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TRANSFORMANDO OUVINTES EM PESQUISADORES, INTERAGINDO PARA MOTIVAR - ``Uma proposta metodológica de observação, construção e síntese do conhecimento adquirido.''

Soraya Thé Dias Roque

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
24/01/2005
Linha de pesquisa
Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
Tipo
Pôster

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Texto completo

## TRANSFORMANDO OUVINTES EM PESQUISADORES, INTERAGINDO PARA MOTIVAR

'Uma proposta metodológica de observação, construção e síntese do conhecimento adquirido.'

Soraya Thé Dias Roque [sorayaroque@hotmail.com] a

a Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará - CEFET/CE

## RESUMO

É possível estudar a Física encontrando prazer e aplicação prática do que se aprende na teoria? Segundo Lauro de Oliveira Lima, o prazer do aprender vem quando a idéia do ensino é substituída por uma auto-aprendizagem, cabendo ao professor criar situações em que os jovens se disponham a utilizar a informação de que está prenhe o ambiente. Seria possível, então, que a autoaprendizagem despertasse nos alunos o interesse pela Física? A proposta deste artigo é levar a um questionamento por parte dos professores de Física, ao mesmo tempo que relata uma experiência didática, realizada na 4ª série do Ensino Fundamental de uma escola particular, em Fortaleza/CE. Essa experiência consistiu na apresentação de conceitos da Física de dinâmica e estática. Segundo Rubem Alves, o ser humano guarda para si uma caixa de ferramentas e uma caixa de brinquedos, e somente o que pode ser classificado como um ou outro, o indivíduo tem predisposição para aprender e retém com muito mais facilidade. Sendo assim, a Física deve, então, ser ministrada aos alunos de forma que, se o que for estudado puder ser classificado como ferramenta ou como brinquedo, a assimilação dos conteúdos será natural, estimulante e encantadora.

A experiência didática relatada nos permite comprovar que, despertando o interesse dos alunos, mediante a observação de instrumentos que fazem parte do cotidiano dos mesmos e provocando um olhar diferente sobre as coisas já vistas pelos próprios alunos, criamos um ambiente propício à descoberta, à construção e ao aprendizado indolor e sem traumas.

Permitir que professores e alunos sejam pesquisadores pode fazer a diferença entre ser apenas mais um professor de Física ou ser aquele que marcará, por sua visão prática dos conteúdos, a vida de seus alunos para sempre.

## INTRODUÇÃO

É possível iniciarmos um estudo significativo e relevante dos conceitos da Física, desde o primeiro contato com as descobertas da leitura e da escrita, no início de nossa escolaridade, desenvolvendo habilidades de percepção, observação e análise crítica dos fenômenos que nos cercam desde que nascemos e com isso nos tornarmos um agente da relação homem-físicanatureza?

Alguns educadores mais tradicionais ou mesmo um tanto céticos responderiam facilmente a esta questão com um expressivo: Não, a infância não é o momento para complicarmos a vida e a cabeça dos indivíduos com conceitos da Física! No entanto, a Física é uma ciência que está presente nos questionamentos da infância talvez muito mais do que nas reflexões da maturidade. Perguntas como: Por que sempre que vemos um raio, também ouvimos o trovão? Ou, por que não consigo brincar na gangorra com um colega bem mais pesado do que eu? Ou ainda, por que não vemos as estrelas durante o dia?

Por trás desses questionamentos está a oportunidade de iniciarmos um relacionamento com a Física. Explicando os fenômenos naturais e as leis que regem o universo, estamos apresentando e, mais ainda, vivendo conscientemente a Física.

É possível, então, estudar a Física, encontrando prazer e aplicação prática do que se aprende na teoria?

Segundo o método psicogenético de Lauro de Oliveira Lima, baseado em experimentos científicos de Jean Piaget, o prazer do aprender vem quando a idéia do ensino é substituída por uma

auto-aprendizagem, cabendo ao professor criar situações em que os jovens se disponham a utilizar a informação de que está prenhe o ambiente.

Apresentar meios pelos quais podemos aproximar a Física da realidade dos alunos - desde a infância, quando tratada em ciências naturais até mesmo às vésperas de um vestibular, prova que norteia e direciona a vida de milhares de estudantes - é a proposta deste artigo.

## PARTE I - EMBASAMENTO TEÓRICO-CIENTÍFICO

## I. O hiato que há entre os alunos e a Física

Em uma entrevista à revista Nova Escola, Rubem Alves fala sobre a capacidade que o corpo tem de guardar para si o que é útil ou o que diverte, ele afirma: ' Eu costumo brincar que o corpo é muito mais inteligente que a cabeça e ele carrega duas caixas. Uma caixa é a caixa de ferramentas, com tudo de que precisamos para resolver questões práticas. Só carregamos as ferramentas necessárias para as situações que estamos vivendo... Na segunda caixa, estão os brinquedos, tudo aquilo que não sendo útil, nos dá prazer e alegria: música, poesia, literatura, pintura, culinária, a capacidade de contemplar a natureza, de identificar a beleza nos jardins.. .'

É assim que funciona o raciocínio na infância e do ser humano em geral. O indivíduo aprende e retém as informações que lhe são necessárias para o desempenho de alguma atividade prática ou, então, informações que lhe trazem prazer, afirmativa esta comprovável no questionamento: 'Para que é que eu vou aprender isso?', que não muito dificilmente escutamos em sala de aula. Partindo dessa direção de raciocínio, trabalhar a disciplina de Física encerrando ou sufocando a mesma em cálculos matemáticos, dos quais muitos não foram bem assimilados por parte dos estudantes é, sem dúvida, obscurecer a beleza e poesia, contida no desvendar dos fenômenos naturais e na compreensão de acontecimentos do cotidiano, profundamente importantes e que são a essência da Física.

No intuito de desfazer esse hiato, estabelecido entre o aluno e a Física, apresentamos alguns métodos e estratégias, para que essa disciplina seja incorporada à vida dos alunos tanto como caixa de ferramentas como caixa de brinquedos , quebrando paradigmas e desmitificando a noção da Física como a disciplina inacessível.

## II. A Física como caixa de ferramentas

Albert Einstein explica bem a relação do aprendizado com a utilidade que o mesmo deve ter. Ele afirma que: 'Jamais considere seus estudos como uma obrigação, mas como uma oportunidade invejável para aprender a conhecer a influência libertadora da beleza do reino do espírito, para seu próprio prazer pessoal e para proveito da comunidade à qual seu futuro trabalho pertencer.'

Propor que o estudo da Física é transformar uma disciplina, dantes inativa e incapaz de produzir efeito dinâmico, em uma caixa de ferramentas que pode ser utilizada a qualquer tempo e em várias ocasiões. É também iniciar a quebra do espaço existente atualmente entre os alunos e a Física. Mas de que forma fazer isso? Essa parece ser a pergunta que nos inquieta, após estarmos convencidos da afirmativa acima.

Descobrir a utilidade de uma ferramenta, parte da necessidade de utilizá-la. Estar diante de uma cozinha, por exemplo, a receber as informações de que uma colher serve para tomar sopa, um prato para colocar uma fatia do delicioso bolo de chocolate que se encontra sobre a mesa, e sair de lá sem experimentar o bolo ou mesmo sem usar o talher que lhe foi apresentado é, no mínimo, frustrante. Simplesmente, conhecer as ferramentas ou saber para que elas servem, não as torna útil. É necessário, portanto, que uma necessidade seja criada anteriormente, que, ao sentir fome, surja a colher e o prato como ferramenta, para suprir a necessidade já existente.

Vale ressaltar que o papel do professor é, dessa forma, despertar a fome do conhecimento, é instigar a necessidade para que depois as ferramentas sejam apresentadas como soluções para a

resolução dos problemas. Daí, então, mostrar onde as ferramentas estão disponíveis e a melhor forma de manuseá-las. É nesta fase que entra não só o processo de transmissão e a troca de experiências, mas também os conhecimentos e a oportunidade de aprofundamento nas pesquisas que farão a diferença entre o conhecimento repassado e o conhecimento construído.

No campo específico do ensino da Física, o surgimento da necessidade pode partir da observação de fatos e fenômenos diários ou mesmo extraordinários que despertem questionamentos, que desestabilizem o conhecimento que o aluno já traz consigo. Elaborar projetos para serem trabalhados desde o ensino fundamental, estimulando o interesse pelas descobertas científicas é uma das sugestões. O importante é criar a necessidade do aprendizado e, somente depois, ir em busca das ferramentas. Simples perguntas como: O que aconteceria conosco, se a Terra parasse de girar de repente ? Talvez despertasse o interesse de descobrir respostas e fundamentá-las em princípios confiáveis já comprovados anteriormente. Dentro dessa abordagem, estimular o levantamento de possíveis hipóteses para responder ao questionamento e selecionar dentre elas as hipóteses prováveis e assim conduzir a iniciação à pesquisa. Numa entrevista à revista Nova Escola, a professora Glaci Therezinha Zancan, na ocasião, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) resume: ' O professor, em qualquer nível de ensino, tem de ser um pesquisador em sala de aula, observando os avanços e os problemas enfrentados por seus estudantes. Ele deve instigá-los, para que eles sejam também pesquisadores, descobrindo o fato científico por meio da experimentação e relacionando-o com a vida cotidiana. Caso contrário, a ciência fica completamente alheia à vida da criança' .

## III. A Física como caixa de brinquedos

O que não é ferramenta, mas que diverte e nos faz bem, também estimula o nosso aprendizado. O complemento da iniciação à busca da pesquisa seria produzir o l údico na vida dos estudantes. Alunos mais velhos, normalmente, oferecem mais resistência ao lúdico, no entanto, quando ocorre a quebra da inércia, eles ficam à vontade. Com os jogos e os objetivos propostos dentro da atividade lúdica, geralmente são alcançados não somente os objetivos cognitivos, mas também os socioafetivos e emocionais.

Dessa forma, os jogos, passatempos, curiosidades, histórias engraçadas, as artes, produções musicais e a expressão corporal tornam-se agora ferramentas lúdicas no ensino da Física.

Essa aplicação do lúdico ao aprendizado é um dos pressupostos das teorias piagetianas e do método psicogenético, proposto por Lauro de Oliveira Lima.

## PARTE II - RELATO DA EXPERIÊNCIA DIDÁTICA

## I. Justificativa:

Uma grande maioria dos conceitos da Física estudados é apresentada de uma forma abstrata, sem aproximação real com o aluno. Foi, então, objetivo dessa experiência didática, através do lúdico e de instrumentos que fazem parte do cotidiano do aluno, apresentar os conceitos e elementos físicos tratados na dinâmica e estática, tais como: força, peso, alavanca, roldana e outros.

## II. Dados Técnicos

Realização do Projeto A Física no Playground da Escola . Série: 4ª - Ensino Fundamental - Escola em Fortaleza/CE Faixa Etária: 09 e 10 anos - Duração do Projeto: 08 horas-aula

## III. Descrição:

O projeto consistiu em levar os alunos ao parquinho da escola, local onde eles brincavam todos os dias e deixá-los observando os brinquedos por alguns minutos. Em seguida, foram levantados alguns questionamentos a respeito do funcionamento dos brinquedos. Como a gangorra funciona? Para que serve o ponto de apoio na gangorra? O que acontece, se o aluno mais pesado da turma tentar brincar na gangorra com o aluno mais leve? E se for o mais alto da turma com o menor? Por que escorregamos, ao sentarmos no alto do escorregador? E o que é mais fácil: subirmos pela escada ou pela rampa do escorregador? Por quê? Quem consegue subir pela rampa do escorregador com mais facilidade, quem está de tênis ou quem está de sandálias de sola?

À medida que os questionamentos iam sendo feitos, parte deles propostos pelo professor e uma outra parte pelos próprios alunos, as situações eram experimentadas nos próprios brinquedos. Dentro dessa conversa informal palavras, como: força, peso, alavanca, atrito, inclinação de rampa, foram sendo utilizadas para a explicação do funcionamento de cada um deles. Em seguida, os alunos foram levados para a sala de aula, para que outras situações semelhantes as que foram experimentadas no parquinho fossem realizadas. Experimentamos a construção de uma gangorra com o uso do lápis de escrever e de borrachas. Mudamos a posição do ponto de apoio, encontramos o melhor lugar para equilibrar o lápis e então foi o momento de apresentarmos conceito de centro de massa e trabalhamos com borrachas de tamanhos diferentes de um lado e de outro da gangorra. As atividades seguintes foram a reprodução artística do parquinho da escola - que os alunos deveriam fazê-la com o uso de colagens e/ou desenho e pintura - e a produção de um texto científico com o uso das palavras-chave relacionadas aos conceitos assimilados. No encerramento do projeto, os alunos viram uma série de três desenhos animados que tratam de conceitos da Física de uma forma bem lúdica.

## IV. Resultados:

Os alunos assimilaram bem os conceitos construídos e vivenciados, produziram textos com um nível muito bom, relacionando bem as palavras-chave e quando souberam que esses conceitos faziam parte de uma disciplina chamada Física , disseram: 'Puxa, eu pensei que Física era muito chato...' Atualmente, esses alunos estão cursando a 8ª série do Ensino Fundamental e, através deste e de outros projetos semelhantes, desenvolveram a prática do olhar curioso e do pensamento crítico, além da habilidade da escrita e exposição de suas opiniões. E, o mais importante, iniciaram seus estudos em Física sem preconceito algum.

## CONCLUSÃO

Obter boa classificação nas provas, armazenar saberes e não conseguir usar o que aprendeu em situações reais não é o objetivo da educação científica.

Estimular a curiosidade, despertar a necessidade do aprender e considerar a individualidade do aluno são aspectos importantes que auxiliam na aprendizagem, na assimilação e construção de ferramentas que serão úteis não somente para os anos que passamos na escola, mas também para os anos que passamos nesta vida. Para o ensino da Física, temos, como professores ou orientadores, o privilégio de contarmos com as experiências obtidas por pedagogos, filósofos, cientistas e estudiosos, em geral, na construção da metodologia apropriada, para que o conhecimento seja objeto de transformação do ser humano e do mundo que o cerca, conhecendo os fenômenos naturais, questionando-os, construindo hipóteses e, acima de tudo, utilizando-os ou como ferramentas para o trabalho, ou como simples e não menos fascinante caixa de brinquedos .

## BIBLIOGRAFIA

PERRENOUD, Philippe - Revista Nova Escola, edição de setembro de 2000 - Fundação Vitor Civita ALVES, Rubem - Revista Nova Escola, Ano XVII, nº 152 - MAIO DE 2002, pág. 45 a 47. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Categoria:F%C3%ADsicos> 25/08/2004

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