O TRABALHO COLABORATIVO EM REDE SOCIOTÉCNICA NA FORMAÇAO DE PROFESSORES DE CNMT/FISICA (CIENCIAS DA NATUREZA MATEMATICA E SUAS TECNOLOGIAS).
Ingrid Aline De Carvalho, Carlos Alberto Souza, Rejane Aurora Mion
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- X
- Ano
- 2006
- Data
- 16/08/2006
- Linha de pesquisa
- Pôster - Resultados Parciais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O TRABALHO COLABORATIVO EM REDE SÓCIOTÉCNICA NA FORMAÇÃO DE ÍÊÁ Ç PROFESSORES DE CNMT/FÍSICA (CIÊNCIAS DA NATUREZA MATEMÁTICA E SUAS TECNOLOGIAS) * .
* Ingrid Aline de Carvalho 1 , Carlos Alberto Souza2 a2 , Rejane Aurora Mion 3
1
PPGECT/ UFSC, idyni@yahoo.com.br
2
PPGECT/ UFSC, carlosal@ced.ufsc.br
3
PPGE/UEPG, ramion@uepg.br
## Resumo:
Com este trabalho, pretendemos dar a conhecer e discutir o o trabalho colaborativo em rede sociotécnica na formação inicial de professores de Física, quando inseridos em um programa de pesquisa que tem as práticas educacionais em Física como objeto de pesquisa. O contexto do trabalho se situa na Universidade Estadual de Ponta Grossa -- PR, nas disciplinas de Metodologia e Prática de Ensino em Física I e II. Dos vários fatores presentes na regência de uma rede sociotécnica, de forma intencional, nos ocupamos em descrever uma abordagem etnográfica da Ciência em Ação presente no processo de sistematização do conhecimento científico na formação inicial do professor (investigador ativo). Neste sentido, desenvolvemos uma atividade educacional a partir da análise reflexiva-crítica de objetos técnicos quando transformados em equipamentos geradores. Nossa concepção de pesquisa é a investigação-oação educacional de perspectiva emancipatória, sendo que para a coleta de dados, nos detemos a observações diretas registradas em um caderno e a gravações digitais, logo, para a análise destes dados seguimos um roteiro próprio. Os dados revelam a forte presença da própria manifestação dos envolvidos a favor de um professor contemporâneo e a construção de propostas educacionais no viés colaborativo.
Palavras -chave: 1 -Formação de Professores (investigador ativo). 2- Rede Sociotécnica. 3-3Ciência em Ação.
## Introdução
Os resultados apresentados pelos diferentes sistemas de avaliação a nível nacional e mundial, indicam uma forte associação entre o desempenho dos alunos e a escolaridade do professor, salientando a urgência de se investir em programas eficazes de formação inicial. A exemplo, dados da UNESCO 1 (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2003, ao avaliar o aproveitamento escolar nas habilidades em Matemática e Ciências Naturais com nossos jovens brasileiros, ficamos em 40º 0º lugar r num total de 41 países participantes.
É claro que não devemos julgar somente pelos resultados entendendo que qualidade seja eficiência, e, eficiência seja rendimento, pois acreditamos que o processo de ensino-o-
ndizagem não começa e nem termina no interior do ambiente 'sala de aula'. Mas as avaliações referente a nosso sistema educacional servem para nos manterem vigilantes.
É neste sentido, que nos encontramos engajados na formação inicial de professores de Física. E, na tentativa de modificar nossa realidade apontamos para uma formação inicial direcionada às práticas educacionais. Nela, o professor atatua como investigador da sua própria prática, como agente transformador de sua própria realidade. Um professor competente, munido de conhecimentos e habilidades cognitivas, operacionais e sociais, construindo conhecimentos de forma colaborativa via o diferencial que propomos e que julgamos fazer a diferença: o desenvolvimento do conhecimento científico com características de uma rede sociotécnica proposta inicialmente pelo sociólogo francês Bruno Latour.
No trabalho, descrevemos uma abordagem etnográfica prpresente na sistematização do conhecimento científico pelos aprendizes de professor e de pesquisador inseridos em um programa de investigação-ação educacional l no curso de Licenciatura em Física na Universidade Estadual de Ponta Grossa -PR. Para isto, buscamos demonstrar, identificar e fundamentar através de uma atividade educacional realizada pelos mesmos, se há a caracterização da ciência em ação em rede sociotécnica.
## As Relações Sociotécnicas no Desenvolvimento do Conhecimento Científico: Contribuições s de Bruno Latour
Bruno Latour (1990) é um crítico perspicaz que utiliza a sociologia do conhecimento para apresentar a atividade científica como processo social. O autor divulga em seus estudos os bastidores da produção da notícia científica, apresentando-a como uma rede sociotécnica.
Neste sentido, desconstrói muitas das linhas divisórias convencionais existentes entre Ciências Naturais (CN) e Ciências Sociais (CS), uma vez que fatos (Ciência) e artefatos (Pesquisa), se e quando atingem uma forma final ou estabilizam-se por períodos mais ou menos longos, fazem-no através de uma rede complexa de condicionalidades e interações, justapondo materiais heterogêneos. Tais condicionalidades e interações são estabelecidas pelos chamados actantes - animais racionais e animais irracionais envolvidos no processo de desenvolvimento do conhecimento científico.
A produção da notícia científica descrita por Latour (1990), com características de uma rede sociotécnica, surge da sua teoria ator-rede, quando se refere a umuma a rede de atores ser simultaneamente um ator, cuja atividade consiste em trazer novos elementos para dentro de sua rede redefinindo -a e transformando -a a todo o momento. Nesta atividade, os exercícios são direcionados a promoção de fluxos, circulações, alianças e movimentos em vez de se remeter apenas a uma entidade fixa. E, como a rede de atores não é redutível a apenas um ator sozinho, será através da relação colaborativa que sua forma, seu sentido e atributos são sempre definidos no interior das redes sociotécnicas que sustentam a produção científica. Isto quer dizer que, um ator é uma rede moldada por relações heterogêneas e/ou por efeitos produzidos pela rede na qual está inserido. O fato de pensar, escrever e trabalhar por um salário; atributos que normalmente designamos a seres humanos são gerados em redes que passam e se ramificam ao mesmo tempo. Daí o termo ator-rede, um ator é também, e sempre, uma rede.
A rede sociotécnica se define por um entrelaçado de relações entre os atores humanos e nãoohumanos que tecem conhecimentos oriundos da realidade na qual encontram-se
inseridos, trazendo a todo o momento novos elementos para a rede via negociações estabelecidas. Assim será possível estabelecer uma rede de conhecimentos em pleno desenvolvimento, através do contexto social e técnico da realidade dos envolvidos nela, modelados pelas negociações internas e externas ao laboratório que atuam.
Para ficar claro ao leitor, esta rede começa a ser tecida, primeiramente, pela lapidação 2 de uma 'idéia' 2 , e quando esta ta não é inicialmente viável, cada ator envolvido nesta rede deve socializar sua rede particular com outros atores, num ato colaborativo. Essa socialização se dá por meio de vínculos com conceitos e teorias, passa pela prova das c controvérsias científicas, se apóia e reúne provas de forças na busca de interesses com humanos e não-humanos, um incansável jogo de negociações e busca de consenso, ou seja, a Ciência se fazendo e se definindo no mesmo processo seu conteúdo e contexto social.
- O afirmado acima, quer dizer que Latour não só vê os cientistas em seu laboratório intrincado, mas sim condicionados em redes de conhecimentos, ou seja, os recursos estão concentrados nos nós (entendemos por construção dos nós o desencadear da pesquisa artefato) que estão ligados uns aos outros pelas malhas (entendemos por malhas: fios conectores dos nós que sustentam a produção científica, concretizando o artefato em fato - - o próprio conhecimento científico), essas conexões permitem disponibilizar os recursos espalhados em uma rede a todo o momento, mesmo que, os nós pareçam estenderem-se por toda parte. Isto é, independente de onde estejam, de tal forma que, às vezes lhe parecem executivos, conspiradores ou mesmo guerrilheiros na forma diária como conduzem suas tarefas, o autor afirma que as pessoas que estão realmente fazendo Ciência estão por todos os lugares, pois, segundo ele, a Ciência em Ação se dá em sociedade, um processo tão coletivo que uma pessoa sozinha só constrói sentimentos, alegações, sonhos...
Ainda, a dimensão do processo de produção do conhecimento científico para Latour (1990), vai muito mais além dos cientistas. Como a rede sociotécnica só existe quando o conhecimento científico está em pleno desenvolvimento, as malhas da rede são tecidas pela contribuição direta da sociedade e os que não se apropriam de seus conhecimentos e/ou não fazem parte desta, caem por entre suas malhas. Para Latour (1990) são povos povoando o mundo com mentes irracionais. Por este motivo à produção científica domina as massas.
Gostaríamos de ressaltar neste momento que a base para a produção de conhecimento em rede é a cultura. Só se desenvolve o aspecto de determinada rede se fizerem parte da cultura popular de todos os envolvidos nela, junto com a bagagem histórica, provocando rupturas nos mitos pré-estabelecidos.
Apontamos aqui a rede sociotécnica descrita por Bruno Latour (1990), como um campo de possibilidade para a formação inicial de professores, como proposta didático-metodológica que centrada nas relações Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), objetive trabalhar na construção de conhecimentos mediados pelo posicionamento reflexivo-crítico em relação aos efeitos, bem como, a utilização da Ciência e da Tecnologia e aos investimentos realizados; com elementos epistêmicos (conhecimentos) e axiológicos (valores), estando diretamente relacionadas à realidade concreta dos envolvidos.
## A Ciência em Ação
Bruno Latour lança um olhar crítico relacionado ao paradoxo entre a atividade científica em busca da Ciência pura sem a contaminação sosocial, e a possibilidade de atingir-se essa mesma verdade a partir do social.
No seu entender, a atividade científica, quando restrita somente ao laboratório, fica fadada ao fracasso. O cientista deve fazer alianças políticas, estratégicas institucionais com outros cientistas, alianças com laboratórios, agências governamentais e público em geral para alcançar êxito. Esta estratégia se torna ainda mais imprescindível quando ocorre uma descoberta. Neste caso, o cientista é obrigado a entrar em contato, ou em em conflito, muitas É , g, , vezes, com tradições culturais e científicas bastante arraigadas na sociedade. É justamente neste cenário que o trabalho de fazer Ciência acontece.
- O cenário descrito acima começa a ser construído por Latour, quando deixa de lado os relatos densos e minuciosos das atividades desempenhadas pelos cientistas inseridos no 3 Instituto Salk 3 , e passa a estabelecer as implicações entre as situações e os contextos em que ocorre o desenvolvimento do conhecimento. Ele abre a possibilidade de um campo de pesquisa interdisciplinar dedicado às relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade. Vemos um Latour engajando uma análise centrada não apenas no campo da sociologia mas também na técnica e na Ciência, respeitando a todo o momento a dinâmica não linear de suas imbricadas relações.
- É justamente nesta direção que sua obra Ciência em ação: seguindo cientistas e engenheiros sociedade afora 4 se dirige. Ele sistematiza e discute as relações envolvidas em diversos estudos científicos em diferentes contextos envolvidos na promoção do conhecimento, tornando -os acessíveis ao público, aos leigos. Latour não visa apenas seguir engenheiros e cientistas sociedade afora, mas vai além, levando adiante a discussão de suas práticas, como se insistisse aos leigos voltarem sua atenção para a participação direta nos processos sociais e desenvolvimentos tecnológicos da sociedade.
Outra característica importante desta obra do autor é a mudança de paradigma no mundo da pesquisa e também na direção da prática científica porque, segundo ele, nestes campos está a sociedade com suas incertezas, riscos e relações políticas que caracterizam a prática dos cientistas e que ficam fora de cena quando as Ciências feitas não partem de investigações. É por isto que o autor direciona sua atenção não para a Ciência feita, pronta e confirmada, mas a Ciência em Ação, a Ciência se fazendo e se definindo no mesmo processo o seu conteúdo e o contexto social.
Assim, uma das tarefas da Ciência é designada a prestar explicações. E, é justamente no contexto sócio -cultural onde se encontram envolvidas tais explicações que Latour as analisa. Esta análise não é caracterizada como um bloco homogêneo de textos, mas como um corpo de 'saberes' unificados. Demonstrando muito apreço e admiração pela Ciência e pela construção do conhecimento não tem como aliados os que exaltam a neutralidade absoluta da Ciência e a autonomia plena dos objetos frente à construção do conhecimento.
Considera ainda a Ciência como uma instituição culturalmente constituída no contexto social, político, econômico e geradora de cultura própria que inclui muitos interesses, a partir de seu surgimento até sua sustentação. Interesses esses manipulados pelas negociações, onde através delas, segundo Latour, o conhecimento se desenvolve.
Para LaLatour o desenvolvimento científico é uma prática híbrida, nômade e heterogênea (LATOUR, 1994). Prática que tem por efeito definir ao mesmo tempo a sociedade e a natureza.
Sustenta os resultados da Ciência e da Tecnologia no Construtivismo Social, ou seja, tais resultados ou produtos são o ponto de chegada de processos eventuais que a interação social tem um peso decisivo. Logo, para se chegar ao concreto, ao fato - - Ciência, a pesquisa acompanha fatos históricos, formula novos fatos, acompanha vínculos políticos, passa por controvérsias, recruta novos aliados, busca seus interesses, ou seja, é tecida uma rede de negociação na busca do conhecimento.
Quando nos referimos à descrição dos bastidores da produção científica, isto não significa que Latour pretende analisar o discurso dos cientistas, contar citações ou fazer novamente cálculos já esquadrinhados. Essa descrição é feita nos mais diversos e variados lugares no momento que esses cientistas planejam, desfazem, modificam ou fragmentam suas futuras teorias. Por este motivo, descreve os bastidores do processo de produção da notícia científica através de relatos minuciosos para propor seu objetivo de tratar a Ciência do modo como ela acontece -- a produção de conhecimentos científicos, por meio das práticas dentro e fora dos laboratórios, no cotidiano das equipes.
## O Professor Investigador ativo: Proposição para a Formação Inicial
Não acreditamos no velho trocadilho muito utilizado por egressos e professores em atuação que somente na trajetória profissional do cotidiano da sala de aula é que nos tornamos realmente professores. Temos plena consciência da formação inicial credenciar licenciados para o exercício de sua profissão, mas não reduziremos aqui o nosso trabalho, por esperar que os envolvidos exerçam sua profissão por apenas conceder-lhes um aparato teórico, para um dia quem sabe chegem-se a nós e nos agradeçam, ou, nos amaldiçoem para sempre.
Se a formação inicial é a primeira etapa no processo de construção da profissionalização do professor, a prática também será. Apontamos para a prática crítica e reflexiva onde o aprendiz de professor e de pesquisador consolida ou revê suas ações, no sentido freiriano, ou seja, da reflexão não se limitar apenas às análises e mudanças superficiais das experiências vividas. Enfocamos a prática no sentido de alterar a consciência do professor, sua visão de mundo, valores e a forma como vê a educação e se vê nela.
Inserido neste processo investigativo, o aprendiz de professor e de pesquisador irá elaborar, desenvolver e analisar sua própria prática educativa para constantemente reelaborá-ála, pois segundo Mion (2002), incorporar o papel de professor e o de pesquisador, cada qual em seu dado momento, em sua dada função social, envolve desenvolver uma atividade e/ou projetos integegrados a programas de pesquisa.
É neste sentido que o professor em formação (investigador ativo) estará comprometido com a educação dialógico-o-problematizadora, promovendo a auto-o-reflexão e reflexão crítica dos envolvidos, possibilitando-os compreender e transformar sua realidade, problematizando suas situações-problema. Clareamos aqui que a investigação-o-ação não se resume em uma abordagem metodológica. Trata-se de uma concepção de pesquisa que abrange o campo das ciências humanas, motiva à escolha e tratamento de problemáticas, busca melhores condições de vida, da vivência da cidadania ativa, é pedagógica e política, atende o desenvolvimento do currículo escolar, do profissional, ou seja, atende a sociedade e a comunidade científica.
Inserido na construção e e na vivência de um programa de investigação-ação educacional, o aprendiz de professor e pesquisador estará inserido numa espiral de ciclos (LEWIN, 1946), pois estará envolvido em momentos de planejamento de suas práticas escolares, implementará sua ação estratégica, observará seus próprios passos via registros (manuscritos, gravações em áudio e vídeo), fará suas reflexões s (guiado pelas teorias estudadas) e auto-oreflexões para uma sistemática de reformulação para os seguintes planejamentos e assim
sucessivamente. A inserção nestes ciclos em forma de espiral permite aos professores em formação a atuação em conjunto, como uma rede de relações sociotécnicas, onde, de forma colaborativa, investiguem suas próprias práticas educacionais fazendo mediações à transformação do processo de ensino-aprendizagem.
- E, na tentativa de promover uma "Educação como Prática da Liberdade" (FREIRE, 1983) sendo o diálogo a base para a reflexão e ação dos sujeitos no mundo para transformá-lo e humanizá -lo, não estamos aqui simplesmente impondo quaisquer metas profissionalizantes a nossos aprendizes de professores e pesquisadores. O que pretendemos vai de encontro ao que Angotti e Delizoicov (2001) defendem (...) "em questionar o atual 'estado da arte', para alertar, sinalizar e propor r novas frentes de atuação, vislumbrando um novo cenário para o ensino aprendizagem de Física" (p.9).
Como remetemos nossa atenção à formação inicial de professores de Física, trabalhamos na perspectiva direcionada das práticas educacionais, com a formação inicial alavancada na pesquisa científica, ou seja, o professor (investigador ativo) como agente transformador e competente, com conhecimentos e habilidades cognitivas, operacionais e sociais, tecendo conhecimentos colaborativamente, pois segundo Freire (1983), a colaboração não pode se dar a não ser entre sujeitos.
- A pesquisa sempre pressupõe uma indagação, por isso a investigação constante e o questionamento tornam-se necessários à formação do investigador ativo, adotando uma postura reflexiva em relação à sua prática educativa. Ou seja, teorizando suas ações sendo crítico e reflexivo sobre sua prática, o professor vai adquirindo maior competência e tornando-se um orientador do processo de reconstrução do conhecimento.
## O espaço Investigativo
- O contexto do do trabalho se situa na Universidade Estadual de Ponta Grossa -PR, nas disciplinas de Metodologia e Prática de Ensino em Física I e II. Estas duas disciplinas se referem ao estágio curricular obrigatório do curso de Licenciatura em Física na Universidade.
Permanecemos na disciplina de Metodologia e Prática de Ensino de Física I por todo o quarto bimestre do ano de 2005, desenvolvendo nosso trabalho com 14 alunos. Quando pensamos na viabilidade de uma atividade educacional possível em rede sociotécnica na formação inicial de professores, apontamos para aquela que extrapolasse além do conhecimento científico, uma atividade que além de científica, seja técnica e esteja implicada diretamente na Sociedade. Para isto, trabalhamos na perspectiva direcionada às práticas educacionais, com a formação inicial de professores alavancada na pesquisa científica. 5 Investimos aqui na construção do conhecimento durante todo o chamado ato educativo 5 .
- O trabalho se sucedeu a partir da análise reflexiva de objetos técnicos quando transformados em equipamentos geradores 6 (DE BASTOS, 1995). Ou seja, como estávamos
preocupados com as práticas educacionais do nosso aprendiz de professor e de pesquisador, trabalhamos no sentido de dar a conhecer aos envolvidos como trabalhar com objetos os técnicos no estágio curricular, através de uma aula, com conceitos da Física envolvidos no funcionamento e fabricação de tal objeto.
Nos referimos aqui a uma atividade em que transformamos os objetos técnicos: retroprojetor e projetor multimídia em equipapamentos geradores. A atividade foi desenvolvida inicialmente com seu planejamento geral o que resultou em uma rede conceitual prévia partindo de temáticas da Física envolvidas no funcionamento e fabricação de alguns elementos presentes nos objetos, bem como, discussões das implicações da relação Ciência, Tecnologia e Sociedade presente.
De maneira colaborativa, estudamos vários componentes presentes nestes objetos. Assim, para a temática Eletromagnetismo elementos como: circuito e lâmpada foram explorados. . Já para a Mecânica, exploramos o ventilador, e, abordando tópicos de Física Moderna, estudamos o comportamento da luz.
Para o estudo de cada componente presente nos objetos técnicos, o trabalho foi realizado por grupos de aproximadamente quatro alunos (professores em formação), como também a turma ao todo. Na atividade, seguimos uma metodologia de planejamento (aula), ação (aula didática de 50 min), observação (coleta e registro de dados) e a reflexão (analise interpretativa e critica dos dados) da atividade proposta.
Neste ano de 2006 estamos dando continuidade a esta atividade, mas agora inseridos na disciplina de Metodologia e Prática de Ensino de Física II com os mesmos envolvidos. Na disciplina os aprendizes de professor e pesquisador efetivam o o programa de investigação-o-ação educacional na vertente emancipatória que tem a problematização de conceitos e práticas como elemento estruturador na elaboração de propostas educacionais (MION, 2002). Queremos dizer que as práticas educacionais em Física são o objeto de pesquisa, e, é através dela que este aprendiz apontará e caminhará na direção de solucionar as situações-problema levantadas no seu laboratório de atuação: a sala de aula.
Para este fim, guiados pela atividade realizada em 2005, sistematizamos com om os envolvidos como irá suceder o trabalho durante todo o ano nesta proposta que explanamos, ou seja, como se sucederá o processo da Ciência em Ação. E para isto, de forma intencional, desenvolvemos nossa atividade no que corresponde a primeira etapa da disciplina: estabelecer a formação de grupos de trabalho, deixando claro que cada grupo será guiado por uma temática da Física e neste grupo cada integrante permanecerá conectado por todo o tempo que transcorrerá o programa de investigação-ação educacional, ou seja, por todo o ano de 2006.
Para a formação dos grupos sucedemos da seguinte maneira: primeiramente problematizamos os envolvidos em relação ao trabalho em grupo, levando em consideração a atividade desenvolvida com os objetos técnicos: retroprojetor e o projetor multimídia em rede sociotécnica. Assim, sucitamos uma memória dos envolvidos referente à atividade realizada no quarto bimestre de 2005 com estes objetos técnicos, o que nos permitiu trabalhar na questão norteadora desta nova atividade: por que desenvolver trabalhos em grupo? Guiados pela questão, trabalhamos a noção de rede sociotécnica de Bruno Latour, solicitando dos envolvidos (aprendizes de professores e de pesquisadores) ) a confecção de um texto individual do trabalho colaborativo em rede sociotécnica.
Para a a coleta de dados, organizamos e sistematizamos transcrições de fitas, os planejamentos das aulas e as observações diretas registradas em um caderno. Já para a análise destes dados seguimos um roteiro próprio. A partir dodos dados coletados, ocupamo-nos em descrever uma abordagem etnográfica da Ciência em Ação presente no processo de
sistematização do conhecimento científico na formação inicial do aprendiz de professor e pesquisador inserido em um programa de investigação-ação educacional .
## Resultados e Considerações
O crescimento acelerado na área da Ciência e Tecnologia está diretamente proporcional ao número de profissionais interessados em especializar-se em Ciência e Tecnologia. E como a comunidade científica é concebida no processo escolar, logo, necessitamos levar esta discussão para a formação inicial de professores, pois ainda falta uma visão crítica e a contextualização histórica da produção científica e tecnológica no âmbito escolar.
No trabalho, ousamos viabilizar os campos da CNMT/Física incutido no cenário do desenvolvimento mundial científico e tecnológico, por contextualizarmos os conceitos da Física envolvida no funcionamento e fabricação de objetos técnicos. Isto é, trabalhar nesta perspectiva obrigatoriamente necessitamos relacionar temáticas da Física, desvelar as implicações da relação Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) e buscar pelos diversos campos do conhecimento, pois os objetos técnicos não funcionam e/ou são fabricados iluminados apenas por um determinado conhecimento.
A abordagem etnográfica utilizada neste trabalho parte da proposição de Latour & Woolgar (1994), considerando o contexto da pesquisa como um laboratório imerso em uma rede de relações sociotécnicas, neste caso a própria sala de aula, sendo que o objbjeto de pesquisa encontra-se em transformação pelas negociações internas externas ao ambiente.
Quando começamos nossa atividade, partimos de uma rede conceitual prévia, pois é a maneira de intencionalmente planejarmos nossas aulas com o intuito de abranger os mais diversos campos do conhecimento e a contextualização. Esta abrangência tornou-se possível devido à metodologia que adotamos e a estratégia didatico-metodológica de construção de conhecimento em rede sociotécnica, o que nos permitiu caminhar pelas mais diversas e variadas fontes de conhecimento, claramente detectado quando um aluno trouxe para o espaço escolar aspectos históricos da mesa do retroprojetor e suas aplicações no cotidiano.
Quando discutimos as implicações da relação CTS envolvidas na atatividade como os objetos técnicos, nos possibilitou articular entre as disciplinas específicas e as disciplinas pedagógicas, muito bem retratadas quando surgiu a discussão referente aos aspectos econômico -sociais relacionados com as lâmpadas utilizadas no o retroprojetor como no projetor multimídia. Essa questão ficou bem clara na fala de um aluno, que chamaremos de A Aluno A:
"Eu vejo que aqui na universidade tem vários retroprojetores disponíveis que qualquer um de nós pode pegar a hora que quiser. Agora o projetor multimídia só tem um aqui no departamento e fica trancado a sete chaves e a gente não pode nem encostar, só o professor responsável, eu não sabia que a lâmpada era tão cara assim, agora eu entendo" Á (Transcrição de Áudio, Aluno A., Aula dia 14/10/2005).
O que podemos chamar de A Aluno B, salientou:
(...) "eu acho legal estudarmos esses aparelhos porque ninguém fala sobre isso aqui, e é uma coisa que está aqui perto da gente. E o legal é que estudamos de uma maneira mais científica, vendo todo o procesesso cientifico por trás, acho que isso permite nós sabermos o porque de certas atitudes que envolvem muita política por trás, complementando o que o aluno a falou" (Transcrição de Áudio, ALUNO B., Aula dia 14/10/2005).
Na fala do aluno que chamamos de Aluno B, B, podemos ver claramente o processo de sistematização do conhecimento científico na formação inicial deste aprendiz de professor e pesquisador, observamos que a Ciência em Ação o ficou presente quando passamos a abrir a caixa -preta do conhecimento, quando envolvemos todos os conceitos da Física envolvidos no funcionamento e fabricação dos objetos estudados.
Quando solicitamos uma memória aos envolvidos referente à atividade que fora desenvolvida em 2005, muitos afirmaram que o trabalho com objetos técnicos se caracterizava em uma aula diferente, na qual nunca tinham visto e nem pensado em trabalhar na desmistificação de um objeto técnico nas aulas de Física, como também, a possibilidade gerada pela compreensão da contextualização ao ensinar Física.
## O aluno que iremos chamar de A Aluno C A Afirma:
"Para mim uma aula como a que fizemos, é muito boa. Eu, quando estiver na sala de aula, não só para o estágio que eu sei que a gente vai desenvolver, mas eu quero levar isso para as minhas aulas, eu quero ser um profes sor que trabalha assim" (Transcrição de Áudio, Aluno C., Aula dia 07/03/2006).
Buscar conhecer a sistematização crítica-reflexiva do aprendiz de professor e de pesquisador, que está diretamente envolvido no processo de construção de conhecimentos científico educacionais resultava na constante reformulação dos nossos planejamentos e a organização didática, como também, a reformulação das concepções pré-estabelecidas dos mesmos em relação aos aspectos científicos e tecnológicos relacionados ao contexto social, promovendo a criticidade.
Assim, quando instigamos os alunos: Por que desenvolver trabalhos em grupo? Suas respostas estavam direcionadas as teorias-guia já estudadas e se posicionavam a favor do trabalho colaborativo, pois em toda a trajetória de sua formação acadêmica foram estimulados a competição e a individualidade. Também acreditam ser interessante a construção do conhecimento colaborativo pelo fato de possibilitar que cada integrante seja um ator indispensável neste processo. O A Aluno D D afirma:
" Nós aqui na universidade sempre fomos sozinhos, e tinha que caminhar pra frente, e agora eu acho que é importante o trabalho no grupo, cada um do grupo vai poder contribuir pra que a gente Á ggg construa conhecimento" (Transcrição de Áudio, Aluno D., Aula dia 13/03/2006).
## O aluno que chamaremos de Aluno E, diz:
"O que eu entendo que no trabalho em grupo como uma rede nós iremos promover a Ciência em ação na sala de aula" (Transcrição de Áudio, Aluno D., Aula dia 13/03/2006).
Caminhar nesta direção foi possível, pois ao vivermos um processo de investigação-oação educacional, ocupamo-nos em conhecer a cultura popular dos envolvidos por promover-rlhes o conhecimento científico necessário a sua emancipação sócio-cultural, nos aproximando ao motor que move a rede de relações sociotécnica segundo Bruno Latour: a cultura, isto quer dizer que estamos construindo uma cultura escolar (uma cultura de sala de aula) na proposta desenvolvida na formação de professores. O desenvolvimento de determinada rede de relações sociotécnicas só se desenvolve de se fizerem parte da cultura popular de todos os envolvidos nela, junto com a bagagem histórica, provocando rupturas nos mitos pré-estabelecidos.
## Conclusão
Os resultados nos levam à reflexão sobre a construção da formação de educadores na promoção da reflexão crítica, a formação de visões de mundo mais integradas, para a intervenção social e a tomada de decisões, fazendo um diagnóstico da situação e mudando as práticas educacionais para a resolução de problemas. Estas necessitam e ao mesmo tempo só são possíveis se o nosso trabalho estiver atrelado a uma concepção de pesquisa como principio formativo, educativo e de trabalho.
Caminhar pelas áreas da Ciências da Natureza, Matemática suas Tecnologias na atividade, possibilitou o diálogo freiriano entre os envolvidos. Isto foi possível, acreditamos, pela presença e utilização dos objetos técnicos em pleno funcionamento, o que possibilitou atingirmos os campos políticos e sociais, formando uma rede sociotécnica de indivíduos promovendo uma cultura de produção de conhecimentos, enfocado nas implicações da relação CTS, via pesquisa educacional.
Investimos neste trabalho por nós defendido, pois estamos próximos das investigações e ações incidentes na formação de nossos professores de Física, especialmente por termos essa possibilidade de transitarmos incansavelmente entre o campo das Ciências Naturais (CN) e Ciências Sociais (CS), agrupando os actantes envolvidos em nossa sociedade.
Com a atividade apontamos para o campo da formação do profissional da educação no desenvolvimento desta rede sociotécnica como estratégia didático-metodológica, visando transformar problemas do cotidiano em problemas científico-o-educacionais. Portanto, atividades como essa analisada é determinante na formação de prprofessores de Física e no ensino de Física, pois os envolvidos ao construí-í-la, desenvolve-e-la e analisa-a-la estarão aprendendo a construir a crítica e se construindo críticos.
O que pretendemos no trabalho foi mostrar e ao mesmo tempo identificar, como também fundamentar a sistematização do conhecimento em rede, por trabalharmos com objetos técnicos, ou seja, juntamente com o aprendiz de professor e de pesquisador, mostrar que aparatos cientifico e tecnológicos do cotidiano incutem muitos conhecimentos científífico educacionais em Física e suas áreas afins. Por este motivo, apontamos para um professor que não apenas discute o produto científico, mas sim aquele que desmistifique as "caixas-pretas" do conhecimento, demonstrando o processo de construção da Ciência, da Ciência em Ação, a Ciência se fazendo e se definindo no mesmo processo o seu conteúdo e o contexto social.
## Bibliografia
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BRUNO, L. A Ciência em Ação - - seguindo cientistas e engenheiros sociedade afora . Paris: Pandore, 1990.
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DE BASTOS, F. P. et all. Prática educacional dialógica em Física via equipamentos geradores . Caderno Catarinense de Ensino de Física. Florianópolis. v. 12, n. 1, p. 40-4-46, 1995.
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LEWIN, K. A Action research and minority problems. Journal of Social Issues, 2, 1946.
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