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MARCAS DO ENSINO ESCOLAR DE CIÊNCIAS PRESENTES EM MUSEUS E CENTROS DE CIÊNCIAS

Jorge Megid Neto *, Deise Dias Fahl

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
27/01/2005
Linha de pesquisa
Alfabetização Científica E Tecnológica E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## MARCAS DO ENSINO ESCOLAR DE CIÊNCIAS PRESENTES EM MUSEUS E CENTROS DE CIÊNCIAS

JORGE MEGID NETO (megid@unicamp.br) DEISE DIAS FAHL (deise\_dias@uol.com.br)

## (Faculdade de Educação da UNICAMP; Prefeitura Municipal de Campinas)

Resumo: O trabalho identifica marcas do ensino escolar de Ciências presentes em dois espaços de educação não formal: o Museu Dinâmico de Ciências de Campinas e a Estação Ciência (SP). Os espaços são estudados a partir da observação de visitas de público escolar e público não-escolar, entrevistas e documentos ali produzidos. Constatamos a presença, nos dois espaços, dos Modelos Tradicional, Modelo da Redescoberta, Modelo Tecnicista e Modelo da Ciência-Tecnologia-Sociedade na sua versão tecnocrático e decisionista, e de modo menos acentuado dos Modelos Construtivista e CTS na sua versão pragmático-política, revelando desta maneira marcas do ensino escolar de ciências em museus e centros de ciências.

Palavras-chave: ensino de ciências; museus de ciências; centros de ciências; educação não-formal; alfabetização científica; divulgação científica.

A literatura nacional e internacional vem apontando para a importância de espaços educacionais não formais, como museus e centros de ciências, visando a popularização da ciência e a alfabetização científica. Nesse sentido, deveriam desenvolver processos educacionais não formais e que favorecessem os objetivos desses espaços. Por outro lado, a observação de alguns centros e museus de ciências indicam que esses espaços têm mantido fortes relações com a escola básica, em especial em virtude do público visitante se constituir em sua grande maioria por alunos e professores do ensino fundamental e médio. Assim, é possível que os espaços de educação não-formal estejam cumprindo funções diversas daquelas para as quais foram projetados, reproduzindo processos educacionais similares aos processos escolares, de ensino formal..

Com tal problemática em vista, esta pesquisa pretende identificar as marcas do ensino escolar de Ciências presentes em dois espaços de educação não formal na área de Ciências Naturais, selecionados a partir das especificidades de suas atuações em relação ao público escolar e não escolar, a saber: Museu Dinâmico de Ciências de Campinas (MDCC) e Estação Ciência (São Paulo - SP).

O quadro teórico de referência para o levantamento de dados e correspondentes análises tomaram por base as características escolares do ensino de Ciências identifacadas a partir da literatura nacional, apresentando-se aspectos peculiares aos seguintes modelos de ensino: o Modelo Tradicional, o Modelo da Redescoberta, o Modelo Tecnicista, o Modelo Construtivista e o Modelo da Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS).

Para a pesquisa de campo, seguimos uma abordagem qualitativa, mais especificamente um estudo de caso realizado a partir da investigação dos dois diferentes espaços analisados. Os dados foram coletados a partir de observações 'in loco', entrevistas, análises de documentações e bibliografia disponibilizada sobre os espaços destacados neste trabalho. O relato das observações nos espaços e a análise dessas observações e documentação específica foram realizados em função de duas categorias principais: Estrutura e Organização do Espaço/Tempo e Interações no Espaço. Esta segunda abrangendo as relações dos monitores com visitantes escolares e não-escolares, e as interações entre visitantes e objetos expostos.

Após estudo das principais características dos Modelos de Educação Escolar em Ciências, realizamos três visitas à Estação Ciência, em São Paulo, onde coletamos informações, registros e outros documentos para a pesquisa. No caso do MDCC, os registros ocorreram durante o período em que a autora principal deste trabalho trabalhava no local, no espaço denominado 'Espaço Ciência-Escola', bem como mais recentemente a outro espaço do MDCC, o chamado 'Planetário'.

A Estação Ciência foi inaugurada em 24 de junho de 1987, estando localizada no bairro da Lapa, em São Paulo, capital. É um centro de difusão científica, tecnológica e cultural vinculado à Pró-Reitoria de Cultura e extensão da Universidade de São Paulo - USP, em convênio com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. Tem como objetivo oferecer à população, principalmente por meio de exposições, o portunidades de se conhecer e analisar fenômenos, teorias e pesquisas científicas. Suas exposições abrangem várias áreas do conhecimento e ocupam cerca de 4.600 m, divididos em quatro espaços: Plataforma 2 Ciência; Plataforma Tecnologia; Plataforma Informática; Plataforma Cultura. As exposições são interativas, permitindo a observação e também o manuseio de experimentos. Recebe público escolar e não-escolar, em visitas monitoradas e/ou supervisionadas por estudantes universitários.

Durante os três dias de visitas à estação Ciência, observamos as dinâmicas que envolvem o dia-a-dia do espaço no período das 8,00 às 18,00 horas. Tentamos captar momentos considerados significativos para os vissitantes e pesquisador, bem comopara os funcionários e monitores da estação. Realizamos entrevistascom monitores, com professores acompanhantes das escolas e com seus respectivos alunos; fizemos registros escritos e fotográficos; transcrições de painéis e informativos; coletamos materiais de divulgação, folders, jornais, artigos e publicações relativos à Estação Ciência.

O Museu Dinâmico de Ciências de Campinas, por sua vez, surgiu de um convênio entre a Prefeitura de Campinas, a Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, a Fundação de Desenvolvimento da UNICAMP- FUNCAMP e a Academia de Ciências do Estado de São Paulo - ACIESP. Em 28 de outubro de 1987 foi inaugurado o Planetário de Campinas, o primeiro setor do MDCC. Anos mais tarde, o segundo setor denominado Espaço Ciência-Escola.

- O MDCC tem por objetivo principal divulgar o conhecimento científico para o público leigo, estudantes e professores. Desde sua criação, cerca de 500.000 pessoas já visitaram suas dependências. As diversas atividades que podem ser ali realizadas incluem a observação de exposições e projeções do Planetário, realização de experimentos, atividades corporais, cursos e oficinas para professores, entre outras. Os registros que coletamos relativos ao MDCC ocorreram no período de agosto de 1998 a dezembro de 2000, em especial no Espaço Ciência-Escola, e no ano de 2001 no Planetário especialmente.

Em linhas gerais, pudemos constatar que diferentes marcas do Ensino Escolar de Ciências transitam pela Estação Ciência - SP e pelo Museu Dinâmico de Ciências de Campinas (MDCC), determinando ora de maneira implícita, ora de maneira explicita, a Concepção de Educação em Ciências presentes nestes espaços.

Constatamos que o Modelo Tradicional de Educação desponta nos dois espaços contemplados pela pesquisa. Observamos a predominante verbalização por parte dos profissionais destes espaços nas atividades destinadas ao público escolar. Em alguns momentos, tanto para a Estação Ciência, quanto para o MDCC, pudemos observar situações em que a suposta lógica da Ciência prevaleceu sobre a lógica do visitante, tanto escolar, quanto não escolar. Nestas situações a Ciência foi apresentada como um produto acabado, ignorando seu caráter humano, coletivo, ambíguo e histórico.

Muito embora no discurso dos profissionais do MDCC tenhamos observado o desejo de implementar uma abordagem interdisciplinar dos conteúdos, as atividades eram organizadas de maneira multidisciplinar, onde cada uma delas destinava-se especificamente ao desenvolvimento de uma única disciplina curricular, por vezes, isolada das demais, o que acaba por acentuar uma característica do Modelo Tradicional do Ensino de Ciências. Na Estação Ciência este aspecto é

amenizado principalmente para o público não escolar que pode estabelecer conexões com as diferentes plataformas, da maneira que desejar, e assim vincular ou não os diferentes conhecimentos ali expostos e produzidos.

Observamos que o Modelo Tecnicista de Educação se faz presente também nos dois museus/centros de ciências quando estes, ainda que incentivem a participação 'ativa' do visitante escolar e não escolar, os coloca como espectadores frente a uma verdade objetiva da Ciência, enfocada ali em atividades práticas utilizando-se de instrução programada, de um eficiente planejamento enriquecido com recursos da técnica, como objetos, experimentos, vídeos, computadores e outros. Nestas situações, visitantes e profissionais dos museus colocaram-se como espectadores frente a uma verdade cientifica apresentada e não contestada.

Ainda que, nestes momentos, a relação espaço/tempo possa não ser igual a que se estabelece na escola, o controle da exploração do espaço físico, assim como do tempo de interação com os objetos, são determinados pelos museus/centros de ciências especialmente para o público escolar. Observamos que as interações do monitor com o visitante, principalmente o escolar, e do visitante com o objeto em exposição sofrem um controle de forma a conduzir a etapa conforme os objetivos propostos para a atividade em questão.

Constatamos que o Modelo da Redescoberta apresentou-se nitidamente nas atividades de laboratório do MDCC em simulações do processo científico experimental, onde as atividades eram realizadas pelos alunos, porém, planejadas pelos profissionais do museu para a constatação dos conceitos que desejava abordar. Embora as interações do monitor com o visitante escolar não se estabelecesse de forma autoritária, respaldava-se na simulação do processo científico, onde cabia ao professor/monitor o planejamento da atividade a fim de maximizar o desempenho do aluno em relação a um conteúdo específico, enquanto ao aluno cabia a função de participação e envolvimento a fim de ampliar seus conhecimentos.

Na Estação Ciência observamos a presença deste modelo de educação principalmente em alguns experimentos da Física, onde coube ao monitor a simulação do processo c ientífico, e ao visitante a constatação de alguns conceitos previamente estabelecidos na programação da atividade.

Observamos também marcas do Modelo de Educação Construtivista nos dois museus/centro de ciências, porém, mais freqüentes no discurso dos profissionais do que em suas ações. Há, no entanto, nos dois museus/centro de ciências momentos em que alguns dos pressupostos do Modelo Construtivista se sobressaem em relação aos demais.

Vivenciamos momentos na Estação Ciência e no MDCC em que o conhecimento prévio do visitante escolar foi considerado como ponto de partida para um diálogo reflexivo sobre determinado tema. Porém, ainda que estes pressupostos do Modelo Construtivista de Educação tenham aparecido, não observamos uma ampla contextualização social, histórica e cultural durante a realização das dinâmicas ou experimentos. Esta contextualização surge apenas nas falas iniciais ou conclusivas de cada etapa e conduzidas na fala dos profissionais dos museus, exceto em momentos pontuais como nas áreas Caminhos da Água e PETROBRAS na Estação Ciência.

Outro pressuposto do Modelo Construtivista de Educação foi possível observarmos no MDCC, na unidade Espaço Ciência-Escola, quando pressupõe a resolução de situações problemas para grupos de alunos que devem diante de uma dificuldade utilizar o conhecimento prévio de todos da equipe para, em consenso, conseguir resolvê-la. Nestes momentos observamos que as interações dos professores/monitores com os alunos se estabeleciam respaldadas na reciprocidade de conhecimentos e na cooperação. Estes momentos foram vivenciados mais nas atividades de campo oferecidas por este museu.

- O Modelo Ciência Tecnologia e Sociedade esteve presente nos dois espaços, porém, muito mais em sua abordagem tecnocrática e decisionista que na abordagem pragmático-política, pois embora sejam apontados em alguns momentos problemas decorrentes da relação CiênciaTecnologia e Sociedade, pudemos constatar, de maneira geral, que as exposições dos dois

espaços contemplam mais o conteúdo escolar relacionado a uma disciplina específica, que a historicidade do conhecimento científico e suas implicações sociais.

Por outro lado, em alguns momentos, observamos nos dois espaços contemplados pela pesquisa a tentativa de uma abordagem da Ciência como processo inacabado, histórico, social e cultural, na maioria das vezes as interações do monitor com o visitante conduziu a uma prática em oposição ao discurso, onde prevaleceu a condução da atividade e a fala do monitor encaminhando para as conclusões desejadas em relação ao desenvolvimento científico e tecnológico. Portanto, aproximando-se das abordagens tecnocráticas e decisionistas do Modelo CTS.

Ressaltamos que não foi possível observarmos a ocorrência isolada de um ou outro Modelo de Educação em Ciências, pois os mesmos coexistem nos espaços visitados, é claro que imersos na diferenciação de cada um.

Em relação ao MDCC constatamos também que os cinco Modelos de Educação em Ciências coexistem e transitam em suas atividades, destacando-se mais a presença dos Modelos Tecnicista, da Redescoberta e tentativas de aproximação com o Modelo Construtivista.

Em relação aos Modelos de Educação em Ciências entendemos que se a Estação Ciência, assim como o MDCC, desejarem ser divulgadores de uma visão da Ciência de caráter cultural, histórica, provisória, social e politicamente determinada, deverão estar atentos para que suas práticas pedagógicas se expressem de maneira consciente e crítica de acordo com os objetivos educacionais pretendidos, uma vez que os Modelos de Educação ora utilizados deixam suas marcas, por vezes, indelével, por vezes acentuadamente, revelando a concepção de Ciência que se divulga nestes espaços e que certamente exercem implicações no contexto social.

## Bibliografia

AMARAL, Ivan Amorosino do. Currículo de Ciências: das tendências clássicas aos movimentos atuais de renovação. In: BARRETO, Elba S.S. (org.) Os currículos do ensino fundamental para as escolas brasileiras. Campinas : Autores Associados, São Paulo : Fundação Carlos Chagas, 1998. (Coleção formação de professores). p. 201-232.

COSTA, Marisa Vorraber (org.). O currículo nos limiares do contemporâneo. 2.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

FAHL, Deise Dias. Marcas do ensino escolar de Ciências presentes em Museus e Centros de Ciências . Campinas : Faculdade de Educação da UNICAMP, 2003. Dissertação de Mestrado.

HAMBURGER, W. Ernest, MATOS, Cauê. (orgs). O desafio de ensinar ciências no século XXI. São Paulo: EDUSP : Estação Ciência; Brasília: CNPq, 2000.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da Escola Pública - A pedagogia crítico-social dos conteúdos. 4ª ed. São Paulo. Loyola, 1986.

MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. Ensino: as abordagens do processo . São Paulo : EPU, 1986. (Temas básicos de educação e ensino).

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