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Uma análise das incorporações de textos de divulgação científica em livros didáticos de ciências

Isabel Martins, Allan R. Damasceno

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2002
Data
08/06/2002
Linha de pesquisa
Ensino/Aprendizagem De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## UMA ANÁLISE DAS INCORPORAÇÕES DE TEXTOS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA EM LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS

Isabel Martins ♦ a

(isabel@nutes.ufrj.br) ♦♦b

Allan R. Damasceno (allan\_damasceno@hotmail . com)

a Núcleo de Tecnologia de Educação para a Saúaúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro. b Instituto de Física e Núcleo de Tecnologia de Educação para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

## JUSTIFICATIVA, OBJETIVOS E QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA

Recomendações curriculares recentes destacam m a necessidade de que os alunos no período de educação básica, como parte de suas atividades escolares, ampmpliem m seu contato com m textos relacionados à Educação em Ciências tais como enciclopédias, folhetos de campmpanhas de saúde, artigos de j jornais e de revistas de divulgação científifica. Entre os benefícios advindos do contato com este universo textutual expandido estariam , entre outros, a diversidade de informações; a possibilidade de contrapor visões; o desenvolvimento de habilidades da leitura e a familiarização com m terminologias e conceitos específicos à ciência e sua comumunicação (Brasil, 2000). Assim , passar a conhecer uma variedade de tipos de textos científicos, desde reportagens da mídia até originais dos cientistas, representaria uma condição para tornar-se um participante da cultura científica, permitindo a inclusão em m diferentes comumunidades discursivas (Cumming e Wyatt-Smith, 2001).

Esses tipos ou g gêneros de texto são típicos de formações discursivas relacionadas ao discurso científifico. Assim , o artigo científico, o texto de divulgação, o livro didático são, deste ponto de vista, estruturas textuais estáveis , caracterizados por padrões lingüísticos específicos, inscritos em m práticas sociais relacionadas à ciência (Martin , 1993). Gêneros de texto caracterizam-se por um m conjunto de marcas textutuais e por uma função social e epistemológica, relacionando formas de expressão e comumunicação científica a formas de construir e desenvolver conhecimentos científicos. Por exempmplo, relatórios se relacionam m a práticas de experimentação, artigos científificos desenvolvem m e defendem m argumentos, etc. Assim , a linguagem m dos textos científificos revela aspectos essenciais do fazer ciência.

Ao defender a incorporação de uma variedade de textos no ensino de ciências, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental enfatizam m o potencial informativo destes textos e, ao mesmo tempmpo , as possibilidades ampmpliadas de experiências de aprendizagem m advindas do seu uso didático . No entanto , a apropriação didática destes textos não se dá de forma automática e há necessidade de que se efetivem m conexões entre seus conteúdos e os conteúdos curriculares.

Uma análise, mesmo que superficial, permite ver que um m grande número de textos didáticos de ciências já vem m incluindo, no corpo principal dos seus capítutulos, uma variedade de gêneros de textos retirados de fontes como , por exempmplo, jornais de grande circulação, revistas de divulgação, histórias em quadrinhos, materiais de campmpanhas de saúde, etc. Neste trabalho exploramos a incorporação de um tipo particular destes textos, o texto de divulgação científica, ao livro didático. Partimos do pressuposto de que algumas das características dos textos de divulgação científica parecem m não só corresponder às necessidades e interesses por informação científica

manifestados por estutudantes, como tambmbém m vão ao encontro as recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil , 2000). Segundo Martins (2001) estes textos podem m compmplementar o livro didático na medida que permitem:

- ‰ tratar de temáticas científificas da atutualidade relacionando-se às investigações desenvolvidas nos laboratórios;
- ‰ evidenciar o caráter interpretativo da atividade científica na medida que geralmente contêm informações referentes ao processo através do qual descobertas científificas são feitas, incluindo debates entre cientistas;
- ‰ contextutualizar conteúdos científificos através de referências a relações entre domínios de conhecimento, aplicações tecnológicas e seu impmpacto social.

cont

caracteriza-los utilizando como parâmetros sua linguagem , temáticas principais, relações com m tópicos curriculares e temas transversais propostos para o terceiro quarto ciclos do Ensino Fundamental .

## ANÁLISE

Apresentamos a seguir um m panorama geral dos textos analisados a partir r de uma análise do conteúdo dos textos de divulgação identificados no conjunto de obras acima. Esta visão geral é compmplementada por uma discussão mais detalhada de alguns casos nos livros que apresentam m um m maior número de incorporações feitas destes textos (Barros e Paulino, Cruruz e Soares).

## Um panorama geral

A análise do material selecionado corrobora a visão de que o livro didático é um m híbrido tanto do ponto de vista semiótico quanto do ponto de vista genérico (Martins, Cassab e Rocha, 2001). Em m outras palavras o texto didático é construído a partir da articulação de diferentes modos semióticos, como signos lingüísticos, matemáticos, imagéticos. Além m disso, o texto didático é compmposto por diferentes tipos ou gêneros de texto tais como definições, relatos (explicativos ou de procedimento), etc., cada um m deles caracterizado por marcas textuais, formas lingüísticas específicas, além m de padrões típicos de argumentação. Entre eles está o texto de divulgação científica.

A tabela 1 mostra como os textos de divulgação estão distribuídos nas obras analisadas. Percebe-se que todos os títulos incluem m textos de divulgação, embmbora em proporção marcadamente diferente, com m destaque para o livro dos autores Carlos Barros e Wilson Paulino que incluem m textos em m todos os capítutulos de seu livro.

Tabela 1: Distribuição dos textos de divulgação nos livros de ciências analisados.

Aspectos textuais

Comentamos a seguir relações entre o texto de divulgação e o texto dos autores tais como: localização no capítulo, características gráficas de apresentação, extensão e aspectos típicos de linguagem m e formas de argumentação.

Observamos que, apenas no livro de José Luís Soares os textos são apresentados no final do capítutulo na forma de leitura compmplementar (com m exceção do primeiro texto, "A "A criação da supermatéria " , p.18). Na maioria dos livros analisados, os textos de divulgação estão geralmente inseridos no corprpo de texto principal dos capítutulos e não como apêndices. Embmbora compmpondo o corpo do texto principal do capítutulo, não existem referências cruzadas ou sinalizações explícitas que remetam m à leitura dos textos de divulgação. Apenas no livro de Daniel Cruz foram m encontradas orientações dirigindo o estudante para uma leitura dos textos de divulgação, como nos textos "Velocidade e aceleração" (Cruz: 143) e "Guindastes de esteira gigigantes" (Cruz: 185). Neste livro encontramos ainda o subtítulo "Projeto de incentivo à leitura" introduzindo os textos de divulgação científica e ressaltando um m compmpromisso com a impmportância a e a necessidade de desenvolvimento do hábito de leitura. Nas demais obras os textos são identificados apenas pelo seu próprio título. Outra observação digna de nota é a ausência de referência aos textos de divulgação nos exercícios ou tarefas propostas ao final de cada capítutulo. Apenas um m dos textos ("Tipos de de raios ultravioleta " Barros e Paulino: 116) foi inserido de forma a compmpor o enunciado de uma questão proposta. Isto sugere que, apesar do destaque dado aos textos de divulgação e da sua inclusão ao longo do texto principal , quando vista no contexto do capítutulo como um m todo, a impmportância relativa destes textos diminui .

Visualmente os textos tendem , na sua maioria, a serem m destacados, por exempmplo, por molduras de bordas espessas, como em m uma caixa de texto. No entanto este destaque não se caracteriza por descontinuidades abruptas do ponto de vista de estilo ou diagramação. Observa-se que os textos de divulgação científica não apresentam m uma variedade grande de modos semióticos na sua estruturação. Eles são constituídos basicamente por texto escrito, raramente, incluindo imagens, equações matemáticas ou gráficos. No entanto, no que diz respeito à linguagem , vocabulário e formas de argumentação e apresentação de idéias, estes textos diferem m dos blocos de textos presentes no restante do capítulo. Do ponto de vista do estilo, sua linguagem m é basicamente descritiva. Há, no entanto, passagens argumentativas que procuram m convencer o leitor da impmportância e da relevância da ciência ou enaltecer a própria atividade científica através de elogios a cientistas. Os textos possuem extensão média de três a quatro parágrafos.

## Fontes e natureza das adaptações

Na maioria dos textos levantados encontramos a identificação da fonte original e algum m tipo de referência ao fato do texto ter sido traduzido ou adaptado. Dois terços dos textos foram m adaptados para integrar o texto do livro didático. Esta adaptação pode revelar uma tentativa de tornar o texto didático mais homogêneo do ponto de vista da variedade de formas de apresentação de idéias visto que, de modo geral, o texto de divulgação tende a ser mais argumentativo e o texto didático mais descritivo. De fato, a maioria dos textos analisados ainda dá ênfase à descrição ou exempmplificação de conteúdos e não a explicações ou tentativas de convencer os leitores de um m novo ponto de vista. A adaptação dos textos envolveu, ainda, uma redução do tamanho do artigo e a supressão de imagens ou ilustrações Os textos que foram m incluídos sem m adaptação consistiam m de notícias de

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jornal que apenas traziam m notícias relacionadas ao tema do capítutulo . O gráfico abaixo representa como os textos se distribuem m quanto à adaptação.

Figura 1: Percentual de textos de divulgação adaptados.

No que diz respeito às fontes originais, a maioria dos textos presentes nas obras analisadas foi retirada de jornais brasileiros de grande circulação e de revistas de divulgação científica, nacionais e internacionais, conforme mostra a figura 2. Entre as principais fontes declaradas pelos autores encontramos os j jornais O Globo, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil. Entre as revistas de divulgação científica encontram-se as brasileiras Galileu , Superinteressante e Ciência Hojoje, além m das estrangeiras Scientific American e Quebec Science. Apenas uma pequena percentagem m dos artigos foi retirada de revistas dirigidas a professores de ciências como a Revista de Ensino de Ciências da FUNBEC. Tambmbém m não são freqüentes artigos de revistas semanais como Época, Isto é ou Veja, nem m textos originalmente disponíveis através da Internet. Em m compmparação com m artigos de revistas de divulgação, os artigos de jornal tendem a ser mais factuais, relatando eventos tais como descobertas científicas.

Figura 2: Categorias de veículos suporte de textos de divulgação científica.

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Já os textos das revistas podem m incluir descrições mais detalhadas de contextos relacionados a tais eventos (por exempmplo, um m experimento) e uma discussão mais estendida de conteúdos a eles relacionados.

## As temáticas mais freqüentemente abordadas

Nos livros analisados, os textos de divulgação científica se relacionam m principalmente de temas relacionados aos seguintes tópicos curriculares: mecânica, ondas, calor r e tempmperatura, eletricidade e física atômica.

Estas relações geralmente expressam m uma tentativa de exempmplifificar ou de aprofundar alguns dos tópicos discutidos no corpo principal do capítulo. Uma das estratégias mais freqüentes nos textos é a identificação de um contexto do dia a dia relacionado a um tópico científifico que é, então, re-descrito em m termos dos conceitos físicos. Por exempmplo, o texto "Por que o feferro precisisa estar quente para passar a roupa?" (Cruz: 201), re-descreve uma situação do cotidiano utilizando o conceito de calor. Referências a situações do dia a dia tambmbém m servem m ao propósito de despertar a curiosidade ou de estabelecer interesse e relevância para os temas curriculares. Por exempmplo, os efeitos do calor são discutidos através do texto "A primeira volta ao mundo num balão, sem escalas" (Cruz: 206), os estados físicos da m matéria n no t texto "Aviões parecem máquinas de fazer nuvens" (Barros e Paulino: 20), a cinemática e as Leis de Newton aparecem no contexto de partidas de futebol e de corridas de Fórmumula 1, em "A cinemática do fufutebol " (Barros e Paulino: 45) e "A"Atrito com o ar r eletrifica carros de de corridada " , (Barros e Paulino, 65). Fenômenos da natureza ("Ondas podem ultrapassar 30 m de amplitude", Barros e

Paulino: 113), acidentes ("Pânico no fifim da pisista", Barros e Paulino; 46), ou eventos de repercussão internacional ("O macabro expressionisismo da era nuclear", Barros e Paulino: 8) tambmbém m são contextos presentes nos textos selecionados pelos autores para compmpor os seus livros didáticos e que colaboram para o estabelecimento de uma relação entre conceitos físicos e o dia a dia.

Figura 3: Relação entre principais temáticas dos textos de divulgação e tópicos curriculares.

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Na sua maioria, os textos não se relacionam m a temáticas de pesquisa científica da atualidade, mas sim m a aplicações tecnológicas recentes inspiradas por idéias da Física Clássica. Desenvolvimentos da técnica e artefatos do nosso cotidiano atual, tais como lâmpmpadas e gravadores, têm m seu funcionamento descrito com auxílio de conceitos e princípios físicos ("Gênio da lâmpada fafaz 150 anos", Barros e Paulino: 144), e "A gravação do som", Barros e Paulino: 123). Temas relacionados à Física Contempmporânea aparecem m em m textos que descrevem os princípios de funcionamento de aplicações como trens-bala (Barros e Paulino: 149) e máquinas xerox (Barros e Paulino: 147). Constituem-se exceções a este padrão os textos "O átomo de meio minuto" (Cruz: 74), "A micromecânica" (Cruz: 189), "A criação da supermatéria " (Soares: 18) e "CoCondutores elétrtricos sem perda de energia" (Soares: 192). Nestes textos são discutidos temas de pesquisa da atutualidade, como a descoberta de supercondutores e a criação de elementos químicos sintéticos.

## Interdisciplinaridade

Os textos de divulgação analisados tambmbém m se remetem m a contextos e conteúdos relacionados outras disciplinas científicas, como a Biologia e a Química. Um m exempmplo é o texto "Por que a pessoa sente frfrio após a anestesia geral? " (Barros e Paulino: 106) que apresenta uma curiosidade relacionada à anestesia. Alguns exempmplos cumpmprem m um m papel didático como de exempmplifificar ou aprofundar conteúdos como o texto: "O som do apito para cães" , que estabelece uma relação entre a fisiologia do ouvido do cão e propriedades do som m tais como freqüência e altutura (Barros e Paulino: 121) ou o artigo "Cargas elétricas e o coração" (Barros e Paulino: 148) onde explica que os batimentos cardíacos ocorrem porque as células recebem pequenos choques. Outros artigos apenas relacionam m fatos pitorescos ou curiosidades sem m a preocupação de articular ou elaborar explicações, como o texto "O átomo cada vez mais is subdividido" (Barros e Paulino: 169) . Finalmente observamos um m conjunto de textos que traz conteúdos que, apesar de dizerem m respeito ao tópico principal do capítutulo , não se relacionam m diretamente ao assunto priorizado no capítutulo. Por exempmplo, o texto "Água na Lua?" (Barros e Paulino: 193), inserido em m um m capítulo que trata de ligações químicas, discute a possibilidade de existência de água na Lua e fala de equipamentos e explorações em m áreas desertas. Um m único texto "Ficção

dedesrespeita as leis físicas " (Soares: 143) relaciona ciência e arte através de uma discussão que destaca o quanto conceitos físicos são deturpados em alguns filmes de ficção científica.

## Os textos e os temas transversais.

As temáticas abordadas pelos textos guardam m tambmbém m relação, direta ou indireta, com m alguns dos temas transversais propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais para o terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental. Textos que guardam relação direta são menos freqüentes e fafazem m referência explícita a temas ou situações tipicamente relacionadas aos temas transversais como, por exempmplo, o texto "As cargas elétricas e o coração" (Barros e Paulino: 148), que se relaciona com o tema saúde. A maioria dos textos possui conteúdos físicos como temática central, porém m apresentados em m contextos que podem m se prestar a uma discussão mais abrangente, dependendo das mediações introduzidas pelos professores. As referências mais presentes foram relacionadas aos seguintes temas: trabalho e consumo, através de textos tais como "CoComo o foforno de microondas aquece os alimentos" (Barros e Paulino: 114), "A micromecânica" (Cruz: 189) e "CoCondutores elétrtricos sem perda de energia" (Soares: 192), meio ambiente, por exempmplo, através de textos como "O eterno retorno, um princípípio da natureza" (Barros e Paulino: 66) e "O calor que vem das profufundezas da Terra" (Soares: 160) e saúde como, por exempmplo, nos textos "Tipos de de raios ultravioleta " (Barros e Paulino: 116), "Por que a pessoa sente frfrio após a anestesia geral?" (Barros e Paulino: 106) e "A palmlma da mão é antidederrapante" (Barros e Paulino: 62). Apenas uma minoria de textos se relaciona aos temas ética e pluralidade cultural e nenhum dos textos permite relações com m o tema orientação sexual. Por mumuitas vezes encontramos, em m um m mesmo texto, referência ou potencial relação com mais de um m tema transversal. Desta forma, considerou-se o total de referências a quaisquer dos temas como o total de casos para efeito de uma descrição quantitativa da relação entre a temática do texto e os temas transversais, como demonstrado no gráfico da figura 4.

É impmportante notar que aproximadamente a metade dos textos com temáticas da física não se enquadravam m em m nenhum m dos temas transversais como, por exempmplo, os textos: "Velocidade e aceleração" (Cruz: 143), "Qual l a dififeferença entrtre calor e temperatura?" (Cruz, 193) e "A "A poderosa foforça g" (Cruz: 167). Estes textos possuíam m características bem m específicas, como reforçar e re-explicar conceitos abordados no texto do próprio livro, sem m trazer exempmplificações ou mesmo aprofundamentos. É impmportante ressaltar que a inserção do texto de divulgação no livro didático dessa forma não explora o potencial de uso desse material, como , por exempmplo, polemizar, debater, discutir r assuntos atuais, permitir o acesso à chamada "ciência de fronteira", etc.

Figura 4: Análise dos textos de divulgação quanto à distrtribuição das temáticas de física nos temas transversais.

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## Os textos e a natureza da ciência

Em geral, podemos dizer que os textos trazem m informações acerca de fatos, feitos, objetos, datas e nomes, de uma forma que não problematiza aspectos do fafazer ciência. Apenas alguns poucos textos tratam de assuntos que evidenciam m as polêmicas e os debates inerentes à atividade científica, algumas delas restritas à comumunidade acadêmica, como no texto "No No zero KeKelvlvin as moléculas quase param" (Barros e Paulino: 101), outras relacionadas a temáticas que possuem m impmportância pública como, por exempmplo, no texto "CoComo o foforno de microondas aquece os alimentos?" (Barros e Paulino: 114). Tambmbém m são poucas as referências a descrições de práticas ou procedimentos associados à atividade científica como, por exempmplo, a experimentação, realização de observações, tomadas de medidas, análises de resultados.

Em m sua maioria estes textos tratam m das questões referentes à natureza da ciência, mencionando freqüentemente a figura do cientista, algumas vezes supervalorizando sua capacidade intelectual individual como faz o texto "Newton , um gênio solitário " (Barros e Paulino: 73) que, curiosamente, vai de encontro à visão do próprio Newton que negou o mérito individual para suas descobertas científificas expressando-se eloqüentemente acerca do fato de que somente pode vislumbmbra-las pois "subiu nos ombmbros" de gigantes como Kepler, Galileu e Copérnico. No entanto a maneira através da qual o cientista é mencionado nos textos de divulgação científica varia desde uma simpmples menção à incorporação de citações, diretas ou indiretas. Assim m o texto "114: o átomo de meio minuto" (Cruz: 74) fala sobre o empmpenho de físicos russos e americanos na criação de um novo elemento químico, enquanto no texto "A criação da supermatéria " (Soares: 18) o autor reconta algumas das idéias de Einstein. Já o texto "CaCalor - energia para o p progresso" (Soares: 159) traz, por meio de uma citação, a voz do cientista Evaristo Ribeiro Filho, do Instituto de Geociências da USP, discutindo fontes de energia. Outro exempmplo é o texto "A palmlma da mão e antidederrapante" (Barros e Paulino: 62), que incorpora a voz do especialista em m medicina legal, Daniel Romero, relacionado às impmpressões digitais e ao atrito. Estas diferentes construruções intertextutuais podem m conferir r um m maior ou menor grau de autoridade ao texto. De qualquer forma, os textos não contêm m referências ou alusões a situtuações ou descrições de eventos que permitam m uma compmpreensão da natureza da atividade científica de forma mais compmpleta e menos idealizada.

Podemos dizer, ainda, tambmbém m que a ciência é apresentada como uma atividade de caráter essencialmente dinâmico e em m permanente construção. No entanto, os textos tendem m a apresentar esta construrução como possuindo um m caráter linear, contínuo e cumumulativo. Um m número pequeno de textos faz referências a descontinuidades ou ruptuturas no desenvolvimento das idéias científificas, porém m de forma mumuito tímida. Por

exempmplo, o texto "Gênio da lâmpada fafaz 150 anos" (Barros e Paulino: 144) descreve toda a trajetória de pesquisa feita por Thomas Edison ao longo do tempmpo, até culminar na descoberta da lâmpmpada. Outro exempmplo é o texto "Os 350 anos do termômetrtro" (Barros e Paulino: 102) que descreve o processo de desenvolvimento do termômetro como conhecemos através contribuição de ilustres como Philon de Bizâncio, Galileu Galilei, até a construção final de Torricelli, em m 1643. O texto traz, ainda, exempmplificações de outros termômetros com m escalas diferentes daquela descrita por r Torricelli e menciona ainda as variações atuais deste antigo instrumento , como os termômetros descartáveis e digitais. Estes exempmplos de textos que recontam m o desenvolvimento de idéias, artefatos ou conceitos, via de regra, não exploram ou contextutualizam m estes desenvolvimentos do ponto de vista social ou político . Finalmente, outra ausência digna de nota diz respeito à discussão da abrangência e dos limites dos modelos e teorias científicas.

## DISCUSSÃO E IMPLICAÇÕES DOS RESULTADOS

Dentre as obras analisadas podemos concluir que alguns títulos se destacam m quanto ao número de textos de divulgação científica inseridos no corpo do livro didático como, por exempmplo, o livro de Barros e Paulino. No entanto as foformas de incorporação são parecidas em todas as obras analisisadas. Na maior parte dos livros, o texto de divulglgação é colocado lado a lado com o texto p principipal l mas não há, em nenhum deles, sugestões para uma leitura que os integegre ou mesmo que os relacione .

É impmportante destacar que a maioria dos textos de divulglgação incorporado aos livros analisisados sofrfreu alglguma espécie de adaptação. Embmbora não tenhamos conduzido uma análise da natureza das re-elaborações textutuais envolvidas nestas adaptações, podemos dizer r que estas re-elaborações sugerem m um m esforço de didatização, isto é, de transformações do texto para que este passe a servir a um m fim m didático. Assim , uma redução de tamanho dos textos, por exempmplo, pode permitir a compmposição de um m texto mais homogêneo no que diz respeito a extensão das diversas seções que compmpõem m o capítulo. Os textos de divulglgação contrtribuem também para a diversidade genérica do texto didático de ciências na medida que incluem m gêneros tais como relatos explicativos, relatos de procedimentos e biografias.

A preferência dos autores dos livros didáticos p por j jornais e revistas de divulgação científica como fontes principais de material a ser incorporado atende a um critério de atualidade para as infnfoformações contidas no texto. A credibilidade das informações não é primeiramente ligada à fonte, mas sim m conferida, mumuitas vezes, por meio de citações de especialistas ao longo do texto.

Percebemos que há textos que se relacionam m à maioria dos tópicos curriculares que compmpõem o conteúdo do livro didático do último ano do Ensino Fundamental, principalmente mecânica, ondas e calor e tempmperatura. Uma boa parte dos textos analisisados promove interfafaces entrtre as disiscipiplinas Físísica, Biologia e Química. Com m respeito à relação entre as principais temáticas dos textos de física e os temas transversais o que se verifica é que os temas trtrabalhlho e consumo, meio ambiente e saúde são os que se sobressaem como maisis frfreqüentes na amostrtra analisisada. Podemos especular acerca desta distribuição se dar pela maior disponibilidade de artigos que tratam m de tópicos relacionados a saúde e meio-ambmbiente na mídia e ao fato de que referências a aplicações e artefatos tecnológicos se relacionam mais prontamente ao tema trabalho e consumo.

Com m relação às questões referentes à natureza da ciência, são p poucos os que se preocupam em trtratar de assuntos que evidenciam as p polêmicas e os debates inerentes à atividade científica. Vimos tambmbém m que os textos não constróem m uma descrição mais aprofundada da natureza da atividade científica ou do papel social do cientista.

Finalmente, percebemos que os textos de divulgação poderiam m ser mais explorados no sentido de efetivar a compmplementação dos conteúdos tratados no texto didático, no que diz respeito às possibilidades de trazer conteúdos atuais, contextualizados e evidenciar o caráter interpretativo da atividade científica. Ressaltamos tambmbém que a incorporação de textos de divulgação científica ao texto didático potencialmente pode promover o entendimento de um m impmportante aspecto da prática científica, isto é, a responsabilidade social do cientista e da mídia de comumunicar ciência a audiências de não especialistas. No entanto, as características distintas dos textos de divulgação científica e do texto didático (Salém m e Kawamumura 1997) apontam m para o impmportante desafio de manter suas identidades textutuais de forma que o livro didático de fato atenda às orientações curriculares sugeridas nos PCNs e incorpore outras vozes, identificadas com m outros discursos (científico , jornalístico etc.) além m daquela de seu autor, principalmente identificada com m o discurso científico escolar. Assim , se por um m lado, é necessário manter preservadas características fundamentais que caracterizam seu gênero (sua estrurututura lingüística e argumentativa, suas relações com m etapas e processos de construrução de idéias científicas e seu propósito didático), por outro lado, são necessárias adaptações de forma a evitar que o texto de divulgação científica não se destaque como uma estrutura tão diferente do texto didático, a ponto de impmpor quebras ou obstáculos de leitutura.

## BIBLIOGRAFIA

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