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DRAMATIZAÇÃO NO ENSINO DE FÍSICA MODERNA

Ney Vernon Vugman, Carlos Rubini

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
27/01/2005
Linha de pesquisa
Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## DRAMATIZAÇÃO NO ENSINO DE FÍSICA MODERNA

Ney Vernon Vugman [ney@if.ufrj.br] a Carlos Rubini [crubini@montreal.com.br] b

- a Instituto de Física - Universidade Federal do Rio de Janeiro

b Instituto de Psicologia e Psicanálise - Universidade Santa Úrsula

## RESUMO

Descreve-se a utilização da dramatização no ensino de Física, passo a passo, através de um exemplo, o experimento de investigação da resistividade de metais em função da temperatura. Relata-se uma experiência de três décadas de ensino de Física, em uma análise interdisciplinar envolvendo Física e Psicologia. Através da dramatização o aluno é levado a expressar suas percepções e sensações a respeito da realidade, revelando seu entendimento e saber a respeito de determinado conteúdo. Os resultados de experiências com dramatização provaram ser extremamente animadores: não somente o conteúdo pedagógico é facilmente assimilado, como adicionalmente ocorre um prazeroso processo de integração dentro do grupo e entre o grupo e o professor. Mostramos que não é difícil uti lizar recursos que envolvam os alunos numa ação em sala de aula e corroboramos as idéias de que evocar a ludicidade da turma é um passo importante para o sucesso do ensino e de que a interação interdisciplinar é comprovadamente eficiente e produtiva.

## Histórico de nossa experiência

Há cerca de trinta anos, em pleno início de carreira como professor do Instituto de Física da UFRJ, em uma aula de Física Moderna Experimental, notei grande dificuldade de abstração dos alunos para entender porque a resistividade de um metal (filamento de uma lâmpada incandescente) variava com a temperatura. Havendo vivenciado experimentos de dinâmica de grupo, ocorreu-me que, se trouxesse o assunto ao nível da vivência corporal, bem mais concreto, poderia promover o ensino com maior facilidade. O resultado desta primeira experiência foi extremamente animador: não somente o conteúdo pedagógico foi facilmente assimilado, como ocorreu um processo de integração dentro do grupo e entre o grupo e o professor como até então eu não havia presenciado.

É difícil realizar práticas corporais em sala de aula? Não. A partir da disposição e do comprometimento com o ensino-aprendizagem, esta tarefa não só é exeqüível como pode tornar-se muito prazerosa. Evocar a ludicidade da turma é um passo importante para o sucesso do ensino.

Há pouco tempo atrás reencontrei alguns destes primeiros alunos, hoje exercendo ativamente suas funções em sala de aula. Nosso encontro foi movido ainda pela linguagem que havíamos estabelecido no passado; as dramatizações se revelaram um código entre nós. Os elétrons-alunos ainda se moviam pelo metal-sala de aula, colidindo com os íons-alunos, agitados pela temperatura-professor. E como ficou quente, caloroso, aquele encontro!

Neste trabalho, com a colaboração do psicólogo Carlos Rubini, estaremos tentando compartilhar esta experiência com os demais colegas.

## A dramatização como recurso didático

Dramatização ( drama significa ação em grego) tanto pode ser entendida como um recurso técnico derivado do teatro quanto parte do método psicodramático (psicodrama) criado [1] por J.

1

- L. Moreno (1889-1974). Sustentada pelo princípio da espontaneidade e criatividade, propõe-se a resgatar o sujeito espontâneo/criador que existe em todo ser humano. Pela sua força transformadora do meio e das relações, o método psicodramático abrange vários campos de aplicação (psicológico, terapêutico, educacional, social, institucional) com diferentes objetivos e finalidades.

A dramatização constitui-se o núcleo do psicodrama, podendo ser utilizada como recurso didático. Através dela o aluno pode expressar suas percepções e sensações a respeito de determinada realidade, revelando seu entendimento e saber a respeito de determinado conteúdo. O conhecimento se dá através da ação vivenciada e experienciada. A dramatização mobiliza no

- aluno sua espontaneidade, suas capacidades intelectuais, afetivas e sociais no ato de aprender.
- O sistema educacional de ensino situa o aluno num grupo e este não aprende sozinho [2]. A participação grupal com seu conjunto de interações é necessária para a realização da dramatização, pois a produção do conhecimento é uma produção coletiva. O trabalho de grupo e a dramatização favorecem não apenas a aquisição de conhecimento, mas, também, o desenvolvimento de relações interpessoais adequadas e saudáveis.

Pela vivência que proporciona, pelos sentimentos que desperta e reflexões que suscita, a dramatização favorece a aprendizagem de conceitos, a fixação de conteúdos, o desempenho de papéis, proporcionando ao aluno o prazer de descobrir e aprender pela vivência da interação grupal permeada pelo afeto. A mobilização de emoções para motivar as aquisições cognitivas é uma das formas de aprendizagem mobilizada pela dramatização [3].

## Exemplo de um experimento de dramatização no ensino de Física

O experimento descrito a seguir destina-se a exemplificar sucintamente o método. As possibilidades de outros experimentos e mesmo de variações deste são inúmeras: dependem somente da criatividade do professor, de sua disponibilidade e de sua sensibilidade ao contato da turma.

## Experimento: resistividade de metais em função da temperatura

Objetivos principais: demonstrar a influência das vibrações da rede no espalhamento dos elétrons de condução; vivenciar modos coletivos de vibração; vivenciar agitação térmica.

Tamanho do grupo: entre 10 e 20 alunos.

Tempo exigido:

50 minutos.

Material utilizado: nenhum.

Ambiente físico: a própria sala de aula.

## Processo:

- a) Os alunos são distribuídos de forma regular pela sala, obedecendo a uma simetria de translação (explicar aos alunos o que é rede cristalina).
- b) Sugerir que os alunos vivenciem um movimento vinculado ao local em que se encontram (oscilação ao redor de um ponto).
- c) Pedir aos alunos que se dêem as mãos (se acoplem) formando cadeias lineares (explicar que isto é uma aproximação ao problema tri-dimensional, conseqüência de termos somente duas mãos).
- d) Sugerir a execução de movimentos coletivos harmônicos (fônons da rede, explicar a possibilidade de existirem diversas maneiras de oscilar coletivamente).
- e) Convidar o aluno mais leve (basta um de cada vez) para fazer o papel de um elétron de condução (explicar que existem outros elétrons que não participam do processo) e nomear os demais alunos como os íons da rede.

- f) Nomear o professor como representante da temperatura do metal (explicar aumento de temperatura por aquecimento, correlacionando com movimentação dos constituintes da matéria).
- g) Pedir aos íons-alunos para largarem as mãos, mas continuarem a se mover de forma acoplada.
- h) Sugerir a aplicação de uma diferença de potencial externa e relatar seu efeito no elétronaluno, que passa a deslocar-se para o anodo (esta movimentação deve dar-se na direção perpendicular ao movimento das cadeias lineares).
- i) Começar a dramatização com uma temperatura bem baixa (íons-alunos com pequena movimentação. Se os alunos pararem, aproveitar para dizer que o movimento não cessa, mesmo no zero absoluto).
- j) Aumentar gradativamente a temperatura, propiciando o choque (chamar de espalhamento) elétron-íon. Deverá estar formado um ambiente lúdico onde risadas e piadinhas são válidas.
- k) Solicitar ao elétron-aluno que relate sua dificuldade crescente para contribuir à condução elétrica nesta experiência de espalhamento. Solicitar a manifestação dos demais íonsalunos.
- l) Solicitar que os alunos, após seus comentários, retornem às suas cadeiras e permaneçam sentados, retornando à concentração habitual da aula de aula.
- m) Proceder ao resumo da experiência, podendo ou não quantificar o problema em questão.
- n) Agradecer a participação dos alunos e relatar sua própria vivência.

## Conclusões

- O aluno, através da dramatização, além de elaborar conceitos e conteúdo, elabora também uma

imagem, favorecendo a fixação do conhecimento. A participação na ação dramática torna o aluno agente de seu conhecimento. O professor, ao utilizar a dramatização como recurso didático, propicia ao aluno a possibilidade de desenvolver-se como ser humano, conjugando razão e emoção. A confecção deste trabalho corrobora a tese de que a interação interdisciplinar é comprovadamente

- eficiente e produtiva.

## Agradecimentos

Um dos autores (NVV) agradece ao CNPq por bolsa de pesquisador. Agradecemos também às nossas Universidades, Federal do Rio de Janeiro e Santa Úrsula, pelo acolhimento. Um agradecimento especial a Gustavo Rubini que possibilitou a formação de nossa equipe e à Daniela Lima pelo incentivo no trabalho.

## Referências

- 1 - Moreno, J. L. - O Teatro da Espontaneidade, Ed. Summus, São Paulo, 1984.
- 2 - Romaña, M. A. - Psicodrama Pedagógico, Ed. Papirus, Campinas. 1985.
- 3 - Lima, L. M. e Liske, L. P. - Para aprender no ato - Técnicas Dramáticas na Educação, Ed. Agora, SP. 2004.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.