O ENSINO DE CIÊNCIAS PARA COMUNIDADES CULTURALMENTE DISTINTAS: PREOCUPAÇÕES E CUIDADOS
Lúcia Helena Sasseron Roberto, Anna Maria Pessoa De Carvalho
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Arte, Cultura E Educação Científica, Física Moderna E Contemporânea E A Atualização Curricular
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## O ENSINO DE CIÊNCIAS PARA COMUNIDADES CULTURALMENTE DISTINTAS: PREOCUPAÇÕES E CUIDADOS ♦
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Lúcia Helena Sasseron Roberto [sasseron@usp.br] Anna Maria Pessoa de Carvalho [ampdcarv@usp.br] b a Instituto de Física e Faculdade de Educação da USP b
Faculdade de Educação da USP
## RESUMO
Este trabalho pretende relatar uma experiência vivenciada durante o ensino de Ciências e de noções de Física para alunos indígenas do estado de São Paulo. A idéia é apresentar brevemente nossas impressões a fim de mostrar alguns possíveis encaminhamentos para o ensino de Ciências em comunidades etnicamente diferentes. Não se caracteriza, de forma alguma, em uma 'receita', mas somente em uma exposição de nossas preocupações e cuidados, uma vez que percebemos fortemente a necessidade de se propor atividades práticas e abertas, que não privilegiem uma única visão, mas que possibilitem o ensino das Ciências a partir das idéias já existentes na comunidade sobre o assunto, explorando tais noções sem o objetivo de sacrificar uma ou outra concepção em f avorecimento da idéia dominante, mas sim com o intuito de enriquecer as noções já existentes, preservando a cultura de cada povo.
## INTRODUÇÃO
Fala-se muito, hoje em dia, em estreitar as fronteiras, em aproximar as pessoas, em transformar o mundo em uma aldeia global. Propõe-se uma união desejando a uniformidade, almejando (ao que parece) uma espécie de padronização. Vejo tais transformações com olhos descrentes e incrédulos. Descrentes por não acreditarem que as fronteiras possam vir a se estreitar algum dia de maneira enfática e justa, aproximando as pessoas e transformando o mundo em um único povoado. E incrédulos por temerem que um processo, ou melhor, uma tentativa de tal processo, já exista e esteja ocorrendo, sem condições reais de permanência no futuro. Com tudo isso e por tudo isso, temo uma situação futura em que os seres humanos estejam próximos de um comportamento padrão, em que o ideal e o aceitável serão certas atitudes, ao passo em que outras serão condenadas e discriminadas. Dirão alguns que isso é o que já ocorre. Contudo o que defende aqui não é uma revolução contra o capitalismo, ou contra a estrutura social mundial. Este trabalho somente pretende mostrar um pouco como há situações peculiares, momentos especiais, em que a globalização e a padronização trarão conseqüências danosas em sua maioria.
## O CONTEXTO
Há pouco mais de 500 anos, os portugueses cá chegaram às terras longínquas, em outras praias do Oceano Atlântico. Desejando as possíveis riquezas da terra invadida, hostilizaram contra aqueles que acreditavam serem hostis, impuseram a eles suas regras e literalmente lutaram para que
suas vontades prevalecessem. Em suma, buscaram as riquezas que assim lhes pareciam ser, levaram-nas embora e destruíram lenta, mas eficazmente, preciosidades que nem sabiam admirar. E isso continuou. E continua.
Embora já se tenham passado anos desde estas primeiras incursões, os resquícios e desdobramentos de t ais ações ainda podem ser encontrados hoje em dia. No estado de São Paulo, por exemplo, os indígenas deixaram de ter suas terras próprias, separadas, delimitadas e nomeadas de terras indígenas. Passaram a serem intrusos em sua casa. Entretanto é fato que, de alguns anos para cá, a situação está se revertendo e muitas comunidades já receberam porções de terra que podem tomar como suas. Mas só isso não é suficiente. Destroçados, desprotegidos e excluídos por tanto tempo, os indígenas acabaram obrigados a enfrentar uma situação de desconhecimento e repressão, seja deles próprios, seja dos outros, com referência aos seus próprios costumes e crenças, à sua cultura. Ainda assim, certas características permanecem ilesas, como é o caso da relação que buscam ter com a natureza e com aquilo que ela lhes providencia. Costumamos até dizer que o tempo do índio é outro, numa alusão, talvez, ao modo despreocupado e sábio com que os povos indígenas lidam com os dias e os com meses, sabendo que, fazendo sua parte, a natureza se encarregará de prover-lhes o que resta.
Apesar de os indígenas do estado de São Paulo, em particular, usufruírem benefícios advindos da relação com comunidades diferentes da sua, em muitos casos, o contato levou, de fato, ao desconhecimento de costumes e crenças indígenas por parte dos membros mais novos de suas sociedades. Deste modo, torna-se claro o fato de que, a aproximação de diferentes povos promoveu o estabelecimento de uma sociedade multicultural em que grupos diferentes passaram a estabelecer relações diretas. Isso provocou a necessidade de se afirmar cada uma das identidades ao mesmo tempo em que a presença de comunidades étnicas diferentes não seja ocultada ou menosprezada. Assim, surge a necessidade e a importância de uma educação que atenda às diversidades culturais (Fleuri, 2000).
Neste ponto detemo-nos com mais atenção e cuidado: permitir e possibilitar aos indígenas informações e noções necessárias para um bom convívio com os não-indígenas sugere proporcionar uma educação que forneça tais recursos, mas que também, simultaneamente, seja capaz de tratar a cultura de seu povo com grande atenção, esperando resgatar suas histórias e promovendo a preservação da cultura.
A partir de reivindicações dos próprios indígenas, o governo do estado de São Paulo forneceu, entre os anos de 2002 e 2003, o curso de formação de professores indígenas para as séries iniciais do ensino fundamental. Conhecido como Magistério Indígena, este curso buscou proporcionar o ensino e a educação pleiteada pelos indígenas, tendo sempre em mente que tal proposta exige cuidados especiais, uma vez que consiste em andar sob um terreno em que as diferenças culturais precisam ser respeitadas a fim de que a troca de experiências possa ser rica e intensa ao mesmo tempo em que dialógica e tranqüila.
Assim sendo, é crucialmente relevante considerar o papel que a cultura representa na produção de significados, sendo parte de tal construção (Bruner, 2001). Estamos admitindo, portanto, que o contexto cultural no qual o indivíduo está inserido possibilita e influencia a construção dos significados para os fenômenos que o rodeiam, bem como são importantes para a comunicabilidade destes mesmos significados. Do mesmo modo, a cultura pode exercer influência na construção da realidade que cerca o indivíduo, uma vez que esta é o produto da produção de significado moldada pelas tradições e pelo conjunto de ferramentas de formas de pensamento de uma cultura (Bruner, 2001, p.28).
## A CIÊNCIA NA ESCOLA INTERCULTURAL
As aulas de ciências naturais do Magistério Indígena foram elaboradas e planejadas tendo sempre em vista o respeito pela cultura dos indígenas. Desta maneira, com um ensino dinâmico e aberto, fornecemos possibilidades para que os alunos demonstrassem as idéias que já possuíam sobre o assunto em questão e abrimos espaço para que componentes culturais fossem explicitados. Acreditamos que isto somente seja possível por meio de um ensino de Ciências em que o aluno explicita seu modo de pensar a partir de sua atuação e ação direta na resolução de u m problema envolvendo algum fenômeno. Isso permite, concomitantemente, que os valores, as crenças e as percepções que já possui do mundo natural não sejam sacrificados em virtude de uma posição dominante. Esta, sem dúvida, foi uma das grandes preocupações que nortearam nosso trabalho e que exigiram que tivéssemos cautela na proposição de atividades a alunos de comunidades culturais diferentes da nossa.
Algumas das atividades aplicadas com os alunos indígenas foram as atividades de conhecimento físico desenvolvidas no Laboratório de Pesquisa e Ensino de Física (LaPEF) da Faculdade de Educação da USP. Para a elaboração das atividades o grupo de pesquisadores do LaPEF baseou-se nos estudos de Kamii e Devries (1986) e, entre outros pontos, desenvolveu propostas que partem de um problema a ser resolvido pelos alunos respeitando os quatro níveis de ação sobre os objetos descritos pelas autoras:
- 1) Agir sobre os objetos para ver como eles reagem : estágio inicial em que, frente aos objetos, o sujeito os manipula com a expectativa de descobrir o que pode fazer com eles.
- 2) Agir sobre os objetos para produzir o efeito desejado : momento em que o sujeito manipula os objetos munido de alguma intenção.
- 3) Ter consciência de como produziu o efeito desejado : fase em que o sujeito reflete sobre a ação. Este processo é feito através da descrição do procedimento.
- 4) Dar as explicações causais : momento em que o sujeito organiza as percepções estabelecendo explicações para as causas dos efeitos desejados e obtidos.
As atividades propostas pelo grupo de pesquisa do LaPEF aplicadas em aulas de Ciências com os alunos indígenas são apresentadas no livro Ciências no ensino fundamental - O conhecimento físico , de Carvalho et al., publicado em 1998, e caracterizam-se por serem propostas em que cabe ao aluno o papel de investigador durante o trabalho em que o professor ocupa o papel de orientador para a resolução do problema.
Acreditamos que, seja na manipulação do material, na explicação da resolução do problema ou na explicação do próprio problema, componentes sociais e/ou culturais servirão de subsídio para que estas etapas se desenvolvam. Além disso, ao solicitarmos que os alunos estabeleçam relações com outras observações feitas no dia-a-dia, pensamos que seja possível ver mais claramente como o conhecimento da natureza é apropriado pela comunidade e transmitido aos seus membros.
Desta maneira, o que desejamos é que a aprendizagem em Ciências ocorra a partir dos conhecimentos e das noções sobre o assunto já incorporados pela comunidade, tendo nas atividades escolares um novo modo de se observar o problema com a manipulação de objetos e a investigação sobre o que ocorre.
Assim, com o foco voltado para o ensino em circunstâncias interculturais, acreditamos que a aprendizagem possa acontecer de duas maneiras, conforme a proposição de Cobern e Aikenhead (1998). De um lado, os autores colocam a aculturação autônoma que pode ser vista como um processo em que o conteúdo apresentado é incorporado dentro da cultura nativa do estudante após sofrer adaptações que garantam que a transposição cultural possa ser bem sucedida. Pensamos que neste processo não ocorre o detrimento ou benefício de uma ou outra cultura e seus conhecimentos científicos, mas acontece que o conhecimento nativo recebe grande ênfase sendo somente associado a fatores e elementos não abordados originalmente ou, se abordados, recebem outra forma de tratamento que possa ser significativa para os indivíduos da cultura que estão recebendo estas informações. No outro extremo, os autores destacam a aprendizagem 'antropológica' que promove a construção de significados da cultura 'estrangeira' sem que esta seja assimilada aos preceitos culturais dos estudantes de uma cultura nativa. Por este processo, pensamos que possa ocorrer o domínio dos modos de conhecimento de uma cultura diversa, seu entendimento e crítica, sem que, contanto, o modo de ver o mundo próprio de cada cultura seja sacrificado.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em nossa experiência adquirida durante o planejamento de aulas em situações de ensino intercultural, bem como na realização destas mesmas aulas, percebemos que muitos cuidados precisam ser tomados a fim de que os conteúdos abordados estejam em concordância com a realidade dos alunos, mas, além disso, é muito importante também que consideremos que muitas concepções diferentes aparecerão, uma vez que se trata de um outro quadro cultural. Sendo assim, a experiência de se aplicar atividades práticas no ensino de Ciências pareceu-nos muito favorável, já que permite que os alunos explicitem seus conhecimentos ao mesmo tempo em que investigam o fenômeno. Acreditamos que isso contribui para que os alunos possam evidenciar o fenômeno encontrando razões para sua ocorrência e estabelecendo relações causais que expliquem o problema. Com este intuito, pretendemos que a aprendizagem ocorra no sentido de se enriquecer e refinar as noções já trazidas e defendidas por sua comunidade, resgatando e preservando, ao mesmo tempo, suas crenças e sua cultura.
## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRUNER, J., A Cultura da Educação , Artmed, Porto Alegre, 2001.
CARVALHO, A. M. P., VANNUCCHI, A. I., BARROS, M. A., GONÇALVES, M. E. R. e REY, R. C., Ciências no Ensino Fundamental - O conhecimento físico . São Paulo: Editora Scipione, 1998.
COBERN, W.W. e AIKENHEAD, G.S., Cultural Aspects of Learning Science, In: FRASER, B.J. e TOBIN, K.G. (orgs.), International Handbook of Science Education , Part One. Kluwer Academic Publishers, 1998.
FLEURI, R.M., Multiculturalismo e Interculturalismo nos Processos Educacionais. In: CANDAU, V.M. (org,), Ensinar e Aprender: Sujeitos, Saberes e Pesquisa . Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
KAMII, C. e DREVIES, R., O Conhecimento Físico na Educação Pré-escolar: Implicações da Teoria de Piaget. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
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