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O AMBIENTE VIRTUAL AUXILIANDO O ESPAÇO FORMAL DE APRENDIZAGEM: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA

Prof. Francsico Amancio Cardoso Mendes, Prof. Dr. Cristiano Rodrigues De Mattos

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
27/01/2005
Linha de pesquisa
Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O AMBIENTE VIRTUAL AUXILIANDO O ESPAÇO FORMAL DE APRENDIZAGEM: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA

Prof. Francisco Amancio Cardoso Mendes (profkiko2@yahoo.com.br) a

Prof. Dr. Cristiano Rodrigues de Mattos b,c (crmattos@feg.unesp.br) a Programa de Pós-Graduação - Faculdade de Ciências - UNESP - Bauru b Faculdade de Engenharia/DFQ - UNESP - Guaratinguetá c Instituto de Física - USP - São Paulo

## RESUMO

Neste trabalho propomos uma metodologia, baseada no uso do chat , para auxiliar o ensino presencial de Física. O objetivo principal é a criação de grupos de estudantes que, durante o ensino formal, contribuam com o trabalho do professor na transposição dos conteúdos de Física em sala de aula. A hipótese de trabalho é a de que estudantes, submetidos previamente a discussões para resolução de problemas que envolvam conceitos físicos, possam assumir o papel de pares-mais-capazes (Vygotsky, 1962) dentro de sala de aula. A metodologia desenvolvida consiste em utilizar o ambiente virtual chat, como ambiente colaborativo para a promoção de um debate entre alunos do Ensino Médio. A estratégia compõe, inicialmente, na escolha do conceito específico, foco de um problema que será discutido no chat e que será abordado, posteriormente, em sala de aula. O debate se inicia com a proposição d e um problema cotidiano, cuja solução física passa pela compreensão do conceito escolhido. O moderador orienta o debate para uma discussão livre, interferindo apenas para desfazer mal entendidos e manter o rumo do debate, que prossegue quantas seções sejam necessárias até que o grupo chegue a uma solução para o problema. Baseado no referencial teórico do sóciointeracionismo de Vygotsky (1962) e da análise de gêneros do discurso de Bakhtin (1986), é possível observar, em sala de aula presencial e por meio d a análise do discurso e da observação direta de comportamento, alterações na postura destes estudantes que participaram do chat. Durante o ensino formal do conceito trabalhado na resolução do problema debatido no ambiente virtual, ficou clara a mudança de atitude destes participantes frente à sala de aula. A metodologia de análise do discurso, tanto dos debates em chat quanto em sala de aula presencial, está baseada na lingüística textual, balizada por Fávero (1983, 1991), e em elementos de análise do discurso levantados por Halliday & Hasan (1973) e Maingueneau (1989).

## INTRODUÇÃO

O aumento do número de pessoas com acesso a internet através de sistemas cada vez mais universais, sugere que a infra-estrutura adequada para o uso desse meio com fins educativos, em larga escala, pode ser desenvolvida com sucesso. Isso significa que nas próximas décadas ocorrerá um aumento vertiginoso do uso dessa ferramenta como meio de comunicação, principalmente quando se pensa na educação (Starr, 1998). Atualmente escolas e universidades têm desenvolvido pesquisas sobre o uso dos meios eletrônicos de comunicação como instrumento de ensino. Aulas presenciais em cursos de graduação e pós-graduação estão sendo substituídas sistematicamente por aulas à distância com uso de ferramentas da internet, sejam na forma de comunicações síncronas, como os chats , sejam na forma assíncrona, como o e-mail (Peters,1999; Lévy, 1999; Perrenoud, 2000). Ao mesmo tempo em que o número de estudantes começa a ter acesso a esse meio de comunicação, fica cada vez mais claro que a ferramenta não determina o aprendizado, mas pode facilitá-lo. O desafio criado para professores e alunos está estabelecido com as emergentes demandas metodológicas que suporte esse tipo de interação, ou seja, é cada vez mais necessário o desenvolvimento de metodologias que retirem os estudantes da sua posição passiva para uma posição ativa frente às demandas de produção de conhecimento. Esta transição de atitude é fundamental para que o aprendizado se dê de forma construtiva e estável (Rovai, 2003).

Por outro lado, o fortalecimento dos ambientes de ensino formal e presencial como espaço privilegiado para o desenvolvimento do diálogo como interação social e política é inegável (Miller, 1994). A interação social numa dinâmica dialógica com pares mais capazes é fundamental para o aprendizado seja de crianças, jovens ou adultos (Engeström, 2003). A escola como lugar de encontro de interesses comuns é que permitirá tornar o espaço virtual como um lugar de aprendizado colaborativo. São essas comunidades de aprendizado ( learning communities ) que permitirão a estudantes, professores e pesquisadores, pertencentes a uma mesma classe de interesses, iniciar e desenvolver na solução de problemas comuns.

## DESCRIÇÃO DA PESQUISA

A metodologia que desenvolvemos consiste no uso de um ambiente síncrono da internet chamado de chat , como um ambiente colaborativo para a promoção de um debate entre alunos do Ensino Médio de uma escola tradicional da zona sul da cidade de São Paulo, cuja faixa etária varia entre 14 e 16 anos.

A estratégia contempla a escolha de conteúdos ou conceitos específicos de Física que serão o foco do problema a ser discutido nas sessões de chat e que, mais tarde, contribuirão para o desenvolvimento da aula formal presencial. O debate tem início com um problema da vida cotidiana, colocado em pauta por um moderador, cuja solução envolve o entendimento de conceitos físicos. A função do moderador é permitir um debate com uma discussão livre, interferindo o mínimo possível e apenas com questões que contribuíssem para solucionar algum equívoco entre os participantes da discussão ou para manter o debate nos limites do tema pré-estabelecido. Este debate pode durar algumas sessões (duas, três ou mais) até o momento em que o grupo chega a uma solução plausível e tolerável, mesmo que não haja nesta resposta uma precisão ou um formalismo científico.

Os textos digitados em todas as sessões de chat foram eletronicamente gravados e as aulas presenciais posteriores foram vídeo-gravadas Nestas aulas presenciais os conceitos escolhidos para serem o foco do problema durante o debate são formalmente apresentados aos alunos. As percepções de cada participante do chat foram também registradas através de relatos redigidos pelos mesmos.

Posteriormente, estas sessões, bem como as aulas vídeo-gravadas, foram analisadas utilizando como metodologia de análise a lingüística textual, baseada em fundamentos definidos por Fávero (1983, 1991), e em elementos de análise do discurso levantados por Halliday & Hasan (1973) e Maingueneau (1989). Tais elementos nos orientaram para buscar, baseados na análise preliminar dos dados e fundamentados no referencial teórico do sócio-interacionismos (Vigotsky, 1962) e da análise dos gêneros do discurso (Bakhtin 1986, 1997), uma mudança no hábito dos alunos participantes do debate em sala de aula presencial, que se comportaram como verdadeiros 'pares mais capazes' de seus colegas. Esta análise nos permitiu ampliar os limites da metodologia que facilitavam a cooperação de aprendizagem com seus pares, influenciando visivelmente a dinâmica em sala de aula.

## METODOLOGIA DE PESQUISA

A pesquisa, realizada em 2003, foi desenvolvida basicamente em duas etapas: a primeira, em ambiente virtual, se dividiu em duas partes: a sessão de chat e os e -mails posteriores às sessões; e a segunda, em ambiente presencial, que consistiu na observação da participação destes estudantes nas aulas presenciais na escola onde estudavam. O principal objetivo dessa segunda parte era observar o quanto os estudantes, que participaram dos chat s, contribuíam no processo de ensinoaprendizagem das aulas presenciais.

As duas etapas foram acompanhadas pelo pesquisador que também ocupava a posição de professor da disciplina de Física. Essa escolha de superposição de posições (professor/pesquisador) propicia, também, o rompimento das barreiras iniciais de estranhamento, evitando que a presença

do pesquisador, um segundo adulto, alterasse as relações estabelecidas durante o período anterior à tomada de dados, gerando um bias nos dados (BOGDAN, 1996, p.92). Nesse sentido, temos claro que 'é necessário calcular a quantidade correta de participação e o modo como se deve participar, tendo em mente o estudo que se propôs a elaborar' (BOGDAN, 1996, p.125).

A separação dos papéis de professor, mediador e pesquisador é a maior dificuldade nesse tipo de escolha, mas compreendemos que, uma vez superado esse problema, permite a coleta de dados mais significativos do modus operandi da sala de aula. Além disso, a pesquisa participante pode ser considerada como uma ferramenta que permite ampliar o reconhecimento e entendimento das linguagens estabelecidas pelos dois grupos ( chat /sala de aula) antes e durante a tomada de dados, obtendo informações que, se fossem separados professor e pesquisador, não seriam possíveis. De acordo com Mortimer (2000), a linguagem dialógica se forma baseada em acordos tácitos entre professores e alunos, durante a construção da relação, que dura muito mais do que os eventos gravados ou anotados. Assim, se é desejoso que o pesquisador observe a turma desde o começo, quando ainda se está estabelecendo os códigos da linguagem que será utilizada para representar e comunicar preconceitos, anseios, medos, alegrias, amores, esperanças e compreensões da Física, então nada melhor do que o pesquisador ser o professor.

O número de estudantes foi decidido segundo critério de comunicabilidade em discussões em chat . Algumas de nossas experiências anteriores mostram que se o número de participantes for maior que 6 ou não houvesse constância nos horários e duração das sessões, havia um esfacelamento das estruturas de grupo, impedindo uma análise mais consistente dos diálogos registrados. Assim trabalhamos com 6 participantes, com dias e horários fixos para os encontros, assim como estabelecemos uma duração de 40 a 50 minutos por sessão.

Foi acordado entre cada grupo de alunos que todas as informações referentes à pesquisa (questionários, comentários sobre as sessões de chat , relatos etc.) deveriam ser trocadas via internet, por meio de mensagens síncronas ( chat ) e assíncronas (e-mail).

Estas sessões, chamada posteriormente pelos alunos de 'debate', começavam quando o mediador lançava uma pergunta, extraída do cotidiano dos estudantes, e que envolvesse os conceitos físicos escolhidos previamente, necessários para uma explicação física do fenômeno em questão, mas que não tivessem sido explorados em sala de aula. Na sessão analisada, os alunos deveriam chegar a uma definição de força centrífuga, tendo visto, em aula presencial, apenas os conceitos básicos das três leis de Newton.

Após a elaboração da pergunta, o mediador deixa livre o debate, com o menor número possível de interferências. O objetivo era o de permitir que os alunos chegassem, de forma autoorganizada, a uma solução para o problema, fosse científica ou não, mas que fosse de consenso. Ao mediador cabia apenas delimitar os delírios, interferindo com perguntas que pusessem em cheque as soluções mais improváveis.

Nesse trabalho, analisamos as 3 sessões de chat necessárias para que u m grupo de alunos chegasse à uma solução consensual. Utilizamos como instrumento teórico de análise de dados os conceitos de análise do discurso (AD), mais especificamente de lingüística textual. A análise apresentada neste artigo se refere quase exclusivamente aos instrumentos virtuais síncronos adotados.

## REFERENCIAL TEÓRICO DA ANÁLISE DO DISCURSO

Segundo Fávero (1991), a lingüística textual utiliza-se de textos delimitados, onde início e final estão determinados de maneira clara e as demarcações mais evidentes são devido a mudanças na interação entre os indivíduos que são os produtores ou receptores do texto que é a unidade teoricamente refeita, subjacente ao discurso, onde discurso passa a ser a unidade que pode ser observada e interpretada a partir do que se ouve ou do que se vê.

Assim, utilizamos as definições básicas de algumas correntes da lingüística textual que seguem a linha da AD em virtude dos nossos dados apresentarem características específicas que se encaixam em argumentos da gramática textual como os apresentados por Fávero (1991).

Os chats integram formas complexas e completas de se comunicarem e podem ser considerados, portanto, uma linguagem. Segundo Hyelmslev (apud Fávero (1983)), qualquer ato de linguagem é um texto, portanto qualquer língua passa a ser um texto. Jakobson justifica o uso da lingüística textual na AD de uma sessão de chat e posterior ambiente presencial de sala de aula, na existência de três funções da linguagem: o contato, o código e a mensagem e o processo da comunicação.

O que buscamos na lingüística textual é a concordância em aceitar que muitos elementos estruturadores atuam como conectores, e, de acordo com Halliday (1973), existem três macrofunções claras: ideacional -a que chamamos de referencial da linguagem -, interpessoal -em relação à posição locutor e ouvinte - e textual - que nos permite estruturar os textos de acordo com o contexto.

Desta forma, um conceito semântico importante, dentro da lingüística textual, é o conceito de coesão textual , que delimita as fronteiras de um texto, dando-lhe caráter de texto ou não, por se referir às relações de sentido que se estabelecem entre os diversos enunciados, fazendo com que a interpretação de seus elementos esteja vinculada a uma dependência entre outros. Esta coesão textual, ou concatenações frásicas lineares, estão relacionadas a cinco categorias de procedimento.

Apesar de funcional e lógica, a estrutura não-linear de uma sessão de chat , exige que iniciemos a análise dos dados levantando os elementos textualmente coesivos, uma vez que, de acordo com Fávero (1991): 'a coesão (...) é uma relação linear entre as sentenças, não sendo nem necessária nem suficiente para a coerência, já que pode haver textos destituídos de coesão [como os chats ], mas cuja textualidade se dá no nível da coerência', desta forma reestruturamos o diálogo das sessões de chat como intertextos (Maingueneau 1989).

## RESULTADOS

Verificamos, por meio da análise dos dados, que o papel do moderador nessa metodologia é fundamental, não só pelo caráter organizacional, mas também por ser um agente motivador no desenvolvimento da zona de desenvolvimento proximal (ZDP), um parceiro mais capaz. Pelo fato de ser um agente em um nível de desenvolvimento real (NDR) diferente, contribui para que participantes aumentem seu nível de desenvolvimento potencial (NDP).

Nesse contexto o desenvolvimento da comunicação entre os participantes do chat , pode ser compreendido como uma dinâmica de desenvolvimento de diálogo e conhecimento, o que nos permite inferir o aumento da ZDP dos participantes, quando colocados em situação de resolução de um problema.

No chat é possível observar que o aprendizado é disposto por meio do diálogo, levando os participantes a formar seus próprios modelos de solução. Por meio da interação dialógica, os conceitos são utilizados de forma que permite que os estudantes continuem a se expor sem medo do erro e a ampliar suas curiosidades.

## REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. (VOLOCHINOV,V.N.). Estética da criação verbal. 2ª ed., São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1997;

\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Marxismo e Filosofia da Linguagem . 3ª ed. São Paulo: Ed. Hucitec, 1986; BOGDAN, Robert. Investigação qualitativa em educação. 8ª ed. Porto: Porto Editora, 1996;

\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Qualitative research for education : an introduction to theory and methods . Boston : Allyn and Bacon, 1982;

FÁVERO, Leonor L e KOCH, Ingedore G.V. Lingüística textual: introdução . São Paulo : Cortez, 1983;

FÁVERO, Leonor L. Coesão e coerência textuais . São Paulo : Ática, 1991; FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia . 15ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996;

HALLIDAY, M. A. K. e HASAN, R. Cohesion in spoken and written English . Londres : Longman, 1973

LÉVY, Pierre. Cibercultura . 2ª ed. São Paulo: Sorvete, 1999;

MAINGUENEAU, Dominique Novas tendências em análise do discurso - Campinas, SP : Pontes - 1989;

MARCUSCHI, Luiz Antônio Análise da conversação . 5ª ed. - São Paulo: Ed. Ática;

MORTIMER, Eduardo F. Linguagem e Formação de Conceitos no Ensino de Ciências - Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000;

VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente : o Desenvolvimento dos processos psicológicos superiores . 6ª ed. Petrópolis: Martins fontes, 1998 (1930;1935;1960;1966);

\_\_\_\_\_\_\_\_\_.

- Pensamento e linguagem. 4 ª ed., Petrópolis: Martins fontes, 1996;

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