos fins da inteligência, no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isso se a simpatia não tem lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionando com vários símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois erudição é uma soma; nem direi cultura, pois cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou ao mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns que é a graça, falando a outros que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo'. (Pessoa, 1986, p.3).

## 3. O 'quadro de lâmpadas'

fig.1:quadro de lâmpadas

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A Eletrodinâmica apresenta dificuldades que lhe são peculiares, em relação à compreensão dos conceitos que estão por trás da fenomenologia. Imaginar como se dá o comportamento de cargas elétricas em um condutor, não é tarefa fácil para quem inicia os estudos nessa área. Nesse caso, a elaboração de modelos por parte do aluno torna-se mais difícil, já que estamos tratando de fenômenos abstratos. Além disso, o curso de Física no Ensino Médio costuma deixar para o último ano o conteúdo que trata a Eletricidade e a Física Moderna. Os professores, em geral, consideram que esse assunto mais difícil, porém como têm que apresenta-lo, encontram um modo de abordá-lo, sem que seja aprofundada uma discussão sobre a relação entre os d ois assuntos e sem que se dê oportunidade aos alunos de expressarem suas dificuldades em compatibilizar suas concepções sobre as cargas elétricas e o estabelecimento de corrente elétrica no interior de um condutor (elemento essencial de um circuito).

Assim, baseado no texto Mensagem de Fernando Pessoa (1986) será entendido como símbolo a Eletricidade e o ritual simbólico o uso pedagógico do 'quadro de lâmpadas', com o objetivo de discutir as bases teóricas para a realização de um trabalho didático que parta das concepções a lternativas à Física que surgem diante de questões exploratórias em atividades experimentais.

## 4. As cinco condições e qualidades para o entendimento dos símbolos

'A primeira é a simpatia' . Sem dúvida esta é uma condição fundamental para ocorrer a interpretação. Para isso é imprescindível considerar o mundo vivencial dos alunos, os objetos e f enômenos com que eles efetivamente lidam ou os problemas e indagações que movam sua curiosidade. Isso pode ser facilmente feito na atividade experimental do 'quadro de lâmpadas', onde o professor poderá discutir os conceitos de resistência, diferença de potencial, corrente elétrica, entre outros, através da indagação do brilho das lâmpadas e uso de analogias durante esse atividade permitindo que o aprendizado tome como ponto de partida conhecimentos que os alunos possuem s obre outros assuntos que não aqueles diretamente relacionados ao conteúdo a ser ensinado.

Uma das analogias feita na atividade é a seguinte: o circuito elétrico é representado por uma avenida, a corrente elétrica são carros que passam por essa avenida, as lâmpadas são os pedágios e a resistências das lâmpadas é o valor (preço) cobrado por cada pedágio (por exemplo uma lâmpada de 25W a 127V apresenta pedágio mais caro que uma lâmpada d e 100W a 127V). Enfatizando, que a analogia nunca deve ser o fim em si mesma, ou seja, é uma ferramenta mediadora na construção do conhecimento.

'A segunda é a intuição' . Na atividade experimental proposta o professor faz com que os alunos se envolvam no aprendizado, explorando suas pré-concepções sobre o determinado conceito Físico, através da indagação do brilho das lâmpadas, em outras palavras, dá-se 'voz ao aluno'. A intuição é um passo fundamental para a significação do conceito aprendido.

Uma das etapas das associações em série, paralelo e mista das lâmpadas que merece ser discutida, quando coloca-se em série lâmpadas de resistências diferentes, por exemplo uma 100 W a 127V e outra de 40W a 127V e indagado aos alunos qual brilhará mais. A maioria dos alunos respondem, sem pensar muito, que a de potência nominal de 100W brilhará mais e ficam espantados com o inverso do que pensavam. Assim fica iniciada a terceira etapa do poema Mensagem.

'A terceira é a inteligência' . Conhecedor da idéia do aluno sobre em determinado evento, o professor pode redirecionar sua ação pedagógica para comprovar ou fortalecer essa idéia quando correta ou para fazer prevalecer um outro ponto de vista mais coerente. Além disso, a partir dos pressupostos dos alunos, o professor poderá uniformizar a definição de situação de todos os participantes, a fim de direcionar o processo ensino-aprendizagem para a continuidade das interações s ociais. Assim, o professor poderá fazer com que os alunos reflitam sobre suas respostas, atuando como um mediador na construção do conhecimento.

Continuando o exemplo anterior, o professor utilizando-se da analogia dos pedágios poderá discutir o ocorrido, pois o número de carros (corrente elétrica) que passa pela avenida (circuito elétrico) é o mesmo que passa por cada pedágio (lâmpadas), pois só existe um caminho por onde os carros podem passar (circuito elétrico em série). Com isso o pedágio (lâmpada de potência nominal 40W) arrecadará mais dinheiro (maior brilho) devido apresentar um pedágio mais caro (maior r esistência) quando comparado a lâmpada de potência nominal de 100W. Nesta etapa, o professor poderá indagar os alunos para observarem os filamentos das lâmpadas para discutir as características macroscópicas que determinam as resistências das lâmpadas como comprimento e área.

'A quarta é a compreensão' . Nesta etapa os alunos já começam a dar significado ao que aprendem. Durante a apresentação do 'quadro de lâmpadas' percebe-se que a atividade experimental promove o surgimento da aquisição dos conceitos verdadeiros, visto que, ao promover interações sociais nas quais o aluno é desafiado a prever e explicar um determinado evento, expondo seu modo de pensar através de um conceito ainda não amadurecido, opera-se o confronto dos alunos com a realidade, e o amadurecimento ou reformulação dos conceitos pré-estabelecidos.

Finalizando o exemplo, os alunos já começam a dar significado ao aprendizado, pois quando indagado sobre o porquê de em nossas casas não serem feitas associações em série em vez de paralelas, uma vez que as lâmpadas de potência nominal de 40W possuem um valor aquisitivo mais barato que uma lâmpada de potência nominal 100W, os alunos afirmam que se 'queimar' uma lâmpada o circuito abre (buraco na avenida onde os carros não podem passar) e também com o acréscimo de lâmpadas, ou seja, aumento da resistência diminui-se a corrente elétrica no circuito (menor número de carros passam pela avenida devido ao grande números de pedágios).

'A quinta é menos definível....' . Na quinta etapa, entendemos que se trata não só apenas do efetivo entendimento do conteúdo abordado, mas de uma autonomia que atinge o aluno, que procurará novas respostas para outros conceitos que se relacionam com o estudado juntamente com o professor. Além do aluno começar a entender que a Física está a todo momento ao redor dele, e sendo esta uma construção humana.

Os alunos já tentam entender por conta própria outras associações elétricas que existem em seus cotidianos como as lâmpadas dos 'pisca-pisca' (associação em série presentes principalmente em árvores de Natal), o por que ao ligarmos o chuveiro a lâmpada do quarto sofre uma diminuição em seu brilho, o que acontece normalmente em casas antigas, entre outras.

## 5. Conclusão

As cinco etapas propostas no poema de Fernando Pessoa, podem e devem ser transpostas para a sala de aula, pois certamente o aprendizado será mais prazeroso tanto por parte dos alunos quanto por parte dos professores. Devemos, dar ao ensino de Física novas dimensões. Isso significa promover um conhecimento contextualizado e integrado à vida de cada jovem.. Uma Física que explique os gastos da conta de energia, o consumo diário de combustível e as vantagens e desvantagens da energia nuclear. Uma Física cujo o significado o aluno possa perceber no momento em que aprende e não num improvável momento posterior ao aprendizado.

O 'quadro de lâmpadas' é um exemplo real e fácil de ser realizado, mostrando a importância destas etapas no aprendizado dos conceitos físicos. Portanto, cabe ao professor assumir um papel mais atuante como profissional, fazendo uso de modelos, analogias, concepções alternativas dos alunos, ciente da transposição didática, criando situações problemas e o uso didático da história da ciência, ou seja, se há algo de realmente importante que o professor possa fazer para seus alunos é ensiná-los a aprender e isto significa dar exemplo da necessidade e da possibilidade do permanente aprendizado e dar testemunho de que este aprendizado é prazeroso. Além disso, 'o conhecimento não é um bem fungível, não se gasta: quanto mais usamos, mas novo ele fica'. (MACHADO).

## 6. Referências bibliográficas

BARBOSA LIMA, M. C.; BARROS, H. &amp; TERRAZZAN, E. Quando o sujeito se torna pessoa: uma articulação possível entre Poesia e Ensino de Física. A ser publicado em Ciência e Educação.

BRASIL, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN+ Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC, SEMTEC, 2002.

CRUZ SEABRA, Wagner. Investigando as Atividades Demonstrativas no Ensino de Física. Tese (Mestrado em Educação), UFJF. 2003.

MACHADO, Nilson. Sobre a idéia de Competência.

PESSOA, Fernando. Pessoa, F. Obra poética , Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1986

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