A MOTIVAÇÃO DOS ALUNOS NUM CONTEXTO DE LEITURA DE TEXTO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Isabel Cristina De Castro Monteiro*, Alberto Gaspar, Marco Aurelio Alvarenga Monteiro
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2005
Texto completo
## A MOTIVAÇÃO DOS ALUNOS NUM CONTEXTO DE LEITURA DE TEXTO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Isabel Cristina de Castro Monteiro [monteiro@feg.unesp.br] a Alberto Gaspar [gaspar@feg.unesp.br] b Marco Aurélio Alvarenga Monteiro [maureliomonteiro@uol.com.br] a
- a Unesp - Campus de Guaratinguetá - Departamento de Física e Química e
- Unesp - Campus de Bauru - Doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Faculdade
de Ciência e membros do Grupo de Ensino e Pesquisa em Educação em Ciências
- b Unesp - Campus de Guaratinguetá - Departamento de Física e Química
## RESUMO
O trabalho de Vigotski se fundamenta na precedência da cultura sobre o desenvolvimento cognitivo de uma pessoa. A idéia de que a instrução, entendida como interação de crianças ou aprendizes com adultos ou parceiros mais capazes, é necessária para o desenvolvimento cognitivo, é conseqüência dessa fundamentação (HOWE, 1996). Muitos pesquisadores têm-se dedicado à compreensão e extensão do conceito de zona de desenvolvimento proximal, proposto por ele, mas poucos têm enfatizado o papel das emoções nas interações sociais voltadas à aprendizagem. Acreditamos que, se o uso das emoções é importante no incremento dessas interações, como o próprio Vigotski reconhece, é essencial o estudo do papel das emoções e, associadas a elas, da motivação.
Nesse sentido, é preciso entender quais são as características fundamentais dos processos motivacionais e como elas se relacionam visando tanto a elaboração de atividades e modos de desenvolvê-las em sala de aula, quanto o desencadeamento de interações sociais que possam ser realmente significativas para a aprendizagem dos alunos. Neste trabalho traçaremos algumas considerações sobre a questão da motivação em sala de aula, mais especificadamente na que pode ser desencadeada em uma atividade peculiar ao ensino de Física: a leitura de um texto de divulgação científica. Para tanto, buscamos analisar a videogravação de uma aula de Física do ensino médio na qual tal atividade era realizada. Os resultados evidenciam que as motivações extrínsecas e intrínsecas da atividade podem contribuir para a motivação de todo o grupo no desencadeamento de interações sociais significativas para o aprendizado de conceitos em sala de aula.
## I - INTRODUÇÃO
A teoria de Vigotski postula a origem predominantemente sócio-histórica na estrutura cognitiva do ser humano. A idéia de que a instrução, entendida como processo resultante da interação de crianças ou parceiros menos capazes com adultos ou parceiros mais capazes, é necessária para o desenvolvimento cognitivo, é conseqüência dessa fundamentação. Para Vigotski 'a aprendizagem não é, em si mesma, desenvolvimento, mas uma correta organização da aprendizagem da criança conduz ao desenvolvimento mental, ativa todo um grupo de processos de desenvolvimento, e esta ativação não poderia produzir-se sem a aprendizagem. Por isso, a aprendizagem é um momento intrinsecamente necessário e universal para que se desenvolvam nas crianças as características humanas não-naturais, mas formadas historicamente.' (VIGOTSKI, 2001a).
VIGOTSKI (2001b) ressalta ainda que um elemento auxiliar no trabalho do professor é o uso das emoções como uma forma de comportamento que deve ser aceitável e desejável ao trabalho de
1
ensinar, haja vista que tais funções exercem um papel organizador interno do nosso comportamento. Ele afirma que a emoção não é um agente menor do que o pensamento, sendo que os alunos não só devem pensar e assimilar, mas devem sentir a aprendizagem.
'Os gregos diziam que a filosofia nasce da surpresa. Em termos psicológicos isso é verdadeiro se aplicado a qualquer conhecimento no sentido de que todo conhecimento deve ser antecedido de uma sensação de sede. O momento da emoção e do interesse deve necessariamente servir de ponto de partida a qualquer trabalho educativo.' (VIGOTSKI, Psicologia Pedagógica, p145)
A rigor, o único conceito definido por Vigotski como orientador da aprendizagem nas interações sociais é a zona de desenvolvimento proximal ou imediato, 'em síntese, a zona de desenvolvimento proximal é uma espécie de desnível cognitivo avançado dentro do qual uma criança, com o auxílio direto ou indireto de um adulto ou parceiro mais capaz, pode realizar tarefas que ela, sozinha, não seria capaz, por estarem além do seu nível de desenvolvimento.' (GASPAR, 1998). Muitos pesquisadores têm-se dedicado à compreensão e extensão desse conceito, mas poucos têm enfatizado o papel das emoções nas interações sociais voltadas à aprendizagem. Acreditamos que, se o uso das emoções é importante no incremento dessas interações, como o próprio Vigotski reconhece, é essencial o estudo do papel das emoções e, associadas a elas, da motivação.
- O vínculo entre emoção e motivação foi estudado por LEEPER (1948) que enfatizou os processos emocionais no seu sentido organizador e adaptativo, tal como o da motivação, interpretando a emoção como forma inequívoca da motivação.
Mais recentemente, BZUNECK (2001) afirma que as tarefas para as quais se espera observar a motivação do aluno sala de aula - atenção, concentração, processamento, elaboração e integração da informação, raciocínio e resolução de problemas - são de natureza cognitiva e devem receber uma análise dentro deste contexto.
BZUNECK (2001), aponta ainda para o fato de que a motivação em sala de aula apresenta uma inversão gradativa de orientação com o acréscimo do nível de escolaridade: curiosidade, prazer e alegria podem caracterizar a participação da criança em situação de aprendizagem, mas são geralmente características de uma não participação efetiva, em termos de aprendizagem, quando nos referimos ao adolescente. Em nossa opinião, tal fato é conseqüência da abstração, necessária à compreensão da maioria dos conteúdos das disciplinas básicas no ensino médio. Em Física, por exemplo, estudamos conceitos como velocidade, aceleração, força, energia, campo, os quais, precisam ser interpretados qualitativamente e também quantitativamente, pelos alunos. Essa passagem da abordagem qualitativa para a quantitativa, é construída em múltiplas atividades, comuns ao ensino de física, das quais destacamos: a prática experimental, a prática demonstrativa (mental ou experimental), textos de divulgação científica e resolução de problemas. Em cada uma dessas atividades e no somatório delas, a motivação dos alunos pode ser uma das alavancas de um processo de interação social profícuo para a aprendizagem, e deve ser orientado e observado, tanto em relação à motivação intrínseca, quanto à motivação extrínseca desencadeadora da atividade.
Adotamos aqui o conceito tradicional de motivação intrínseca e extrínseca, que pode ser encontrado em BZUNECK, 2001. Assim, motivação intrínseca é o interesse do aluno pela realização de determinada atividade em si, por sua própria causa, por ser interessante, atraente ou, de alguma forma, geradora de satisfação. A motivação extrínseca relaciona-se com o envolvimento do aluno em uma atividade tendo em vista a obtenção de resultados estranhos ao conteúdo da atividade, ligados em geral ao contexto escolar - notas, elogios, prêmios, etc.
Tendo em vista esses pressupostos, nossa pesquisa tem como objetivo encontrar indicações para a orientação do trabalho do professor em sala de aula para promover interações sociais mais profícuas em relação à aprendizagem de conteúdos de Física. Nossa hipótese, fundamentada nos trabalhos de Vigotski e seus seguidores, é que as atividades que despertam a motivação do aluno
têm fatores determinantes para o desenvolvimento da interação social com vistas aprendizagem de conteúdos de Física. Este é o objeto de estudo deste trabalho.
## II- A PESQUISA
Nesta primeira etapa avaliamos o impacto motivacional em uma interação social focada na aprendizagem de conteúdos de Física, obtido por meio da apresentação de um texto de divulgação científica.
Para isso foi realizada um atividade em duas turmas da segunda série do Ensino Médio com 35 alunos por sala, divididos em grupos de 4 ou 5 alunos em uma escola pública na qual um dos autores é professor efetivo. A atividade teve como objetivo principal despertar nos alunos o interesse por Astronomia, assunto que pode ser tratado no ensino médio quando se estuda Gravitação Universal.
O texto escolhido, Galáxias Distantes , publicado na revista Ciência Hoje, vol. 29, nº 171, de maio de 2001, tratava do avanço tecnológico atual que nos permite fazer hipóteses confiáveis sobre a origem da Universo..
## a) Metodologia de apresentação
O texto foi primeiramente apresentado pela professora explicando alguns termos técnicos para que não desistissem da leitura devido a esses termos, lembrando que o importante era a compreensão de suas idéias principais. Em seguida, dividiu a sala em grupos, distribuiu os textos e enquanto os alunos liam, podiam ir discutindo algumas dúvidas, com os colegas ou com a professora. No final da aula a professora reintegra a sala num grupo único e discute questões sobre o objetivo do texto, assunto a que se refere, dificuldade na leitura e responde questões específicas. Em seguida, os alunos receberam um questionário para que opinassem sobre o assunto do texto e avaliassem a aula de leitura.
## b) Metodologia de análise
As aulas foram parcialmente gravadas em vídeo, ora por um aluno, ora pela própria professora, totalizando 140 minutos de gravação. A avaliação dos resultados teve dois enfoques distintos: a análise do diálogo entre alunos e a professora durante a atividade e a análise das respostas a um questionário apresentado aos alunos após as atividades.
Procuramos avaliar a motivação extrínseca ao trabalho, relacionada diretamente com a nota ou relacionada a fatores como elogio, importância de realização frente ao grupo social, fatores que, a nosso ver, podem auxiliar a interação social e a aprendizagem. Fatores relacionados à motivação intrínseca foram avaliados a partir do comportamento demonstrado, individualmente e em grupo.
## c) Resultado e análises
Dos 140 minutos filmados nas duas salas, aproximadamente cinqüenta minutos se referem à leitura atenta do texto, sessenta minutos referem-se à leitura do texto juntamente com a discussão em grupo, momentos em que se observam intervenções da professora junto aos grupos. Os trinta minutos finais iniciam-se com a reintegração da sala num grupo único, pela professora.
Houve motivação extrínseca ao trabalho relacionada diretamente com a nota, já que a participação valeu acréscimo de pontos. Outros fatores relacionados com a motivação extrínseca foram observados em diferentes momentos da atividade, dentre os quais destacamos elogios e críticas da professora à participação dos alunos, às vezes abertamente, outras veladamente. Participações com referências diretas ao que estava sendo proposto, por meio de respostas certas ou erradas, recebiam destaque na continuação do diálogo, autorizado pela docente que, em maioria absoluta, falava novamente a resposta (ou pergunta) e complementava, algumas vezes corrigindo, a idéia do aluno. Houve algumas interferências ao trabalho, como a freqüente chamada de atenção de alguns alunos para que a câmera os filmassem, criticadas pela professora, por meio de palavras ou procurando uma forma de inibi-los, dirigindo a eles a câmera por alguns instantes, o que os fazia voltarem às atividades propostas.
A motivação intrínseca evidenciou-se primeiramente pela atenção dispensada para a leitura do texto. No final da atividade e no relatório apresentado pelos alunos, observou-se a curiosidade
dos alunos pelo tema discutido no texto (origem do universo). A maioria dos alunos parecia desanimada com a leitura, tendo em vista sua abordagem excessivamente técnica, mas foram estimulados pela professora que procurava, no transcorrer da leitura, explicar dúvidas mais específicas nos diversos grupos. A diversidade de perguntas específicas, tratadas superficialmente no texto, e apresentadas à professora no final da atividade indicam que vários alunos se interessaram pela leitura, querendo entender e discutir ainda mais profundamente sobre o tema.
No relatório apresentado pelos alunos, a maioria assinala a importância da discussão em grupos menores e no grupo único final para a melhor compreensão do texto. Foi feito também um resumo sobre o texto e observou-se que muitos compreenderam assuntos importantes e souberam realizar uma breve síntese do tema, ao contrário do que afirmaram alguns no início da discussão final, de que ninguém havia compreendido muita coisa do texto.
## III- CONSIDERAÇÕES FINAIS
A importância da motivação foi formalizada desde quando S. Freud apresentou sua contribuição no Projeto de uma Psicologia Científica, em 1895. Sua relação com aprendizagem vem se desenvolvendo ao longo da evolução dos conceitos sobre a epistemologia. Atualmente as pesquisas parecem tender para observações cada vez mais contextualizadas dentro de uma abordagem cognitivista (BZUNECK, 2001). Nesse sentido, enfatizamos a importância de considerar os fatores motivacionais em relação ao processo de ensino e aprendizagem específicos de conteúdos de Física, haja vista a importância das i nterações sociais voltadas à aprendizagem de conceitos científicos nas quais se priorize o envolvimento motivacional.
Entendemos que esse trabalho elabora uma abordagem inicial do papel da motivação nas interações sociais em sala de aula - esperamos que ele possa contribuir para que este assunto se torne cada vez mais refletido e discutido.
## BIBLIOGRAFIA
BZUNECK, J. A. A motivação dos alunos: Aspectos Introdutórios. In : BORUCHOVITCH, E. & BZUNECK, J. A. (orgs) A motivação do aluno: Contribuições da psicologia contemporânea. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001
GASPAR, A. Museus e Centros de Ciências- Conceituação e proposta de um referencial teórico . In NARDI, R. (org .) Pesquisas em Ensino de Física. Editora Escrituras. São Paulo, 1998
HOWE, A. C. Development of science concepts within a Vigotskian framework. Science Education 80(1), pp. 35-51, 1996
LEEPER, R. A Motivational Theory of Emotion to replace Emotion as Disorganized Response. Psychology Review, 55, 1948
VIGOTSKI, L. S. Aprendizagem e desenvolvimento intelectual na idade escolar. In VIGOTSKI et al Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Editora Ícone, 2001a
VIGOTSKI, L. S. Psicologia Pedagógica. São Paulo: Martins Fontes, 2001b
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.