Perfil sócio-cultural dos estudantes de Física da UFRJ e as suas representações de ``Natureza".
Carolina De Lima Alves Belo, Eliane Brígida De Morais Falcão, Marta Feijó Barroso
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 24/01/2005
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## Perfil sócio-cultural dos estudantes de Física da UFRJ e as suas representações de 'Natureza".
Carolina de Lima Alves Belo Eliane Brígida Morais Falcão Marta Feijó Barroso.
Resumo: O Instituto de Física possui cerca de 500 alunos na graduação. É um ambiente de bons recursos acadêmicos para ensino, pesquisa e extensão, mas enfrenta problemas de evasão de estudantes no referido curso. O perfil cultural dos estudantes do Instituto foi inicialmente caracterizado a partir de alguns indicadores das provas de vestibular e tais dados mostram um perfil praticamente constante ao longo do tempo, com um grupo muito reduzido de estudantes bons e um grupo maior de estudantes com notas baixas nas disciplinas fundamentais para tal carreira (física e matemática), o que se repetia na disciplina Física I. A reversão dessa situação mostrou ser um desafio para alguns professores, pois o desempenho dos estudantes era repetidamente insatisfatório. A representação social de "natureza" nos pareceu um objeto que possibilitaria explorar componentes da cultura desse grupo já que a física é o estudo dos fenômenos da "natureza". Admitimos, neste trabalho, que representação social é uma forma de conhecimento produzido socialmente, fora dos parâmetros do conhecimento científico (ainda que, eventualmente, inclua elementos de tal conhecimento) e que guarda estreita vinculação com a situação social onde é produzida. Procuramos identificar as representações de "natureza" dos estudantes do primeiro e segundo ano do curso de Física da UFRJ e analisa-las no contexto do seu perfil cultural. A análise dos resultados foi feita através de dados quantitativos e qualitativos, onde se usou a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo. Foram encontrados 5 discursos: "Natureza é o natural" (tudo não modificado pelo homem); 'Natureza é tudo' (o natural e o modificado pelo homem); "Natureza são valores e sentimentos" (relacionada a valores como beleza e bem estar); "Natureza como criação divina"; "Natureza é tudo que tem vida". Começamos a coletar novos dados com os estudantes que iniciaram o 1° período de 2004 para darmos continuidade à pesquisa.
PALAVRAS-CHAVE: Cultura; representação social; natureza; estudantes de Física.
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- 1 Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (NUTES), Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Bolsista CNPq-PIBIC-UFRJ. carolinabelo@yahoo.com.br
- 2 Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (NUTES), Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). elianeb@nutes.ufrj.br
- 3 Instituto de Física, Centro de Tecnologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). marta@if.ufrj.br.
## Introdução
O instituto de Física da UFRJ tem cerca de 120 docentes, e 95% têm doutorado. Cerca de 85% dos docentes estão envolvidos em atividades de pesquisa ligados a aspectos teóricos e experimentais da física básica. Há apenas um doutor formado na área de Educação em Ciências, e um grupo pequeno de professores (menos de 10) que trabalham em pesquisa sobre o ensino de Física. O Instituto tem cerca de 300 alunos no curso diurno (bacharelado e física médica) e cerca de 200 alunos na licenciatura em física (noturno). Além desses, o Instituto oferece também um curso de licenciatura em física à distância, junto ao consórcio CEDERJ, com cerca de 200 estudantes matriculados. O Instituto também é responsável pelas disciplinas de física de todos os cursos de ciências exatas e tecnológicas na UFRJ. A pós-graduação tem cerca de 60 alunos (curso de mestrado, e doutorado). Está em processo de criação de um mestrado em ensino de física de caráter profissionalizante. O Instituto possui também um Laboratório Didático (LADIF) que produz e divulga materiais didáticos para o ensino de Física. Também participa de projetos de extensão, em particular de oferecimento de cursos de formação
continuada para professores de física, e de divulgação científica, como a realização dos ciclos 'Física para Poetas'. O Instituto é um ambiente de bons recursos acadêmicos para ensino, pesquisa e extensão. Entretanto, enfrenta problemas de evasão de estudantes no curso de graduação. O relato aqui apresentado aborda resultados de pesquisa cujo objetivo é o de ampliar a compreensão do fenômeno de evasão e, particularmente, busca contribuir avançando sua compreensão do perfil cultural dos estudantes.
Os estudantes que ingressam no curso de Física têm um perfil praticamente constante ao longo do tempo, sendo um grupo muito reduzido de estudantes bons e um grupo maior com notas baixas nas disciplinas fundamentais para tal carreira, como física e matemática. Os alunos que tiram notas baixas em Física no vestibular, geralmente repetem este desempenho na disciplina Física 1 da UFRJ e abrem o caminho da evasão. A isto se ligam outros fatores. Esses alunos têm dificuldades com a compreensão geral do campo da ciência, isto é, não compreendem que a ciência é resultado de um método apropriado, onde a observação é fundamental tanto quanto seu enquadre em modelos e leis abstratas. Tal incompreensão gera dificuldades sérias para aprender a resolução de problemas da Física. Também têm dificuldades com a linguagem científica. Sumarizando, tal conjunto de características nos parecem compor um quadro que alia dificuldades na escolarização científica e possíveis outras características não ainda reveladas, mas que poderiam, de forma oculta, compor uma dinâmica cultural própria desses estudantes. A Física tem, por definição explícita usual, o objetivo de compreender os fenômenos da natureza. Tal definição tem aparecido em momentos diversos de interação com esses estudantes: conversas, entrevistas, questionários. Nem sempre as colocações dos estudantes nos pareceram muito claras. Optou-se, assim, por avançar na compreensão das características deste grupo de estudantes investigando-se imagens, idéias e representações que eles têm da 'natureza'. O acesso à representação de 'natureza' desses estudantes pode contribuir para a identificação de crenças, imagens, configurações cognitivas diversas a partir das quais, sem sabermos, estamos introduzindo o conhecimento científico. Para Moscovici (2003), especialista nesta conceituação, a representação social é um conhecimento típico de um grupo social, e não se enquadra no que usualmente chamamos de conhecimento científico, ou seja, um resultado intelectual dentro dos parâmetros científicos. Para ele, a representação social apresenta algumas características: a) os sujeitos contam com muita informação, mas de forma dispersa, sobre o tema, o que gera lacunas constitutivas na seqüência de raciocínio; b) o enfoque ao tema é dado a partir das próprias experiências e motivações do sujeito; c) há efeitos sobre o processo cognitivo pela pressão de respostas que a vida exige a cada momento, isto é, determinados sujeitos em determinados momentos buscam a sintonia com a resposta que eles consideram a esperada e, portanto dominante no grupo.
Foi com este referencial e com os dados do perfil inicial das características dos estudantes que se empreendeu o projeto 'Aspectos do perfil cultural dos estudantes do 1° e 2° ano do Instituto de Física da UFRJ e suas relações com os motivos de repetência e evasão' cujos resultados estão aqui relatados.
## Objetivo
O objetivo principal deste projeto foi de identificar as representações de 'natureza' dos estudantes matriculados em disciplinas do primeiro e segundo ano do curso de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e analisá-las no contexto do seu perfil cultural. Nestes dois anos encontramse os estudantes do 1° ao 4° período. Para fins de análise, investigou-se também as representações dos pós-graduandos da mesma instituição em seu momento inicial. Isso é importante, pois retrata o curso na parte inicial (1° período), mediana (4° período) e final (pós-graduação).
## Metodologia.
Devemos lembrar que quando iniciamos esta pesquisa, já realizáramos uma (Almeida et al., 2001, Barroso et al., 2003) no mesmo contexto e, por isso, nosso envolvimento com o grupo estudado já tinha uma história de conhecimento acumulado. A observação foi realizada a partir da convivência que mantivemos, não só durante o período da pesquisa (2003-2004), mas também inclui registros da
convivência a partir do trabalho anteriormente realizado. O questionário para obtenção dos dados contou com perguntas abertas e fechadas e foi dividido em duas partes. Na parte A, foram feitas perguntas sobre sexo, idade, grau de escolaridade dos pais, tipo de escola em que estudou e o que motivou a escolha do curso. Na parte B, foi perguntado sobre concepções de natureza e religião. Este tema foi incluído porque pesquisas mostram que crenças religiosas podem influenciar as representações (Brooke & Cantor, 1998, Moscovici, 1985). Havia um espaço no final para que o aluno acrescentasse algo que julgasse ser importante para a pesquisa. A análise dos resultados foi feita tanto se considerando dados quantitativos (faixa etária, escolarização de pais, etc.) quanto qualitativos, onde se usou a proposta de análise de Lefèvre (2000), a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). Por ser uma metodologia qualitativa, o pensamento e as respostas não precisam ser traduzidos matematicamente, o que comprometeria os resultados nesse tipo de pesquisa. O DSC está fundamentado na Teoria da Representação Social. Lefèvre ressalta o entendimento das representações como o compartilhamento de um mesmo imaginário social que pode ser identificado como um produto coletivo analisando-se as respostas individuais. Para isso, extrai-se das respostas dadas as idéias centrais e suas correspondentes expressões - chave. Com as idéias centrais e expressões chave semelhantes compõe-se um ou mais discursos-síntese. Esses discursos-síntese são o Discurso do Sujeito Coletivo. Em uma mesma resposta, pode-se encontrar mais de uma idéia principal, o que implica em dois ou mais discursos diferentes convivendo em um mesmo sujeito. O conjunto de DSCs de um grupo sinalizaria as bases cognitivas das percepções de um objeto ou tema investigado.
## Resultados
Nota-se que o curso de Física da UFRJ é predominantemente masculino. Verificou-se que os alunos, em sua maioria, estudaram em escola particular no ensino fundamental e médio. No ensino fundamental, os alunos de 1° e 2° período se dividem entre público e privado. É possível observar que ocorre um aumento no número de alunos que estudaram em escola pública no ensino médio, mas tal índice não consegue superar o das escolas particulares.
Foi possível identificar que os alunos foram motivados a fazer o curso, em grande parte, pelo fascínio e gosto pela física, pelo interesse em conhecer os fenômenos, pelo desejo de ser pesquisador, além da curiosidade em saber como as coisas funcionam. Alguns foram motivados pela oferta de emprego e, segundo eles, pela vasta área de atuação. Para outros, o que motivou a escolha pelo curso foi a interdisciplinaridade e o mercado de trabalho. Muitos deles querem especializar-se em Física Médica, um novo ramo da Física, pelo fato de gostarem de biologia também.
As religiões que predominam são a católica e a evangélica. A crença em Deus está vinculada à religião. O número dos que têm dúvidas sobre a existência, ou não, de Deus aumenta ao longo dos períodos, mas sofre uma queda na pós-graduação. Analisando a crença em Deus independente de religião verifica-se que ela é bastante alta nos três primeiros períodos, mas no 4° período ela sofre uma queda e, na pós-graduação, o número de crentes em Deus diminui ainda mais. Isso pode ser um indicativo uma maior maturidade de tais estudantes que começam a questionar suas crenças e opiniões e também, pode ser um indicativo de que o ambiente científico em que estão inseridos está influenciando as atitudes e concepções desses alunos.
Foram encontrados cinco discursos diferentes. DSC 1: 'Natureza é o natural', ou seja, natureza é tudo aquilo que não foi modificado ou tocado pelo homem. DSC 2: 'Natureza é tudo', isto é, o natural e o artificial, que foi modificado pelo homem. DSC 3: 'Natureza são valores e sentimentos'. A natureza está relacionada a valores como equilíbrio, paz, beleza, pureza, bem estar e outros. DSC 4: 'Natureza como criação divina'. A natureza seria uma criação de Deus. DSC 5: 'Natureza é tudo que tem vida', como o próprio nome já diz, tudo que possui vida. Difere do primeiro, pois natural inclui elementos inanimados, como por exemplo, rios, montanhas e lagos.
## Discussão
A análise dos resultados do nível de escolaridade dos pais (pai e mãe) revelou um dado interessante: tendência da permanência de estudantes, com pais de escolaridade mais avançada, no
curso de graduação. Notou-se também que quanto mais avança o curso de graduação, mais aumenta o número de estudantes que cursaram o ensino médio em escola particular, culminado com aqueles que alcançaram a pós-graduação: quase todos freqüentaram escolas particulares no ensino fundamental e médio. Isto reforça tanto a já conhecida relação entre escola particular/ingresso e permanência na universidade pública quanto à importância do ambiente cultural e econômico na determinação da continuidade do estudo dos jovens. Tais resultados também ressaltam a importância e urgência de se estabelecerem condições de receptividade nos primeiros períodos do curso de Física àqueles estudantes que chegam com dificuldades relacionadas às suas origens culturais e econômicas.
Nos discursos (DSC) encontrados sobre natureza, o que predominou em todos os períodos foi o 'natureza é tudo', sendo seguido pelo 'natureza é o natural'. Tal resultado pode ser compreendido se nos referenciarmos tanto ao contexto cultural mais amplo que nos cerca como aquele mais especializado do mundo acadêmico científico, pois a ênfase dada à visão de natureza como aquilo que é natural reflete a concepção bastante disseminada no âmbito cultural não especializado. Isto mostra a vinculação de tais estudantes ao seu contexto cultural mais amplo. Entretanto o mundo especializado da ciência mostrou sua influência quando o discurso predominante foi o de natureza como tudo o que existe, incluindo os objetos produzidos e modificados pelo homem. Tal DSC sofre uma pequena queda no 3° período, mas volta a crescer no 4° período, alcançando um número bem significativo na pósgraduação. O DSC 'natureza é natural' cresce progressivamente, mas na pós-graduação sofre uma queda. O discurso 3 (natureza são valores e sentimentos) foi encontrado, numa porcentagem muito baixa, no 1°, 2° e 3° períodos. Este discurso caracterizou-se por imagens mais sentimentais, que parece desfazer-se no confronto com a ótica matematizada da ciência. O discurso 4 (natureza como criação divina) aparece em todos os períodos, inclusive na pós-graduação, mostrando que é possível convivência de crenças religiosas com o mundo acadêmico científico. Interpretamos como possibilidade de convivência porque, ainda que na pós-graduação haja sensível diminuição deste discurso, ele se manifestou. Finalmente, o discurso 5 (natureza é tudo que tem vida) não ocorreu na pós-graduação. Interessante observar que, ainda que parte dos pós-graduandos tenha crenças religiosas, desaparece praticamente o DCS de 'natureza como criação divina'.
## Conclusão
Este trabalho mostrou que as concepções de natureza estão intimamente ligadas às representações sociais e ao conceito de cultura. Analisá-las, neste contexto, permite que possamos caracterizar e obter um perfil de um grupo. Começamos a coletar novos dados com os estudantes que iniciaram o 1° período de 2004 para darmos continuidade à pesquisa.
## Referências Bibliográficas
ALMEIDA, M.A.T.;BARROSO, M.F.;FALCÃO,E.B.M. & GONZALEZ, E.A.M. 2001. Reversão do desempenho de estudantes em um curso de Física básica. Revista Brasileira de Ensino de Física , 23 (1):83-92.
BARROSO, M.F.; ALMEIDA, M.A.T.; SIMÕES, J.M. & FALCÃO, E.B.M. 2003. A evasão universitária em cursos de Física: reversão no desempenho dos estudantes e redução da evasão. Anais do XV Simpósio Nacional de Ensino de Física, Curitiba, Paraná, www.sbf.if.usp.br/eventos/snef/xv.
BROOK, J. & CANTOR, G. 1998. Reconstructing nature. Oxford University Press. Oxford.
LEFÈVRE, F. & LEFÈVRE, A.M.C. 2000. O discurso do sujeito coletivo - Uma nova abordagem metodológica em pesquisa qualitativa. EDUCS, 138 p. MOSCOVICI, S. 1985. Sociedade contra Natureza. Editora Francisco Alves. São Paulo. MOSCOVICI, S. 2003.Representações sociais. Editora Vozes. Petrópolis.
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