CONCEPÇÃO ESPONTÂNEA: DA REFLEXÃO A MUDANÇA CONCEITUAL
Everaldo José Machado De Lima, Rute Helena Trevisan, Cleiton Joni Benetti Lattari
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CONCEPÇÃO ESPONTÂNEA: DA REFLEXÃO A MUDANÇA CONCEITUAL
Everaldo José Machado de Lima a
Cleiton Joni Benetti Lattari c
[everaldolima@uel.br] Rute Helena Trevisan b [trevisan@uel.br] [lattari@sercomtel.com.br]
- a Universidade Estadual de Londrina - UEL - PR
- b Universidade Estadual de Londrina - UEL - PR
- c Fundação Educacional do Município de Assis - FEMA - SP
## Resumo
- O presente trabalho tem o objetivo de demonstrar como se desenvolvem e se relacionam as concepções espontâneas no ensino de astronomia.
No dia-a-dia escolar, comumente se encontra com professores que vêm para as aulas de ciências com concepções espontâneas, frutos da realidade em que vivem e de sua formação, dificultando o aprendizado dos conceitos científicos. Assim, se faz necessário um estudo de como estas concepções influenciam no aprendizado de conceitos verdadeiros.
A formação dos conceitos será feita sobre o referencial teórico de Vygotsky, fornecendo as ferramentas necessárias para o estudo das implicações das concepções espontâneas no desenvolvimento da aprendizagem de conceitos científicos. Pretende-se abordar este conteúdo enfatizando uma mudança conceitual, proposta por Pozo em 2002; objetiva-se f ornecer ao professor ferramentas necessárias para a melhoria das aulas de ciências ,fazendo com que este se torne disseminador dos saberes científicos.
Palavras chaves: astronomia; concepções espontâneas, mudança conceitual.
## Introdução
A astronomia tem sido objeto de estudo desde a mais remota antiguidade, com o objetivo maior de elucidar a fascinação e o interesse que os fenômenos do céu exercem sobre os homens. A humanidade observou o céu durante os séculos, buscando regularidades que ajudassem a sua vida e a sua sobrevivência. Os chineses os indianos, assim como os povos da Mesopotâmia, do Peloponeso, do norte da África e do Oriente Médio sempre buscaram avisos do céu, à procura do tempo certo de trabalhar a terra, pescar, caçar, coletar, etc..
- O ensino de astronomia nos dias atuais vem tomando um novo impulso, no sentido de melhorar a situação do mesmo, não só nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, mas também na divulgação dos conceitos básicos de astronomia para a população .
- A situação atual do Ensino de Astronomia se depara com sérios problemas, os quais interferem n a formação de conceitos, sendo estes, principalmente, professores despreparados e erros de conceito nos livros didáticos de ciências (Trevisan et Al.,1997; Canalle et al., 1997).
- O estudo de como ocorre a formação de conceitos e a sua relação com as concepções espontâneas nos conduz à necessidade de estudar as conseqüências que estas causam no desenvolvimento do conhecimento científico, utilizando a formação de conceitos descrita por Vygostsky, que os organizam em três categorias: acumulações não organizadas; complexos e conceitos.
A proposta do trabalho é unicamente fazer um estudo teórico de como os conceitos de astronomia estão sendo formados e aprendidos, objetivando incentivar a mudança conceitual do professor; isto não implica em um abandono das teorias implícitas, tão eficazes em numerosos contextos cotidianos , na interação pessoal ,social, hierárquica (Pozo, 2002).
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Para que ocorra a mudança conceitual, será utilizada a estratégia proposta por Pozo (2002) que consiste em : exposição dos objetivos da unidade; consolidação das teorias dos alunos; provocação e tomada de consciência de conflitos empíricos; apresentação de teorias cientificas alternativas; comparação entre as teorias do aluno e as teorias alternativas; aplicação das novas teorias a problemas já explicados pela teoria do aluno e a problemas não explicados.
## Formação dos conceitos
Nas últimas duas décadas, surgiu uma extensa literatura indicando que as crianças chegam para as aulas de ciências com concepções prévias, que podem diferir substancialmente das idéias a serem ensinadas, e que estas concepções influenciam a aprendizagem futura, podendo ser resistentes a mudanças (Driver, 1989). Torna-se então necessário discutir alguns fatores que levam a formação de concepções espontâneas, que, segundo Vygostsky, têm sua origem nas palavras e nos significados atribuídos.
O processo de ensino muitas vezes se depara com a formação de conceitos, que são frutos do significado atribuído às palavras. Em muitos casos, o fato de não se conhecer uma palavra determina uma dificuldade em atribuir o verdadeiro significado a ela, formando conceitos espontâneos.
Para explicar como se formam os conceitos, Vygostsky utiliza o método da dupla estimulação, também conhecido como 'método genérico-experimental' idealizado por Sakharov, possibilitando 1 a identificação de três etapas no processo de formação dos conceitos, que são: Acumulações não organizadas; Complexos; Conceitos.
A acumulação não organizada (amontoado) é uma característica manifestação de tentativa e erro. Complexos têm como principal característica referência e significado dos objetos. Os pseudoconceitos se caracterizam pelos aspectos sensoriais imediatos dos objetos. A origem dos pseudoconceitos estaria na assimilação da fala do adulto.
Segundo Pozo (2002), os adultos devem tomar cuidado ao comunicar determinados pensamentos às crianças. O fato de terem familiaridade com as palavras necessárias para o entendimento não determina sua compreensão; podem faltar conceitos adequados, que assegurem uma generalização e a compreensão do conceito. Freqüentemente, as crianças têm dificuldade para aprender uma nova palavra, não por causa da sua pronúncia, mas pelo conceito ao qual se refere.
Os Conceitos tem como base uma generalização dos pseudoconceitos, de aspectos semelhantes. Quando se aprende algo novo, procura-se relacionar este conceito com a teia de saberes adquiridos na vida. Esta teia se comunica com informações e experiência vivenciadas anteriormente; esta ligação se dá de forma aleatória, sem muita convicção com o saber verdadeiro. Quando ocorrer uma abstração dos conceitos, formam-se 'conceitos potenciais'.Qualquer uma das duas vias, baseadas no processo indutivo ou associativo, dificilmente chegarão à formação de conceitos verdadeiros. Estes processos levaram a formação de conceitos espontâneos.
A diferenciação de um conceito espontâneo de um conceito verdadeiro 'científico' não está muitas vezes no conteúdo, mas nos processos de aprendizagem pelos quais estes foram adquiridos. Os conceitos científicos são sistemas de relação entre os objetos definidos em teorias formais. Têm sua origem na cultura e não no indivíduo. Conceitos científicos não emergem suavemente e diretamente a partir dos conceitos espontâneos ; estes conceitos seguem caminhos diferentes e desempenham papéis diferentes no desenvolvimento da aprendizagem.
Para Vygostsky (1998), os conceitos espontâneos criam várias estruturas necessárias para a evolução dos aspectos elementares e mais primitivos de um conceito, dando corpo e vitalidade. Por outro lado, os conceitos científicos fornecem estruturas para o desenvolvimento crescente dos conceitos espontâneos da criança em direção ao seu uso consciente e deliberado. O desenvolvimento dos conceitos espontâneos de uma criança acontece de maneira ascendente,
enquanto seus conceitos científicos de maneira descendente. Os conceitos espontâneos vão do concreto para o abstrato, enquanto o científico percorre o caminho inverso.
Assim, a utilização de um conceito por um especialista ou por um iniciante do estudo não implica que possua o mesmo significado, sendo que este está relacionado com associação dos conhecimentos do indivíduo que o utiliza.
Segundo Trivilato (1998), as concepções alternativas estão ligadas à idéia de algo que funciona como um obstáculo à aprendizagem; no ensino de ciências, as concepções são uma forma de conhecimento como outra, funcionando como uma interpretação coerente dos fenômenos científicos, diferindo da explicação aceita pela ciência.
Ao se pensar sobre as concepções espontâneas que os professores trazem para a sala de aula , deve-se ressaltar a necessidade de um processo de auto-reflexão, para que o indivíduo possa ser capaz de se distanciar de seus próprios pontos de vista, a um grau suficiente.
## Uma reflexão
Ao trabalhar estações do ano com professores no ensino de ciências, depara-se com idéias espontâneas gerando dúvidas de conceito, já que a base teórica se restringe ao livro didático, os quais podem trazer alguns erros (Canalle, et al., 1997; Trevisan et al., 1997).
Estas dúvidas são geradas a partir de idéias ou associações que o indivíduo faz a partir de pensamentos ou ensinamentos ocorridos durante a formação de conceitos; posteriormente, ocorreu uma associação entre o novo conceito aprendido e a rede de conhecimento, que o indivíduo formou ao longo dos anos. Este tipo de aprendizagem não se dá em uma faixa etária específica, mas ao longo da vida.
A melhoria na qualidade do ensino fornecerá ferramentas necessárias para a construção dos significados. Para que isto ocorra, o professor deve ter com clareza a relação entre as metodologias que utiliza em sala de aula e os conteúdos.
Para um crescimento das aulas, é necessário que o professor reflita para a ação na ação, e depois da ação de ensinar. É necessário integrar os conceitos espontâneos aos conceitos científicos, para transformá-los em conhecimento prático.
Com um professor reflexivo e atento ao cotidiano da sala de aula, é possível trabalhar as concepções espontâneas dos alunos e transformá-las em aprendizagem significativa. Faz-se necessário que o professor proporcione uma mudança conceitual no aluno.
## Desenvolvendo a Mudança Conceitual
Produzir uma mudança conceitual no aluno não implica necessariamente um abandono das teorias implícitas deste, tão eficazes em numerosos contextos cotidianos , na interação pessoal e na interação social, na sua interação hierárquica (Pozo, 2002). A mudança conceitual será possível somente com a superação dos obstáculos que sustentam um sistema de explicações do indivíduo; a não superação dos obstáculos faz com que não mude sua representação, mesmo quando submetido à pressão do ensino, visando mudar alguns aspectos da sua concepção.(Trivelato,1998)
Segundo Villani (1989), não se deve ignorar a bagagem cultural do aluno, incluindo as concepções espontâneas que ele traz, quando chega à escola.
O trabalho com professores demonstra que muitos deles trazem as concepções espontâneas e que, ao ensinarem os alunos, acabam transmitindo a estes as suas experiências, dúvidas e pensamentos sobre determinados assuntos. Então, algumas idéias espontâneas não nascem do aluno, e sim do professor. Com a formação continuada, baseada na reflexão sobre a ação, poderia-se melhorar seus conhecimentos conceituais e a prática em sala de aula; s endo capaz de mostrar quais associações são mais comuns, as que ocorrem e quais deveriam ser evitadas.
Freqüentemente, professores se deparam com uma idéia espontânea, gerando dúvidas de conceito, já que sua base teórica se restringe ao livro didático, o qual pode trazer alguns erros (Trevisan, et al, 1997).
Dentro desta perspectiva, o aperfeiçoamento do professor é fundamental para os esclarecimentos quanto a melhor metodologia a ser usada em sala de aula. Cursos de capacitação de forma continuada trazem ao professor melhor segurança, e a oportunidade de erradicar concepções espontâneas que interferem no ensino e na aprendizagem. A formação permanente deve constituirse de uma rede de comunicações , que se deve reduzir ao âmbito dos conteúdos acadêmicos, incluindo também os problemas metodológicos, pessoais e sociais que continuamente se entrelaçam com as situações de ensino.(Esteves-1995)
As concepções espontâneas devem ser eliminadas somente quando causarem obstáculos para o domínio científico, pois por vezes podem gerar um aperfeiçoamento natural das estruturas e dos saberes. De acordo com Dinis (1998), para que ocorra uma mudança conceitual , os autores relacionam quatro condições básicas :A insatisfação com os conceitos existentes, a nova concepção deve ser inteligível, plausível e frutífera. A mudança ocorrerá de maneira gradual, através de um ajustamento progressivo dos conceitos, conduzindo a novos conceitos básicos ou centrais.
## Considerações finais
De acordo com a discussão, fica claro que algumas concepções espontâneas aparecem e se tornam condutoras das mais variadas interpretações na vida de alunos e professores. Saber como elas se desenvolvem e quais são os mecanismos que possibilitam uma melhoria na qualidade do ensino de ciências, e trabalhar com o professor através da formação continuada, se torna fundamental para o desenvolvimento do saber. É sugerido a capacitação dos professores, por meio de oficinas de astronomia, que trabalham os conceitos de forma prática, usando o céu como laboratório. Assim ,os professores se tornarão disseminadores do saber científico, proporcionando uma melhoria nas aulas de ciências e na correção de concepções espontâneas, fazendo a troca de conhecimentos do senso comum para conhecimento científico
A coleta de dados se fará mediante entrevistas semi-estruturadas, divididas em três etapas: levantamento das concepções espontâneas envolvendo as estações do Ano; oficinas de Astronomia e análise dos resultados após uma nova entrevista.
## Bibliografia
1.CANALLE, J.B.C., TREVISAN, Rute Helena, LATTARI, Cleiton Joni Benetti in Caderno Catarinense Ensino Física, v.14,n.3: p.254-263, dezembro 1997 Análise Do Conteúdo De Astronomia De Livros De Geografia Do 1° Grau.
2.DINIZ R.E.S. Questões Atuais no Ensino de Ciências /Roberto Nardi org. São Paulo: Escrituras editora, 1998, p 27-32 Concepções E Práticas Pedagógicas Do Professor De Ciências.
- 3. DRIVER, R 1989, Students' Conceptions And The Learning Of Science. Int. j. Sci. Educ., Vol
- 11, special issue, p. 481
- 4.ESTEVES J.M. profissão professor /António Nóvoa organizador Portugal: Porto editora, 1995, p 93- 124 mudanças sociais e função docente.
- 5.POZO, Juan Ignácio, Teorias Cognitivas Da Aprendizagem. Porto Alegre: 3ªedição, Artmed Editora, 2002.
- 6.TREVISAN, Rute Helena. LATTARI, Cl eiton Joni Benetti, CANALLE, João Batista in Caderno Catarinense de Ensino de Física,v 14, nº 1: p. 7-16, abr. 1997 Assessoria na Avaliação do Conteúdo de Astronomia dos Livros de Ciências do Primeiro Grau.
- 7.TRIVELATO J.J. Questões Atuais no Ensino de Ciências /Roberto Nardi organizador São Paulo: Escrituras editora, 1998, p 77-84 Um Obstáculo A Aprendizagem De Conceitos Em Biologia: Geração Espontânea X Biogêneses.
- 8.VILLANI. A in Revista de Ensino de Física. Vol. 11. Dezembro 1989. pág. 130-147. Idéias Espontâneas e Ensino da Física.
- 9.VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem, Martins Fontes, São Paulo 2ª ed. 1998.
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