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A INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL: CONTRIBUIÇÕES DA FÍSICA

Simoni Tormohlen Gehlen, Marcos Rodrigo Avozani Albrecht, Milton Antônio Auth

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
27/01/2005
Linha de pesquisa
Interdisciplinaridade E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL: CONTRIBUIÇÕES DA FÍSICA

a

Simoni T.Gehlen (simoni.gehlen@detec.unijui.tche.br) Milton Antônio Auth (auth@unijui.tche.br) b Marcos Rodrigo A. Albrecht (marcos.albrecht@unijui.tche.br) c

a, b, c: Unijuí - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

## Resumo

Diante das limitações relacionadas ao atual ensino de Ciências Naturais, particularmente as que permeiam à organização curricular, tais como a linearidade, a descontextualização e a fragmentação, optamos por desenvolver o processo ensino-aprendizagem na forma de Situação de Estudo (SE), tendo como aporte o referencial histórico-cultural. As atividades foram realizadas na Escola Estadual Osvaldo Aranha de Ijuí/RS, envolvendo professores da escola, acadêmicos da área de ciências (física, química, biologia), e um professor da Unijuí. Promovemos reuniões semanais de estudo e planejamento de uma SE, e seu desenvolvimento na 7ª série. A participação direta nos trabalhos possibilitou os registros na forma de questões estruturadas e diários da prática pedagógica (Porlán, 1997). Como resultados destacamos a forma de conduzir o processo, que vem favorecendo a dialogicidade e contribuindo para uma maior participação/engajamento dos professores e alunos, e a significação dos conceitos de Física/Ciências, que também contempla interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade e contribui para novas posturas frente aos problemas contemporâneos.

Palavaras- chave: Situação de Estudo, interações, Física/Ciências.

## Introdução/Justificativa

A tradicional organização curricular do ensino de Ciências Naturais, permeada pela linearidade, a descontextualização e a fragmentação, vêm dando sinais de esgotamento, o que torna o Ensino Fundamental um espaço propício para a realização de trabalhos diferenciados. Isso contribui, de certa forma, para compreender o usual estrangulamento seriado desse nível e possibilitar uma maior flexibilidade das configurações curriculares.

Essa problemática vem nos instigando a desenvolver atividades de forma sistemática, com respectivas investigações. Nesse sentido, o foco de atenção para esse trabalho é a 7ª série do Ensino Fundamental, contrariando orientações curriculares existentes, inclusive para avaliar se os alunos apresentam ou não condições de construírem conhecimentos e compreender fenômenos físicos e químicos, para além dos biológicos. Precisamos avançar e explorar estes aspectos, uma vez que fazem parte das suas vivências, independente da idade ou nível escolar.

Neste contexto, o f oco da pesquisa está direcionado para a questão da contextualização do ensino e a construção dos conceitos da Física, como ondas eletromagnéticas e mecânicas, pelos alunos da 7ª série do Ensino Fundamental. Para tal, desenvolvemos um processo de ensino-aprendizagem na forma de Situação de Estudo (SE) (Maldaner e Zanon, 2001; Auth, 2002).

A proposta curricular baseada em SE parte de uma situação prática ligada ao cotidiano do aluno, considera suas experiências de vida, seus conhecimentos para favorecer a participação e estabelecer relações com o conhecimento abordado, em sala de aula. Esta dinâmica permite que, frente às novas situações, os conceitos possam evoluir e serem redirecionados na interação com o professor, colegas e o contexto em questão. No entender de Auth (2002, p.139) 'uma Situação de Estudo deve ser aberta e contar com um número pequeno de conceitos, mas representativos do conjunto de disciplinas (ou de alguma específica, se for o caso)'.

Esta nova concepção curricular, com aporte no referencial histórico-cultural, enfatiza que '...é a partir das interações entre os sujeitos na relação pedagógica que o ser humano aprende, se desenvolve, e constitui consciência do passado, de seu tempo e de seu futuro ' (Maldaner e Zanon 2001, p.53). Para Vygotsky (1987), este processo é mediado pela linguagem e pelo outro em interações sociais que se estabelecem em sua história particular, ou seja, a aprendizagem e a reconstrução cultural só ocorrem nas interações sociais.

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Nessa ótica, buscamos desenvolver a SE 'Como o ser humano percebe e interage com o ambiente' na Escola Estadual de Ensino Fundamental Osvaldo Aranha, de Ijuí/RS, na disciplina de Ciências Naturais da 7ª Série do diurno, ao longo de quatro meses (maio a agosto de 2004). A formação de um coletivo possibilitou encontros de discussão planejamento, reflexões. Em conjunto buscamos avaliar limites, possibilidades e desafios a serem superados.

## Atividades realizadas e a questão da significação dos conceitos

Esta proposta de trabalho ultrapassa os limites impostos pelos manuais didáticos, bem como, rompe com as estruturas curriculares das escolas, dando uma nova concepção ao currículo, uma vez que às atividades pedagógicas são realizadas por um grupo de professores e licenciandos, englobando conceitos de física, química, biologia e matemática. Mesmo assim, o enfoque pode ser em uma das áreas, como da Física, a exemplo da significação dos conceitos: impulsos elétricos (sistema nervoso), ondas mecânicas e eletromagnéticas (freqüência, período, amplitude, comprimento de onda), pressão e temperatura. Neste contexto nos interessa investigar se o trabalho vem contemplando o aspecto da significação de conceitos das áreas envolvidas, bem como se esta vem proporcionando na prática o que se tem proposto.

A investigação revela que um dos grandes desafios é quanto à questão da significação conceitual. Após uma primeira exploração de conceitos em atividades desenvolvidas em sala de aula, sobre os quais os alunos não tinham conhecimento, como os relacionados ao espectro eletromagnético, desafiamos os mesmos a comentar uma gravura que apresentava uma mulher tomando banho de Sol. Foram expressivas as dificuldades dos alunos em usar os conceitos trabalhados anteriormente para expressar seus entendimentos sobre a situação da gravura. Mas isso não significa fracassos ou incapacidade de aprendizagem pois, na concepção de Auth,

'Numa primeira situação, os conceitos terão um entendimento inicial. Algumas vezes, num primeiro momento, só a palavra representativa do conceito aparece. Ao reaparecer na mesma Situação de Estudo e em outras deve evoluir em seu significado' (Auth, 2002, p.139).

Dos 14 alunos que realizaram a atividade, num primeiro momento, a grande maioria não relaciona os conceitos referentes a ondas eletromagnéticas, como também não mencionaram palavras vinculadas a estes conceitos. No entanto, eles explicitaram conhecimentos outros, menos representativos para aquela situação, tais como: a inadequação do horário para a exposição ao Sol, câncer de pele. Daí podemos tirar, pelo menos, duas conclusões importantes: a aprendizagem de um conceito não acontece num único momento; a abordagem referente ao espectro eletromagnético não foi suficientemente significativa para os alunos.

Com a retomada posterior, num novo estágio de desenvolvimento, os conceitos passaram a ter algum significado para o aluno. Lembrando, a partir de um primeiro contato com as palavras o conceito pode começar a evoluir dependendo das interações que acontecem daí por diante. Na ótica da SE, no término das atividades, presume-se que os alunos tenham construído algum entendimento conceitual referente aos conteúdos abordados.

Diante das considerações acima, e após a retomada sistemática dos conceitos, através da realização de atividades que buscavam ampliar a significação dos mesmos, os alunos foram desafiados a se posicionar teoricamente sobre uma segunda gravura (figura 1).

Figura 1 - Fonte: LUZ, M. e SANTOS, M. Vivendo Ciências .

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A maioria dos alunos conseguiu se expressar utilizando conceitos como ondas eletromagnéticas e mecânicas. Demonstraram, inclusive, sua capacidade de compreensão de fenômenos, como problemas de visão, influência da radiação solar no organismo humano. Abaixo destacamos algumas interpretações que os estudantes apresentaram.

Um menino foi à praia e através de sua visão, de longe viu o sorveteiro, mas não o escutava, pois o menino estava longe e a freqüência das ondas sonoras chegava com pouca intensidade nele. (Aluno A)

Na chegada ele enxergou um carro de picolé, o homem que vendia picolé na praia tinha óculos para evitar o Sol, que emite raios ultravioletas .(Aluno B)

Carlos que vendia sorvete tinha problemas na visão, então ele tinha que usar óculos de grau. Carlos não tinha a visão boa, pois ele tem miopia, ou seja, ele enxerga apenas de perto, de longe ele enxerga tudo embaralhado . (Aluno C)

Dos 14 alunos: 5 vincularam os raios ultravioletas a questões apenas do malefício (como o aluno B); 1 apresentou aspectos relacionados a intensidade das ondas sonoras e a freqüência (como o aluno A); 3 apresentaram a questão dos defeitos da visão, mencionando a miopia e hipermetropia (como o aluno C); 1 apresentou a palavra ultravioleta, porém não conseguiu relacioná-la corretamente com o contexto da gravura; 1 apresenta argumentos confusos referente as ondas sonoras; 3 não apresentaram nenhuma aspecto vinculado as ondas eletromagnéticas ou mecânicas.

- A partir destes resultados apontamos que 64,3 % dos alunos já apresentaram conceitos referentes às ondas eletromagnéticas e mecânicas, 14,3 % mencionam as palavras, mas ainda pouco significativas e 21,4 % expressaram suas respostas sem referenciar diretamente esses conceitos.
- As manifestações dos alunos em relação às atividades realizadas parecem evidenciar que as principais dificuldades referentes à construção dos conceitos, aos poucos são superadas. Nesse sentido, constatamos que a aprendizagem de um conceito não ocorre num único momento, e sim se constrói a partir de interações e de situações consideradas significativas pelos alunos. A retomada dos conceitos, como de ondas eletromagnéticas, possibilitou compreender que se pode avançar com a significação, de modo a reduzir as expressivas dificuldades dos alunos nas interpretações de situações novas vinculadas ao cotidiano. Isso é um bom indicativo da viabilidade de se estudar os conhecimentos de Física também em outras séries do Ensino Fundamental, a exemplo da 7ª série, desde que estejam relacionados ao contexto, valorizando as interações entre alunos e professores.

A opção por uma nova concepção curricular também desencadeou numa forma de avaliar que fosse compatível com a dinâmica da SE, valorizando a construção do conhecimento e não o seu simples acúmulo. Nessa ótica, para além de constituir um instrumento de registro, a avaliação também vem se caracterizando como um instrumento de aprendizagem (Alonso et. al, 1996), particularmente via produções de textos, relatos e sua retomada. Para Carvalho (2003, p.120) a escrita é uma das atividades fundamentais no ensino de Ciência, considerada como um 'instrumento de aprendizagem que realça a construção pessoal do conhecimento'. Ela representa oportunidades variadas para que os alunos expressem seus entendimentos diante dos conceitos trabalhados em sala de aula.

## Considerações Finais

- O desenvolvimento da SE vem contribuindo, por um lado, para uma maior participação/engajamento de professores e alunos, aspecto que pode ser evidenciado, por exemplo, nos questionamentos realizados por alunos rotulados como 'problema', sobre exames de raios X e tratamentos de radioterapia e, por outro, para o estudo dos conceitos, contemplando, inclusive, interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade.

Outro aspecto a destacar neste trabalho é a questão das interações entre os diversos atores do processo, associada a assuntos vinculados ao cotidiano dos alunos, que aos poucos vêm abrindo espaços para o diálogo e a reflexão, contribuindo para o entendimento e opiniões mais críticas frente a problemas contemporâneos, tais como a destruição da camada de ozônio . Aspectos que, cada vez mais favorecem a ' leitura crítica da realidade ' (Freire, 1987).

Por fim, salientamos a necessidade de continuar com o processo iniciado na forma de Situação de Estudo. Isso vem favorecendo o desenvolvimento/implementação de novos temas, amparados pela curiosidade dos alunos frente a questões que envolvem o corpo humano. A proposta caminha na direção do desenvolvimento da SE vinculada à ' adolescência e cidadania '.

## Referências Bibliográficas

ALONSO S. et. al. Avaluar no es calificar: La evaluación y la calificación en una enseñanza constructivista de las ciencias . Investigación en la Escuela . Universitat de València, n.30,1996.

AUTH, Milton A. Formação de professores de Ciências Naturais na Perspectiva Temática e Unificadora . Tese. Florianópolis: CED/UFSC, 2002.

CARVALHO, Ana M. A inter-relação entre a Didática e a Prática de Ensino. In: Formação docente em Ciências Memórias e Práticas . SELLES, S. e FERREIRA, M.(org.). EduUFF: Niterói, 2003.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido . 10 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

LUZ, M. e SANTOS, M. Vivendo Ciências . 1ed. São Paulo: FTD, 2002.

MALDANER, Otavio A. e ZANON, L. Situação de Estudo: uma Organização do Ensino que Extrapola a Formação Disciplinar em Ciências. Espaços da Escola . Ijuí: n. 41, p. 45-60, 2001.

PORLÁN, R. El diário del profesor. Um recurso para la investigación en el aula. 4 ed. Sevilla/ESP: Díada editora S.L. n.6, 1997.

VYGOTSKY, Lev. Pensamento e Linguagem . São Paulo: Martins Fontes. 1 ed. brasileira, 1987.

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