TEXTOS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA COMO RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS NO ENSINO DE FÍSICA
Tânia Marlene Costa Menegat, Orildo Luis Battistel
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 24/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Pôster
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2005
Texto completo
## TEXTOS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA COMO RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS NO ENSINO DE FÍSICA
Tânia Marlene Costa Menegat [tânia@bol.com.br] e a Orildo Luis Battistel [orildo@unifra.br] b
a Colégio Estadual Manoel Ribas, Eduardo Trevisan, 85, 97010-040, Santa Maria, RS, Brasil b Centro Universitário Franciscano, Rua dos Andradas,1614, 97010-032, Santa Maria, RS, Brasil
## RESUMO
Reconhece-se há muito tempo a inadequação do ensino da Física ministrado nas escolas e universidades brasileiras. Diversas causas têm sido apontadas e muito tem sido feito nos últimos anos para alterar esse quadro. O que ainda se verifica, no entanto, é um ensino caracterizado por uma atenção excessiva a exercícios repetitivos e uma abordagem que privilegia o cálculo de velocidades, acelerações, forças, etc., em detrimento de uma análise mais profunda visando a compreensão dos fenômenos físicos envolvidos. Além disso, é claro o distanciamento entre os conteúdos abordados e a realidade cotidiana dos alunos. Neste trabalho apresentamos uma contribuição baseada na utilização de textos de divulgação científica (TDC) como resolução de problemas. Estes textos, encontrados em periódicos, revistas e jornais, de circulação nacional e regional, permitem a compreensão de conceitos físicos necessários à construção do conhecimento e apresenta-se como um recurso didático que, diferentemente das práticas tradicionais, possibilita a realização de atividades em que os alunos podem tomar posição e construir juízos de valor, para recriar, estabelecer relações e mobilizar seus conhecimentos para a sua vivência diária. Nesta abordagem o aluno tem contato com acontecimentos e fenômenos de seu cotidiano; relacionados aos conteúdos específicos em estudo, criando soluções problemas, cuja análise estabelece novos significados para os temas abordados. Tem se verificado, a partir da utilização desse procedimento um maior envolvimento dos alunos com as questões e atividades propostas em sala de aula, uma maior interação entre a classe, com a realização de discussões em torno dos assuntos. Além disso, percebe-se um avanço no que se refere a sistematização do conteúdo estudado com uma clara melhoria nos conceitos físicos e sua aplicação na explicação dos fenômenos físicos.
Palavras-chaves: divulgação científica, resolução de problemas.
## INTRODUÇÃO
Ensinar Física, em todos os níveis, tem sido, via de regra, uma tarefa difícil. Os alunos parecem aprender muito cedo a não gostar da disciplina e desenvolvem uma atitude negativa em relação a ela, estudando-a mais por uma imposição curricular do que por satisfação pessoal. Em geral o ensino de Física ainda se caracteriza pelo excesso de atenção dada a exercícios repetitivos, problemas resolvidos mecanicamente, pela utilização de uma sucessão de ''fórmulas'', muitas vezes decoradas de forma literal e arbitraria, em detrimento de uma analise mais profunda visando a compreensão dos fenômenos físicos envolvidos. Isso se deve em parte devido ao grande numero de professores que ministram a disciplina sem ter realizado um curso de licenciatura em física, de modo que não tem um domínio adequado do conteúdo e com isso não possui capacidade para selecionar o que é realmente fundamental e indispensável para o desenvolvimento da capacidade de pensar dos alunos. A aprendizagem compreende ações conjuntas do professor e dos alunos, os quais são estimulados a
compreender conscientemente e ativamente os conhecimentos assimilando-os mentalmente e assim transpondo de forma criativa nas mais variadas situações de seu cotidiano.
A construção do conhecimento só pode ser compreendida no contexto da realidade social em que o sujeito está inserido. Portanto, se no ensino queremos efetivamente buscar a significação precisamos resgatar a realidade concreta desse aluno para que ele busque o conhecimento a partir de sua interação com a realidade. Segundo CHAVES (2002) na sua Dissertação de Mestrado ' Textos de Divulgação Científica no Ensino de Física Moderna na Escola Média', a opinião dos professores estão centradas basicamente numa mesma idéia, ou seja, que o TDC através de uma linguagem clara e simples encontrada em materiais comuns como revistas e jornais, diferentemente dos materiais tradicionais usados nas escolas (livros didáticos), permite fazer uso do cotidiano para o ensino-aprendizagem da Física, neste sentido, aproxima os alunos da Física do dia a dia, tendo assim uma aprendizagem significativa (AUSUBEL apud MOREIRA, 1999). Isto está de acordo com as proposições acerca da construção do conhecimento apresentadas por RESNICK (apud, DRIVER, 1986 e GIL PEREZ, 1993) que indicam que para se compreender algo é necessário construir significados, uma vez que aspectos isolados são logo esquecidos e que aquilo que se aprende depende muito daquilo que já se sabia antes.
Os Textos de Divulgação Científica (TDC) utilizados como recurso didático como resolução de problemas podem tornar-se favoráveis à compreensão dos conceitos físicos necessários à construção do conhecimento (CHIAPPINI, 1998, 2000). Tal recurso, diferentemente das práticas de ensino tradicionais, possibilita a promoção de atividades em que os alunos possam tomar posições e construir juízos de valor, para recriar, estabelecer relações e mobilizar seus conhecimentos para a vida prática diária (SANTA, 1998). Segundo POZO (1998), o verdadeiro objetivo da aprendizagem, com solução de problemas é fazer com que o aluno adquira o hábito de propor-se problemas e de resolvê-los como forma de aprender.
Neste trabalho apresentamos uma contribuição baseada na utilização de Textos de Divulgação Científica como resolução de problemas para as aulas de Física.
## DESCRIÇÃO DO TRABALHO DESENVOLVIDO E RESULTADOS OBTIDOS
- O trabalho relatado é parte de um projeto desenvolvido no Colégio Estadual Manoel Ribas, na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, e é fruto de trabalho de pesquisa vinculado ao programa de pós-graduação em Ensino de Física e Matemática do Centro Universitário Franciscano, da mesma cidade.
- O estudo vem sendo desenvolvido a partir da elaboração de módulos didáticos relacionados com os assuntos gerais a serem abordados. A partir da escolha do assunto são relacionados tópicos específicos que são discutidos em seqüência de acordo com um cronograma pré-estabelecido. Neste roteiro são elencados os itens do que se busca dentro de uma aprendizagem conceitual e outros na aprendizagem procedimental utilizada. O desenvolvimento das atividades começa sempre com uma problematização inicial em que são colocados alguns questionamentos e/ou certas afirmações que, em determinados casos podem conter informações, à primeira vista, conflitantes em relação ao tema a ser abordado. Esses questionamentos iniciais devem ser simples de modo a facilitar a compreensão e permitir que estes possam responder a partir de suas concepções espontâneas. A seguir são fornecidos Textos de Divulgação Científica, encontrados em revistas como Superinteressante e Ciência Hoje, entre outras, e em jornais de circulação nacional, como Folha de São Paulo, e de circulação regional como Zero Hora. Os textos, para servirem como recurso didático, precisam ser escolhidos com antecedência, não sendo uma tarefa fácil, pois demanda tempo e disposição para a procura em acervos apropriados e a classificação dos mesmos deve ocorrer
quando se verifica a pertinência, a adequação da linguagem, a profundidade e a fidelidade na descrição do tema.
No início dos trabalhos com um dado texto, os alunos são divididos em grupos os quais se procura organizar de forma cooperativa de modo a que busquem soluções conjuntas e que prevaleça o crescimento simultâneo em relação ao tema em análise. Os alunos são instigados a buscar suas próprias explicações e formular métodos de trabalho de modo a esgotar as possibilidades e ainda formular os próprios questionamentos, que podem ser dúvidas não resolvidas, e serão neste caso encaminhadas ao grande grupo para discussão, como também podem constituir-se de testes a serem propostos aos demais grupos, sem que isso provoque a competição pura e simples entre a classe, mas que se provoque a partilha das soluções, das sínteses e das conclusões obtidas em cada grupo.
Durante a etapa destinada ao trabalho dos grupos, cabe ao professor o papel de mediador e estimulador das atividades, sem no entanto realizar julgamentos ou avaliações, proporcionando apenas um clima de negociação entre eles e favorecendo a troca de conhecimento. Procura-se interferir ao mínimo nesta tarefa que é de responsabilidade do aluno, que com isso passa a ser o principal elemento no processo de construção, reelaboração, avaliação e síntese das idéias levantadas.
Ao final da análise realizada pelos grupos, cabe ao professor proporcionar o fechamento da discussão, intervindo em pontos que ache necessário, levantando pontos importantes que possam ter sido omitidos, sistematizando as questões referidas no texto e evidenciando as relações e diferenças entre os conceitos científicos e as concepções espontâneas referenciadas pelos grupos. Todas as atividades são ainda complementadas pela aplicação do conhecimento; que pode envolver a realização de textos-síntese, resolução de problemas ou podem ser encorajados a responder questões e explicar fenômenos do seu cotidiano, aplicando conceitos encontrados no texto.
Dos estudos realizados até aqui se pode perceber claramente uma mudança de postura dos alunos com relação à disciplina. Vê-se que eles passam a se sentir co-responsáveis pelo desenvolvimento das atividades e buscam solidariamente proporcionar um melhor aproveitamento do tempo e das suas próprias potencialidades. Inicialmente a postura mais freqüente era a do trabalho individualizado, com uma certa dificuldade em ler e produzir algo em conjunto. Além disso, alguns alunos buscavam sempre a centralização das atividades produzindo de forma quase autoritária as respostas do grupo. Com isso foi necessária uma intervenção suave e gradual, de modo a conseguir uma participação efetiva de todos os elementos do grupo.
A dificuldade na interpretação dos textos também é uma constante quando se inicia esta atividade. A simples leitura de um texto e a interpretação daquilo que foi lido é, em determinados casos, uma tarefa penosa. A correlação da situação revelada pela leitura com a lei física relacionada muitas vezes é difícil de ser verificada. Além disso, as concepções prévias que os alunos trazem a respeito dos fenômenos diferem, substancialmente, daquilo que é correto e, em determinados casos, a resistência dificulta ainda mais a aprendizagem e a interação no grupo.
## CONCLUSÕES
Da análise realizada até aqui, pode-se verificar que houve um envolvimento maior dos alunos durante as atividades em sala de aula e fora dela, percebendo-se uma maior discussão sobre os assuntos tratados. Pode-se inferir que este envolvimento se deu em grande parte por que os temas eram de interesse da maioria deles. A metodologia utilizada propiciou uma maior interação entre a classe com intensa discussão em torno dos textos estudados com uma participação efetiva da maioria dos alunos. Notou-se que eles tendem a ficar mais à vontade
para expor suas idéias, sem o constrangimento verificado inicialmente. Além disso, o procedimento tem se mostrado adequado no que se refere ao desenvolvimento cognitivo e na evolução conceitual tendo contribuído para uma aprendizagem significativa, pois conseguem relacionar os fatos\conceitos estudados e realizar aplicações do conhecimento elaborado em várias situações do seu cotidiano.
## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CHIAPPINI, Ligia; Aprender e Ensinar com textos Didáticos e Paradidáticos - 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1998 .-(Coleção aprender e ensinar com textos; v.2).
CHIAPPINI, Ligia; Gênero do Discurso na EscolaSão Paulo: Cortez 2000.- (C oleção aprender e ensinar com textos; v. 5).
CHAVES, Taniamara Vizzotto: (2002). Textos de Divulgação Científica no Ensino de Física Moderna na Escola Média. Dissertação de Mestrado. Santa Maria, RS/BRA: Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Santa Maria.
DRIVER, R. Psicologia cognoscitiva y esquemas conceptuales de los alunnos . Enseñaza de las Ciencias, v.4, n.1, 1986.
GIL PEREZ, D. Contribución de la Historia y de la Filosofía de las Ciencias al desarrollo de um modelo de enseñanza Aprendizage como Investigación . Enseñaza de las Ciencias, v.11, n.2, 1993.
MOREIRA, Marco Antônio; Teorias de Aprendizagem - São Paulo: EPU, 1999. POZZO, Juan Ignácio; a Solução de Problemas:Aprender a Resolver, Resolver para
Aprender ; trad. Beatriz Affonso Neves-Porto Alegre: ArtMed, 1998.
POZZO, Juan Ignacio. Teorias cognitivas da aprendizagem. 3ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
SANTA,Carol Minnick; ALVERMANN, Donna: Uma Didáctica de las Ciências: Procesos y Aplicaciones. Aique Grupo Editor S.A. Libro de Edición Argentina.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.