Concepções dos Professores de Física Sobre Incidente Crítico
Evandro De Oliveira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 24/01/2005
- Linha de pesquisa
- Tecnologias (Laboratório, Vídeo E Informática) No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## CONCEPÇÕES DOS PROFESSORES DE FÍSICA SOBRE INCIDENTE CRÍTICO
Evandro de Oliveiraª [evandroo@hotmail.com]
a Instituto de Física -USP e Faculdade de Educação -USP
## RESUMO
FOI REALIZADO UM LEVANTAMENTO DAS CONCEPÇÕES DE INCIDENTE CRÍTICO DE PROFESSORES DE FÍSICA DE UMA ESCOLA PARTICULAR DA CIDADE DE SANTO ANDRÉ-SP.
AS METODOLOGIAS DE PESQUISA E DE ANÁLISE UTILIZADAS FORAM, RESPECTIVAMENTE, APLICAÇÃO DE QUESTIONÁRIO AOS PROFESSORES E UTILIZAÇÃO DA TÉCNICA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO DAS RESPOSTAS OBTIDAS.
OS RESULTADOS OBTIDOS INDICAM, INICIALMENTE, A PREDOMINÂNCIA DE D UAS LINHAS DE PENSAMENTO PRINCIPAIS NO DISCURSO DOS PROFESSORES. ORA RECAINDO NO REDUCIONISMO SOCIOLÓGICO, EM QUE A MACROESTRUTURA DETERMINA OS ACONTECIMENTOS E SE VÊ REPRESENTADA PRINCIPALMENTE PELOS GOVERNANTES E ALTOS DIRIGENTES. ORA RECAINDO NO REDUCIONISMO PSICOLÓGICO, EM QUE TUDO É EXPLICADO POR CAUSAS INTERNAS, MENTAIS E AFETIVAS CARACTERIZADAS EM SUA MAIORIA P OR QUESTÕES SÓCIO-ECONÔMICO-CULTURAIS DOS ALUNOS.
NUM SEGUNDO MOMENTO, FOI POSSÍVEL ESTABELECER ALGUNS PADRÕES DE ARGUMENTAÇÃO QUE PUDERAM SER AGRUPADOS EM TRÊS CATEGORIAS DE RESPOSTAS. UMA CATEGORIA RELACIONADA À CONCEPÇÃO DOS PROFESSORES SOBRE INCIDENTE CRÍTICO, OUTRA RELACIONADA A CONCEPÇÃO DOS PROFESSORES SOBRE OS CONDICIONANTES DO BOM RENDIMENTO ESCOLAR E, FINALMENTE, UMA CATEGORIA RELACIONADA A CONCEPÇÃO DOS PROFESSORES QUANTO AOS DETERMINANTES QUE COMPROMETEM O RENDIMENTO ESCOLAR.
CONCLUÍMOS, COM BASE NOS TRABALHOS DE ARENDT (2002) E DE HANSON (1971), QUE OS PROFESSORES CONCEBEM OS INCIDENTES C RÍTICOS DE ACORDO COM A ESTRUTURA EM QUE ESTÃO ENVOLVIDOS, ALÉM DE QUE ESSAS CONCEPÇÕES PODEM ESTAR INTERFERINDO NOS RESULTADOS DOS TRABALHOS QUE TENTAM MELHORAR AS PRÁTICAS ESCOLARES VIGENTES.
PALAVRAS-CHAVE: Incidente crítico, Concepções, Rendimento escolar
## INTRODUÇÃO
Sabemos que muito se tem discutido e diversas propostas já foram feitas, com o intuito de se contribuir significativamente para a melhoria do ensino de Física, porém estes esforços, em sua maioria, não foram suficientes para provocar mudanças significativas nas práticas das salas de aula.
Problemas estruturais na maioria das vezes são apontados pelos professores como a causa fundamental, e são já bem conhecidas as principais questões: grande número de alunos por sala, ambiente físico inadequado e falta de material experimental são algumas das queixas principais.
Entretanto, por outro lado, se esse conjunto de indicadores não é traduzido diretamente em práticas diferentes, o presente trabalho parece indicar que de certa maneira existem concepções preestabelecidas na estrutura educacional que condicionam a tomada de posição dos atores envolvidos num determinado incidente. Em outras palavras, as concepções dos professores parecem se apresentar como fator limitante dos trabalhos que se prestam a mudanças.
Assim, fizemos um levantamento das concepções de Incidente Crítico dos professores de Física de uma escola da cidade de Santo André-SP. Após a análise das respostas obtidas, pudemos estabelecer padrões de argumentação que sugerem a existência de concepções dos professores quanto a três aspectos principais, quais sejam: Concepções sobre incidente crítico, concepções sobre
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os condicionantes do bom rendimento escolar e concepções sobre os determinantes que comprometem o rendimento escolar.
## MÉTODO
Estabelecemos uma tomada de dados caracterizada pela aplicação de questionários aos professores com o objetivo de adquirir material para análise. Neste questionário era apresentada uma clara definição de incidente crítico na qual os p rofessores deveriam se basear na argumentação de suas respostas. Quanto à definição utilizada, recorremos ao trabalho desenvolvido por Carvalho (2002) que apresenta o incidente crítico como ações ou fatos, novos e inesperados ocorridos durante a aula, que pedem uma resposta imediata do professor e para os quais não existem regras específicas que ajudem o professor a tomar as decisões corretas .
Para a análise dos questionários entendemos que, de modo geral, uma técnica que serve para
descrever o conteúdo obtido em qualquer tipo de comunicação é a Análise de Conteúdo. Dessa forma, buscamos através da análise sistemática das respostas dos alunos, fazer um levantamento das mensagens principais que pudessem se tornar categorias.
Assim como fez Medeiros (1995) o procedimento adotado foi ler e reler várias vezes estas mensagens, para que a partir daí encontrássemos uma certa regularidade .
O processo de focalização das categorias de respostas foi gradativo, inicialmente foram estabelecidas algumas, que com o passar do tempo foram eliminadas, e também criadas outras.
## RESULTADOS
## Concepções dos professores sobre incidentes críticos
Quando questionados sobre onde ocorriam incidentes críticos na escola, os professores se referiram principalmente aos atos inesperados e incompreensíveis, que se repetem e incomodam diariamente.
- GLYPH<160> Com minha turma deste ano já presenciei várias cenas de incidente crítico. Chamo de incidente crítico todo comportamento inconveniente e incompatível com o momento em que o grupo está, por exemplo: algazarra e gritaria em sala de aula, corredor, bater na mesa. 1
A análise das respostas dos professores desta escola nos levou a perceber que muitos denominam 'incidente crítico' comportamentos que fogem das 'regras impostas' ou dos 'combinados'.
- GLYPH<160> (Ocorre) incidente crítico em algumas salas onde professores e alunos não conseguem cumprir (os) combinados. 2
- GLYPH<160> Temos apenas problemas de incidente crítico. Muitos alunos não obedecem às regras estabelecidas pela escola, conversam muito na sala de aula, etc.
- GLYPH<160> aluno deve entender que existem regras que deve ser obedecida, que aqui não é a 'casa da sogra', que ele tem hora para tudo, isso já é meio caminho.
- GLYPH<160> Alguns alunos dão a impressão de não conhecerem a palavra 'regras' e seu compromisso em cumpri-la.
O discurso da culpabilização pode ser percebido nos depoimentos anteriores. Não há - e não deveríamos esperar que houvesse - uma iniciativa no sentido romper com este modo de procurar um culpado para a situação, saindo do discurso do sujeito problemático e indo na d ireção de compreender que há uma influência de todos no sucesso ou fracasso do processo, visto que todos os atores -professores, alunos, pais, instituição- estão interligados.
## Concepções dos professores sobre os condicionantes do bom rendimento escolar
Quanto aos condicionantes do bom rendimento escolar, as questões estruturais são as mais citadas pelos professores.
- GLYPH<160> As condições necessárias são colocadas em um bom projeto pedagógico de acordo com a realidade de cada sala.
- GLYPH<160> Para que um aluno tenha um bom rendimento em qualquer sala de aula, seria necessário primeiro mais apoio nas atitudes tomadas pelo professor (claro que devem ser atitudes coerentes); depois, mais orientações pedagógicas para alguns professores,...,mais equipamentos usáveis.
- GLYPH<160> O ambiente é um fator importante para o bom rendimento escolar. Acho que deve haver regras claras para o uso de cada ambiente, onde todos os funcionários empreguem de igual forma. Nesta escola, nem sempre as regras são claras e iguais para todos.
A Direção da escola algumas vezes parece personificar, na opinião dos professores, a estrutura como um todo. Desse modo, uma crítica à estrutura algumas vezes se concretiza numa crítica à Direção.
- GLYPH<160> Na escola em que dou aulas acredito que falta comprometimento de algumas professoras e principalmente da coordenação e direção, que algumas vezes parecem insensíveis a determinados fatos ou dificuldades dos professores ou alunos. A direção também não demonstra uma preocupação em investir nos alunos...As dificuldades dos alunos são ridicularizadas em reuniões da Coordenação e não são propostas soluções.
Algumas vezes os professores não respondiam quais as condições necessárias para que um aluno tivesse um bom rendimento escolar, discutindo em seu lugar os motivo da impossibilidade de conseguí-lo.
## Concepções dos professores sobre os determinantes que comprometem o rendimento escolar
Quando solicitados a descrever quais os fatores determinantes que comprometem o rendimento escolar de seus alunos, as condições de estabilidade familiar e causas internas aos alunos obtiveram o maior número de citações.
- GLYPH<160> A maioria dos pais não aceita reclamações de seus filhos e isso dificulta o trabalho em sala de aula.
- GLYPH<160> As condições necessárias para haver uma boa aprendizagem vem desde a vida social da criança no âmbito familiar, que juntando aos materiais didático/pedagógicos formam um conjunto de benefícios que favorecem o aluno.
- GLYPH<160> Acredito que um dos sérios problemas que comprometem o rendimento dos alunos seja a ausência dos pais no processo de aprendizagem.
- GLYPH<160> Principal fator é o fato da família não estar interligada com a escola quando necessário e nem dar o devido suporte ao aluno para que ocorra uma aprendizagem eficaz. O aluno tem muitas dificuldades, se não tiver um respaldo forte em casa, não vai progredir pedagogicamente.
- GLYPH<160> Os pais não partilham da mesma fala, não colabora com o trabalho realizado.
- GLYPH<160> Percebo que só o acompanhamento clínico deixa a desejar, pois embora aconteça de forma esporádica não é um acompanhamento sistemático.
- GLYPH<160> Indisciplina, problemas de saúde, problemas de relacionamento, falta de interesse, problemas familiares.
Um pequeno grupo de docentes apresenta alguma crítica à estrutura escolar ou à pratica docente, revelando uma visão um pouco mais ampla do problema do fracasso escolar:
- GLYPH<160> Nem sempre as regras são claras. Por exemplo, o uso de figurinhas na escola é permitido por alguns professores e proibido por outros e pelos inspetores, isso acaba confundindo a criança que brinca achando que é permitido e depois leva uma bronca por isso.
- GLYPH<160> Também por questões burocráticas quando tenho que preencher relatórios ou outros.
- GLYPH<160> Falta um bom planejamento anual/mensal/semanal; com objetivos claros e coerentes; falta capacitação de professores e um trabalho coletivo da equipe escolar, tendo como meta principal a formação do aluno.
## CONCLUSÕES
Os professores se referiram ao Incidente Crítico como um desvio daquilo que é considerado 'correto', como um distúrbio provocado quando se contrariam as 'regras estabelecidas',
Quanto ao rendimento escolar, está claro que para o grupo de professores estudados, prevalece a concepção que pressupõe o baixo rendimento como conseqüência de uma carência moral e social das crianças. Desse modo, preconceitos sociais sobre a família como incapaz de transmitir padrões morais e de comportamento para a criança permeiam as declarações dos professores. Entretanto, se faz necessário relembrar que não cabe incutir no professor a responsabilidade sobre este estado de coisas, visto que ele é apenas uma parte na complexa dinâmica que se estabelece no ambiente escolar.
Ainda assim, onde erravam os professores em suas observações? A Filosofia da Educação nos indica que o erro surgia em virtude de um salto que ia além de meras observações para atingir o nível das especulações, sobrepujando em muito o que os dados básico asseguram . Hanson (1972).
Ou seja, não erram por haverem recebido da sala de aula sinais sensórios errados, mas por extrapolarem, habitualmente, as descrições do que encontram. As pessoas dirão estar vendo água - quando em verdade, se trata de ácido fraco, onde a madeira mergulhada se destrói. Dirão estar vendo gelo, - quando em verdade, se trata de deutério congelado, porque não flutua na água. Hanson (1972).
Concluímos, portanto, que os discursos dos professores ora recaem no reducionismo sociológico, em que a macroestrutura determina os acontecimentos, ora no reducionismo psicológico, em que tudo é explicado por causas internas, mentais e afetivas, caracterizadas em sua maioria por questões sócio-econômico-culturais dos alunos.
No primeiro caso, devemos considerar que por mais claramente que um problema geral possa se apresentar em uma crise, ainda assim é impossível chegar a isolar completamente o elemento universal das circunstâncias em que ele aparece Arendt (2002). Já no segundo, temos uma conseqüência das ações de todos os agentes envolvidos ao longo dos anos, que produziram uma estrutura a qual formou pessoas que agora reproduzem os mesmos preconceitos, visto que nossa atenção detém-se, naturalmente, em objetos e acontecimentos que, em razão de nossos interesses seletivos, dominam o campo visual. Hanson (1972)
Com o passar do tempo, essas concepções dos professores parecem estar se constituindo numa forte variável interveniente nos resultados dos trabalhos que buscam melhorar as práticas escolares. Talvez por isso, inúmeras tentativas de se contribuir com a atividade docente tenham se revelado pouco frutíferas.
## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Arendt, H. Entre o Passado e o Futuro, Perspectiva, São Paulo, 1990.
Carvalho, A. M. P. e Moreira, S. M. Classificação dos Incidentes Críticos Observados Pelos estagiários em Seus Estágios, Atas Eletrônicas, VIII-EPEF, Águas de Lindóia, 2002.
Hanson, N. R. Observação e Interpretação, In: Morgenbesser, S. (org.), Filosofia da Educação, Cultrix, São Paulo, 1972.
Medeiros, A. F. Análise das Dificuldades dos Alunos num Curso Introdutório de Laboratório de Física para Engenheiros na Paraíba, Dissertação de Mestrado IFUSP, São Paulo, 1995.
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