A LEITURA DE TEXTOS ORIGINAIS ED FARADAY POR ALUNOS DA TERCEIRA SÉRIE DO ENSINO MÉDIO
Anisabel Da Glória Pachêco De Macêdo Montenegro, Maria José P. M. De Almeida
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A LEITURA DE TEXTOS ORIGINAIS DE FARADAY POR ALUNOS DA TERCEIRA SÉRIE DO ENSINO MÉDIO
Anisabel da Glória P. de M. Montenegro Mestranda - gepCE - Faculdade de Educação, Unicamp ∗ e-mail: animacedo@ig.com.br Maria José P. M. de Almeida gepCE - FE - Unicamp ∗ ∗ e-mail: mjpma@unicamp.br
## Introdução, justificativa e objetivos
Consideramos que ensinar implica em considerar inúmeros fatores atuando na situação de ensino, muitos dos quais nem sempre são controláveis. Esses fatores interferem na seleção e organização do conteúdo por parte do professor, tendo em vista a mediação de determinado conhecimento ao aluno.
Quando se ensina física, não é difícil constatar que muitos estudantes acreditam que a ciência só pode ser produzida, e mesmo compreendida por pessoas que nascem com capacidades especiais, que ela é sempre benéfica e dona de verdades inquestionáveis ou, por outro lado, responsável por todas as mazelas da sociedade. Pensando dessa maneira, os alunos posicionam-se de maneira acrítica e julgam que a eles cabe apenas cumprir tarefas escolares sem maior interesse.
Certamente, o ensino da ciência como um produto acabado tem contribuído em nossas escolas para esse tipo de posicionamento, no qual o conhecimento científico é visto como algo passível de mera transmissão e não como algo a ser elaborado, o que já foi afirmado por autores como Castro (1992).
Numa outra perspectiva, o ensino da ciência pode servir para que os estudantes passem a pensá-la criticamente. As leis da ciência, como as que orientam as relações humanas não são imutáveis e intrinsecamente verdadeiras. As verdades que elas subentendem são históricas, construídas em condições sociais determinadas e, portanto são mutáveis. Um dos objetivos da escola seria possibilitar aos estudantes a compreensão das rupturas por que tem passado a ciência, as quais têm contribuído para as diferentes perspectivas com que têm sido interpretados os fenômenos da natureza.
Consideramos que contribuir para a construção, pelos estudantes, de uma representação de ciência como a comentada no último parágrafo é tão relevante quanto trabalhar o que no âmbito escolar costuma ser considerado o conteúdo propriamente dito.
Com essas idéias em mente é que nos propusemos a analisar o funcionamento da leitura de textos originais de Faraday por estudantes do ensino médio, focando diretamente as representações desses sobre ciência.
## A mediação da leitura no ensino de ciências
Consideramos o texto escrito como eixo principal do ensino em sala de aula, admitindo, no entanto, que a sua mediação não pode ser desvinculada de outras mediações que ali ocorrem, nem das histórias de seus leitores. Isto, por sua vez, implica em explicitar como o texto organiza os gestos de interpretação que relacionam sujeitos e sentidos, produzindo novas formas de leitura, considerando as leituras como fruto da época em que são feitas, produzindo sentidos em função de suas condições de produção (Orlandi, 2000)
O aporte da noção de condições de produção, como entendida na análise de discurso da linha francesa tem-nos possibilitado pensar aspectos da organização escolar e suas mediações, permitindo a análise de como os textos funcionam na construção de um discurso relativo à ciência. Um aspecto
de destaque é a possibilidade que o texto fornece de facilitar a voz dos alunos, estabelecendo-os como produtores de sentidos, com a ciência sendo reconhecida como uma instituição em construção e o cientista visto como uma pessoa normal, que se dedica a essa construção(Almeida, Silva e Machado(2001).
Pensando, então, que podemos dizer que cada sujeito produz um discurso em função do contexto em que se encontra e em função de sua formação discursiva, iniciamos um trabalho de análise das falas dos alunos e dos textos escritos por eles no início e no término do episódio de ensino.
Um princípio da análise de discurso que nos auxiliou nessa tentativa de compreensão foi o princípio da autoria, que se realiza toda vez que se produz um texto com unidade, coerência, progressão, não-contradição e fim.
Pela natureza incompleta do sujeito, dos sentidos, da linguagem, no ensino pode haver deslocamentos mas também estabilização. Ou seja, podemos pensar que no princípio de autoria temos três tipos de repetição:empírica, formal e histórica
## Caracterização da turma de terceira série do ensino médio
Esta turma é composta por 32 alunos em uma escola pública de uma cidade do interior paulista, com origens familiares diferenciadas. Tem faixa etária variando entre 17 e 19 anos, sendo alunos com histórias escolares diferentes. No grupo encontramos tanto alunos que já fizeram curso técnico em eletrônica, quanto alunos que dizem não saber como já estão nesta série.
## O Funcionamento da Unidades de Ensino
## 1. Discursos sobre a ciência e sobre os cientista antes da leitura dos textos.
Inicialmente, através das atividades em grupo (tempestade de idéias e ato teatral) buscamos conhecer um pouco das concepções dos alunos sobre a ciência e os cientistas. Assim, foi dada voz aos alunos para que pudessem colocar suas questões, dúvidas e opiniões durante todo o trabalho sem que se preocupassem com formalismos ou respostas 'corretas'. Em seguida, iniciamos a segunda atividade na qual foi pedido que os grupos, durante um tempo de quinze minutos, tentassem elaborar uma cena mostrando como é o dia de um cientista.
Um dos grupos representou o cientista como uma pessoa que já amanhece pensando em ciência e, assim, o aluno foi até a lousa e colocou uma série de equações. No imaginário deste primeiro grupo, o cientista é uma pessoa que só pensa em ciência, a ponto de acordar já se questionando sobre algo. No entanto ao mostrar para turma, ao invés de colocar o questionamento, preferiu colocar uma fórmula. Talvez isto se explique pelo seu cotidiano escolar, já que a concepção de ciência que os alunos demonstram ter tem muita influência da forma como é estudada a Física no ensino médio. Já um segundo grupo, visualizou o cientista como extremamente organizado, metódico, seguidor de um 'método científico'.
Finalizando um primeiro momento da unidade, pedimos que os alunos escrevessem uma carta, um bilhete,.., onde relatassem suas representações sobre ciência e sobre os cientistas.
Como as cartas foram escritas depois das atividades em grupo, muitos alunos além de escreverem sobre suas concepções, ainda colocaram comentários sobre o que haviam feito
. ... Devido a aula de hoje, foi uma aula muito legal e menos cansativa. (aluno1)
Com relação as representações de ciência foi comum associarem-nas a Física, a Química, aos cálculos e fórmulas. Vejamos um exemplo: Um aluno, que chamarei João, além de conceber a ciência diretamente relacionada com a Física e a Química, nos diz que ela é exata, atribuindo um caráter fechado e verdadeiro ao conhecimento científico, acrescenta a imagem do cientista como gênio e finaliza atribuindo o desenvolvimento da ciência ao desenvolvimento de seus cálculos.
A ciência é nada mais nada menos que explicações exatas sobre assuntos variados, que o homem busca explicações. Cientistas são os cérebro de uma curiosidade que é questionada constantemente até que se encontre uma explicação e motivo p/o que pesquisam. A ciência não foi feita; pelo contrário, a ciência já existia em fusão e reações químicas, portanto a ciência foi desenvolvida e aprimorada em seus cálculos e módulos diferenciados p/ cada tipo de assunto
## 2. Discursos sobre ciência e cientistas depois da leitura dos textos.
Em outra aula foram entregues os textos com trechos do diário de Faraday, traduzidos do livro de Shamos (1959). Não foi colocada nem falada a autoria destes, com o intuito de analisarmos a reação dos estudantes frente a linguagem e os seus possíveis autores. Após a entrega foi dado tempo para que os alunos lessem com calma e para que pudessem discuti-los com os colegas. Período após o qual a professora/pesquisadora perguntou à turma o que haviam entendido do texto e sobre quem poderia tê-los escrito.
Prof/pesq - O que vocês acharam do texto?
Alunos- Ah...dá pra entender.
Prof/pesq. - Foi difícil fazer a leitura?
Alunos - Não. Só algumas palavras que a gente não conhece.
Pro/pesq - Alguém poderia tentar me explicar?
Aluno X - Ele diz que quando coloca um fio perto do outro aparece uma corrente nele. E que o aparelho marca numa hora de um jeito e na outra hora de outro Prf/pesq - Mais alguém?
Aluno Y - Que dependendo do movimento a corrente elétrica vai numa direção e dependendo vai em outra.
Aluno Z - Ah...que a agulha virava um ímã quando colocava lá. E que só funcionava quando ligava e desligava.
Prof/pesq - E quem poderia ter escrito este texto?
Prof/pesq - Poderia ter sido escrito por um cientista?
Alunos em grupo: Não
Prof/pesq - Mas, por que não?
Alguns alunos - Porque não tem conta e nem fórmula .
Aluno - O texto é fraco. Deve ser de algum aluno.
Aluno - Não pode ser porque não tem nem fórmulas
Finalmente a professora/pesquisadora revelou a autoria dos textos que haviam lido e entregou-lhes um outro texto com a biografia de Faraday. É interessante notar que neste momento, apenas com a leitura e a discussão em grupos, os alunos já haviam conseguido compreeender a noção de indução eletromagnética. Conteúdo que foi um pouco mais aprofundado depois com o decorrer da aula e com a prática experimental onde os alunos montaram um pequeno motor elétrico com materiais do dia a dia.
Foi então pedido que refizessem aquela carta inicial expondo o que pensavam sobre a ciência e os cientistas.
Nestas cartas notamos que, pelo menos naquele momento, ocorreram alguns deslocamentos nas representações sobre ciência, assim como alguns estilos de escrita se tornaram mais espontâneos, como é o caso do aluno Rodrigo que antes havia escrito em forma de questionário e agora fazia um relato simples em forma de narrativa. Neste segundo texto ele realça a idéia do cientista como pessoa comum ao dizer que é uma pessoa normal e que a escrita do cientista pode não ser complicada.
Os cientistas não são exatamente loucos, eles só querem saber como 'tal coisa' acontece, porque essa 'tal coisa' acontece. Um cientista não precisa fazer e mais contas para dizer que é cientista e para descobrir alguma coisa. Textos de cientistas não tem palavras complicada, um vocabulário difícil. Ou seja, um cientista é uma pessoa normal, comum, assim como nós.
Já no texto de outra aluna podemos perceber um deslocamento com relação a representação de ciência, que antes era associada a Física e a Química e na segunda carta aparece de forma mais geral. Podemos considerar aí uma repetição histórica.
Os cientistas são pessoas normais, com dom de observar algo e dentro disso, elaborar teses ou teoria do fato observado, podendo as vezes fazerem descobertas muito importantes. Ciência é tudo aquilo que se estuda sobre tudo o que acontece no mundo. Cada ciência estuda uma coisa.
Devido a aula de hoje foi uma aula muito legal e menos cansativa
Finalizando, podemos ainda analisar a modificação da abordagem dada por um aluno que antes só se referia a ciência de uma forma extremamente positiva . Mais uma vez nota-se a repetição histórica ao apontar que a ciêcia pode servir tanto para o 'bem como para o mal', questão que foi enfatizada durante a aula.
## Primeira carta :
- ... A ciência e os cientistas, na minha concepção, revolucionam a história humana com seus experimentos e descobertas; a influência que eles exercem sob o avanço tecnológico mundial é direta, necessária e essencial .
## Segunda carta:
... A ciência é feita quando a curiosidade e novos acontecimentos se fundem sendo colocados em prática para descobrir como, quando e porque algo ocorreu, e quais são as proporções fundamentais para benefício e ou malefício esses novos acontecimentos nos trarão.
## Considerações finais :
Com o trabalho desenvolvido foi possível constatar que as atividades iniciais além de possibilitarem uma análise das representações que os alunos já possuem sobre a ciência, desempenhou um papel motivador.
Já os textos originais, além de terem seu conteúdo basicamente entendido, favoreceram o desenvolvimento de diversas estratégias de ensino e uma abordagem histórica, permitindo que os alunos tivessem contato com as condições de produção da ciência, desmitificando um pouco a visão que muitos estudantes possuem da Física e permitindo um maior aproveitamento e interesse na aula.
## Referências Bibliográficas :
ALMEIDA , Maria José P. M. de; SILVA , Henrique C.; Michinel, José L. M. Condições de produção no funcionamento da leitura na educação em Física . Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v.1, n.1, pp. 5-17. 2001.
CASTRO , Ruth Schimitz de e Carvalho, Anna Maria Pessoa de. História da Ciência: Investigando como usá-la num curso de segundo grau. Caderno Catarinense De Ensino de Física. v.9, n.3. 1992.
ORLANDI , Eni Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos . Pontes, 4 edição, a Campinas, SP, 2002.
ORLANDI , Eni Puccinelli. Discurso e leitura. Cortez, 5 a edição, Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2000.(Coleção Passando a limpo).
ORLANDI , Eni Puccinelli. Interpretação; autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Editora Vozes, Petrópolis, RJ. 1996
ROBILLOTA, M. e Babichak, C. Definições e conceitos em Física. Caderno Cedes, ano XVIII, n o 41, 1997.
SHAMOS , Morris H. Great Experiments in Physics . Dover Publications, Inc. Nova York. 1959.
SOUZA , Suzani C. Leituras na mediação escolar em aulas de ciências: A fotossíntese em textos originais de cientistas. Pro-Posições, Campinas, 12, n.1, p. 110-125. 2001
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