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Concepções dos Professores das Ciências do Nível Médio sobre o Ensino da Tecnologia

Elio Carlos Ricardo, Rita De Cássia Espíndola Da Silva

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
27/01/2005
Linha de pesquisa
Alfabetização Científica E Tecnológica E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

1

## CONCEPÇÕES DOS PROFESSORES DAS CIÊNCIAS DO NÍVEL MÉDIO SOBRE O ENSINO DA TECNOLOGIA

a

Elio Carlos Ricardo [elio@ucb.br] Rita de Cássia Espíndola da Silva [rita-espindola@pop.com.br] a

a Universidade Católica de Brasília - Curso de Física

## RESUMO

O presente t rabalho discute a concepção de um grupo de professores do nível médio de uma escola pública de Santa Catarina sobre o ensino da tecnologia. A fonte de análise e coleta de dados foram entrevistas semi-estruturadas, na perspectiva de uma pesquisa qualitativa. As entrevistas envolveram professores de biologia, química, matemática e física, com ênfase para esta última. Verifica-se pelos resultados obtidos que predomina na escola uma visão estrita da tecnologia como o uso de computador, Internet ou vídeo. Há uma concepção de que as tecnologias são meras aplicações das ciências, desconsiderando-se os aspectos sociais, econômicos e culturais envolvidos na sua construção. A tecnologia como conteúdo e referência dos saberes escolares ainda parece distante do meio escolar.

Palavras-chave: ensino da tecnologia, concepções de professores, ensino de física

## INTRODUÇÃO

A escola é cada vez mais cobrada pelos alunos em atender suas expectativas e anseios para um tempo extra-escolar. Ou seja, exige-se que a escola lhes dê formação suficiente para enfrentar o mundo fora dela.

No entanto, essa não é tarefa fácil, pois a escola sozinha não poderia ser responsabilizada pela formação integral dos jovens que nela ingressam, embora tenha participação considerável na constituição desses sujeitos. Assim, muitas disciplinas e conteúdos ensinados na escola são colocados em questão. Em tempos de incertezas cresce a visão pragmática das coisas, no sentido de que deveriam ter uma aplicação, de preferência imediata.

Ocorre que essa não é a única finalidade da escola, pois há que se considerar aspectos amplos de uma formação geral que sirva de instrumento de cultura e também para uma compreensão do mundo que nos cerca. Poderia esse ser um dos objetivos do ensino das ciências e, em particular, da física? Se a resposta for afirmativa, então haveria necessidade de superar o ensino da ciência/física para além de um amontoado de informações e pré-requisitos, que parece corrente no nível médio, e partir para uma ciência/física articulada com o mundo tecnológico, a fim de proporcionar ao aluno sua compreensão e acesso a conteúdos modernos da própria ciência e/ou da física. Paralelamente a isso, como os professores de ciências, em especial de física, vêem a aproximação das tecnologias com o ensino das ciências? Esse será o objeto principal do presente texto.

## I. ASPECTOS METODOLÓGICOS

A preferência aqui foi por uma pesquisa qualitativa, utilizando-se de entrevistas semi-estruturadas para análise e coleta de dados. A escolha desse enfoque de investigação visa a privilegiar as práticas sociais em seu ambiente, exigindo-se do pesquisador um contato direto com o contexto no qual ocorre o fenômeno educacional que se pretende estudar (Triviños, 1987).

A entrevista semi-estruturada se apresenta como uma alternativa viável para a coleta e a análise dos dados, pois possibilita aos entrevistados a condição de sujeitos da pesquisa e dá a eles liberdade para expressarem suas opiniões e reflexões dentro de temas propostos pelo investigador (Richardson, 1985). Dentro do tema 'ensino da tecnologia', o principal sub-tema das entrevistas foi: a inclusão das tecnologias no ensino das disciplinas científicas e da matemática.

Foram entrevistados doze professores, das disciplinas de biologia, física, química e matemática de uma escola pública de grande porte da cidade de Florianópolis, Santa Catarina 1 . A opção por envolver as quatro disciplinas buscava descrever um cenário para a área das Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, conforme estabelecem os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, embora seja dada maior ênfase à disciplina de física.

## II. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

O que se queria verificar era a concepção dos professores sobre a inclusão das tecnologias como conteúdos de ensino no nível médio, associadas às disciplinas científicas. Em razão do pouco espaço, serão apresentadas aqui apenas algumas declarações dos professores, mas que servirão para ilustrar o cenário escolar. Uma primeira verificação, que foi unânime entre os doze entrevistados, é a associação, ou redução, da tecnologia ao uso da informática em sala de aula, conforme se observa nas falas abaixo:

'Temos aqui uma sala com informática, onde tem também uns programinhas que o aluno vai acessando e avançando no conteúdo. Tudo isso soma. Eu acho que os alunos hoje estão mais ligados nesse meio e têm acesso rápido, a mecânica do funcionamento deles é prática, alguma coisa é familiar para alguns deles e para outros, que não é familiar, vão se adaptando até por curiosidade.' (P1 - professor de química)

'Sim, que tecnologia se não dão nem um computador para nós trabalharmos? Olha aí o nosso computador, é um 286. E nós já estamos no Pentium 4. Que tecnologia que eles dão para nós?' (P6 - professor de física)

'A minha impressão é a melhor possível, porque como a gente está, digamos assim, evoluindo científica e tecnologicamente, até agora é uma fase de transição, não da tecnologia, mas sim da educação, está sendo voltada mais para a ciência e tecnologia, então está passando, por exemplo, pela informática. Formação na informática para os alunos seria muito bom.' (P3 - professor de física)

Essas declarações apontam para a estreita relação que há entre a tecnologia e o uso de aparatos tecnológicos em sala. O professor P1 acima sugere que essa atividade com o uso de

computadores acaba por envolver os alunos, nem que seja pela curiosidade, como destaca. E, o professor P3 acima, embora reconheça a presença da ciência e da tecnologia no cenário atual, reduz esta ao emprego do computador. Outra concepção em relação à tecnologia é o uso de meios audiovisuais, como vídeo:

'E aí eu penso que uma sala de aula tem que ter um vídeo, computador e uma televisão grande para que o aluno manuseie e tenha acesso a conhecimentos imediatos, mas não tem, essa sala não existe aqui.' (P2 - professor de química)

'No vídeo aqui no laboratório nós já trabalhamos. Eu passo algumas fitas aí, eu passo uma fita de dez minutos, minha aula é de quarenta e eu aproveito o restante no quadro, repasso o conteúdo, reforço.' (P1 - professor de química)

Esses recursos audiovisuais são utilizados, com freqüência, para se trabalhar o conteúdo disciplinar e não como fonte de discussão sobre a tecnologia, como se poderia fazer com algum vídeo, por exemplo. Alguns professores, porém, observam que há certas limitações no uso que fazem do computador:

'Nós temos um laboratório aqui, que tem alguns programas ali. A única novidade é que usa o computador, mas é como se estivesse escrevendo, é mecânico também.' (P8 - professor de matemática)

- 'O nosso colégio tem um setor de informática e tem algumas aulas prontas que o professor pode levar os seus alunos para trabalhar direto com o computador, mas poderia ter [alguma] coisa além disso.' (P10 - professora de matemática)

O professor P8 acima aponta um problema relevante, que é o de aproveitar pouco os recursos dos programas de computadores e reconhece que pouco muda na abordagem dos conteúdos. Há ainda algumas concepções quanto ao status atribuído à tecnologia frente a ciência. Uma das declarações ilustra essa questão:

'A física aplicada à tecnologia, certo? Esquecer o substrato da física e trabalhar com a parte aplicada dela. É isso? Pois é, é aquela história, a física ela é uma ciência básica. Acho que é uma ciência que pesquisa, que procura explicar fenômenos e tudo mais. Eventualmente, por explicar fenômenos, é que ela conseguiu fazer tecnologias. A tecnologia usou a física para se desenvolver; a tecnologia surgiu depois da física. É claro que para motivação do aluno eu acho que é interessante, mas não se esquecer a ciência básica que ela continua sendo. (...) Vira uma engenharia.' (P5 - professor de física)

Essa última fala expressa bem a visão da tecnologia como ciência aplicada, ou o seu ensino como mera motivação para se introduzir os conceitos científicos que, na maioria das vezes, não têm relação com a tecnologia que lhe 'motivou'.

## III. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um dos motivadores para a inserção das tecnologias como conteúdos de ensino são os PCNs+ (Orientações Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais). Ocorre, todavia, que a tecnologia associada às disciplinas científicas nada tem a ver com as concepções apresentadas acima. Tampouco se pretende subordinar o ensino médio aos processos produtivos ou aos meios de

produção. O ensino da tecnologia, assim como da ciência/física, não teria um fim em si mesmo, mas seria meio para compreensão e intervenção no mundo contemporâneo (Brasil, 2002).

O que se pretende é que o aluno compreenda as implicações sociais da tecnologia e saiba negociar, como defende Fourez (1997 e 2003), com os aparatos científico-tecnológicos que estão presentes no dia a dia. Destaca ainda o autor que a visão de que a tecnologia é uma aplicação da ciência nega as implicações sociais, econômicas e culturais que envolvem a construção de uma tecnologia.

A tecnologia poderia também ser referência de conteúdos a serem ensinados formalmente na escola. Ou seja, se se pegar, por exemplo, a competência de: 'compreender o funcionamento de circuitos oscilantes e o papel das antenas para explicar a modulação, emissão e recepção de ondas portadoras como no radar, rádio, televisão ou telefonia celular' (Brasil, 2002, p.77). Seria possível associar a essa competência conteúdos da eletrônica, que usualmente não aparecem nas aulas de física e é tratada como sendo uma tecnologia. Aliado a isso, o enfoque CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) vem chamando a atenção dos professores para a necessidade de uma efetiva alfabetização científica e tecnológica como fundamental na sociedade moderna. Esses objetivos amplos não se atingem com uma visão restrita das tecnologias como mera aplicação da ciência ou como o simples uso de aparatos tecnológicos em sala de aula, como computador e vídeo.

## IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL, MEC, SEMTEC. PCNs+ Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC, SEMTEC, 2002.

FOUREZ, Gérard. Alfabetización Científica y Tecnológica: acerca de las finalidades de la enseñanza de las ciencias. Traducción de Elsa Gómez de Sarría. Buenos Aires: Ediciones Colihue, 1997.

FOUREZ, Gérard. Crise no Encino de Ciencias? Investigações em Ensino de Ciências, Porto Alegre, v.8, n.2, 2003.

RICHARDSON, Robert Jerry et al .. Pesquisa Social: métodos e técnicas. São Paulo: Atla, 1985.

TRIVIÑOS, Augusto N. S.. Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.

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