A construção do conhecimento do aluno em aulas de ciências à luz da epistemologia de Imre Lakatos
Taciane Mirelle Reifur, Clodogil Fabiano Ribeiro Dos Santos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A construção do conhecimento do aluno em aulas de ciências à luz da epistemologia de Imre Lakatos
## RESUMO
O presente trabalho trata de analisar a maneira como as teorias são introduzidas no ensino de ciências, assim como as relações com o cotidiano dos educandos. Este estudo foi realizado durante o ano de 2004, através da aplicação questionários com alunos de 8ªsérie de um colégio estadual do município de Ivaí (PR). O estudo é fundamentando na epistemologia de Imre Lakatos. De acordo com ele, há casos em que a teoria não apresenta condições suficientes de explicar os fatos, surgindo às hipóteses ad-hoc , com o intuito de proteger o núcleo firme de idéias. Através da heurística positiva, as justificativas para explicar a teoria que está apresentando problemas são acomodadas ao cinturão protetor, podendo surgir neste contexto novas teorias. Há também a heurística negativa, a qual questiona as novas idéias, tentando refutá-las. Pode-se verificar que construir conhecimentos é um processo que requer cuidado, pois necessita da análise do entendimento dos seres humanos. Entendemos que a mudança conceitual é um processo longo e lento que não ocorre com freqüência em sala de aula. Estimular os educandos à defenderem suas idéias deveria ser um objetivo no ambiente escolar, pois com isto poderá contribuir para a formação de cidadãos críticos e ativos, com condições de colaborar na construção de conhecimentos, permitindo assim a evolução da ciência.
Palavras-chave: construção do conhecimento, epistemologia, ensino de ciências.
## Introdução
Há um consenso entre alguns pesquisadores, como Silveira (1996), que ensinar ciências é uma tarefa semelhante a construir conceitos científicos. Entendemos que ensinar ciências requer uma reflexão sobre o sentido da atividade docente, ou seja, o professor deve desenvolver uma consciência crítica em relação a sua tarefa, realizando constantes questionamentos sobre o porquê de ensinar teorias para crianças e adolescentes.
A construção do conhecimento, ou o despertar para esta construção, constituemse em metas para educadores preocupados com o desenvolvimento de pessoas mais críticas, que consigam entender o que acontece ao seu redor, utilizando teorias para as auxiliá-los.
Segundo Cury, os alunos 'aprendem a resolver problemas matemáticos, mas não sabem resolver seus conflitos existenciais. São treinados para fazer cálculos e acertá-los, mas a vida é cheia de contradições, as questões emocionais não podem ser calculadas, nem têm conta exata'. (2003, p. 1213). Entretanto, construir conhecimentos científicos, através de teorias, e utilizá-los para explicar fatos e experiências é um processo longo e complicado. Sabe-se da existência de teorias que possuem deficiência em explicar certos fatos e experiências.
De acordo com FOUREZ, 'quando essas representações não nos convêm, por uma razão ou por outra, nós as substituímos por outras que nos sirvam para fazer o que quisermos'. (1995, p.66). Na Ciência, as teorias que não conseguem explicar mais as experiências, outrora designadas teorias corroboradas, passam a serem consideradas anomalias, quando passam a não mais corroborar os resultados experimentais. Porém, a atitude mais comum quando uma teoria não está sendo mais aceita é a refutação ou a tentativa de modificação da teoria; esta começa a ser m odificada com explicações adhoc, construídas para explicar questões pontuais, desprovidas de excedente empírico.
Sendo assim, também podemos considerar, de maneira semelhante ao pensamento de Lakatos, que o processo de educar é um ato de construção de conhecimento. De Lakatos extraímos a idéia de um conhecimento imperfeito, não definitivo. Contudo, a aprendizagem só será confirmada no momento em que o aluno tiver clareza no significado dos conceitos estudados por ele, atribuindo sentido aos conteúdos nas suas práticas diárias, através de seu real entendimento. Para ele, só fará sentido aquilo que ele aprende, aprendeu ou irá aprender se for assimilável e coerente com o que ele acredita e vivencia, ou seja, que seja assimilável pelo seu 'cinturão protetor' de idéias.
A filosofia da ciência e história da ciência se tornam próximas através das primeiras investigações científicas de Imre Lakatos, que atribui críticas para 'as diferentes concepções de metodologia e da distinção entre os dois tipos de história, a história interna e a história externa'. (BOMBASSARO, 1992, p. 103)
Na Metodologia dos Programas de Pesquisa de Lakatos as teorias não são consideradas isoladamente caracterizando um sistema que pode resistir ás instâncias falseadoras mais facilmente que estivessem isoladas umas das outras. Lakatos afirma que 'o programa de investigação consiste em regras metodológicas; algumas nos dizem quais são os caminhos que devem ser evitados (heurística negativa), outras nos dizem quais são os caminhos que devem ser palmilhados (heurística positiva)'. (LAKATOS, apud. BONBASSARO, 1992, p. 106).
## As idéias de Lakatos e o ensino de ciências
Lakatos caracteriza um programa de pesquisa por seu 'núcleo firme'. A falsidade que incide sobre ele é desviada pela heurística negativa, que proíbe a declaração da falsidade do núcleo firme. Começam, então, a surgir inúmeras hipóteses e explicações ( ad-hoc ), que auxiliam a estabelecer as condições iniciais para a defesa do núcleo firme, dando origem ao chamado 'cinturão protetor'. Com este processo, que segundo nosso entendimento possui um correlato em sala de aula e no cotidiano das pessoas, aparecem então as possíveis anomalias ou fatos não explicados, que são modificados, validados e incorporados ao cinturão protetor através da heurística positiva. Segundo Lakatos 'a heurística positiva consiste num conjunto parcialmente articulado de sugestões ou palpites sobre como mudar e desenvolver as 'variantes refutáveis' do programa de pesquisa, e sobre como modificar e sofisticar o cinto de proteção 'refutável''. (LAKATOS, apud. SILVEIRA, 1996, p. 222).
## A pesquisa
Como o objetivo deste trabalho de pesquisa é comparar a construção de conhecimentos nas aulas de Ciências com a epistemologia de Lakatos, através da análise das representações dos alunos. Elaboramos atividades de intervenção didática visando detectar tais representações, aqui comparadas ao núcleo firme de um programa da pesquisa. Este estudo foi realizado durante o ano de 2004, com alunos de 8ªsérie de um colégio estadual do município de Ivaí (PR).
Foram entregues aos alunos questionários contendo perguntas extraídas de livros didáticos, relacionadas a alguns conteúdos teóricos de ciências que eles estavam estudando no momento. As respostas fornecidas pelos alunos foram comparadas à Epistemologia de Lakatos, da qual foram extraídos elementos para defender a hipótese de que os conhecimentos obtidos nas aulas de ciências estão sendo cópias de livros didáticos, o que não se pode atribuir estreitamente como produção do saber.
Com isto, pudemos verificar que a construção de conhecimentos não é algo que já se sabe o resultado, mas algo que depende de alguns fatores como o estímulo do
professor para o estudo da matéria que ensina, o seu domínio sobre tal matéria, os interesses dos alunos para com as aulas.
Além disso, para construir conhecimentos é preciso, fundamentalmente, que sejam utilizados os conceitos prévios que o aluno traz consigo. Porém, pudemos constatar a não aceitação, por parte do professor, das definições dos alunos. Isso muitas vezes prejudica a construção do conhecimento do aluno. Entendemos que formular respostas e conclusões frente a fatos sem nenhuma influência cotidiana é uma tarefa difícil, pois os alunos apresentam uma visão mais realista perante os fatos, ou seja, tentam adaptar ao seu cotidiano qualquer coisa que eles conseguem ver, escutar, ler ou fazer. Não é obrigatório aceitar tudo o que o aluno fale, escreva ou faça. Porém, é necessário mostrar de uma outra maneira que a sua compreensão não está de acordo com a explicação cientificamente aceita.
De acordo com as idéias de Lakatos, devidamente relacionadas com o contexto escolar das aulas de ciências, pode-se dizer que um conhecimento (comparado a um programa de pesquisa) é abandonado quando há alternativas melhores, que explicam melhor os fatos. Quando esses fatos se constituem em confrontadores d as teorias ou das idéias dos alunos são considerados anomalias. Essas anomalias podem surgir durante as aulas, quando os professores realizam experimentos associados aos conteúdos teóricos, especialmente se os resultados de tais experimentos não corresponderem às explicações prévias dadas pelos alunos.
A análise dos dados levantados em nosso estudo mostrou que a produção de conhecimentos pelos alunos ainda é pequena, ocorrendo o emprego inadequado de conceitos aprendidos nas aulas de Ciências para explicar os fenômenos apresentados no questionário. Notamos que isso ocorre particularmente quando o professor não proporciona oportunidades para eles falarem, colocarem os seus entendimentos, podendo esta ser uma das causas para a inconsistência da maioria das respostas fornecidas pelos alunos; outra causa provável seria a grande influência do seu cotidiano.
## Considerações finais
Defendemos a idéia que o educador deve conhecer os valores, as crenças e as convicções dos alunos, e nunca se contentar em ser apenas conteudista, transmissor de conhecimentos. Fundamentados nas idéias de Imre Lakatos, defendemos que as pessoas já possuem um conjunto de conhecimentos prévios, idéias, valores e crenças, e que só agregam a este conjunto novos conhecimentos quando eles são devidamente conduzidos e adaptados a esse conjunto pré-existente.
Ao tentar compreender como acontece a construção do conhecimento, á luz da Epistemologia de Imre Lakatos, foi possível fazer uma reflexão sobre a maneira como os educandos associam o que se passa a eles em sala de aula com as suas práticas de vida, ou seja, como conseguem associar o que aprenderam na escola com o seu cotidiano. Conseguimos evidenciar que tudo o que o aluno exterioriza em sala de aula expressa a existência de um 'núcleo firme de idéias' e que as matérias de ensino só fazem sentido para o aluno quando são devidamente incorporadas ao seu 'cinturão protetor' através de uma 'heurística positiva'. Caso contrário, elas são desviadas do 'núcleo firme' pela 'heurística negativa' e, se não houver uma possibilidade de acomodação das novas idéias no 'cinturão protetor', elas são consideradas anomalias. Dessa forma, as idéias ensinadas pelo professor eventualmente não se incorporam ao conjunto de conhecimentos (comparável a um 'programa de pesquisa'), sendo ignoradas pelos alunos.
## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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