A conquista do ar por Santos Dumont e Bartolomeu de Gusmão
Leonardo Matteo
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 24/01/2005
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2005
Texto completo
## A CONQUISTA DO AR POR SANTOS DUMONT E BARTOLOMEU DE GUSMÃO.
Leonardo Matteo a [leonardomatteo@yahoo.com.br] Maurício Pietrocola P. de Oliveira b [mpietro@usp.br]
a Instituto de Física e Faculdade de Educação da USP b Faculdade de Educação da USP
## RESUMO:
Neste trabalho analisarei o começo da aerostatação mundial e seus precursores, procurando ressaltar os feitos de dois notórios descobridores brasileiros que revolucionaram os meios de transporte aéreos, padre Bartolomeu de Gusmão e Santos Dumont, que com quase dois séculos de diferença, foram responsáveis pelo invento e dirigibilidade do balão respectivamente. Discutirei a importância da história da ciência, que particularmente no contexto dos dois cientistas brasileiros, se torna imprescindível, pois seus momentos foram extremamente conturbados e sua análise detalhada fornece dados sobre aspectos não só de cunho físico, mas também de cunho social, que representa o não reconhecimento e principalmente, a não inserção no ensino dos principais pilares do desenvolvimento aéreo no Brasil.
## 1 - HISTÓRIA DA CIÊNCIA
O Brasil parece ter um sério problema de 'auto-estima' cultural na área de ciências já que é comum aos alunos pensarem a ciência como sendo exclusivamente estrangeira e a quilômetros de distancia da realidade, considerando os cientistas como entidades divinas, capazes de em instantes resolver grandes problemas, fazendo com que o interesse por ciência no Brasil seja quase nulo por parte dos mais jovens. Não só a falta de interesse colabora com a desvalorização da ciência no Brasil, mas também a falta de reconhecimento pelos que já algo produziram por ela.
Santos Dumont e Bartolomeu de Gusmão foram os pioneiros do desenvolvimento aéreo mundial, e ambos são reconhecidos como deveriam por outros países que n ão o deles. Padre Bartolomeu de Gusmão teve uma fama considerável, apesar de o fato não lhe contribuir de uma forma positiva, já que era conhecido como louco e conseqüentemente perseguido pela santa Inquisição. Já Santos Dumont, extremamente badalado na França, lançava moda de vestimentas e acumulava uma quantidade enorme de publicações nos jornais locais de Paris, como mostra BARROS : 1
1 BARROS, Henrique Lins (2003, P 148)
Em 1889 pelo menos 133 noticias foram publicadas sobre ele. Em 1900, o número cresceu para cerca de 200. Mas em 1901 já u ltrapassava os 7.500, para cair, em 1902, para cerca de quatro mil e baixar para pouco mais de 600, em 1903.
Após quase 100 anos do lançamento do 14-bis e após quase 103 anos da solução da dirigibilidade dos balões, Santos Dumont não é reconhecido pelos seus feitos, visto que nenhum de seus trabalhos está presente no currículo de ensino nacional. Sua importância foi enorme na época, e a partir de seus trabalhos, pode-se tornar popular o vôo de balão e quebrar com o descrédito dado a esse tipo de meio de transporte pelos donos do dinheiro da época, descrédito coerente com a realidade da época, já que grande parte dos cientistas morreu na tentativa de aprimorar o balão.
- O momento vivido por ambos os cientistas não pode ser analisado de forma crua, sendo necessário estudar o ambiente nos quais eles estavam inseridos. Com Gusmão fugindo da igreja e Dumont sob holofotes mundiais, não podemos deduzir que seus trabalhos foram conseqüência de uma junção de equações e puras inspirações divinas, e sim resultado de um processo político, social e econômico, como diz GAGLIARDI e GIORDAN 2 :
- "A História da Ciência pode mostrar em detalhe alguns momentos de transformação profunda da ciência e indicar quais foram as relações sociais, econômicas e políticas que entraram em jogo, quais foram as resistências à transformação e que setores trataram de impedir a mudança. Essa análise pode dar as ferramentas conceituais para que os alunos compreendam a situação atual da ciência, sua ideologia dominante e os setores que a controlam e que se beneficiam da atividade científica."
- O estudo da obra desses cientistas citados é muito rico, pois além de aproximar os nossos estudantes à física lhes oferecendo exemplos de brasileiros que tantas remarcações conseguiram no cenário mundial, apresenta conceitos importantíssimos de física, como potência, motor a petróleo, empuxo, dilatação e muitos outros, que deveriam ser tratados de uma forma alternativa e trazidas à realidade do aluno, já que o crescente desinteresse por esses assuntos pode ser vinculado ao fato destes serem tratados de forma abstrata e irreal, sem nenhum exemplo ou mesmo aplicação concreta destes preceitos.
- A historia da ciência vem então para suprir essa ausência no ensino desses aspectos e aliado a eles, trabalhar os conceitos de física presentes gerando um maior interesse e uma melhoria de assimilação. Ela colabora também para o entendimento da física como um conjunto de situações e não uma física pronta e acabada como é mostrado nos livros didáticos e põe em evidencia físicos e cientistas brasileiros de renome que pouco são reconhecidos na sua terra natal.
## 2 - SANTOS DUMONT E BARTOLOMEU DE GUSMÃO
- O balonismo existe há mais de dois mil anos. Sabe-se, no entanto, que a primeira demonstração de um objeto voador foi feita pelo brasileiro Padre Bartolomeu de Gusmão, que em 1709 com apenas 23 anos, demonstrou ao Rei João V de Portugal um balão que subiu cerca de quatro metros, mas se incendiou. O excesso de otimismo com que o artefato foi apresentado infelizmente levou Padre Bartol omeu ao descrédito e, somente em 4 de junho de 1783 ocorreu o verdadeiro nascimento das atividades aéreas com o vôo do balão dos irmãos franceses, Joseph e Etienne Montgolfier, que chegou a atingir cerca de 2.000m de altura. Neste mesmo ano também se realizou o primeiro vôo tripulado e o lançamento do balão de gás hidrogênio. A partir daí, por mais de um século o balonismo evoluiu como a única atividade aérea, trazendo em seu desenvolvimento lógico também os dirigíveis .
Depois do inventor brasileiro, houve nos dois séculos seguintes uma verdadeira proliferação de lançamentos de balões, a ponto do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1808-1849) imaginar no conto Aventura Sem-par de um Certo Hans Pfaall ¹ uma possível viagem a lua por esse meio de transporte.
'Diminuição extremamente rápida do diâmetro da terra. Hoje fiquei bastante impressionado com a idéia de que o balão estava agora correndo sobre a linha absidal, a subir para o ponto do perigeu; em outras palavras: mantendo o rumo direto que o conduzia à lua imediatamente, naquela parte de sua órbita mais próxima da terra. A própria lua achava-se diretamente sobre minha cabeça e, conseqüentemente , oculta à 3 minha vista. Grande e persistente trabalho necessário para condensação da atmosfera'
Foi então que outro problema começou a tomar a atenção dos balonistas da época. Sendo o balão um eficaz artefato para a visualização de submarinos, os governos de países como a França, passaram a investir na produção de dirigíveis. Diversos prêmios foram instaurados, sendo um dos mais importantes, o premio Deutch , de cem mil francos, concedidos por Henri Deutch de La Meurthe. A prova consistia em levantar o balão por meios próprios, percorrer uma distancia de aproximadamente 100 metros contra e a favor do vento, contornar a torre Eiffel e retornar ao ponto de partida. Santos Dumont, a 31 de outubro de 1901, sob aplausos do povo parisiense, completou com seu nº6 o feito com êxito.
Santos Dumont passou então a ser o primeiro a resolver o problema da dirigibilidade dos balões, colocando mais um brasileiro, ao lado de Bartolomeu de Gusmão, nos postos de pioneiros da 'tomada do ar'. Sua figura foi posta em evidência na França e em todo os cenários mundiais, além de seus trabalhos serem amplamente estudados por diversos balonistas da época, já que todos os seus projetos e modelos de balões eram colocados a disposição a qualquer um que quisesse estudá-los.
- O grande resultado apresentado pelo seu n·6 não foi uma simples obra do acaso, ou mesmo uma coincidência e sim um trabalho que reflete anos de estudos e diversos acidentes em seu currículo. Balões, de diversas cubagens, pesos e formas, foram testados e sempre atualizados, onde o cientista literalmente aprendia com seus erros, pois por várias vezes os acidentes foram sérios. Tentando por exemplo ganhar o prêmio Deutch, Santos Dumont colidiu seu n·4 com a parede de um hotel, o que rendeu a ele nada mais que uma fama maior do que já obtinha.
Após uma serie de quatorze balões, Santos Dumont arrebatou de vez o posto de um dos maiores aviadores da história lançando sua obra mais reconhecida, o 14-bis. Ele que sempre direcionou os seus trabalhos aos mais leves que o ar, chocou os aviadores da época lançando um modelo de um mais pesado que o ar. Os irmãos Wright, nesse mesmo período, já voavam mais de 40 quilômetros em seus aviões, mas estes necessitavam de uma catapulta e não levantavam vôo por conta própria, sendo classificados como planadores, alem de nunca divulgarem para nenhuma entidade cientifica seus trabalhos, cobrando para fazer apresentações na Europa, enquanto Santos Dumont recebia mais um prêmio concedido pelo aeroclube da França, que delegava a ele o primeiro vôo em circuito fechado homologado por instituições físicas de respeito.
- O impacto causado pelo trabalho dos pioneiros aéreos foi enorme, pois além de se destacarem por seus sucessos em seus experimentos e conseguirem êxito no que desejavam alcançar, modificaram suas épocas não só no que diz respeito aos seus trabalhos, mas também instigaram diversos outros cientistas a continuarem seus projetos, mudando o fluxo do dinheiro e conseqüentemente influindo no campo político-social. Fez com que os suas conquistas físicas fossem tão importantes quanto suas respectivas inserções na época. A analise então do pano de fundo de seus trabalhos se torna tanto instigante para os alunos, quanto vital para o entendimento completo do que foi uma das maiores revoluções na área da física aeronáutica mundial.
## 3 - REFERÊNCIAS
TAUNAY, A. E. Bartolomeu de Gusmão. Inventor do Aeróstato . Editora Importadora Americana LTDA, São Paulo, 1942.
BARROS, H. L. Santos Dumont e a Invenção do vôo. Editora Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2003.
BARROS, H. L. Santos Dumont, o Homem voa. Editora Contraponto, São Paulo, 2002.
História Geral da Aeronáutica Brasileira dos Primórdios até 1920. Editora Itatiaia, Belo Horizonte (MG), 1988.
BASTOS, Fernando. O Ensino de Conteúdos de História e Filosofia da Ciência. In: Ciência e Educação . Vol 5, Nº1, 1998.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.