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LETRAMENTO CIENTÍFICO E CTS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O ENSINO DE FÍSICA

Maíra De Araújo Mamede, Erika Zimmermann

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
27/01/2005
Linha de pesquisa
Alfabetização Científica E Tecnológica E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

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## LETRAMENTO CIENTÍFICO E CTS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O ENSINO DE FÍSICA

Maíra Mamede [maira@unb.br] a Erika Zimmermann [erika@unb.br] b

a b UnB - Faculdade de Educação

## RESUMO

Nos últimos anos, temos assistido a uma preocupação crescente com o desenvolvimento do letramento científico dos estudantes da educação básica, que incide de maneira direta sobre a compreensão que a sociedade tem sobre a produção científica. Pesquisas recentes (SAEB, PISA) têm demonstrado um baixo nível de letramento entre os estudantes brasileiros. A partir de uma discussão do significado deste conceito e da consideração da importância do papel do professor na transformação desta realidade, desenvolvemos uma proposta para a disciplina de Ensino de Ciências para o Início da Escolarização, que pudesse enfrentar esta problemática. O objetivo central era promoção do letramento científico, dando ênfase à física, entre futuros professores das séries iniciais do ensino fundamental, durante a formação inicial. Após uma etapa inicial de estudo e discussão sobre a epistemologia da ciência (natureza da ciência, filosofia e história da ciência), foram trabalhadas as principais vertentes do ensino de ciências e, finalmente os estudantes desenvolveram projetos de ensino de física para esta etapa da educação básica. A ênfase nos conteúdos de física justifica-se pela grande aversão demonstrada pelos alunos especialmente a esta disciplina. A análise dos dados, obtidos através de questionários aplicados junto aos alunos, de gravações das aulas, do diário reflexivo (Lincoln & Guba, 1985) e das avaliações escritas dos alunos, evidenciaram algumas mudanças nos alunos em relação à ciência propriamente dita e a seu ensino. A produção escrita apareceu como um importante instrumento para a promoção do letramento científico. Foi apontada, contudo, a necessidade de uma intervenção mais direta no que se refere à aprendizagem dos conteúdos específicos.

## O CONCEITO DE LETRAMENTO NA LINGÜÍSTICA

O conceito de letramento surgiu, no início dos anos 80, partir de preocupações distintas, em diversos contextos, mas referia-se a uma mesma questão, a do uso social da linguagem escrita. Soares (2003) considera significativo que o termo tenha aparecido independentemente em países desenvolvidos, como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos, e em países em desenvolvimento, como o Brasil. Nos primeiros, as discussões foram motivadas pela percepção de que uma grande parcela na população, ainda que dominasse o sistema de escrita, não era capaz de fazer uso da leitura e da escrita em situações reais. Nos segundos, a preocupação com o letramento surgiu atrelada à necessidade de promover a alfabetização inicial dos indivíduos, questionando-se se ela deveria restringir-se unicamente à codificação e à decodificação de fonemas em grafemas (Soares, 2003).

Na realidade, os processos da alfabetização e do letramento, embora intimamente relacionados e mesmo indissociáveis, guardam especificidades, pois se referem a elementos distintos. A alfabetização refere-se às habilidades e conhecimentos que constituem a leitura e a escrita, no plano individual, ao passo que o termo letramento refere-se às práticas efetivas de leitura

e escrita no plano social. Assim, uma pessoa letrada não é somente aquela que é capaz de decodificar a linguagem escrita, mas aquela que efetivamente faz uso desta tecnologia na vida social de uma maneira mais ampla. É este o sentido que a Unesco buscava explicitar quando, no final da década de 70, desenvolvia o conceito de analfabetismo funcional (Ribeiro, 1997).

Esta diferenciação traz algumas decorrências importantes, se atentarmos para o fato de que, mesmo vivendo em uma sociedade letrada, existem indivíduos que não são alfabetizados. A questão que se coloca é: podemos considerar iletrada uma pessoa que é capaz de 'ler' a conta de luz de sua residência, de identificar informações contidas em um rótulo de um produto na prateleira de um supermercado ou de tomar um ônibus? Ou ainda, será que uma pessoa que foi alfabetizada, mas que não faz uso da leitura e da escrita no seu cotidiano, pode ser considerada letrada?

## LETRAMENTO CIENTÍFICO E SOCIEDADE

O conceito de letramento, após sua gênese, foi sendo expandido para outras esferas, como o ensino de ciências e de matemática (PISA, 2001; Brandi & Gurgel, 2002). No caso específico d o ensino de ciências, a utilização deste termo traz potencialidades para a discussão dos objetivos e das práticas efetivas de ensino de ciências, mas, como toda metáfora, devemos manter uma certa cautela quanto à sua utilização.

Se mantivermos as diferenciações dos termos originais, poderíamos pensar em diferenciar a alfabetização científica, como sendo referente à aprendizagem dos conteúdos e da linguagem científica, do letramento científico, como sendo referente ao uso da ciência e do conhecimento científico no cotidiano, no interior de um contexto sócio-histórico específico. Esta diferenciação não nos parece, contudo, estar sendo feita. Na verdade, no ensino de ciências, tem-se utilizado indiscriminadamente os termos alfabetização científica e letramento científico (Brandi & Gurgel, 2002; Santos, Gauche, Mol, Silva & Baptista, 2003), ambos referindo-se à importância de preparar o indivíduo para a vida em uma sociedade científica e tecnológica, na qual o conhecimento assume um papel essencial, dentro de uma perspectiva crítica da ciência e da tecnologia.

Acevedo, Vázquez e Manassero (2003) alertam para o perigo da banalização do termo e para a sua conseqüente perda de sentido. Eles utilizam o termo alfabetização científica para se referir àquilo que nos compreendemos como sendo o letramento científico e indicam que ele seria composto de três dimensões complementares: uma conceitual, uma procedimental e uma afetiva, que se revezariam em notabilidade no interior dos objetivos do ensino de ciências, conforme a perspectiva adotada.

## LETRAMENTO CIENTÍFICO E A ABORDAGEM CTS

Acevedo, Vázquez e Manassero (2003), apontam ainda a aproximação entre o letramento científico e os objetivos propostos pelo CTS. As três dimensões apontadas pelos autores parecem estar, de certa forma, contidas nesta abordagem, na medida em que se busca não somente compreender o conhecimento científico, sua condições de produção e utilização, mas possibilitar ao indivíduo a interação com os elementos científicos e tecnológicos da vida social.

Neste sentido, a formação de professores se constitui em um eixo fundamental para a transformação da realidade do ensino de ciências em nosso contexto educacional. Como promover o letramento científico dos alunos, dentro de uma perspectiva CTS, se os professores, em sua maioria, não são eles próprios letrados cientificamente? Ou ainda, se eles compreendem a ciência como um

conjunto de verdades que devem ser transmitidas aos alunos ou como um conjunto de técnicas e procedimentos de investigação, e não como uma prática social sócio-historicamente situada?

## ENSINO DE CIÊNCIAS PARA O INÍCIO DE ESCOLARIZAÇÃO

A partir destas preocupações procuramos desenvolver uma proposta de desenvolvimento de letramento científico para alunos da formação inicial para a docência em séries iniciais do ensino fundamental. O curso foi estruturado em três etapas principais. Na primeira, foram realizadas leituras e discussões acerca da natureza da ciência, dando ênfase a aspectos históricos e filosóficos e à problemática da natureza da ciência. Na segunda, foram abordadas as principais correntes do ensino de ciências, fazendo-se as possíveis relações com os contextos reais de ensino e com os materiais didáticos utilizados. A última parte da disciplina foi dedicada à elaboração de projetos de ensino de física para as séries iniciais do ensino fundamental.

O projeto deveria ser de temas que envolvessem a física e ter em seu bojo uma introdução (contendo as razões pessoais que levam o grupo a escolha do tema), justificativa (razões teóricofilosóficas para a escolha do tema), a caracterização do projeto (delimitação e relevância dos assuntos tratados), resgate histórico do tema (história da científica do tema), referencial teórico, mapa conceitual, análise de livros didáticos contendo o conteúdo do tema ou partes do conteúdo necessárias para compreensão do tema (1 a 4 série), estudo das concepções prévias de alunos do a a Ensino Fundamental sobre o tema, elaboração de textos didáticos, planejamento e descrição detalhada dos enfoques metodológicos, cronograma de desenvolvimento, seqüência didática, planos de ensino com seus respectivos objetivos de ensino, recursos didáticos a serem utilizados, etc. E além disso, o projeto deveria ser planejado de forma a ter pelo menos uma atividade experimental.

A análise de dados foi feita a partir do questionário respondido no início do curso, das transcrições feitas a partir das gravações em áudio e vídeo das aulas, do jornal reflexivo e das avaliações finais escritas pelos alunos. O questionário visava, além de identificar as expectativas dos futuros pedagogos com relação ao curso e a terem que vir a ensinar física, levantar suas concepções de ciência e de ensinar e aprender física. A partir da análise destes dados se procurou diagnosticar mudanças nas opiniões e atitudes dos alunos com relação ao ensino de física nas séries iniciais do ensino fundamental.

De um modo geral a análise dos dados indica mudança de atitudes dos alunos frente ao ensino de física nas séries iniciais do ensino fundamental. Há, também, evidências de mudança de opiniões com relação à importância de, já nas séries iniciais do Ensino fundamental, se ensinar física. Foram também constadas mudanças nas idéias dos alunos quanto ao valor que o conhecimento de filosofia da ciência têm para o professor de ciências. Essas mudanças podem ser observadas a partir das falas dos futuros pedagogos em sala de aula e quando esses descrevem suas expectativas sobre a disciplina, assim como quando descrevem suas opiniões sobre as atividades realizadas durante a disciplina (leitura, produção e discussão de textos e resenhas que incluíam desde textos de filosofia da ciência até textos sobre o ensino e aprendizagem de ciências e suas várias ênfases metodológicas).

Entretanto, parece ter sido o planejamento e a organização do projeto de ensino que parece ser o que mais os ajudou a mudarem suas opiniões e atitudes com respeito ao ensino de física nas séries iniciais do ensino fundamental. Dois aspectos referentes a esta atividade merecem destaque: a atividade d e pesquisa exigida para sua realização e a sua consolidação na forma de um texto escrito. Acreditamos que estes dois aspectos trazem importantes contribuições quanto à questão do letramento científico pois levam os alunos a assumir a posição do sujeito frente ao conhecimento,

na medida em que eles passam a questioná-lo. A prática da pesquisa, aliada à produção escrita, ajuda-os a consolidar uma postura ativa frente à própria aprendizagem, de maneira criativa e autônoma, facilitando a aproximação dos alunos aos conteúdos do conhecimento físico.

É interessante ressaltar que para que esse projeto pudesse ser produzido, da forma que foi, as contribuições dadas por cada uma das outras atividades desenvolvidas durante o curso, foram decisivas. Por isso que se afirmou que não há como pensar separadamente cada uma das partes elas formam um todo que não pode ser analisado separadamente. Essa experiência mostra caminhos plausíveis para melhorar as atitudes desses alunos em relação a este ensino. No entanto, é necessário ainda que se reflita muito sobre como melhorar o conteúdo disciplinar dos futuros professores das séries iniciais do ensino fundamental.

Acevedo, J. A., Vázquez, A. & Manassero M. A. (2003) Papel de la educación CTS en una alfabetización científica y tecnológica para todas las personas. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias. Vol. 2 No. 2. http://www.saum.uvigo.es/reec/volumenes/ volumen2/ Acessado em 18.08.2004.

Brandi, A . T. E. & Gurgel, C. M. do A. (2002) A Alfabetização Científica e o Processo de Ler e Escrever em Séries Iniciais: Emergências de um estudo de investigação-ação. Ciência & Educação, v. 8, no. 1, p.113-125. http://www.fc.unesp.br/pos/revista/pdf/revista8vol1/a9r8v1.pdf Acessado em 18.08.2004.

PISA (2001) Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - Relatório Nacional - Brasília, dez, 2001 -http://www.pisa.oecd.org/NatReports/PISA2000/Brazilnatrep.pdf, acessado em 23/11/2003.

Ribeiro, V. M. (1997) Alfabetismo Funcional: referências conceituais e metodológicas para a pesquisa. Educação & Sociedade, ano XVIII. No. 60. Dezembro de 1997.

Santos, W. L. P. dos, Gauche, R., Mol, G. de S., Silva, R. R. da & Baptista, J. de A. (2003) Letramento Científico e Tecnológico e Pesquisa Sobre Formação de Professores: Desafios e Questões Teórico-Metodológicas. Texto produzido para discussão no Workshop 'A pesquisa em educação química no Brasil: abordagens teóricas e metodológicas', sob coordenação do Prof. Eduardo Fleury Mortimer (UFMG), por ocasião da 26ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química - SBQ -, em 26/5/2003, em Poços de Caldas - MG.

Soares, M. Letramento e Alfabetização: as muitas facetas. (2004) Texto apresentado na 26 Reunião a da ANPED, Poços de Caldas. http://www.anped.org.br/26/outrostextos/semagdasoares.doc Acessado em 18.08.2004

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