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Contribuições de Dúvidas, Concordâncias e Discordâncias na Compreensão do Imaginário de Licenciandos em Física

Maria José P. M. De Almeida *, Thirza Pavan Sorpreso

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
27/01/2005
Linha de pesquisa
Formação Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONTRIBUIÇÕES DE DÚVIDAS, CONCORDÂNCIAS E DISCORDÂNCIAS NA COMPREENSÃO DO IMAGINÁRIO DE LICENCIANDOS EM FÍSICA

Maria José P. M. de Almeida 1 gepCE FE unicamp email: mjpma@unicamp.br Thirza Pavan Sorpreso gepCE F E unicamp email: thirzaps@bol.com.br

## Introdução, justificativa e finalidades

São, sem dúvida, inúmeras as investigações no ensino da física, que procuram explicar mediações possíveis nas relações de sala de aula tendo em vista a internalização de conteúdos científicos. Também são incontáveis os trabalhos que, principalmente nos anos setenta e oitenta do século XX procuraram investigar o pensamento de estudantes sobre suas concepções alternativas em relação a conteúdos da ciência física, tendo em vista provocar a mudança conceitual, ou ainda os trabalhos que, reconhecendo a importância de se ter em conta o perfil conceitual dos estudantes, procuram considerar os contextos das falas dos estudantes de maneira mais direta, ainda tendo em vista o aprendizado de conteúdos da ciência, ou fatores intervenientes nesse aprendizado.

Já no que se refere à formação inicial e continuada de professores, os trabalhos realizados na área de educação em física, em número considerável, além de objetivos semelhantes aos do p arágrafo anterior, têm também se debruçado sobre as relações de sala de aula, direcionando-se, em grande parte, para o papel do professor nos modos de aprendizagem da física pelos estudantes.

Esta apresentação situa-se no âmbito das preocupações com a formação de docentes de física, sem que o foco central do que nela se analisa seja a aprendizagem da física propriamente dita. São analisados pequenos discursos redigidos por licenciandos em física após a leitura de diferentes tipos de textos. Análise justifi cada pela necessidade de melhor conhecimento do imaginário dos estudantes tendo em vista o trabalho a ser com eles realizado. Nosso objetivo com a apresentação é, dessa forma, evidenciar elementos do imaginário de licenciandos em física circunscrevendo-nos a uma turma específica.

## Suporte Teórico

- O referencial em que o estudo se sustenta é a análise de discurso de linha francesa. Nesse enfoque, a linguagem, além de suporte do pensamento e instrumento para transmissão de informação,, ou seja, meio de comunicação, é principalmente efeito do trabalho dos homens num processo de interação social e portanto histórico Almeida, (2004 p.33).
- O analista de um discurso concebe o discurso como efeito de sentidos entre locutores e se preocupa com as condições de produção que lhe deram origem, Orlandi (2000). Nessa linha de pensamento, a ideologia é considerada como efeito das relações do homem com a língua e a história, relações necessárias, para constituição do sentido, com a memória desempenhando um papel fundamental nessa constituição. Nas palavras dessa autora:
- (...) O dizer não é propriedade particular. As palavras não são só nossas. Elas significam pela história e pela língua. O que é dito em outro lugar também significa nas 'nossas' palavras. O sujeito diz, pensa q ue sabe o que diz, mas não tem acesso ou controle sobre o modo pelo qual os sentidos se constituem nele. Por isso é inútil, do ponto de vista discursivo, perguntar para o sujeito o que ele quis dizer quando disse 'x' (ilusão da entrevista in loco). O que e le sabe não é suficiente para compreendermos que efeitos de sentidos estão ali presentificados. p.32

## Procedimento e Algumas Conclusões Possíveis

Os comentários aqui analisados, assim como a reflexão a que eles remetem, fizeram parte da programação extra-classe de uma turma de didática para o ensino de física, numa das três universidades estaduais paulistas, no ano de 2003, na qual uma das autoras atuou como docente e a outra como monitora.

Os comentários analisados a seguir foram localizados entre observações e discordâncias na leitura do texto Kuhn(1974):

Paradigmas não devem ser supervalorizados, pois as teorias por trás deste, são apenas formas de representar a natureza do problema físico, os paradigmas supervalorizados tornam-se dogmas que impedem o avanço da ciência.

O texto está equivocado...grandes avanços na ciência se devem...pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento de um método científico, que permitiu um 'boom' científico nas últimas décadas. Outros exemplos são os saltos após Newton e Einstein

Os estudantes que produziram esses dois comentários não falam do mesmo lugar. O primeiro, provavelmente impulsionado por um imaginário onde predomina o papel da 'criatividade', da importância do diferente na produção científica, manifesta sua discordância com o foco central desse texto de Kuhn, ou seja, que o avanço do que ele chama de ciência normal se dá pela obediência a um paradigma. Já o segundo, embora afirme que o texto está equivocado, aparentemente não nega a possibilidade de desenvolvimento da ciência a partir do trabalho em torno de algo que chama de 'um método científico'.

A análise desses comentários evidencia a relevância da análise das reflexões escritas por estudantes para compreensão do seu imaginário. Eles ilustram a heterogeneidade de pensamento dentro de uma mesma turma em relação à concepção de como a ciência é construída. Imaginário que a leitura de um texto pode ou não ser suficiente para preservar/modificar, mas que a escrita pode ajudar a revelar e para o qual os estudantes precisam ser alertados, se efetivamente se espera a sua reflexão. Além de permitir ao professor da classe um melhor quadro configurativo das dificuldades, e de algumas das concepções e representações dos estudantes.

Os comentários seguintes alertam para a relevânci a de se trabalhar com os licenciandos as relações entre ciência e sociedade. Eles foram localizados entre observações e discordâncias a respeito do texto de Dixon (1996), no qual o autor basicamente apresenta aplicações da ciência, na medicina, na guerra, entre outras.

Discordo do texto pois muitos problemas que apareceram não eram problemas que não existiam e sim problemas que não apareciam; exemplo: o problema da grande quantidade de filhos já existia mas era maquiado pela mortalidade. A ciência tem o papel de resolver os problemas, mas cabe aos governantes administrar o conhecimento.

O texto, ao apresentar aplicações tecnológicas negativas mais chocantes do que as positivas, mostra de maneira tendenciosa como os avanços científicos foram nocivos a sociedade. A ciência, às vezes, se mostra com facetas negras, mas essa característica não é da ciência, e sim dos homens que a utilizam.

Estes dois comentários indicam, sem dúvida, posições de grande discordância em relação ao texto lido, posições que os estudantes procuram reforçar com uma tentativa de quantificação em suas falas: 'muitos problemas' 'mais chocantes', e no primeiro, também com a busca de argumentação exemplificativa. Mas, mais que isso, os dois estudantes, trazem em suas falas posicionamento sobre a distribuição de poderes/deveres na sociedade, numa postura ideológica de neutralidade da ciência, ao atribuírem a governantes e 'homens que a utilizam' a administração dos problemas. Pode-se especular

que, situando-se por antecipação no papel de cientistas (pois embora se trate de uma disciplina da licenciatura, muitos estudantes cursam apenas ou simultaneamente o bacharelado) foram possivelmente movidos pelo texto para manifestarem tais posições, ainda que o mesmo não trate diretamente essa questão.

Na leitura de outro texto, Veiga (1997), este um conto literário, com a proposta de que lessem o texto, foi perguntado aos estudantes se trabalhariam com ele em aulas de ensino médio. Selecionamos a seguir três comentários, o primeiro é uma justificativa apresentada por um estudante que disse que trabalharia e os outros dois justificativas de estudantes que disseram que não trabalhariam.

Interessante para abordar conceitos de óptica geométrica aplicada em máquinas fotográficas, sua evolução / descobrimento de novas tecnologias.

A história é interessante mas difícil para ensino médio. Os conceitos de óptica geométrica estão escondidos, não são abordados nem em profundidade nem em quantidade.

Não utilizaria por falta de conhecimento próprio relacionado à câmera fotográfica.

Mais do que a concordância ou discordância dos licenciandos em relação ao uso do texto, esses comentários revelam um mesmo imaginário em relação à natureza do trabalho que supõem como o que deverão realizar: trabalhar conteúdos específicos de física, no último possivelmente pensando o aprofundamento técnico.

- Já os seguintes comentários, parecem revelar a consideração pelos licenciandos de virem a trabalhar algo que não se prenda exclusivamente aos conteúdos considerados usualmente como os que devem ser ensinados em aulas de física:

Com este texto pode-se trabalhar a parte psicológica do personagem , suas novas oportunidades com a modernização da máquina e sua própria evolução na história, limites... Serve para os alunos que gostam e os que não gostam de física.

- A divergência é um ponto importante a ser considerado e aprofundado. Provavelmente os estudantes que fizeram os seguintes comentários não se pautaram nos mesmos critérios de julgamento, ou têm dificuldades de natureza diferente em relação à leitura:
- Seu uso é restrito à crianças de idade inferior ao ensino médio devido a linguagem simplificada e o tipo de fantasia que evoca. Talvez usaria com alunos de quinta a oitava série A história é interessante mas difícil para ensino médio
- E ainda dos comentários desse texto, um que evidencia como no imaginário dos licenciando a inter/multi/transdisciplinaridade, uma das recomendações dos atuais Parâmetros Curriculares para o ensino Médio, provavelmente ainda não é uma idéia presente no imaginário desse estudante.

## Deixaria os alunos confusos quanto à finalidade

- E em algumas das dúvidas redigidas após a leitura de um outro texto Robilotta e Babichack (1997) podemos notar como a escrita, sem questões muito diretivas, após a leitura pelos licenciandos de um artigo científico da área, evidencia dificuldades na leitura, conteúdos que devem ser trabalhados com eles, além da riqueza de suas curiosidades:

Teoria reificável é aquela que se transforma em ' coisa' ? Entendimento do mapa conceitual. Manipulação de mapas como objeto. Atividades diacrônicas. Relação sincrônica.

A física é altamente estruturada?

3º parágrafo da página 43 (dicotomia global - local).

Como preparar o indivíduo (para prova , vestibular, ...) em tão pouco tempo?

Pode-se ensinar física para crianças a partir de que idade (aumentar o tempo de ensino de física)?

Não só a física é estruturada, mas também a matemática o é. A química também. Como podemos ver , por exemplo, a história e a filosofia?

E na proposta de que redigissem as idéias principais do texto, vemos pequenas sínteses relevantes para quem vai ser professor:

Definições não ensinam.

Os alunos podem interpretar de maneira diferente do que quer o professor.

Uma maneira mais eficaz de ensinar física seria não apenas g erar definições e sim inseri-las no contexto de interações a que pertencem.

Estudando as partes podemos obter diferentes visões sobre um mesmo conceito, mas não podemos perder de vista o todo.

Mas também, nos exemplos seguintes, vemos generalidades e equívocos de quem não leu (ou teria lido de outra maneira?)

Texto julga e mostra métodos para o ensino de física. O texto aponta a maneira mais correta de se ensinar física. A melhor face para se ensinar física é determinada por questões de gosto e de conveniência.

E ainda com relação ao mesmo texto, nas concordâncias e discordâncias, vemos elementos do imaginário de dois estudantes; um sobre avaliação, pensando o que ele vê acontecendo como referência, sem se permitir pensar o diferente; e outro, sobre o suposto nível dos estudantes, uma vez que o texto não remete para o nível de ensino em que os mapas conceituais podem ou não ser trabalhados, podendo-se, inclusive, supor que possivelmente o estudante tenha admitido que tudo que se falaria na disciplina seria sobre ensino médio, já que se tratava de uma disciplina de licenciatura.

O texto diz que damos mais importância aquilo que nos permite fazer contas. Concordo que não podemos nos basear apenas nisso , mas temos grandes problemas aí entrelaçados: A forma de avaliação é baseada exclusivamente naquilo que usa contas.

Discordo do uso de um mapa conceitual tão complexo. (...), principalmente no ensino médio. Mas acho que a elaboração de esquemas sempre que possível, auxilia no entendimento.

## Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Maria José P. M. Discursos da Ciência e da Escola: Ideologia e leituras possíveis. Campinas: Mercado de Letras, 2004.

DIXON, Bernard. Para que serve a ciência? São Paulo: editora da USP, 1996. 67-91.

KUHN, Thomas S. A função do dogma na investigação científica. In De Deus, Jorge D.

(org) A crítica da ciência: sociologia e ideologia da ciências. Rio de janeiro: Zahar Editores, 1974. 51-80.

ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos . Campinas, SP: Pontes, 2000.

ROBILOTTA, Manuel R. BABICHAK, César C. Definições e conceitos em física. In Cadernos Cedes 41 , 1997, 35-45.

VEIGA, José J. Luneta. In Objetos Trunculentos . Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

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