Ciência e convivência social: Planetário da UFRGS e Vila Planetário
Maria Helena Steffani, Laura Rita Rui
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 24/01/2005
- Linha de pesquisa
- Alfabetização Científica E Tecnológica E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## CIÊNCIA E CONVIVÊNCIA SOCIAL: Planetário da UFRGS e Vila Planetário 1
Maria Helena Steffani (steffani@if.ufrgs.br) a Laura Rita Rui (laurarui@cpovo.net) b
a Departamento de Física - IF-UFRGS e Planetário/PROREXT - UFRGS b Colégio Paula Soares (P. Alegre - RS) e Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física IF - UFRGS
## Resumo
Crianças carentes de uma vila popular instalada ao lado do Planetário da UFRGS foram convidadas a participar em uma das etapas de um projeto de dissertação de Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física, que visa, a partir do estudo do SOM, motivar estudantes do ensino fundamental para a área das ciências exatas. Foi realizada uma série de atividades interdisciplinares com crianças de 9 a 13 anos, procurando desenvolver habilidades de utilização de diferentes linguagens (verbal, musical, matemática, gráfica, plástica e corporal) e de diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos. A aplicação dessa etapa do projeto, que consiste de um curso sobre SOM para este grupo em particular, ocorreu na Semana Nacional da Divulgação Científica (18 a 23 de outubro 2004) e teve como objetivo informar e formar essas crianças, cativando-as através da ciência e da observação da natureza.
Palavras-chave : educação, som, inclusão social.
## Introdução
Diariamente o pátio do Planetário Prof. José Baptista Pereira da UFRGS é utilizado como área de lazer por crianças da Vila Planetário, uma vila popular instalada ao lado deste espaço universitário. Mensalmente parte dessa comunidade infantil participa das observações da Lua e de astros de destaque do céu noturno de Porto Alegre. Nas programações especiais do Planetário, em eventos astronômicos, as crianças da Vila também afluem expressivamente. Entretanto o convívio diário, por vezes, requer ajustes, pois a utilização do espaço externo do Planetário por parte desses usuários muitas vezes implica em destruição de parte do ajardinamento, depósito de materiais indevidos, deslocamento de pedras do calçamento ou destruição de sinalização. Como transformar essa realidade?
## Educação: a única saída
A educação é o agente transformador da sociedade e educadores somos todos nós professores, alunos, pais e profissionais diversos, na escola ou fora dela. O Planetário da UFRGS tem se consolidado cada vez mais como um espaço de aprendizagem para alunos, professores e público em geral, através de suas múltiplas atividades: cursos, palestras, oficinas, exposições, observações orientadas, aulas especiais e programação de cúpula.
Nosso objetivo é transformar as visitas ao Planetário, que muitas vezes representa um 'passeio' para quebrar a rotina escolar, em um projeto interdisciplinar, agregando professores de áreas distintas como ciências exatas, humanas e artes.
Dentre os vários projetos em andamento no Planetário da UFRGS, estamos dando início ao projeto Ciência e convivência social , que visa ampliar a formação da comunidade da Vila Planetário, especialmente, das crianças e, ao mesmo tempo, construir coletivamente normas de convivência social baseadas no respeito à natureza.
Estabelecendo parcerias com departamentos e setores da UFRGS, pretendemos oferecer diversas atividades que busquem oportunizar a esses jovens um entendimento do mundo social e natural em que vivem, com as produções culturais e tecnológicas próprias de sua época. E, nesse contexto, a ciência tem papel de destaque e o Planetário surge, naturalmente, como espaço ideal.
## Explorando as diferentes linguagens através do SOM
Nessa perspectiva iniciamos o projeto Ciência e convivência social , propondo o primeiro curso interdisciplinar para crianças da Vila Planetário, que terá como tema central o SOM.
Foram realizadas diversas atividades tendo em vista estabelecer uma rede de conhecimento, procurando dar conta de alguns dos objetivos do Ensino Fundamental tais como formar cidadãos informados, críticos, capazes de expressar suas opiniões, seus sentimentos, suas discordâncias e também de ouvir seus parceiros e seus interlocutores.
Dentre as atividades previstas iniciamos com a apresentação do vídeo Donald no país da Matemágica e posterior discussão dos assuntos abordados no filme. Jogos, natureza, matemática, instrumentos musicais e símbolos (triângulo, quadrado, retângulo, estrela) foram alguns dos itens citados pelas crianças para descrever o filme. Com elas, analisamos a presença constante da matemática nas diferentes áreas (música, formas na natureza, jogos, etc) e exploramos as proporções matemáticas entre os comprimentos de uma corda esticada em uma harpa e o som por ela produzido. As crianças foram estimuladas a relatarem suas vivências musicais e solicitamos que, para o próximo encontro, elas trouxessem seus instrumentos musicais, caso tivessem algum. Foi-lhes solicitado um registro de suas impressões sobre esse encontro em forma de texto ou desenho.
No segundo encontro, fez-se uma discussão sobre os instrumentos musicais trazidos pelas ministrantes e pelos alunos (violino, flauta doce, gaita de boca, pandeiro, acordeon, cavaquinho, teclado), procurando entender como o som era gerado neles e quais as características do som produzido. Os instrumentos musicais foram classificados como instrumentos de corda, de sopro, de percussão, etc. Foram introduzidos basicamente os conceitos de intensidade e altura dos sons e de timbre sonoro. O uso de um monocórdio , construído com uma corda de violino fixada em uma colher de madeira e com um arco feito com vários fios de nylon presos em uma espátula de madeira, permitiu r eforçar as relações entre comprimento da corda e a altura dos sons emitidos. Para sistematizar e organizar as conclusões desse encontro, solicitamos aos alunos que respondessem algumas questões. Dadas as grandes diferenças de idade e de nível de escolaridade no grupo, essa atividade não foi completada pelos alunos nesse encontro e teve que ser retomada nos dois encontros seguintes. Como tarefa para o próximo encontro, os alunos deveriam construir um 'telefone de lata' (ALVARENGA, 2004).
O terceiro encontro iniciou com o uso dos telefones construídos pelos alunos. A seguir foram realizadas experiências que permitiram explorar o caráter vibratório do som, sua propagação através do ar e o limite da percepção sonora humana: balão cheio em frente à 'boca falante'; dedos na garganta enquanto falamos; observação de uma régua metálica presa por uma extremidade à beira da mesa, vibrando; observação de um diapasão vibrando; uso do aparato Sereia de Seebeck (sirene feita a partir do fluxo de ar que passa por uma roda toda perfurada, girando). Fazendo vibrar a extremidade livre da régua metálica fixada à mesa com um alicate, as crianças perceberam as vibrações; o som, entretanto, só se tornou audível quando, encurtando-se o comprimento da parte livre da régua, esta passou a oscilar bem mais rapidamente (FIGUEIREDO, 1986). Com o uso de uma mola maluca, demonstramos dois tipos de ondas: as transversais e as longitudinais. Exploramos também a forma da onda transversal, quando variávamos a freqüência de oscilação da mola e as crianças conseguiram estabelecer, qualitativamente, a relação correta entre comprimento de onda e freqüência da onda. Esse conteúdo foi reforçado com o uso de simulações em computador. Passou-se então a discutir a velocidade de propagação do som em diferentes meios. Os alunos concluíram que dois astronautas na superfície da Lua, onde não há atmosfera, não poderiam 'conversar'. Para concluir a aula, parte dos alunos se organizaram de acordo com as características de suas vozes (eles mesmos fizeram a classificação em vozes agudas e graves) e improvisaram um coral, que se apresentou para os colegas.
O quarto encontro iniciou com uma discussão sobre o uso de espaços públicos e responsabilidade de preservação do mesmo, pois na aula anterior alguns alunos escreveram nas classes, deixaram pedaços de balão no chão e marcas de sapatos nas cadeiras estofadas.
Discutiu-se brevemente também sobre a responsabilidade deles como usuários do pátio do Planetário. Em duplas, os alunos usaram os telefones construídos com os c olegas e com as ministrantes. Discutiu-se então a intensidade sonora, o ouvido humano e como outros seres vivos captam os sons (OKUNO,1982; FIGUEIREDO,1987). Seguiu-se uma discussão sobre a capacidade auditiva dos seres vivos, explorando os softwares http://geocities.yahoo.com.br/saladefisica5/leituras/ouvido.htm (sobre ouvido humano) e http://www.saudeanimal.com.br/animais\_aurelio.htm, sendo que este último contém informações sobre animais e gravação de sons emitidos por muitos deles. Depois todos fizeram um passeio de investigação visual e sonora no pátio do Planetário. Verificaram que o conjunto de pedras pretas numa área calçada com pedras brancas representa uma 'rosa dos ventos'. Noutro local, onde normalmente são colocados telescópios para observação do céu, também há indicações, no solo, da direção Norte-Sul. Por sua vez, conseguiram identificar a presença d e algumas pedras em forma de números romanos e verificaram que a seqüência de números estava incompleta (tratava-se de um 'Relógio de Sol', que hoje encontra-se parcialmente destruído). Quanto aos sons, identificaram o ruído do trânsito de veículos, buzinas, conversas, canto dos pássaros, carros com músicas de propaganda eleitoral, etc e avaliaram a influência do som externo nas atividades desenvolvidas no Planetário. Também observaram a flora no entorno do Planetário e a necessidade de preservá-la. Para encerrar o curso as crianças apresentaram um pequeno 'show' de canto e dança.
## Considerações finais
A inclusão social através da educação é um dos objetivos que devem ser perseguidos por todos cidadãos conscientes dos problemas sócio-econômico-culturais do
nosso país. Nesse contexto, a inclusão social de crianças menos amparadas é, potencialmente, um grande agente transformador da sociedade.
O Planetário da UFRGS se coloca como aliado nessa tarefa ao proporcionar às crianças carentes da Vila Planetário, além das atividades astronômicas de praxe (observações mensais dos astros de destaque no céu de Porto Alegre através de telescópios) também um curso sobre o SOM, valorizando as percepções musicais (JOURDAIN, 1997; WISNIK, 1999) delas e do meio em que vivem na construção dos saberes.
Na edição desse curso durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2004 participaram do curso 12 crianças (10 meninas e 2 meninos) na faixa etária de 9 a 13 anos. O nível de escolaridade era bastante variado: 2ª série (1 a luno), 3ª série (3 alunos), 4ª série (7 alunos) e 5ª série (1 aluno). Um dos alunos que mais se destacou no grupo, tendo sido capaz de formular várias conclusões que refletiam uma aprendizagem significativa, aparentemente não apresenta o mesmo desempenho e m sala de aula, pois apesar de contar com 13 anos de idade encontra-se ainda cursando a 4ª série do Ensino Fundamental.
Durante a edição do curso, as crianças tiveram oportunidade de participar de outras atividades no Planetário programadas para aquela semana de ciência e tecnologia. Uma delas foi uma oficina intitulada Bandeira do Brasil: seus símbolos e seus significados , realizada em cooperação com o Comando Militar do Sul. Em ocasiões anteriores as crianças teriam 'propositadamente' buscado inviabilizar a realização dessas atividades, provavelmente como forma de chamar atenção sobre a presença delas. Dessa vez, entretanto, fizeram questão de trazer seus vizinhos e amigos da Vila Planetário, mas eles próprios repassavam aos seus convidados as 'regras de convivência'. Foi com orgulho e brilho nos olhos que um dos nossos alunos hasteou a bandeira nacional no pátio do Planetário, ao som de uma banda militar.
Acreditamos que esse curso, que procurou alicerçar sua proposta pedagógica em Vygostsky, para o qual o desenvolvimento cognitivo é a conversão de relações sociais em funções mentais, que ocorre mediada por instrumentos e signos (Moreira,1999, p.90), muito mais do que informar é capaz também de formar essas crianças, cativando-as através da ciência e da observação da natureza e despertando nelas o comprometimento com o mundo em que vivem.
## Referências
ALVARENGA, J. P. et al; Ciências naturais no dia-a-dia: 7ª série do Ensino Fundamental , Curitiba: Nova Didática, 2004.
FIGUEIREDO, A. F. e TERRAZZAN, E. A.; O som , Rev. Ens. Ciências, nº 16, setembro 1986.
FIGUEIREDO, A. e TERRAZZAN, E.; O ouvido e o som , Rev. Ens. Ciências, nº 17, março 1987.
JOURDAIN, Robert; Música, Cérebro e Êxtase: como a música captura nossa imaginação ; Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 1997.
MOREIRA, Marco Antônio. Aprendizagem Significativa , Brasília: Editora Unb, 1999.
OKUNO, E. et al; Física para ciências biológicas e biomédicas , São Paulo: Harper & Row do Brasil, 1982.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido - uma outra história das músicas. São Paulo, Cia. Das Letras, 1999.
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