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Utilização de Textos com Erros Conceituais de Física Térmica e Eletricidade no Ensino de Física

Ruberley Rodrigues De Souza, Paulo Henrique De Souza

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
24/01/2005
Linha de pesquisa
Interdisciplinaridade E Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

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## UTILIZAÇÃO DE TEXTOS COM ERROS CONCEITUAIS DE FÍSICA TÉRMICA E ELETRICIDADE NO ENSINO DE FÍSICA

Ruberley Rodrigues de Souza [ruberley@cefetgo.br] Paulo Henrique de Souza [phsouzas@yahoo.com.br]

Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás - Unidade de Jataí

## RESUMO

Neste trabalho, propomos a utilização de textos paradidáticos nas aulas de Física, com a finalidade de observarmos e discutirmos os conceitos físicos contidos neles e também detectarmos possíveis erros conceituais que porventura eles possam apresentar. Desta forma, poderemos conscientizar os alunos a fazer uma leitura mais crítica dos textos, o que é um dos objetivos principais do ensino formal. Para isso, elaboramos um texto, contendo alguns 'absurdos' conceituais de Física Térmica e Eletricidade, com o foco da atenção desviado para um tema que foi bastante comentado no dia-a-dia das pessoas no decorrer do ano de 2001. Apresentaremos os resultados da aplicação deste texto em turmas do 3º ano do Ensino Médio do CEFET-GO, discutindo e analisando as argumentações feitas pelos alunos.

## INTRODUÇÃO

Uma área de pesquisa, bastante difundida nos últimos anos, aborda a utilização de textos paradidáticos no ensino de Física (Ricon e Almeida, 1991; Raboni, 1997; Zanetic, 1997; Silva e Almeida, 1998; Moreira, 2002), textos cujo enfoque não são os fenômenos físicos, mas que, com um pouco de atenção, podem ser trabalhados vários conceitos físicos. No entanto, o ensino tradicional de Física, assim como em outras áreas, tem se pautado quase exclusivamente ao uso d e manuais didáticos, que se limitam ao enunciado puro e simples das leis, sem qualquer preocupação em situá-las dentro de um contexto histórico ou mesmo que envolva o cotidiano. Assim, corre-se o risco de passar ao leitor a idéia de que a ciência é um empreendimento essencialmente individual, fruto de uns poucos gênios sempre bem sucedidos em seus intentos. Nesse ensino tradicional é muito comum a formação errada de conceitos físicos por parte dos alunos e, até mesmo, professores, leigos ou não, das disciplinas de Física. A maioria dos estudantes acredita que a Física não tem nada a ver com o seu cotidiano, que a Física somente é encontrada nos laboratórios e livros didáticos. Ou seja, acreditam que a Física é apenas mais uma disciplina, que utiliza muita matemática, e que sua única função é reprovar ou dificultar sua vida escolar.

Segundo Ricon e Almeida (1991), o conteúdo do manual didático e aulas pautadas em textos recheados de informações formais não são as únicas opções educacionais possíveis. Deve-se u tilizar também, dentre outros, textos sobre produção científico-tecnológica atual e textos sobre a história da ciência. Isto fará com que o aluno construa sua história de leitura, tornando-o um bom leitor, que, já fora da escola, continuará a buscar informações necessárias à vida de um cidadão, a checar notícias, a estudar, a se aprofundar num tema, ou, simplesmente, a se dedicar à leitura pelo prazer de ler. Entretanto, deve-se ter muito cuidado na utilização de textos, de divulgação científica, encontrados em revistas não científicas. Nesses tipos de revistas, encontramos textos contendo erros conceituais (D' Amaro, 1992) que muitas vezes passam desapercebidos pela maioria dos leitores, leigos ou não.

Um outro exemplo de textos de divulgação científica, analisado por Martins (1998), contendo inúmeros erros conceituais encontra-se no livro A dança do universo: dos mitos de criação ao big-bang, de Marcelo Gleiser. Segundo Martins (1998) este livro (Gleiser, 1997) 'poderia até mesmo ser utilizado didaticamente, como objeto de discussão com os alunos, a fim de que eles tentassem localizar erros no livro'. Isso poderia ser bastante útil, pois, 'pode-se aprender bastante com a discussão de erros'. Um outro ponto curioso observado por Martins foi o fato de alguns d e seus colegas físicos terem lido o presente livro, e nenhum deles haver percebido o grande número de erros que ele contém.

## METODOLOGIA

Quando as pessoas se deparam com textos de jornais e revistas não especializadas da área de ciências, que abordam assuntos do dia-a-dia, elas os lêem de forma displicente, sem perceber as incoerências neles contidas. Incoerências tamanhas que ao serem alertadas da sua existência, percebem-nas facilmente em uma segunda leitura do mesmo. Entretanto, as falhas conceituais em sua formação não permitem que elas consigam perceber e explicar todos os erros conceituais contidos no texto, pois, às vezes, até conhecem as leis e princípios físicos, mas não sabem identificá-los em um caso prático. A fim de se confirmar estes pressupostos, foi produzido um texto, intitulado 'O Apagão', contextualizando o problema do racionamento de energia elétrica, ocorrido no Brasil em 2001. Assunto este que foi amplamente veiculado na mídia naquela época. À margem desta problemática, foram introduzidas algumas situações 'absurdas' do ponto de vista conceitual de Física Térmica e de Eletricidade. Situações estas que vão desde unidades incorretas até violações de Leis Físicas. Esse texto, que poderia, facilmente, ser confundido com uma reportagem de jornal, contém um total de 7 erros conceituais, listados e comentados a seguir:

- (1) '... alguns deles necessitavam da utilização de transformador, pois não possuía corrente elétrica correta...' GLYPH<224> O correto seria tensão ou voltagem elétrica correta. Na maioria d as vezes as pessoas não conseguem entender realmente o conceito de corrente elétrica.
- (2) '... que era, assim como em toda a cidade de Jataí, de 220 watts...' GLYPH<224> A unidade de tensão elétrica é o volt (V), o watt (W) é unidade de potência.
- (3) '... temperaturas chegando a quase 40 ºK.' GLYPH<224> Na escala Kelvin não se utilizam o símbolo de grau (º), o correto seria 40 K. Observa-se este tipo de erro em todos os níveis de ensino.
- (4) '... dias tão quentes, com temperaturas chegando a quase 40 ºK (40 K) .' GLYPH<224> 40 K é uma temperatura muito baixa, cerca de -233 ºC. A importância de se utilizar corretamente as unidades de medidas é, em geral, desprezada pelo aluno, e por este mesmo motivo, ela se torna sem significação na leitura de um texto.
- (5) '... embrulhar o gelo em uma jaqueta... não se atinou que aquela jaqueta de lã, por ser quente, faria o gelo derreter mais rapidamente...' GLYPH<224> A jaqueta de lã não é quente, ela é um isolante térmico que conservaria o gelo congelado por um maior tempo. Entretanto, o senso comum das pessoas leva-nas a acreditar que cobertores e 'blusas de frio' mantêm o corpo quente porque elas esquentam.
- (6) '... provocou um curto-circuito, aumentando em muito a tensão elétrica da residência' GLYPH<224> Em um curto-circuito quem aumenta é a corrente elétrica e não a tensão elétrica. Novamente, não se tem um entendimento claro da diferença entre tensão e corrente elétrica.

(7) '... Este curto-circuito, além de queimar o freezer e o fusível de proteção da residência, provocou também a queima de vários outros eletrodomésticos...' GLYPH<224> O curto-circuito provocaria a queima apenas do freezer, uma vez que em uma residência os eletrodomésticos são ligados em paralelo, e, mesmo porque, havia um fusível de proteção.

Após a elaboração desse texto, ele foi aplicado a um universo de 152 alunos, do turno matutino, do 3º ano do Ensino Médio do Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás Unidade de Jataí, entre anos de 2001 e 2003. A fim de se confirmar a nossa hipótese de que a grande maioria dos alunos não consegue perceber os conceitos físicos contidos em textos de jornais, revistas, internet, e outros meios, primeiramente o texto foi entregue aos alunos, que ainda não tinham tido contato com este tipo de texto , como sendo uma reportagem retirada da internet, e 1 pedido a eles que após a leitura redigissem algumas linhas descrevendo suas observações acerca do mesmo. Concluído esta etapa, e recolhidas as observações feitas pelos alunos, partimos para o passo seguinte, que consistia em comunicá-los da real origem do texto, que o m esmo continha erros, e pedir-lhes que fizessem uma segunda leitura tentando localizar cada um desses erros e redigissem alguns comentários acerca de cada um deles. Esta última etapa foi realizada com alunos que já tinham, ou não, conhecimento do texto 'A Faixa de Pedestre' (Souza e Souza, 2004).

## RESULTADOS

Como era de se esperar, a maioria dos alunos (cerca de 85%), que fizeram a leitura do texto sem serem informados que os mesmos possuíam erros conceituais, não percebeu nenhum erro contido no mesmo. Destes alunos, uma boa parte fez suas considerações abordando questões sociais, ou questionando acerca de quem seria responsável pelos prejuízos provocados pelo racionamento de energia elétrica ocorrido em 2001. Uma outra grande parte desses alunos optou por comentar as possíveis utilizações deste tipo de texto em aulas de física, aludindo à presença da Física no dia-a-dia das pessoas.

Depois de informados da existência dos erros conceituais e realizado uma segunda leitura, ainda tivemos, nos anos de 2001 e 2002, cerca de 2% dos alunos que não conseguiram localizar nenhum dos erros. O que demonstra uma grande falta de atenção na leitura do texto ou nas informações repassadas pelo professor. Já em 2003, este fato não ocorreu, bem como houve uma melhor performance destes alunos, em localizar os erros, em relação aos dois anos anteriores. Acreditamos que a análise das argumentações feitas pelos alunos e as discussões em classe de aula acerca das mesmas, tenham contribuído para mudarmos nossa postura perante a forma de ministrarmos os conteúdos, dando mais ênfase àqueles conteúdos em que percebemos uma pior compreensão por parte dos alunos.

Observando as argumentações dos alunos, com relação aos erros contidos no texto, percebemos vários conceitos formados de forma incorreta pelos mesmos, tanto em Física Térmica quanto em Eletromagnetismo. Como exemplo desta má formação conceitual, podemos citar algumas das argumentações dos alunos: ' Não é verdade que toda cidade de Jataí possui 220 Watts, já que se tratando de potência a unidade utilizada é Volts. '; ' A corrente elétrica é dada em volts e não em watts.'; 'O curto circuito não aumenta a tensão elétrica, pois sua ddp = 0. '; ' Mesmo em dias quentes a temperatura não poderia chegar a 40 ºK já que a unidade de calor adotada no Brasil é ºC. '; ' a jaqueta não é quente, a lã é que absorve mais calor fazendo com que o gelo derreta. '. É importante ressaltar que todas estas argumentações podem se tornar em uma fonte

riquíssima de materiais a ser trabalhada em discussões em sala de aula com os alunos. Discussões estas que poderão contribuir em muito para se conseguir sanar os problemas de má formação conceitual por parte dos alunos.

Um outro ponto interessante a ser comentado foi o fato de vários alunos indicarem como erro a afirmação de que o transformador gasta energia elétrica: '... como o João Facão tinha pouco estudo, ele não sabia que esses transformadores também consumiam energia elétrica. ', argumentando que o transformador não gasta energia e que sua função é transformar de 110 V para 220 V. É claro que a função básica do transformador é realmente esta, mas não podemos esquecer que nos aparelhos elétricos há uma perda de energia elétrica sob a forma de calor, ao se aquecerem.

## CONCLUSÃO

Esperamos, com esta forma de trabalhar a Física, conscientizar as pessoas de que a Física faz parte de nosso cotidiano, que podemos encontrá-la em diversos textos que, a primeira vista, nada tem a ver com os conteúdos escolares. E, o que é principal, corrigir os conceitos errôneos formado pelas pessoas. Complementando este trabalho, podemos também fazer uso da construção deste tipo de textos pelos alunos e a partir da análise dos erros conceituais, apresentados em seus textos, discernir acerca do grau de compreensão conceitual do aluno, e, se for o caso, adotar metodologias diferenciadas a fim de corrigi-los.

## BIBLIOGRAFIA

- D' AMARO, Paulo. A implacável dinâmica dos carros. Superinteressante. Ano 6, n.10, p.20-26, 1992.
- GLEISER, Marcelo. A dança do universo. Dos mitos de criação ao big-bang. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

MARTINS, Roberto de Andrade. Como distorcer a física: considerações sobre um exemplo de divulgação científica. 1 - Física clássica. Cad. Bras. Ens. Fís. v.15, n.3, p.243-264, 1998. (Disponível em: <http://www.ifi.unicamp.br/~ghtc/danca1.htm>. Acesso em: 12/07/04)

MOREIRA, Ildeu de Castro. Poesia na sala da aula de ciências? Física na Escola. v.3, n.1, p.17-23, 2002.

RABONI, Paulo César de Almeida. Textos no Ensino de Física do 2º grau: um relato. Cadernos Cedes. Ano XVIII, n.41, p.87-90, 1997.

RICON, Alan Esteves; ALMEIDA, Maria José P. M. de. Ensino da Física e Leitura. Leitura: Teoria & Prática. Ano 10, n.18, p.7-16, 1991.

SILVA, Henrique César da.; ALMEIDA, Maria José P. M. de. Condições de produção da leitura em aulas de física no ensino médio: um estudo de caso. In: ALMEIDA, Maria José P. M. de.; SILVA, Henrique César da. (Orgs.). Linguagens, Leituras e Ensino da Ciência. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p.131-162.

SOUZA, Ruberley Rodrigues de; SOUZA, Paulo Henrique de. Utilizando Textos com Erros Conceituais no Ensino de Física. XVI Simpósio Nacional de Ensino de Física , Rio de Janeiro, 2004. Submetido

ZANETIC, João. Física e Literatura: uma possível integração no ensino. Cadernos Cedes. Ano XVIII, n.41, p.46-61, 1997.

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