Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

FORMANDO PROFESSORES DE FÍSICA A DISTÂNCIA: REPENSANDO O MATERIAL DIDÁTICO

Geraldo Wellington Rocha Fernandes, José André Peres Angotti

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
X
Ano
2006
Data
16/08/2006
Linha de pesquisa
Pôster - Resultados Parciais
Tipo
Pôster

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2006

Texto completo

## Formando Professores de Física a Distância: repensando o material didático

Geraldo Wellington Rocha Fernandes José André Peres Angotti Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica Universidade Federal de Santa Catarina

## 1. Introdução

O número de brasileiros que aspira a uma formação superior e, por diferentes razões principalmente, econômicas - não encontra condições de ingressar nos cursos atualmente oferecidos, é estimado em mais de três vezes ao de vagas iniciais hoje oferecidas. Esse número cresce rapidamente a cada ano, com o aumento dos concluintes do ensino médio.

Considerando as dimensões do país, a quantidade de pessoas a serem educadas, a infra -estrutura física disponível, o número de educadores com capacidade para facilitar esse processo, a concentração de IES formadoras no ensino presencial nas capitais e cidades de maior população, a educação a distância, no ensino superior no país, já implantada e viabilizada em diversos outras nações, é necessária e urgente.

O cenário atual apresenta algumas iniciativas de cursos a distância ou semipresenciais, em programas de capacitação de docentes de redes públicas em nível superior, com significativa cooperação entre instituições de ensino, sobretudo públicas, e governos estaduais e municipais. De fato, nesse âmbito, há cursos com projetos inovadores, soluções criativas e materiais didáticos, impressos ou eletrônicos, de alta qualidade, especialmente desenhados para aprendizagem a distância, apoiados por tutorias presenciais e virtuais.

Embora o panorama atual já apresente alguns milhares de alunos matriculados em cursos autorizados de graduação a distância, a demanda está longe de ser atendida. O investimento em educação a distância e nos seus métodos e técnicas aplicados ao enriquecimento da educação presencial é elevado: exige capacitação dos profissionais envolvidos - - docente, tutores, monitores, técnicos, produção de materiais didáticos, aquisição de equipamentos e sua manutenção, assistência técnica e segurança, preparação dos ambientes físicos e virtuais, desenvolvimento de sistemas de operacionalização e gestão. Não se pode esquecer, também, que o avanço da tecnociência leva a uma periódica necessidade de atualização dos equipamentos e dos conteúdos didáticos.

Os projetos de Educação a Distância da Universidade Federal de Santa Catarina são desenvolvidos por diversas frentes de trabalho dentro da instituição. Em 2005, foi criada a Secretaria de Educação a Distância (SEaD), vinculada ao Gabinete do Reitor. A SEaD, os Departamentos de MaMatemática e Física do Centro de Ciências Físicas e Matemáticas, o Núcleo de Educação a Distância e o Laboratório de Novas Tecnologias (LANTEC) do Centro de Ciências da Educação (CED) são os principais responsáveis pela execução dos cursos de Licenciatura a Distância.

Neste ano, foram iniciados os cursos de Licenciatura em Matemática - - - 500 vagas e em Física - - 500 vagas para estudantes do Estado de Santa Catarina. A intenção é ampliar a atuação, no interior do Estado, oferecendo outras licenciaturas por meio do Projeto de Interiorização da Universidade. A UFSC, em convênio com a Universidade Virtual do Maranhão, também implantou o Curso de Licenciatura em Matemática para 500 professores da rede pública daquele Estado. Neste ano de 2006, a UFSC obteve autorizaçação para concretizar dois novos projetos: Licenciatura em Letras/Libras e Licenciatura em Química na modalidade a distância.

As vagas do Curso de Licenciatura em Física, na modalidade a distância, são destinadas, preferencialmente, para professores da rede de ensino pública do Estado de Santa Catarina, sendo 80% para professores não licenciados em Física, em efetivo exercício nos

ensinos fundamental e médio das rede de ensino pública do Estado de Santa Catarina e, 20% abertos para interessados que tenham cononcluído o ensino médio.

A pesquisa nessa área é grande e muitos são os questionamentos, principalmente na área de Física, logo vemos que é necessário que estudos e debates qualificados se intensifiquem e indiquem direções a seguir . Ao fazermos leituras de trabalhos, dissertações, teses, livros, verificamos relatos e experiências de ensino a distância, principalmente em formação continuada e cursos profissionalizantes. Buscamos contribuir para a reflexão sobre a formação inicial de professores em instituições federais, a epistemologia do professor que trabalha com ensino a distância e um olhar epistemológico e didático sobre os materiais utilizados na formação inicial, ao mesmo tempo que as disciplinas são oferecidas, à luz da chamada pesquisa e desenvolvimento.

Como o universo de pesquisa é bastante amplo, limitamo-nos a fazer um recorte no material didático desenvolvido para o curso de Física da Universidade Federal de Santa Catarina, devido ao envolvimento de um dos autores no acompanhamento e designer instrtrucional l da produção de boa parte desses materiais. Não se trata de simples descrição, mas sim de reflexão simultânea à produção desse material didático, orientações didáticas na produção de material voltado ao Ensino a Distância, com respaldo teórico na TrTransposição Didática, em particular, tendo Chevallard como principal fonte.

O que nos interessa neste ensaio é analisar o material didático (impresso e virtual), produzido para o Ensino a Distância e entender a maneira como esses materiais didáticos são apresentados, ou seja, o processo de transformação do saber sábio o para o saber a ensinar e apresentar orientações para futuras produções, já que não se realizou de forma aleatória ou ditado por circunstâncias, lembrando que os primeiros livros didáticos modificados são os universitários, que é o caso de nossa análise e, posteriormente, os do ensino médio.

## 2 - - - Compreendendo o material didático à luz do EaD

- O material didático do Ensino a Distância tem melhores chances de êxito quando ancorado a documentos norteadores e organização coletiva dos envolvidos;
- a produção, a seleção e a organização de textos para a EaD devem estar atreladas ao projeto político pedagógico do curso que se quer desenvolver. Todo texto, concebido como material didático, deve ser pensado e concebido no interior de uma proposta curricular, que, por sua vez, deve ser construído na perspectiva de objetivos delineados em um projeto político de formação (Neder, 2004, p. 166).
- O projeto pedagógico do Curso de Licenciatura em Física, na modalidade a distância, construído desde a formação inicial da equipe e debatido nas instâncias colegiadas, garante a oferta de materiais didáticos na forma impressa e virtual, este último apresentado em um ambiente de aprendizagem do tipo portal, como usualmente se verifica nos cursos de formação de EaD.
- O material impresso deve ser elaborado a partir do pressuposto de constituir um espaço de diálogo entre o professor/autor e o aluno. Sendo assim, a linguagem utilizada deve ser dinâmica, motivadora, para que, apesar da separação física, o aluno não se sinta isolado e aprenda a descobrir meios para o desenvolvimento da sua autonomia, na busca de conhecimentos a serem alcançados em regime de colaboração com os colegas, tutores e professores. O projeto aponta características a serem consideradas na construção dos materiais didáticos que são:

Tabela 01: Elementos da produção de material didático do Ensino a Distância

No curso de Física, o aluno tem acesso a dois tipos de materiais impressos: um guia geral do Curso, já distribuído e um texto para cada uma das disciplinas do Curso.

Outro material didático utilizado pelo cucurso é o Ambiente Virtual de Aprendizagem, onde o professor, ao organizar o material para este ambiente, pode privilegiar uma linguagem direta e dialógica, com conteúdos que estendam e complementem o material impresso da disciplina. Os elementos citados acima também são utilizados na elaboração do material digital. Para o Curso de Licenciatura em Física foi escolhida a plataforma MOODLE como o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem. Os conteúdos curriculares produzidos para serem acessados pelo ambiente virtual podem enfatizar questões importantes, a partir de um pequeno texto imbricado com animações, links s diretos, vídeos, simulações, bibliotecas, webteca, atividades e laboratórios virtuais. É por meio deste ambiente virtual de aprendizagem que o aluno manterá um maior contato face -tela -face com os seus tutores, professores e colegas de curso, podendo buscar esclarecimento para suas dúvidas (de conteúdo e administrativas), assim como para contatar seus colegas, realizar atividades, sugerir material de apoio, socializar suas produções.

## 3 - - - O material didático à luz da Transposição Didática

Destacamos para este trabalho o conceito de Transposição Didática por entendermos que ele oferece uma base teórica importante quando analisa a natureza dos conhecimentos científicos, ensinados em uma instituição de ensino e expressos nos programas e nos livros didáticos.

- O conceito de Transposição Didática pode permitir uma boa reflexão no que tange o material didático do ensino a distância. Ele trata de questões relacionadas as tanto ao saber do cientista quanto à fabricação de um objeto de saber para ser ensinado. Discute, também, as relações entre o sistema de ensino e o ambiente social em que está inserido, permitindo identificar alguns elementos que interferem na eleição dos os conteúdos escolares.
- O termo Transposição Didática foi introduzido, em 1975, pelo sociólogo Michel Verret1 t1 e rediscutido por Yves Chevallard, em 1985. Pesquisador francês ligado à didática das matemáticas, Chevallard, em seu livro La transposition didactitique (1985) conceitua Transposição Didática como o trabalho de fabricar um objeto de ensino, ou seja, fazer um objeto de saber produzido pelo "sábio" (o cientista) ser objeto do saber escolar. Para que isto ocorra, o saber original sofre profundas transformrmações que vão muito além de uma mera

simplificação dos códigos científicos, com intuito de aproximá-lo dos iniciantes. Na verdade, a Transposição Didática começa bem antes da escola, lá na esfera onde o saber é originalmente produzido (Perelli, 1996).

Como elemento de análise do processo de transformação do saber, a Transposição Didática estabelece a existência de três estatutos, patamares ou níveis (Pinho Alves, 2005):

- a) Saber sábio o (savoir savant): fruto do trabalho produtivo de uma esfera própria, composta ta basicamente pelos intelectuais e cientistas que constroem aquilo que também é denominado "conhecimento científico". O saber se apresenta ao público através de publicações próprias (revistas e periódicos científicos), ou dos congressos específicos de cada área.
- b) Saber a ensinar r (savoir à enseigner): muitas vezes ocorre a interpretação que o saber a ensinar r é apenas mera "simplificação" dos objetos complexos que compõem o repertório do saber sábio. Todavia, tal interpretação é equivocada e geradora de interpretações ambíguas nas relações escolares. A esfera do saber a ensinar r é eclética e diversificada na composição de suas personagens, não por ser de caráter democrático, mas pela defesa de interesses próprios. Segundo Pinho Alves (2005) os componentes dessa esfera são, predominantemente (1) os autores dos livros ou manuais didáticos ou aqueles que emprestam o nome como responsáveis por uma publicação dirigida a estudantes; (2) os especialistas da disciplina ou matéria; (3) os professores (não cientistas) e (4) a opinião pública em geral, que influencia de algum modo o processo de transformação do saber. Os cientistas e intelectuais, mesmo não pertencendo a tal esfera de poder, também podem influenciar nas decisões relativas ao saber que irá ser processado e trtransformado, o que ocorre quando se tornam professores ou quando publicam manuais didáticos. Mais recentemente, essa influência pode também se dar por intermédio dos meios de comunicação.

Para se tornar saber a ensinar, r, é necessário que o saber sábio sofra uma espécie de degradação durante a qual ocorre a perda do contexto original, para permitir uma reorganização e uma reestruturação de um "novo saber", intrinsecamente diferente do saber sábio, que lhe serviu de referência. Essa reelaboração do saber resulta em uma configuração dogmática, fechada, ordenada, cumulativa e, de certa forma, linearizada. A linguagem utilizada no saber a ensinar r é uma linguagem nova, diferente daquela utilizada no saber sábio. O saber, agora tomando a forma de conteúdo, faz uso de uma exposição racional, cujo encadeamento é progressivo e cumulativo. O aspecto atemporal manifesta-se na linearidade da seqüência, que desconhece o tempo real (histórico) que foi necessário (às vezes muitos anos) para a elaboração de uma explicação científica aceita.

- c) Saber ensinado (savoir enseigné): é na sala de aula, onde o professor expõe o material instrucional didaticamente preparado por ele. Temos que lembrar que a "ciência" da sala de aula é diferente da "ciência" do cientista. As origens ou razõeões dessa diferença não são gratuitas, mas resultado do fenômeno da Transposição Didática, entre o saber sábio e o saber a ensinar. r. Mas no que concerne ao ensino em sala de aula, ocorre novamente o fenômeno da Transposição Didática, que, neste espaço, envolve a transfiguração do saber a ensinar em saber ensinado.
- A Transposição Didática do saber sábio o para o saber a ensinar r apresenta, como resultado concreto, os livros didáticos e manuais de ensino, dirigidos particularmente aos estudantes universitários, futuros profissionais, que devem ser familiarizados com o contexto do saber sábio o e suas aplicações, dentro do tempo didático estipulado pela estrutura escolar. Os professores universitários utilizam os textos mencionados como um guia para a preparação de suas aulas e reorganizam o conteúdo ali seqüenciado, de acordo com referências próprias e locais, além de adaptá-los ao tempo didático (Pinho Alves, 2000, p.230). Temos no Curso de Física, na modalidade a distância, a oportunidade de verificar a Transposição ão Didática concretizada no material didático impresso e eletrônico.

Não podemos deixar de mencionar a respeito da noosfera que é entendida por Chevallard como a esfera onde se pensa o funcionamento didático (Chevallard, 1985). É a noosfera, portanto, o centro operacional do processo de Transposição. Dela fazem parte pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o sistema de ensino, tanto no presencial como a distância (coordenadores, professores, especialistas de disciplina, representantes de órgãos políticos, associação de professores, tutores, equipes de hipermídia.), todos os que pensam algo sobre o ensino e nele atuam no sentido de renovar, de modificar o saber a ser ensinado (Perrelli, 1996, p.82). A noosfera é um ambiente heterogêneo e limitado. Ela eqequilibrará as tensões, exercendo um papel de 'tampão', mantendo a autonomia do sistema didático dentro de limites aceitáveis.

É possível identificar algumas regras que nortearam o processo de Transposição Didática (Astolfi et al, 1997, Pinho Alves et al, 2005), que são:

Tabela 02: Regras que norteiam o processo de Transposição Didática .

## 4 - - - Um olhar epistemológico ao ambiente virtual de aprendizagem

É importante fazermos algumas reflexões acerca da Transposição Didática, materiais didáticos e construção do conhecimento científico.

Ressaltando o conceito de Transposição Didática, Chevavallard considera que uma das virtudes desse conceito é o fato de que ele nos convida a uma vigilância epistemológica (categoria original de Bachelard). Exercer a vigilância epistemológica é pensar que a fabricação de um objeto de ensino das disciplinas científicas começa muito antes da escola. É pensar, antes de qualquer reforma dos conteúdos escolares, numa inevitabilidade do processo da Transposição Didática. As transformações decorrentes da textualização do saber e as pressões da noosfera exercem, certamente, fortes influências na modelagem do saber a ensinar . Arriscamos aqui que é necessária também uma vigilância epistemológica do saber a ensinar divulgados pelos materiais eletrônicos, pois não somente os materiais impressos fazem parte do ensino a distância, mas também o Ambiente Virtual que contém inúmeras imagens, simulações, textos, compreendendo um espaço amplo e cheio de recursos.

Kuhn (1974) escreve em sua obra A função do dogma na investigação científica, como o conhecimento científico é transmitido de uma geração de profissionais para a seguinte, fazendo algumas considerações específicas sobre o que é, para ele, uma das características mais importantes da educação científica: o fato desta educação estar baseada quase que

exclusivamente em manuais especialmente escritos para o estudante, ou seja, a Transposição Didática do saber sábio para o saber a ensinar. r. Os manuais apresentam as generalizações simbólicas, os modelos e os exemplares partilhados pelos membros da comunidade científica, caracterizando, ao estudante, o paradigma dominante. O aparente acordo, entre os cientistas, sobre o que o futuro profissional deve saber, explica o seu uso na educação científica, ao invés de uma combinação eclética de originais de investigação. A comunidade de cientistas hoje utiliza a rede www, e o que Kuhn escreve sobre os manuais partilhados pelos membros da comunidade científica, também são divulgadas na Internet, não somente em materiais impressos.

Portanto, o que podemos falar sobre os materiais divulgados na Internet? Qual a análise pedagógica e epistemológica que podemos fazer sobre o Ambiente Virtual de Aprendizagem, os hipertextos e imagens dinâmicas que saltam aos olhos do aluno, professor, cientista e todas as pessoas da sociedade? A Transposição Didática também vale para este meio de comunicação?

É importante deixar claro que no livro didático impresso aparecem textos, imagens atividades em um contexto finito. De acordo com o processo de ensino, o livro é trabalhado seqüencialmente ou não, mas o âmbito de de seu conteúdo é restrito às informações e ações previstas no momento de sua organização. O livro impresso não se altera, expande ou se atualiza a não ser em uma nova edição.

O livro didático, na sua versão digital, também apresenta as mesmas características do material impresso: textos para leitura, espaços de consulta, imagens e propostas de atividades. No entanto, ele é muito mais que isso. Sua principal característica é a possibilidade da interação permanente do leitor-navegador com o texto e com todos o os demais dados e recursos disponíveis na rede digital. Ler na tela de um computador não é a mesma coisa que ler um livro impresso.

A utilização do ambiente digital em situações de aprendizagem não exclui, porém, a ação do docente. Ao contrário, como diz Noblitt apud Kenski (2004), professores continuarão a ser valorizados por suas habilidades de ministrar o desenvolvimento do processo da educação, e não mais por servirem como fonte de informação. Assim respondemos um dos nossos questionamentos, a Transposição Didática continua valendo, mas o livro digital não perde o caráter empirista se a linguagem utilizada apresentar o conteúdo como se ele fosse extraído da natureza, dos dados obtidos através do experimento. Nada adianta o uso da imagem pela imagem, simulações por simulações onde o aluno preenche lacunas com valores para observar o experimento, pois materiais assim divulgam a imagem de que os dados experimentais fornecem as leis físicas ou científicas. Apostamos na potencialidade de um material de bases epistemológicas concretas, com recorrência histórica, diminuindo assim a visão empirista da ciência.

É possível num ensino a distância a utilização de recorrência histórica, de ruptura, a superação dos obstáculos epistemológicos? Acreditamos que com o bom uso do Ambiente Virtual de Aprendizagem sim, já que esta ferramenta viabiliza a relação professor-aluno, aluno-oaluno, aluno-o-tutor. Porém, temos que ter também uma 'vigilância epistemológica' com o uso de analogias e metáforas muito comum nos ambientes virtrtuais, pois ao introduzir um número excessivo de analogias, metáforas e imagens no próprio ato de conhecer, opõe-e-se à retificação dos erros, com o fim de tornar familiar todo conhecimento abstrato, constituindo, assim, os obstáculos epistemológicos. Não pododemos, contudo, considerar que Bachelard defende como obstáculos a utilização de metáforas e imagens. Sua posição é de que a razão não se pode acomodar a elas, devendo estar pronta a desconstruí-í-las sempre que o processo de construção do conhecimento científico assim o exigir (Bachelard, 1970, p.63 apud Lopes, 1996, p.263).

Mas, dada a época da elaboração de sua obra clássica A Formação do Espírito Científico (1938), podemos inferir que seus comentários remetiam muito mais ao mundo impresso com fotos, do que às recentes conquistas do cinema e do rádio, anterior à TV, voltada

para uma educação tradicional e fortemente ancorada nos compêndios. Nossa posição é amplamente favorável ao uso ponderado das imagens e simulações, colocando aos licenciandos as possibilidades do campo virtual e do acervo admirável de materiais didáticos voltados para a Física clássica e contemporânea e ciências em geral.

## 5 - - - Analisando o material didático

De posse das teorias do material didático que se refere ao Ensino a Distância e do material didático na concepção de Transposição Didática, será um bom exercício analisar alguns materiais didáticos elaborados para o Curso de Licenciatura em Física na modalidade EaD. Veremos quais as características propostas para o EaD estão presentes, o que ainda existe de presencial e as regras da Transposição Didática.

Faremos análise desses materiais sem preocuparmo-o-nos de qual conteúdo se está tratando e não citando autores, já que não temos autorizações dos mesmo para fazermos análises críticas.

O nosso critério de análise está respaldado pela relação entre os elementos do EaD, presentes nos materiais didáticos e as regras da Transposição Didática. Estamos propondo aos autores de materiais EaD uma vigilância epistemológica ao elaborar o material didático, tanto o livro impresso como o ambiente de aprendizagem, no que se refere à transposição do saber sábio para o saber a ensinar. Os autores têm que se preocupar que o material tem que atender uma aprendizagem efetiva do licenciando, no qual a Transposição Didática complementa as teorias de elaboração de materiais para o Ensino a Distância, porém deixamos claro que a proposta necessita de análises e estudos.

## A) Material Impresso:

Os materiais impressos que estão sendo produzidos, seguem as propostas do guia de confecção do material para EaD entregue a cada professor/autor. Cada capítulo possui introdução, conteúdo, exercícios resolvidos, atividades, não fugindo às mesmas características dos materiais impressos para o ensino presencial. O guia para elaboração dos materiais didáticos na modalidade analisada recomenda que se tenha links s (denominação dada ao esclarecimento de termos e expressões não tão claras) e glossários e que os objetivos devam ser dialogados, com linguagem clara. Retiramos de um dos materiais o exemplo citado abaixo:

Nosso objetivo neste capítulo é estudar os polinômios com coeficientes reais, suas operações de adição e multiplicação. Estudaremos as propriedades, o conceito de divisibilidade e a 2 fatoração de um polinômio em produto de fatores lineares ax + b e quadráticos Ax2 2 2 + Bx + C, onde a, b, A, B e C são números reais e B2 B2 - 4AC < 0. Apresentaremos as definições seguidas por exemplos. (Both, 2005, p.129)

Na leitura que se faz de outros materiais, os objetivos são apresentados de foforma mais

Ao final do capítulo o aluno deverá ser capaz de:

- · Discutir a importância do conceito de partícula.
- · Definir velocidade média, velocidade instantânea, aceleração média e aceleração instantânea, vetorial e escalarmente (identificando unidades de medida).
- · Conceituar movimento retilíneo uniforme e movimento retilíneo uniformemente variado.
- · Interpretar e representar gráficos x x t , v x t e do movimento de uma partícula.
- · Aplicar as equações e os conceitos da cinemática à resolução de problemas e questões . (Peduzzi, 2006, p.77)

Ao acompanhar a produção dos materiais didáticos e ao fazer uma leitura dos mesmos, verificou-se que a linguagem apresentada ao longo dos conteúdos são normalmente

linear:

pouco coloquiais, porém claras. Os professores das disciplinas da área de exatas têm uma maior dificuldade em escrever um texto dialogado com troca de opiniões e perguntas.

Muitos livros seguem uma redação diversificada, sem recorrências históricas, objetiva direta, com moderada densidade de informação. Conteúdos divididos em capítulos e estes em tópicos.

- O livro para EaD do Curso de Física da UFSC, apresenta exercícios resolvidos e orientados, no caso das disciplinas na área de exatas, mas chama pouca atenção para particularidades ou idéias consideradas relevantes para seu estudo e apresenta uma grande quantidade de atividades lineares em forma de problemas para o aluno resolver. Poucos relacionam teoria e prática.
- O saber escolar permanece o mesmo, sem muita modernização, no entanto, está atualizado. Poucos materiais fazem uma articulação do saber novo com o antigo; porém vê-se que o saber foi transformado em exercícios e problemas resolvidos e também em exercícios para o aluno resolver. Os conceitos foram explorados no início de cada tópico, mas com poucos glossários e links s em relação a termos desconhecidos.
- A noosfera é composta por professores de física, matemática, psicologia, filosofia e pedagogia. Também fazem parte desta esfera tutores, alunos do Curso de Física, coordenação do curso de Física, coordenação pedagógica, designers instrucionais e gráficos e instituições públicas.

Em alguns livros já analisados, percebe-e-se a ausência de elementos próprios dos autores, provenientes de pesquisas e análises anteriores. O material é proveniente de pressões de um projeto para ensino a distância de forma a cumprir um certo programa, ou seja, é um curso de formação atrelado a um currículo e orientado por diretrizes federais.

## B) Ambiente Virtual

Também utilizando dos elementos do EaD e das regras da Transposição ão Didática para o Ambiente Virtual, vemos que a produção de material para ser implantado na plataforma não muda em comparação com o material impresso.

- O material utiliza poucos recursos da plataforma, porém a linguagem dos textos é clara, bem mais coloquial que no material impresso.
- qqp A redação é simples e poucas disciplinas fazem recorrência histórica. É uma linguagem objetiva e direta e os capítulos do material impresso foram agrupados, na maioria das vezes e transformados em tópicos no ambiente para que o aluno tenha mais recursos e também é uma forma de viabilizar o trabalho dos professores e tutores, facilitando o acompanhamento do aluno pelos agentes de formação.

Os professores disponibilizam resoluções dos exercícios dos capítulos do material impresso. Ocorrem chats, fóruns e mensagens dos alunos para os professores e principalmente tutores. Presença de glossários referentes a termos do material impresso.

Alguns professores utilizam animações e simulações, ocorrendo a presença de links s e a utilização de a alguns programas educativos.

- O saber escolar permanece o mesmo como no material impresso e sem grandes recorrências históricas, porém existem l links s que fazem ligações com outras informações.
- A noosfera aqui não é tão diferente da noosfera para a construção do material impresso, porém aqui tem a pressão da coordenação de interfaces e hipermídias. Neste material, ocorre uma presença maior de elementos próprios dos autores como artigos e sites.

## C) Análise:

Ao fazer esta análise, concluímos que nada mudou em relação ao ensino presencial no que se refere ao material didático. Utilizam-se muito pouco os recursos da plataforma e fortificou -se a idéia de um ensino tradicional.

Ensinar um aluno, através da auto aprendizagem, é bem diferente do ensino convencional , onde a maioria dos textos é trabalhado oralmente pelo professor e onde o aluno pode ir sanando suas dúvidas, imediatamente, com a presença do professor. (Neder, 2004, p.168)

Acreditaase que muitas disciplinas se apresentam dogmáticas devido a algumas razões, entre elas razões institucionais, que mostram que o s saber a ensinar r se origina de obras simplificadas e lineares e de razões epistemológicas que mostram que nem todo saber pode ser traduzido através de relações de causa e efeito, Develay (1997) apud Pinho Alves (2001). Não podemos esquecer que o rigor acadêmico e as ideologias dos autores influenciam também para um texto linear, tradicional e dogmático. É um curso de formação inicial atrelado às diretrizes federais para o ensino a distância.

A maioria dos materiais também se caracterizam com um aspecto atemporal que se manifesta na linearidade da seqüência, desconhecendo o tempo real (histórico) que foi necessário, às vezes muitos anos, para a elaboração de propriedades, definições e teorias atualmente aceitas. Percebe -se o desmonte epistemológico do saber sábio e sua reconstituição, demonstrando claramente a valorização do empírico como sendo o primeiro passo para a construção teórica. O credo positivista se faz presente na seqüência do texto didático do material impresso e também no ambiente virtual.

Muitos materiais procuram explorar os recursos disponíveis na plataforma, principalmente no que se refere a textos de apoio, referências bibliográficas, animações, simulações, vídeos, e exercícios que não fofogem a listas como no ensino presencial.

Figura 02: Problema apresentado em animação

<!-- image -->

Figura 01: Abertura da disciplina Física Básica A

<!-- image -->

Na produção do ambiente virtual, nota-se a preocupação de um dos autores em tornar dinâmico elementos estáticos do material impresso. Um exemplo a ser observado é dado na figura abaixo:

Figura 05: Vídeo que discute como estudar a distância na disciplina Introdução ao Ensino a Distância.

<!-- image -->

Figura 03: Discute-se a física intuitiva e trabalha com o dinâmico, ou seja, o estático do impresso salta aos olhos do aluno num desenho dinâmico.

<!-- image -->

Outros autores preocupam-se com animações e vídeos para que os licenciandos criem discussões:

Figura 04: Animação para discutir a realidade do professor de Física na disciplina Educação e Sociedade

<!-- image -->

## 6 - - - Considerações finais

Este tópico tem o objetivo de sintetizar as informações obtidas no decorrer deste ensaio e refletir sobre algumas questões que o trabalho realizado instiga. Destacamos alguns aspectos que demonstraram o objetetivo deste artigo. Embora a Transposição Didática trate das modificações que ocorrem desde a produção do saber sábio até o saber tal qual é ensinado nas escolas, o trabalho apresentado se deteve nos aspectos externos à sala de aula, analisando especialmente os imperativos do saber, encontrado nos materiais didáticos para o ensino a distância, entre eles o material impresso e o ambiente virtual de aprendizagem.

No acompanhamento da produção dos materiais didáticos e na leitura destes, observou -se uma dificuldade de alguns professores em adequar a sua linguagem para o ensino a distância, caracterizando assim um texto feito para alunos presenciais. Sugerimos aos professores que estão elaborando materiais didáticos para esta modalidade, que procurem não perder de vista os elementos característicos da produção de material didático para o EaD, porém recorrendo à contextualização histórica e a interpretação que o saber sábio empresta a um dado fenômeno físico estudado ao longo do tempo, porém não significa que ao escrever um

<!-- image -->

conteúdo devemos nos manter fiéis ao seu contexto original, mas deixar claro que tais fenômenos estão sendo explicados com modelos contemporâneos e que as explicações atuais estão longe daquelas elaboradas pelos primeiros investigadores. O ambiente virtual de aprendizagem é uma ferramenta valiosa para trabalhar tal contextualização.

- A função do Ambiente Virtual de Aprendizagem não pode ser subestimada pelos autores do material didático e professores, é uma valiosa ferramenta de ensino para a concreretização da aprendizagem do aluno, se bem utilizada. A nossa preocupação é exatamente a utilização deste meio, pois se não for utilizado corretamente poderá se constituir em um obstáculo epistemológico que poderá agravar se o professor não se preocupar com o seu aluno a distância.

A nossa proposta é que ao elaborar um material para o Ensino a Distância, os autores levem em consideração os elementos característicos desta modalidade de ensino atrelada à teoria da Transposição Didática .

- É importante a vigilância epistemológica, mas sentimos a necessidade de uma vigilância ampla, aberta e não restrita ao saber sábio para o s saber a ensinar, esta vigilância vale também ao ambiente de aprendizagem e a uma postura como autores de livros acadêmicos.

## 7 - - Referências B Bibliográficas

BOTH, Néri. BURIN, Nereu Estanislau. Pré-Cálculo. 1ª ed. Florianópolis, SC: UFSC/EAD/CED/CFM, 2005.

KENSKI, Moreira Vani. Tecnologia e Ensino Presencial e a Distância. 2ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2003. KHUN, T. S. A função do dogma na investigação científica. a. In: de DEUS, J. D. A crítica da ciência. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. LOPES, A. R. C. Bachelard: o Filósofo da Desilusão . Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, v.13, n.3, 1996. MEC/SEED. Referenciais de Qualidade para ra a Educação a Distância. 2003. NEDER, Maria Lúcia Cavalli. A formação do professor a distância: desafios e inovações na direção de um prática transformadora. 2004. Tese (Doutorado em Educação) - - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: &lt; http://150.162.90.250/teses/PEED0495.pdf&gt;. Acesso em 20 de março de 2006. PEDUZZI, Luiz Orlando de Q., PEDUZZI, Sônia Silveira. Física Básica A. 1ª ed. Florianópolis, SC: UFSC/EAD/CED/CFM, 2005. PERRELLI, Maria Aparecida de Souza. A Transposição Didática no Campo da Indústria Cultural: um estudo dos condicionantes dos conteúdos dos livros didáticos de ciências. 1996. 169 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. PINHO ALVES, José F. Atividades experimentais: do método à prática construtivista. 2000.302 f. Tese (Doutorado em Educação) - - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. PINHO ALVES, José F. et al. A Eletrostátática como exemplo de Transposição Didática. In PIETROCOLOA, Maurício (org.). Ensino de Física: conteúdo, metodologia e epistemologia

numa concepção integradora. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2005.

UFSC. Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Física na Modalidade a Distância. 2005.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.