FÍSICA - FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O NÍVEL MÉDIO COM ATIVIDADES NO NÍVEL ELEMENTAR
Eugenio Maria De França Ramos, Bernadete Benetti
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Formação Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2005
Texto completo
1
## FÍSICA - FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O NÍVEL MÉDIO COM ATIVIDADES NO NÍVEL ELEMENTAR
Eugenio Maria de França Ramos [eugenior@rc.unesp.br] a Bernadete Benetti [b.benetti@uol.com.br] b
a Departamento de Educação - Instituto de Biociências - UNESP - Campus de Rio Claro b Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar - UNESP - Campus de Araraquara
## RESUMO
O estágio de docência tem sido considerado como atividade fundamental na formação de futuros p rofessores. No caso da formação de professores de Física tal atividade tem ficado restrita ao trabalho com o nível Médio da estrutura escolar brasileira, com alunos na faixa etária de 15 a 17 anos. Entretanto, a atividade com as séries escolares iniciais do Ensino Fundamental, com alunos de 7 a 11 anos de idade, tem se mostrado significativa para a formação de futuros docentes, oferecendo, por várias razões, um contraponto positivo ao que se observa quando o trabalho de estágio se restringe ao Ensino Médio. Apresentamos neste trabalho essa experiência de formação e discutimos, partindo de idéias de Michael Polanyi, como aspectos explícitos e tácitos da prática docente oferecem condições para a melhoria de qualificação de futuros docentes de Física.
## INTRODUÇÃO
Os alunos formados no curso superior de Licenciatura em Física, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), no Campus de Rio Claro, Estado de São Paulo, Brasil, podem atuar no Ensino Médio, que na estrutura escolar brasileira atende alunos de 15 a 17 anos da escolaridade regular. Dessa forma é bastante comum que o estágio supervisionado de docência na formação inicial fique restrita a esta faixa etária.
Entretanto temos realizado desde 1999, atividades no Ensino Médio e também nas primeiras séries do Ensino Fundamental, na faixa normalmente chamada Ensino Elementar, que atende alunos de 7 a 11 anos de idade, ou seja, que iniciam a escolaridade regular no Brasil. Essa atividade não é rotineira para as escolas que oferecem oportunidades para os alunos atuarem como docentes e, como é previsível, para os próprios alunos do curso de Formação de Docentes em Física.
Algumas situações criadas por essa atividade aqui relatada chegam a ser cômicas. Uma delas é que para iniciar este tipo de trabalho foi necessário pedir a escolas de Ensino Fundamental a cessão de algumas aulas. As diretoras das escolas abordadas invariavelmente consideraram 'Física' como a mera abreviatura de Educação Física, ou seja, ficavam muito felizes que alguém da Universidade viesse fazer essa oferta e diziam que as crianças estavam mesmo precisando de ... ginástica. Essa felicidade em geral se transformava em perplexidade ao se explicar que se tratava de uma parte da disciplina de Ciências ... Entretanto, passado este susto inicial o trabalho sempre foi bem acolhido e valorizado. Hoje em dia essas escolas são parceiras do trabalho de formação de professores de Física, garantindo anualmente o oferecimento desta atividade.
Outra situação cômica e interessante (ou talvez trágica se considerarmos o ponto de vista da outra parte ...) se dá com os alunos de Prática de Ensino. Eles em geral ficavam mais perplexos que as diretoras com a possibilidade de trabalhar com crianças pequenas . Alguns até mesmo chegavam 1
a se revoltar com a proposta. Mas, passado o susto inicial, o que se observa é um envolvimento crescente dos estagiários com esse trabalho. Muitos chegam ao final do semestre letivo destacando, espontaneamente, a grande capacidade de aprendizado das crianças. Destacam também as dificuldades conceituais de Física que enfrentam para dar conta da curiosidade, das perguntas e solicitações de seus pequenos alunos.
## OBJETIVOS:
Pretende-se relatar o trabalho de formação inicial de docentes de Física, realizada na Universidade Estadual Paulista (UNESP), no Campus de Rio Claro, São Paulo, particularmente no que se refere a atividades desenvolvidas no ensino do nível elementar e médio, no âmbito da disciplina Prática de Ensino. Discute-se também as implicações da imersão desses futuros professores no trabalho educacional, considerando-se as noções de conhecimento tácito e explícito.
## DESCRIÇÃO
No trabalho com o Ensino Médio há uma preocupação excessiva - em alguns casos extremos, exclusiva - dos licenciandos quanto a conhecimentos matemáticos da Física. Isso tem se mostrado uma perigosa armadilha para o estágio, pois sempre o conhecimento dos alunos do Ensino Médio está aquém do desejado pelo estagiário e a conclusão inexorável é que 'não é possível ensinar Física, pois os alunos não sabem Matemática' . 2 De fato a Matemática é uma linguagem fundamental para a Física mas não a ponto de impedir qualquer trabalho com esse conhecimento, podendo até mesmo proporcionar uma ajuda para suprir estas deficiências. O trabalho com as séries elementares do Ensino Fundamental acirra justamente essa questão, colocando os estagiários em uma situação limite de ensinar Física a quem não sabe suficiente matemática para receber um ditado enfadonho de fórmulas (como ocorre muitas vezes no Ensino Médio) ou nem mesmo é alfabetizado em linguagem, como a maior parte dos alunos da primeira série.
Outro aspecto importante é o envolvimento dos alunos no trabalho educativo. No Ensino Médio é muito freqüente encontrar alunos desencantados com a escola e com o processo educativo. Esses alunos muitas vezes não se mostram curiosos pela Física ou desafiados por esse conhecimento. Ao trabalhar apenas com o Ensino Médio era freqüente ouvir dos estagiários que estavam desanimados com a Licenciatura e que não consideravam essa atividade profissional estimulante. Ao iniciar o trabalho com o Ensino Fundamental esse quadro se transformou de maneira radical. Muitos estagiários falam ao final do semestre letivo que em seu trabalho no Ensino Fundamental eles ensinam Física, enquanto que no Ensino Médio não conseguem fazer isso.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esses dois níveis de atuação (Ensino Fundamental e Ensino Médio) permitem aos estagiários perceber que o processo educativo não se restringe apenas ao espaço de suas aulas no Ensino Médio, afinal a escolarização é uma atividade coletiva, de vários professores em vários anos. Assim sendo, ensinar Física não se restringe ao Ensino Médio. Para os estagiários isso parece natural somente a partir da 7ª ou 8ª série do Ensino Fundamental, mas nunca da 1ª série. Quando esses
futuros professores chegam na disciplina de Prática de Ensino muitos deles (a maioria) desconhecem as propostas curriculares oficiais para o ensino de Física. Em particular desconhecem que a Proposta Curricular do Estado de São Paulo para o Ensino de Ciências, bem como os Parâmetros Curriculares Nacionais, sugerem aos professores o trabalho com Física desde a primeira série do nível elementar (alunos de 7 anos de idade).
Os estagiários colocados diante da necessidade de ensinar Física a alunos que estão iniciando sua alfabetização, são desafiados a repensar atitudes tradicionais e concepções de ensino. Conhecimentos tácitos são questionados quando percebem que alunos com pouca habilidade na linguagem escrita conseguem compreender conhecimentos de Física, ser curiosos e questionadores.
Por outro lado, a imersão no ambiente escolar e ampliação das perspectivas de ensino, em particular do ensino da Física, evidenciam que somente o conhecimento explícito é insuficiente frente ao quadro complexo da atividade de ensino. Cabe aos estagiários mobilizar seus conhecimentos (tácitos e explícitos) para conseguir enfrentar o desafio proposto e repensar como a Física pode ser apresentada aos alunos em todos os níveis de escolaridade.
## BIBLIOGRAFIA
BRASIL, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Estudo do Inep mostra que 41% dos estudantes não terminam o ensino fundamental. http://www.inep.gov.br/imprensa/noticias/outras/news03\_6.htm, 11/03/2003.
BRASIL, Ministério de Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais. Brasília, 1998. 138 p.
FERREIRA, F. & CAMARGO, P. Um cálculo no meio do caminho. Jornal Folha de São Paulo, Caderno Sinapse, 25 de fevereiro de 2003, pág. 8 a 14.
POLANYI, Michael. El estudio del hombre. Buenos Aires: Paidós, 1966.
POLANYI, Michael. Tacit Dimension. Peter Smith, 1983.
RAMOS, E. M. de F. Brinquedos e jogos no ensino de física. São Paulo, 1990. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências: modalidade Física) - Instituto de Física e Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo
UNESCO. Jeux et jouets dans l'ensaignement des sciences et de la technologie - tradução Denise Ferreira, Paris, UNESCO, 1989.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.