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Aprendendo Física de Corpo e Alma

Silvia Helena Mariano De Carvalho*

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
24/01/2005
Linha de pesquisa
Arte, Cultura E Educação Científica
Tipo
Pôster

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Texto completo

## APRENDENDO FÍSICA DE CORPO E ALMA

Sílvia Helena Mariano de Carvalho 1 [silhmc@if.usp.com.br] Universidade de São Paulo

## O CORPO

O corpo foi, é e sempre será fonte de inspiração, de conquista, de desejo, de revolta, de satisfação, de dor, de conhecimento, enfim, instrumento das mais diversas sensações e manifestações humanas, sejam elas sagradas ou profanas.

Ao longo do tempo, várias foram as maneiras de encarar o corpo. Na pré-história, o homem mantinha uma relação holística e comunitária com o Universo, via-se como uma continuação da natureza e formado dos mesmos elementos desta, que imprimia seus ritmos ao seu corpo e que fornecia a cura para quando este não estivesse funcionando de forma harmônica.

Na Antiguidade, principalmente na Grécia, essa visão ainda perdurava, mas começa a despontar um novo enfoque que afasta corpo e consciência, alma inferior e alma superior. Platão (427 - 347 a.C.) afere fraquezas ao corpo e o torna instrumento de corrupção e decadência moral por estar este à mercê das paixões e desejos inadequados ao verdadeiro conhecimento. É este também o pensamento dominante durante a Idade Média, a diferença é que os desejos e paixões carnais eram obstáculos não ao verdadeiro conhecimento, mas à verdadeira fé cristã.

Tal dicotomia se intensificou de forma decisiva com o pensamento de René Descartes (1596-1650) que considerava o corpo, res extensa , pura exterioridade, matéria, uma máquina, enquanto que o pensamento, res cogitans , é a verdade indubitável, de natureza espiritual. Para ele: ' Deus fabricou nosso corpo como máquina e quis que ele funcionasse como instrumento universal, operando sempre da mesma maneira, segundo suas próprias leis '.

Embora um novo enfoque esteja tomando forma e ganhando proporções à medida que o homem toma consciência da situação a que foi reduzido seu corpo, podemos observar que ainda hoje impera a concepção racional/cartesiana do corpo.

## A FÍSICA

A Física nasceu com os gregos por volta dos séculos VII e VI a.C., quando estes deram um enorme salto ao formular racionalmente os princípios explicativos do movimento, da constituição da matéria, do peso, do comportamento da água, etc.

Muitos nomes contribuíram para a história da Física, mas nenhum outro traduz tão bem a essência dessa ciência como o de Isaac Newton (1642 - 1727) que implantou o modelo mecânico de

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Universo. O modelo mecânico de Newton e racional de Descartes tornou-se o padrão de pensamento vigente para tudo, inclusive para a concepção de corpo.

No final do século XIX e início do século XX surgiu o que denominamos de Física Moderna, responsável pela quebra do paradigma de Newton e Descartes, gerando uma revolução que, semelhante ao modelo anterior, não ficou só a nível científico, mas se estendeu à compreensão do homem frente à natureza, ao semelhante e também ao seu próprio corpo. A visão holísticacomunitária que existia nos primórdios da civilização está sendo retomada.

## A ESCOLA

Na escola, o corpo é trabalhado separadamente do pensamento, que fica reservado às disciplinas ditas 'exatas', Matemática, Química e Fí sica, pois estas assim o exigem. Segundo Rumpf 2 , citado em Gonçalves (1984, p. 33), as práticas escolares intensificam as relações estabelecidas pelo homem com o mundo, que valorizam em demasia as operações cognitivas em detrimento da sensorial direta, além de querer disciplinar o corpo, também inibem os sentimentos e as lembranças a ele associadas. Isso não ocorre somente em nossa época, pois Foucault 3 relata como procediam as escolas dos séculos XVIII e XIX para disciplinar o corpo, dissociando os movimentos corporais das emoções.

O caráter conteudista da Física desconsidera o corpo, despreza as atividades sensíveis e prioriza ao máximo o trabalho pensante ao adotar o formalismo matemático como forma de apresentá-la. Essa é uma aprendizagem sem corpo, não somente pela exigência de o aluno ficar sem movimentar-se, mas, sobretudo, pelas características dos conteúdos e métodos de ensino, que o colocam em um mundo diferente daquele no qual ele vive e pensa com seu corpo. (Gonçalves, 1984, p. 34). Essa visão consolida

... a fantástica idéia de um Universo totalmente mecânico, materialmente definido por dimensões absolutas e elementos finitos, regulado por leis matematicamente descritas em equações diferenciais específicas, linearmente euclidiano em sua geometria e, do ponto de vista causal, totalmente determinado e previsível. (Ramos, 2001, p. 123)

Como vemos, na escola também existe um corpo sem alma e uma alma sem corpo, o ato de conhecer só é aceito quando feito através da mente. Movimento, sensações, jogos e b rincadeiras não entram no recinto escolar, ou quando o fazem é como passatempo para 'descansar' a criança e não fazê-la aprender ou conhecer. Ao nosso ver, essas situações que cindem a relação corpo/alma estão fadadas à incompletude.

## A FÍSICA DE CORPO E ALMA NA ESCOLA

Faz-se necessário então agir de modo diferente do que tem sido feito para que possamos reatar a ligação entre sujeito e objeto, espírito e matéria, qualidade e quantidade, sentimento e razão, liberdade e determinismo, existência e essência, corpo e alma. É nesse sentido que trabalhamos a Física na escola, principalmente por ser este um dos lugares onde basicamente é formado o ser humano.

Encontramos nas obras de Piaget, Vygotsky e Wallon algumas pistas de como é importante essa busca. Para Piaget (1975), a passagem da inteligência sensório-motora para a pré-operatória tem sua primeira possibilidade através dos jogos simbólicos, pois esta é mediada por símbolos subjetivos que direciona à aquisição dos símbolos arbitrários, característico da inteligência operatória que deve ser a próxima a ser formada, Vygotsky (1984) ressalta com bastante clareza a função do corpo, da brincadeira, denominada imaginação em ação, como possibilidade primeira que permite à criança ultrapassar a dimensão da percepção m otora e Wallon defendeu que a escola deve proporcionar uma educação de forma integral (social, afetiva e intelectual) através não só do corpo, mas também das emoções, pois para ele, cabe ao corpo o papel principal no desenvolvimento das interações pessoal, cultural e social, constituintes da natureza humana, enquanto que a motricidade tem caráter pedagógico tanto pela qualidade do gesto e do movimento quanto por sua representação.

Nessa linha pensamos em trabalhar a Física do ponto de vista da arte. A relação entre ciência e arte tem se desenvolvido em diversos trabalhos e juntas formam uma aliança na produção atual das artes do corpo que levam os jovens a uma nova fase de alfabetização, que leva em consideração a aleatoriedade, o abstracionismo, o movimento do corpo, o corpo estático, o equilíbrio, o centro de gravidade e o peso numa corrente de informações entre a Física e a cultura (Zanetic, 1989).

Escolhemos o teatro e a mímica, pois estas artes do corpo permitem uma proximidade entre as linguagens artística e científica quando colocam o corpo como centro gerador delas. No fazer artístico o corpo pensa o espaço, o tempo, o sensível e a emoção, e o pensamento se amplia porque se torna ação experenciada e não somente processo racional e mental.

Os trabalhos foram desenvolvidos no primeiro ano do ensino médio, quando trabalhamos a Dinâmica, tópico da Física que envolve as Leis de Newton, Princípio da Inércia, Principio Fundamental da Dinâmica, Princípio da Ação e Reação e a Lei da Gravitação Universal.

Propusemos aos alunos que se dividissem em equipes e bolassem um show de mímica para que os outros alunos adivinhassem qual conceito da Dinâmica estava sendo representado. Nossa pretensão foi fazer com que eles se movimentassem e utilizassem o corpo juntamente com o raciocínio para que pudessem vivenciar os conceitos científicos de forma integral.

Os conceitos relacionados à Gravitação Universal foram encenados através de uma peça teatral ' Uma viagem pelos céus ', já representada por outro grupo de alunos, em outro momento (trabalho apresentado no XV SNEF de Curitiba), porém desta vez os alunos se incumbiram de reformular a peça adaptando-a para o interesse do grupo.

## CONCLUSÃO

Os resultados foram excelentes, além da diversão, pudemos observar que os conceitos foram vivenciados corretamente. Atestamos isso através da interpretação e participação espontânea dos alunos.

Ousamos levar a Física para além da tradição escolar tratando-a de forma lúdica, alegre, prazerosa e usando a fantasia através do corpo. Rescindimos '... a idéia do Penso, logo existo, recriando-a - existo e sinto, logo penso. Nesse novo paradigma, o modo de pensar o mundo é o modo de realizá-lo na carne.' (Picosque, 2003)

A experiência demonstrou que as portas estão abertas para a chegada de um novo tempo. Tempo de união de ondas e de partículas, de espaço e de tempo, de razão e de emoção, de ciência e de arte, de corpo e de alma.

## BIBLIOGRAFIA

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