Formação de Professores: Relato da Experiência do Curso de Especialização em Ensino de Física do Departamento de Física da Universidade Federal de Ouro Preto.
Carlos Joel Franco, Rubens Dias Campos, Jonas Duval Cremasco
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Formação Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FORMAÇÃO DE PROFESSORES: RELATO DA EXPERIÊNCIA DO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE FÍSICA DO DEPARTAMENTO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
Carlos Joel Franco (cjoelfra@iceb.ufop.br), Jonas Durval Cremasco, Rubens Dias Campos. Departamento de Física, Universidade Federal de Ouro Preto.
## 1) INTRODUÇÃO
O processo de ensino-aprendizado tem por objetivo principal possibilitar aos alunos tomar posse de um conjunto de conhecimentos que permitam a eles ter uma inserção positiva dentro do estrato social em que estão inseridos, para que possam atuar como agentes transformadores e promotores do bem estar social [1] . Durante os três últimos séculos, diversas correntes se alternaram propondo metodologias e técnicas diversificadas que possibilitavam ao jovem tomar posse de um determinado conjunto de conhecimentos escolhidos de acordo com a realidade e conjuntura do momento. Independentemente da corrente (escola clássica, escola nova, construtivismo etc.), existe no processo ensinoaprendizado dois agentes: o professor e o aluno. Para que o aluno tenha uma perfeita assimilação dos conteúdos e estes possam agir como elementos transformadores de sua vida, ele deve ser motivado e estimulado pelo professor, que por sua vez deve ter um domínio perfeito do assunto que está abordando. Assim, em princípio, o professor, conhecedor de sua área específica e detentor de uma bagagem cultural rica e abrangente, terá cumprido sua missão se conseguir promover o crescimento do aluno de forma segura e consciente em termos de conteúdos específicos e de sua evolução cultural e intelectual.
No Brasil, com a reforma da educação nos anos 70, priorizou -se a massificação da escola pública, principalmente com o objetivo de atender a totalidade das crianças e adolescentes em idade escolar. Construíram escolas, doaram livros, forneceram merendas, mas se esqueceram de qualificar convenientemente o outro agente do processo ensinoaprendizado: o professor. O processo de formação de professores de Física, Química, Biologia e Matemática do ensino médio não têm conseguido preparar professores em quantidade e qualidade para desempenhar o papel de motivador e incentivador do jovem, para promover sua inserção positiva na sociedade. Desta forma, a maioria dos adolescentes que conclui o ensino médio sai com uma formação deficitária, levando consigo uma bagagem mínima e fragmentária de um saber que não será útil durante sua vida. Os jovens que ao saírem da escola média conseguem entrar numa universidade, levará consigo toda carga de carências da sua formação, que se manifesta logo no primeiro contato do aluno com as disciplinas básicas lecionadas na universidade.
Professores do Departamento de Física - DEFIS da Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP constataram no seu dia-dia este quadro de deficiências e carências dos alunos que ingressavam nos cursos de Engenharia, Física, Química e Matemática e procuraram equacionar o problema, buscando uma estratégia para minimizar este quadro dramático. Tendo em consideração que uma parcela dos alunos destes cursos era proveniente de Ouro Preto e cidades vizinhas e que nesta microrregião, no ano de 1996, apenas um professor de Física possuía habilitação para lecionar este conteúdo, o DEFIS/UFOP criou o Curso de Especialização em Ensino de Física. O objetivo central do curso era melhorar a qualidade
do professor do ensino médio fornecendo-lhe conteúdos teóricos e práticos de Física Básica, para que numa etapa subseqüente o aluno formado por ele pudesse ser mais bem preparado para ingressar em uma universidade ou para atuar de forma mais digna na sociedade.
## 2) ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM ESINO DE FÍSICA DO DEFIS/UFOP
Seguindo as normas da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, e da resolução 12/83 do Conselho Federal de Educação, o DEFIS/UFOP estruturou o Curso de Especialização em Ensino de Física, com 380 h/a e as seguintes disciplinas: Análise e Prática do Ensino de Física - 60 h/a, Métodos Matemáticos em Física - 20 h/a, Mecânica - 45 h/a, Eletromagnetismo - 45 h/a, Física Térmica - 45 h/a, Física Moderna -45 h/a, Oscilações e Ondas 45 h/a, Seminários de Ensino -15 h/a, Fundamentos da Física Moderna - 30 h/a e Instrumentação para o Ensino de Laboratório de Física -30 h/a. Tendo como objetivo fazer com que o aluno tenha um contato mais prolongado com a universidade durante o período de realização do curso, este foi dividido em quatro módulos: primeiro módulo - 140 h/a, realizado durante o primeiro semestre, de março a junho; segundo módulo - 45 h/a, realizado no mês de julho; terceiro módulo - 145 h/a, realizado durante o segundo semestre, de agosto a dezembro; quarto módulo - 50 h/a, realizado durante o mês de janeiro do ano seguinte. As aulas do primeiro e do terceiro módulos são lecionadas às sextas-feiras e aos sábados, com os alunos comparecendo à universidade uma vez a cada quinze dias. O segundo e quarto módulos são intensivos com 40 horas semanais. As cinco disciplinas de conteúdos de física contemplam 30 h/a com aulas teóricas e 15 h/a com aulas práticas. Para integralizar o curso e receber o certificado de Especialista em Ensino de Física, o aluno deve ser aprovado em todas as disciplinas e elaborar uma monografia sobre um tema escolhido por ele e supervisionado por um professor do DEFIS/UFOP. Todos os vinte professores do DEFIS/UFOP participam do curso, quer ministrando aulas quer orientando os alunos na elaboração da monografia. A administração do curso é efetuada por um colegiado composto por quatro professores e um aluno, e possui um coordenador pedagógico e um coordenador administrativo.
O ingresso no curso se dá mediante um processo seletivo, divulgado amplamente em todo Estado de Minas Gerais através das Delegacias Regionais da Secretaria de Educação e da página eletrônica da UFOP na Internet e ocorre geralmente em novembro. Os critérios de seleção levam em consideração a formação acadêmica, o tempo de serviço e a carga horária do candidato em ensino de física na escola pública, de modo a criar, principalmente, para o professor da escola pública uma oportunidade para melhorar os seus conhecimentos de Física, permitindo-lhe melhorar a qualidade da sua aula. O número de vagas em 1997, no primeiro ano do curso foi vinte e cinco e, foi aumentando, progressivamente, até atingir trinta e seis no ano de 2004. No primeiro ano, o curso contou com cinco bolsas de especialização oferecidas pela CAPES, dadas aos cinco primeiro classificados no processo de seleção. Posteriormente, este recurso foi extinto. Nos últimos três anos, o curso passou a cobrar taxas para participar do processo seletivo, enquanto que os alunos selecionados passaram a pagar o curso em duas parcelas, no início do primeiro e terceiro módulos.
## 3) PERFIL DOS CANDIDATOS
A procura pelo curso sempre foi maior que o número de vagas oferecidas, chegando a três candidatos por vaga nos anos 2000 e 2001. Desde a sua criação em 1997, mais de quinhentos candidatos participaram do processo seletivo para ingressar no Curso de Especialização. Estes candidatos são provenientes de todas regiões de Minas Gerais, com uma concentração maior de candidatos oriundos da região metropolitana de Belo Horizonte, de onde provém quase a metade deles. Quanto à formação superior dos candidatos, observa-se também uma certa dispersão, mas a grande maioria, de aproximadamente 75%, é constituída por licenciados em Matemática, com habilitação para lecionar Física, e aproximadamente 20% são Engenheiros, que fizeram ou não curso para se habilitar a lecionar os conteúdos de Física para o ensino médio. Menos de 5% possuem formação de Licenciatura ou Bacharelado em Física. Através deste quadro, pode-se ter uma radiografia do perfil do professorado de Física da escola publica de Minas Gerais. Ao nos remetermos ao proposto nos Parâmetros Curriculares Nacionais para a matéria Física e considerarmos o quadro evidenciado por nós, somos remetidos também às origens dos gargalos e das mazelas do ensino de Física na escola média. A grande maioria dos professores do ensino médio não possui formação específica e adequada para lecionar os conteúdos de Física, que é uma ciência atraente e se encontra presente em tudo o que nos cerca, mas é exigente em termos da compreensão dos seus princípios básicos. Sem esta vivência e conhecimento por parte do professor, ele transmite ao jovem a falsa idéia de que a Física é um amontoado de fórmulas de difícil compreensão, descolada da realidade e que não serve para nada.
## 4) RESULTADOS ALCANÇADOS PELO CURSO
Durante os oito anos de vigência do curso, percebemos que os nossos objetivos iniciais foram em parte alcançados e em parte extrapolamos a nossa expectativa. Desde 1997, mais de duzentos e cinqüenta professores do ensino médio, provenientes de mais de oitenta cidades de Minas Gerais já freqüentaram o Curso e aproximadamente 60% concluíram o curso, tendo elaborado a monografia de final de curso e recebido o certificado de Especialista em Ensino de Física.
Fazendo uma análise comparativa dos alunos antes, durante e depois de concluírem o curso, pode se observar modificações bastante acentuadas na maioria deles. Verificamos que o formato do curso que requer a presença do aluno na universidade durante um ano, permite uma boa vivência do ambiente acadêmico, estimulando alguns deles a realizar programas de pós-graduação stricto-sensu (Mestrado). O nível de compreensão dos fenômenos físicos, em geral, melhorou bastante, pois a formação prévia da grande maioria é precária e deficitária, muitos têm dificuldade para compreender os livros textos de Física disponíveis para a escola média [2] , se limitando a utilizar apostilas elaboradas por cursos pré-vestibular que são bem mais simples, muitas vezes um resumo da matéria. A grande maioria não possui nenhum conhecimento laboratorial e fica deslumbrada quando realiza as atividades práticas do curso, confessando ser a primeira vez que participa de tais atividades. Aqui em nossa opinião cabe uma indagação crucial: se a Física é uma ciência em que o experimento joga um papel crucial e se o professor desconhece os experimentos que são realizados para evidenciar os fenômenos físicos, o professor está ensinando Física ? Deste
modo o processo ensino-aprendizado não se faz com eficiência, pois um dos agentes do processo, o professor, desconhece parte do que deseja ensinar e não é possível compartilhar conhecimentos e experiências que não se adquiriu. Nessas condições, o ensino de física não contribui para que os alunos possam ter uma inserção positiva na sociedade em que vivem. Este contato do professor do ensino médio com um Curso de Especialização que prioriza o conteúdo tem se mostrado eficiente e um diferencial que torna o nosso curso uma experiência ímpar dentre as diversas que conhecemos.
A necessidade de se elaborar uma monografia de final de curso tem se revelado um momento importante para os alunos, pois a grande maioria nunca escreveu um texto de algumas páginas. É uma experiência nova para eles, pois necessitam estudar um determinado assunto, compreender e re-elaborar o texto com suas próprias palavras ou, em outros casos, relatar uma experiência alternativa para trabalhar com um determinado conjunto de conteúdos. A maioria das monografias versa sobre temas específicos de Física e algumas sobre a História da Física. Existem também trabalhos que descrevem relatos de experimentos realizados pelos professores em sala de aula, como a utilização de uma metodologia diferente para ensinar eletrodinâmica ou o uso de sucata para realizar experimentos demonstrativos sobre um tema específico.
Outro aspecto positivo que observamos é o contato mais prolongado e continuado do aluno com a universidade, permitindo a ele vivenciar o ambiente universitário e assimilar um pouco da cultura presente neste ambiente. Isto sem contar o fato de Ouro Preto ser uma referência cultural importante, possuindo um conjunto arquitetônico único no Brasil, além de museus, igrejas e um observatório astronômico. Isso permite ao aluno um contato com outros saberes, tornando sua bagagem cultural mais rica e abrangente, o que certamente irá influenciar na sua prática como professor.
Quanto ao nosso objetivo inicial, que era o de melhorar a qualidade dos professores de Física do ensino médio da região de Ouro Preto, para que os alunos que ingressam UFOP fossem preparados mais apropriadamente, ainda não foi possível quantificar com clareza, mas já podemos constatar a presença de ex-alunos dos professores do ensino médio que cursaram o Curso de Especialização entre os alunos dos nossos cursos na universidade. Este fato mostra que ao trazer o professor do ensino médio para a universidade, ele passa a ser uma referência para seus alunos, constituindo em ponte entre a escola média e a universidade.
## 5) CONCLUSÃO
Após oito anos de atuação do Curso de Especialização em Ensino de Física do DEFIS/UFOP, pode-se concluir que se ainda não há evidência de que os objetivos que propusemos inicialmente foram atingidos, alcançamos outros que sequer imaginávamos no momento da criação do curso. Se inicialmente tínhamos a intenção de ter uma atuação regional, hoje já alcançamos todas as regiões de Minas Gerais. Através da atuação do curso, podemos traçar um perfil do professorado de Física das escolas públicas de Minas Gerais. Podemos, também localizar os pontos de deficiência dos professores e ter uma idéia de como sanar estes problemas. O nosso maior problema é que somos um departamento pequeno e trabalhamos com poucos professores do ensino médio por ano. Assim, a atuação
é pontual num universo amplo, como é o do professorado de Física do ensino médio de Minas Gerais e, para que modificações mais profundas possam ser produzidas, o número de professores que deveriam passar por um processo de formação semelhante por ano deveria sem muito mais abrangente do que estamos conseguindo fazer.
## 6) REFERÊNCIAS
- 1) BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, SECRETARIA DE EDUCAÇÃO MÉDIA
- E TECNOLÓGICA, Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio. Brasília: Ministério da Educação, 1999.
- 2) MAXIMO, A., ALVARENGA, B. A., Curso de Física, v. I, II, III, São Paulo, SP, Scipione, 2000.
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