FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA: INTERPRETANDO AS MARCAS DE REFERENCIAIS TEÓRICOS NO DISCURSO DE LICENCIANDOS
Sérgio Camargo, Roberto Nardi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Formação Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA: INTERPRETANDO AS MARCAS DE REFERENCIAIS TEÓRICOS NO DISCURSO DE LICENCIANDOS 1
Sérgio Camargo [(scamargo@fc.unesp.br)] a Roberto Nardi [(nardi@fc.unesp.br)] b
- a Mestre em Educação para a Ciência - Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências - Faculdade de Ciências - UNESP -
Câmpus de Bauru. b Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências - Professor Assistente Doutor - Depto. de Educação - Faculdade de
## RESUMO
A pesquisa aqui descrita teve como meta avaliar o impacto de um curso estruturado de Prática de Ensino numa amostra de alunos da Licenciatura em Física submetidos à situação de estágio de regência. Dados referentes à análise da apropriação do discurso do professor de Prática de Ensino pelos licenciandos, extraídos da leitura de relatórios de regência elaborados ao final do estágio, mostram, dentre outros aspectos, que a ideologia implícita no discurso dos futuros professores reforça, de um modo geral, o paradigma da racionalidade técnica, muito embora os enunciadores dos discursos analisados tenham tentado apresentar os conteúdos de acordo com os referenciais teóricos estudados. Em vários excertos analisados persiste explicitamente uma dissociação entre a teoria e a prática. Esses dados, bem como outros obtidos na pesquisa, podem subsidiar discussões para repensar a formação inicial e continuada de professores de Física.
## INTRODUÇÃO
É possível afirmar que, de uma maneira geral, o Ensino de Física em nossas instituições de ensino vem se processando dentro de um paradigma embasado na racionalidade técnica, tanto a nível médio quanto superior. Nessa concepção epistemológica não é levado em consideração às complexas relações existentes entre o processo de ensino e aprendizagem. Nesse modelo de ensino o professor é visto como um técnico que aplica os princípios que decorrem do conhecimento científico, ou seja, os saberes gerados pelos especialistas externos à escola.
A fim de reverter os efeitos desse modelo de racionalidade técnica, os estudos de Schön (1992) vêm sendo tomados nas últimas décadas como referência, ao sinalizar para uma epistemologia da prática, fundamentada na reflexão sobre a ação , como alternativa para a formação de um profissional "prático, autônomo, que pensa, que toma decisões e que cria, durante a sua própria ação" em contraste àquele "técnico especialista que aplica com austeridade as regras que derivam do conhecimento científico". Esse profissional prático reflexivo, segundo Schön, deve ostentar um papel ativo na construção de seu saber. A importância do conhecimento adquirido na ação é enfatizada por Schön (1992) ao criticar o conhecimento escolar caracterizado pela previsibilidade e pelo controle.
O autor alerta para o fato de que, muitas vezes, o conhecimento passa a ser tratado como se existisse numa única via, com resposta exata e inquestionável; o que não corresponde à verdade, pois, o conhecimento pode se manifestar de várias formas. Assim, a reflexão na ação é implícita e surge junto com a própria ação; ou seja, esta reflexão decorre simultaneamente à própria situação, não implicando necessariamente uma expressão por palavras. O autor refere-se à importância da confusão e da incerteza, sendo impossível aprender sem ficar confuso. A atitude de reconhecer o valor desses aspectos conduz a uma negação de que o saber é constituído por proposições firmadas na seqüência de pesquisas, e que ele é definido por 'autoridades científicas'. Segundo Schön (1992), 'o grande inimigo da confusão é a resposta que se assume como verdade única'; assim, se 'só houver uma única resposta certa que é suposto o professor saber e o aluno aprender, então não há lugar legitimo para a confusão'.
Dessa forma, é necessário que o profissional entenda que faz parte de um sistema complexo, mas que, no entanto deve evitar deixar-se moldar por este sistema; pelo contrário, existe a possibilidade de transformá-lo e
transformar-se, entendendo o contexto no qual se está inserido, ao refletir sobre as próprias práticas pedagógicas. Incentiva-se assim o surgimento de uma competência pedagógica a partir da reflexão sobre a prática que, em um movimento de ação-reflexão-ação, caminha para um menor distanciamento entre a teoria e a prática. Entendendo sempre que, entre uma determinada teoria que se pretende assumir e a prática a que se quer dar novo significado, existe a teoria do sujeito, a qual se constrói a partir das indagações daquilo que ele faz. Considerando essa possibilidade, o sujeito poderá despertar sua consciência crítica, passando a questionar o conhecimento e a si próprio.
A pesquisa aqui descrita foi desenvolvida no âmbito da formação inicial de professores de Física, mais especificamente na avaliação de um programa de Prática de Ensino de Física estruturado pelo docente responsável pela disciplina a partir de referenciais teóricos derivados da pesquisa em Educação em Ciências, mais especificamente, em Ensino de Física. Na disciplina de Prática de Ensino de Física o docente responsável privilegiou um processo educativo sistematizado a partir do diálogo e da reflexão sobre a ação. A disciplina foi ministrada nos dois semestres letivos de 2001, num total de 150 horas de atividades. No segundo semestre, com base nas atividades realizadas no primeiro semestre, os licenciandos planejaram e ofereceram aos alunos do Ensino Médio de um colégio público da região, um curso de 68 horas de atividades, constituído de módulos sobre as diversas partes da Física normalmente presentes no currículo do Ensino Médio: Mecânica, Termologia, Óptica, Eletricidade e Magnetismo e Noções de Física Moderna e Contemporânea. O Curso foi alicerçado em um processo educativo sistematizado a partir do diálogo e da investigação da ação docente, buscando incorporar nas ações dos futuros docentes algumas abordagens derivadas de pesquisas recentes sobre a Educação em Ciências. O curso foi denominado 'O outro lado da Física' e tinha por meta proporcionar aos alunos do Ensino Médio, bem como aos licenciandos, uma visão alternativa de aprendizagem, centrada numa abordagem dialógica, na problematização dos conteúdos e respeitando estudos derivados da pesquisa em Ensino de Física, tais como: a preocupação com a inserção da História e Filosofia da Ciência no ensino; o respeito às concepções prévias ou alternativas dos alunos no planejamento e desenvolvimento das atividades de ensino; a inserção de tópicos de Física Moderna nas aulas; e o favorecimento de discussões sobre as relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade.
No final desse curso oferecido pelos licenciados, como uma das atividades da disciplina Prática de Ensino (na forma de Estágio Supervisionado), foi solicitado aos licenciandos que preenchessem o relatório de regência, individualmente, e uma das partes desse relatório contava de um relato individual, em forma de diário, da seqüência de aulas ministradas pelo seu grupo no Ensino Médio. Todas as aulas deste curso foram registradas em vídeo, coletando-se material para análise/reflexão em encontros com todos os licenciandos, realizados quinzenalmente durante todo o processo, após a conclusão de cada um dos módulos lecionados, visando à reflexão sobre suas práticas, segundo os referenciais teóricos propostos pelo docente da referida disciplina, os quais, conforme anteriormente relatado, já haviam sido discutidos no semestre anterior.
A pesquis a procurou avaliar, ao final do processo, que marcas dos referenciais teóricos trabalhados pelo docente foram incorporados à prática de ensino dos futuros professores, através da leitura de seus relatórios de estágio. Para tanto, centrou-se em: 1) analisar o discurso dos licenciandos através dos relatórios de suas práticas pedagógicas desenvolvidas durante os estágios de regência; 2) verificar, através desses discursos, o grau de apropriação de alguns pontos que identificam os referenciais teóricos utilizados pelo professor de Prática de Ensino na preparação para esse estágio supervisionado; 3) gerar subsídios que contribuam para a discussão sobre a formação inicial de professores de Física. Ressaltamos que para a análise dos discursos, contidos nos relatórios de regência dos licenciandos, utilizamos como referencial teórico os estudos de Orlandi (1996, 2001, 2002) que emprega conceitos como 'formação ideológica' e 'formação discursiva' e deriva-se dos estudos de análise de discurso na linha francesa, principalmente daqueles desenvolvidos por Pêcheux (1990; 1994).
É possível perceber através da interpretação proporcionada pela análise do discurso presente no relato dos licenciandos no que se refere às Concepções Espontâneas (CE): os licenciados analisados, na maioria dos casos, citaram as concepções dos alunos do Ensino Médio, demonstrando terem se inteirado das concepções prévias dos mesmos e também da possibilidade de gerarem conflitos cognitivos a fim de chegaram a conhecimentos mais próximos dos aceitos pela comunidade científica; chegaram, entretanto a referirem-se às concepções 'erradas' dos alunos, como justificativa para o fato de não conseguirem solucionar determinadas questões.
Com relação à História e Filosofia da Ciência (HFC) os licenciandos apresentaram manifestações variadas, tais como: dificuldades na inserção desta em situações de ensino; dificuldades em motivar os alunos para o assunto, em decorrência da metodologia de ensino utilizada; tentaram levar os alunos a refletirem sobre o processo de constituição da História e da Filosofia da Ciência; procuraram levar os alunos a perceber que a ciência não é a verdade, e sim apenas modelos que tentam descrever o comportamento natural, buscaram mostrar que a ciência é uma construção humana; tentaram fazer uma exposição de forma contextualizada de cada período histórico, apresentando aos alunos os diferentes pontos de vista das teorias Físicas existentes na história, os quais tentam explicar as manifestações da natureza; defenderam um modelo polissêmico d e explicação da natureza; tiveram a intencionalidade de passar aos alunos que o fator histórico deve ser relevante quando 'a verdade científica' é colocada em discussão; tiveram dificuldades para equacionar as relações entre teoria e prática.
No que se refere às relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade, os licenciandos analisados: utilizaram vários objetos tecnológicos para discutir os conceitos físicos envolvidos no principio de funcionamento dos mesmos; procuraram ressaltar que foram os alunos do Ensino Médio que fizeram a escolha dos objetos tecnológicos discutidos; concluíram que foi uma decisão acertada do grupo trabalhar os conceitos da física atrelados aos objetos tecnológicos; buscaram apontar o impacto social e político da ciência na sociedade; utilizaram os objetos tecnológicos (fibras ópticas, automóveis, peças de automóveis) com o intuito de despertar o interesse (curiosidade) dos alunos do Ensino Médio, bem como para auxiliá-los no entendimento, dos conceitos abordados durante as demonstrações dos princípios de funcionamento destes sobre os conteúdos trabalhados, em sala de aula; salientaram aos licenciandos que a tecnologia não deve ser tratada de maneira isolada e separada da sociedade; discutiram os objetos tecnológicos, na maioria das vezes, somente como exemplos de aplicação dos princípios da Física, uma vez que a teoria foi trabalhada de forma expositiva. Geralmente procuravam justificar a impossibilidade da aquisição dos objetos tecnológicos para serem trabalhados em sala de aula.
Com relação às abordagens dialógica e tradicional (AD/AT), os licenciandos: não privilegiaram uma abordagem dialógica; pelo contrário, as marcas deixadas nos relatos dos licenciandos, mostram que o modelo de ensino proposto pelos licenciandos mais se aproxima do paradigma da racionalidade técnica (SCHÖN, 1992; PEREZ GÓMEZ, 1992; GARCIA, 1992; ABIB, 1996, 2002); na maioria dos episódios de ensino observar-se que foi transmitido algo já pronto, desconsiderando desta forma os conhecimentos (concepções espontâneas) dos alunos, além de não verificar se estes tinham uma visão própria da ciência.
Os dados referentes à análise do discurso dos licenciandos, extraídos da leitura de seus relatórios de regência elaborados ao final do estágio também mostram, dentre outros aspectos, que a ideologia implícita no discurso do futuro professor reforça o paradigma da racionalidade técnica. Isso implica que, de certa forma, à escola atual, de um modo geral, ainda está encharcada do espírito da escola tradicional, apesar dos enunciadores dos discursos analisados terem procurado apresentar os conteúdos de acordo com os referenciais teóricos estudados. A análise mostra ainda que os discursos dos licenciandos analisados estão dentro de uma formação social que se aproxima do DP autoritário, mas que, no entanto, existem indícios do discurso polêmico.
É importante salientar também que, embora o objetivo da pesquisa fosse analisar a apropriação do discurso do docente de Prática de Ensino de Física pelos licenciandos, através dos referenciais teóricos discutidos anteriormente e refletidos nos relatórios de estágio de regência, é importante relativizar qualquer julgamento aqui expresso, pelo fato de que a atuação desses futuros professores também é influenciada pelas práticas pedagógicas dos demais membros do corpo docente do Curso de Licenciatura, que embora tenham sólida formação nas diversas áreas de onde se originam, geralmente não têm formação em didática das ciências e em educação, de uma forma mais geral.
Referências
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