Astronomia nos livros didáticos de Ciências - um panorama atual
Cristina Leite *, Yassuko Hosoume
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 24/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## Astronomia nos livros didáticos de Ciências - um panorama atual
Cristina Leite - doutoranda FEUSP (crismilk@if.usp.br)
Yassuko Hosoume - IFUSP (yhosoume@if.usp.br)
O ensino de Astronomia para crianças e jovens não é novidade. Ensinar significados de nascer e ocaso do Sol, bem como de translação da Terra, noções sobre o Sistema Solar e alguns fenômenos como os eclipses, as estações do ano e as fases da Lua têm sido objetivos de vários livros didáticos de 5 à 8 séries do ensino fundamental. Recentemente vários artigos apontaram a a erros conceituais e muitos livros foram reprovados na análise do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), onde um dos critérios foi a apresentação correta de conceitos científicos. Dos dezoito livros de Ciências inscritos no PNLD de 2002, cerca de 66% foram reprovados, enquanto, por exemplo, os livros de História obtiveram uma aprovação de mais de 80%, mostrando a fragilidade dos livros de Ciências. Muitos fatores podem estar relacionados a isso, mas acreditamos que uma das causas seja o fato da disciplina Ciências constituir-se de pelo menos três áreas do conhecimento (física, química e biologia) e os seus livros didáticos, em sua maioria, sejam escritos apenas por biólogos.
Definição incorreta da formação de uma constelação por estrelas próximas entre si e o desenvolvimento sem perspectiva humana dos modelos representativos de Sistema Solar, esquecendo-se de que estamos nele inseridos, são apontados por LIVI, S.H.B (1987). CANALLE, TREVISAN e LATTARI, (1996) indicam erros semelhantes em livros didáticos de Ciências e de Geografia e também outras definições confusas como a do achatamento da Terra e a da inclinação do seu eixo de rotação. Revelam também a associação incorreta entre a proximidade da Terra ao Sol como sendo responsável pela estação do verão e o afastamento o inverno e a representação esquemática bastante conhecida do Sistema Solar com todos os planetas alinhados. Em relação às imagens contidas nos livros didáticos, o PNLD critica que muitas delas estão totalmente fora de escala e não há nenhuma menção a isso.
Na revista Ciência OnLine, Boszko (2003) indica vários outros erros comuns como a indicação do ponto leste como o local onde nasce o Sol; estrelas sendo inseridas em figuras no meio do Sistema Solar; a Lua não tendo movimento de rotação e tendo apenas quatro fases (aparência); a Terra possuindo dois únicos movimentos; o Sol sendo uma estrela de 5ª grandeza, sem uma associação deste termo com o brilho (magnitude absoluta); confusão entre cosmogonia e cosmologia; confusão entre a duração do dia e o período de rotação da Terra; sombra ao meio dia como sendo um ponto. Sendo muitos os erros, Boszko questiona o termo didático associado a esses livros.
Por outro lado, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de (1998) vêm consolidar o ensino de elementos da Astronomia nessas séries propondo como um dos eixos temáticos a Terra e o Universo, envolvendo os conteúdos sistematizados no quadro.
O trabalho que apresentamos procura evidenciar algumas mudanças nos livros didáticos de Ciências, de 5 a 8 . séries do Ensino Fundamental, em termos de abrangência, profundidade e a a acerto dos conceitos, como fruto do contexto descrito, principalmente o PNLD e o PCN. Para tanto
foram analisados livros existentes antes e depois dos PNLD/PCN e alguns editados apenas após o mesmo, com proposição pedagógica diferenciada.
## Desenvolvimento da pesquisa
Foram escolhidos cinco livros para análise.
Os três primeiros autores foram escolhidos pelos critérios utilização e existência antes dos PCN e PNLD, que possibilitará comparações em suas edições. Os dois últimos autores pelo critério de conter proposição didática diferenciada.
Para análise dos livros é feito primeiramente um levantamento quanto à freqüência da Astronomia e a distribuição de temas por série. A seguir os temas são analisados quanto ao acerto dos conceitos, dando destaque aos erros apontados em bibliografias da área de pesquisa.
## Resultados
- 1) Freqüência -Em relação à freqüência dos elementos da Astronomia obtivemos como resultado os dados contidos no gráfico ao lado. Os números 1, 2, 3, 4 e 5 estão associados ao livro e as letras A (antes) e D (depois), as versões destes. No eixo vertical, porcentagem do número de páginas em relação ao total de páginas dos livros (de 5 . a 8 . séries). a a
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- 2) Presença & distribuição - A tabela abaixo mostra a presença de conteúdos de astronomia e a distribuição destes em cada um dos livros analisados. O eixo de composição dos temas desta tabela está b aseado nos PCN's. Através desta tabela é possível ter uma noção dos conteúdos abordados em cada um dos livros analisados, assim como as séries em que estão presentes e a versão destes livros.
## 3) Erros Conceituais Comuns
- A seguir são apresentados os principais erros indicados nas bibliografias da área e no PNLD, além de uma análise sobre a continuidade desses erros nos livros atuais.
Entre os erros citamos: achatamento dos pólos da Terra; figuras do Sistema Solar (planetas enfileirados); e os erros relacionados a ausência de escalas nas figuras sem as devidas indicações de não proporcionalidade.
Além destes estão também a confusão entre a duração do dia e o período de rotação da Terra, o número de movimentos da Terra, como tendo apenas dois, a rotação e a translação. Nas fases da Lua é comum encontrarmos afirmações do tipo: a Lua possui quatro fases e sendo o termo fase associado a aparência, sugere que a Lua passa por apenas quatro aspectos diferenciados durante o mês. Em muitas imagens é comum a presença de estrelinhas no meio do Sistema Solar ou do sistema Terra, Sol e Lua, dando a impressão que elas estão próximas.
Na tabela a seguir estão alguns exemplos de erros comuns nos livros analisados. Na analise é preciso levar em consideração a tabela anterior sobre a presença dos conteúdos, afinal só é possível haver erro se houver a presença do conteúdo.
## Análise e considerações
Numa análise imediata é possível perceber um aumento percentual de conteúdos de Astronomia na maioria dos livros analisados.
Quanto à distribuição dos conteúdos ao longo dos anos, apesar das recomendações dos PCN's, essa tarefa parece ser difícil. Os livros mais vendidos destacam-se pela tradicional divisão de conteúdos. Na 5ª série, meio ambiente, na 6ª, os seres vivos, na 7ª, o corpo humano e na 8ª, física e química. Nesse sentido os livros que têm proposição didática diferenciada inovam bastante, possuem uma forma bem mais próxima a proposta pelos PCN.
É importante notar que vários dos erros explicitados nas bibliografias da área não são mais encontrados nos livros, não há mais afirmações de que o Sol é uma estrela de 5ª grandeza, o mesmo ocorrendo com o eixo de rotação da Terra, com a confusão entre as fases da Lua e os eclipses, com a constelação ser formada por estrelas próximas entre si. Apenas um livro apresentou uma figura com os planetas alinhados e mesmo assim há uma nota alertando sobre isso. Na explicação das estações do ano percebe-se um cuidado para não dar a idéia de perto, verão e longe, inverno. Apesar de haver uma associação com a iluminação, maior ou menor, que não é errada, mas ainda pode haver confusões, como ocorre no livro 1D. É interessante notar que os livros tradicionais analisados, em geral, não possuem este conteúdo, é o caso do 2A, 2D, 3A e 3D, eles optaram por retirar esse conteúdo, talvez pela dificuldade da explicação do mesmo.
Se compararmos o aumento dos conteúdos e a natureza destes, verificamos uma diminuição dos erros conceituais e uma diferença nos temas abordados. O livro 5D possui quase 100 páginas dedicadas a Astronomia e há apenas um único erro. Um fator importante diz respeito a ausência de temas importantes como estações do ano, fases da lua e o fenômeno do dia e da noite nos livros anteriores aos PCN e P NLD. As mudanças são sutis, mas é possível detectá-las rapidamente. Uma mudança muito expressiva foi quanto a inserção de textos ao lado de figuras difíceis de representar em escala, alertando para uma imagem fora de escala. Essa parece ter sido uma importante contribuição dos PCN e PNLD aos livros didáticos.
Pretendemos analisar mais livros e, sobretudo outras versões para compreendermos melhor a evolução dos conteúdos de Astronomia nos livros didáticos.
## Bibliografia
BISCH, S.M. (1998). Astronomia no 1 grau: Natureza e Conteúdo do Conhecimento de Estudantes º e Professores. Tese de doutorado, São Paulo: FEUSP.
BRASIL (1998). PCN Parâmetros Curriculares Nacionais, Ciências Naturais, terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental , Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica, Brasília: MEC/SEMT.
CANALLE, J.B.G., TREVISAN, R.H., LATTARI, C.J.B. (1996) Erros Astronômicos nos Livros Didáticos do 1 Grau o . V EPEF, Caderno de Resumos, p.28.
LEITE, C.( 1998) A astronomia nos livros didáticos do 1º. grau , Monografia de fim de curso, São Paulo: IFUSP/FEUSP.
LEITE (2002). Os professores de ciências e suas formas de pensar a astronomia. Dissertação de mestrado, São Paulo: IFUSP/FEUSP.
LIVI, S.H.B., A Terra e o Homem no Universo , Cad. Cat. Ens. Fís., Florianópolis 7(número especial): 7-26, jun. 1990.
Sites: http://www.cienciaonline.org/revista/02\_06/index.html
http://www.fnde.gov.br/
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.