UMA EXPERIÊNCIA DIDÁTICA DIFERENCIADA E A ATITUDE DOS ALUNOS FRENTE AO ENSINO DE CIÊNCIAS
Pierre Schwartz Augé, Sonia Krapas
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 27/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## UMA EXPERIÊNCIA DIDÁTICA DIFERENCIADA E A ATITUDE DOS ALUNOS FRENTE AO ENSINO DE CIÊNCIAS
Pierre Schwartz Augé (pierreauge@cefetcampos.br) a Sonia Krapas b (sonia@if.uff.br)
a
Universidade Federal Fluminense
CEFET CAMPOS b
## RESUMO
Este artigo apresenta uma pesquisa cujo objetivo é investigar o problema da atitude para com o ensino de ciências frente a uma experiência didática diferenciada, proposta por Augé (1996). A investigação admite como conjectura o fato de que os dezessete alunos de uma turma de primeiro ano do ensino médio do CEFET-Campos, noturno, manifestaram uma atitude positiva e que esta se relaciona às características da proposta didática. O suporte teórico da investigação inspira-se nos pilares da proposta - abordagem construtivista, história e experimentos - além de basear-se na literatura sobre atitude, e em pesquisas sobre a relação entre atitude e ensino de ciências. Através de entrevistas semi-estruturadas, usando referencial de pesquisa qualitativa, registram-se as impressões mais marcantes de seis alunos selecionados. As manifestações verbais e comportamentais, evidenciadas através da fala dos alunos na entrevista, são consideradas critérios eficazes nas avaliações de atitude. A análise dos dados permitiu identificar uma atitude positiva diante da intervenção didática e selecionar aspectos pertinentes: autonomia, metacognição, conflito cognitivo, aprendizado, motivação, a proposta como um todo, história, experimentos, conteúdo. Nesse sentido, é possível dizer que a proposta, estruturada em ambiente formal de ensino, foi atitudinalmente relevante.
Palavras chave: Atitude, Ensino de Física, Experimento, História da Ciência
## INTRODUÇÃO
Augé (1996) desenvolveu uma proposta de ensino e material didático na perspectiva construtivista com ênfase na história da ciência e no uso de experimentos. Tal associação caracterizou o que foi denominada postura 'pluridimensional'. Queda livre foi o tema da Física colocado em pauta.
A proposta didática referida acima foi desenvolvida junto a uma turma de dezessete alunos do primeiro ano noturno do Ensino Médio do Cefet-Campos, Campos dos Goitacazes/RJ. O primeiro autor deste trabalho exercia a função de docente da turma. A proposta visava à aprendizagem dos conceitos relativos à queda livre. No entanto, durante os trabalhos ficaram evidenciados conteúdos atitudinais, particularmente os que dizem respeito à atitude dos alunos frente ao ensino.
A partir do que foi dito, pode-se explicitar o que esta pesquisa procura investigar: o que se pode apreender do desenvolvimento da proposta didática com relação à atitude do aluno frente ao ensino de ciências? Especificamente falando, é possível identificar uma atitude positiva nos alunos diante da proposta didática, e que elementos da mesma podem ser evidenciados?
A temática em questão se justifica na medida em que pesquisadores defendem a pertinência do tema da atitude no ensino de ciências (VÁZQUEZ ALONSO; MANASSERO, 1995; SCHIBECI, 1984) e o apontam como um dos pontos críticos identificados por professores em ambientes formais de ensino (POZO; GÓMEZ CRESPO, 1998).
## REFERENCIAIS TEÓRICOS
A estratégia de ensino proposta por Augé (1996) possui bases teóricas bem delineadas, as quais se transferem para a pesquisa como suporte de análise. Os pilares teóricos desta pesquisa são: -abordagem construtivista, usada como norteadora da estratégia desenvolvida, entendida como enfoque pedagógico (POZO; GÓMEZ CRESPO, 1998), e baseada nas teorias cognitivas por reestruturação (AUSUBEL; NOVAK; HANESIAN, 1980); - história da ciência e sua utilização no ensino de ciências segundo Matthews (1995), utilizada como suporte para a seleção e encaminhamento de conteúdos e como recurso didático; -experimentos em física (SILVA; ZANON, 2000), elemento constitutivo de qualquer ciência dita experimental e importante instrumento motivador e propiciador de construção conceitual; - e, por último, pesquisas sobre atitude dos alunos frente à ciência e seu ensino (SARABIA, 2000; POZO; GÓMEZ CRESPO, 1998; VÁZQUEZ ALONSO; MANASSERO, 1995; SCHIBECI, 1984), que servem como suporte para encaminhar a análise do resultado da aplicação da experiência didática.
## METODOLOGIA
Sobre o contexto da pesquisa, em específico à sua metodologia, é importante destacar que a maioria das investigações sobre atitude enquadra-se nos moldes quantitativos, que utilizam frequentemente o procedimento Likert . 1 Entretanto, a presente investigação apóia-se em bases qualitativas, considerando-se a complexidade do contexto que constitui uma intervenção caracterizada como 'pluridimensional'.
Nesta pesquisa, os instrumentos de avaliação atitudinal são abastecidos por duas fontes: as manifestações comportamentais e as verbais dos alunos (SARABIA, 2000). Essas manifestações são evidenciadas pelos dados de pesquisa, que advém de entrevistas feitas com seis alunos selecionados, aproximadamente doze meses após o desenvolvimento da proposta didática. A confecção do roteiro de entrevista teve como base as observações do professor.
A proposta foi desenvolvida no ano letivo de 2001 junto a uma turma de primeiro ano do ensino médio noturno. A carga horária semanal era de quatro tempos de 45 minutos cada e as atividades duraram quatro semanas. Houve a composição de grupos (com três alunos cada), aos quais foram distribuídas folhas avulsas para leitura e discussão. Era vetado ao aluno o acesso ao material completo, pois se pretendia sustentar a expectativa criada pelos momentos de conflito cognitivo e possibilitar a construção gradativa dos conceitos com participação ativa dos alunos. Com isso manteve-se o nível de curiosidade alto e o ineditismo de cada aula. O texto foi lido em voz baixa e os experimentos realizados nos grupos. Cada etapa era finalizada com uma pequena síntese a cargo do docente.
## ANÁLISE DOS DADOS
Com relação à análise dos dados, os comentários serão dirigidos inicialmente à primeira hipótese da pesquisa: os alunos manifestaram atitude positiva. Há dados que indicam que tal hipótese parece se confirmar. Extrapolação do horário, revisão de dados experimentais fora do tempo da aula, pesquisa extra-classe, empenho nas atividades, debates nos grupos na sala e fora dela, manifestações verbais com conotação afetiva. Vale frisar que as lembranças dos alunos eram
bastante intensas, mesmo com o distanciamento temporal entre a entrevista e a intervenção didática. Parece razoável supor que a atitude positiva está manifesta através do comportamento e da fala dos alunos. Vale conferir algumas falas:
- O material didático foi bem importante para as pessoas que ali estiveram, e que realmente gostavam dessa matéria e quiseram aprender um pouco mais com curiosidade e vontade de aprender. (Magno)
A gente tinha duas aulas seguidas e saía vinte para as onze , e era tarde, mas nossa 2 aula passava tão rápido que a gente olhava o relógio e eram dez para as onze; uma vez nós saímos da sala eram cinco para as onze e ninguém estava percebendo. (Maria)
Destaca-se agora a segunda hipótese: a atitude positiva relaciona-se à estratégia didática implementada. Os temas selecionados foram: autonomia, metacognição, conflito cognitivo, aprendizado, motivação, a estratégia didática, história, experimentos, conteúdo.
Os alunos chamam a proposta de 'didática histórica', 'dinâmica', 'roteiro', 'método' e a identificam com a melhora no entendimento, o tornar mais amena a rotina escolar, o aumento do entusiasmo, a autonomia, a perda do 'medo' da matéria, a motivação e a curiosidade.
Com relação à história da ciência, é interessante o fato de que a aluna Maria, que demonstrou estar bastante sensibilizada com a intervenção didática, coloca a história como principal fator de destaque. Os experimentos foram outro aspecto selecionado para a análise dos dados da pesquisa. Roberto, que destaca os experimentos, solicitou, juntamente com seus companheiros de grupo, permanecer na sala, fora do horário, para coletar dados experimentais. Com relação ao conteúdo de física, as lembranças mostram que houve um engajamento cognitivo não desprezível, e esse engajamento pode ter propiciado e/ou incrementado uma atitude favorável frente à intervenção didática.
Na última pergunta da entrevista, os alunos destacam o ponto principal que mais os tocou: alternância de atividades (Nilda); 'dinâmica' (Magno); descobrir por conta própria (Robinho); experimentos (Roberto); história (Maria); 'dinâmica' e autonomia (Gerson). Os modelos motivacionais dos alunos parecem ter entrado em ressonância com as múltiplas facetas da proposta.
## CONCLUSÃO
O projeto didático investigado apresenta a física como ciência experimental e histórica, dotada de uma riqueza interna capaz de tornar-se interessante para os alunos. Há duas características que podem sintetizar uma possível explicação para a atitude positiva. Em primeiro lugar, a imagem da física apresentada; em segundo lugar, os recursos didáticos utilizados. Uma questão que parece se evidenciar é o fato de que uma proposta de ensino estruturada e desenvolvida em ambiente formal pode ser relevante em termos atitudinais.
Com relação ao caráter qualitativo da pesquisa, pode-se dizer que foi frutífera a escolha feita, pois permitiu identificar as peculiaridades de uma proposta de ensino na sua relação com a atitude. As entrevistas semi-estruturadas abrem espaço para que nuances importantes aflorem e clarifiquem as relações postas em evidência.
Sobre a atitude como objeto de pesquisa há um problema que parece merecer maiores esclarecimentos: a delimitação do objeto atitudinal. Algumas pesquisas não são rigorosas na delimitação do objeto atitudinal, por exemplo, referindo-se à uma atitude frente a ciência quando
estão investigando uma atitude frente o ensino. Aqui procurou-se fazer uma transposição do resultado de certas investigações para a pesquisa em questão.
Outro problema é a consideração do termo ciência como indicativo das áreas do conhecimento conhecidas por Física, Química e Biologia. Tais áreas possuem estatutos epistemológicos distintos e mereceriam ser tratadas de maneira diferenciada nas suas relações com a atitude.
Para finalizar, esta investigação deseja sugerir aos docentes e pesquisadores que desenvolvam estudos e propostas especificamente relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem na escola com ênfase em conteúdos atitudinais, principalmente com o intuito de criação de novos caminhos que permitam a superação das problemáticas relativas ao ensino no Brasil, e auxiliem o acesso das classes menos favorecidas ao conhecimento formal.
## BIBLIOGRAFIA
AUGÉ, Pierre Schwartz. A história da física e a experimentação como instrumentos de construção de conceitos em queda livre . Niterói, 1995. 81 p. Monografia (Lato Sensu em Ensino de CiênciasFísica) - Centro de Estudos Gerais, Universidade Federal Fluminense, Niterói. 1996.
AUSUBEL, D.P.; NOVAK, J. D.; HANESIAN, H. Psicologia educacional . 2 o ed. Trad. Eva Nick e outros. Rio de Janeiro: Interamericana, 1980. 620 p. Tradução de: Educational Psycology.
MATTHEWS, Michael R. História, Filosofia e ensino de ciências: a tendência atual de reaproximação. Caderno Catarinense de Ensino de Física , Florianópolis: IF-UFSC, v. 12, n. 3, p.164-214, dez. 1995.
POZO, J. I.; GÓMEZ CRESPO, M. A. Aprender y enseñar ciencia: del conocimiento cotidiano al conocimiento científico . Madrid: Ediciones Morata S. L., 1998. 326p.
SARABIA, B. A aprendizagem e ensino das atitudes. In: COLL, C. e outros. Os conteúdos da reforma-ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes . Trad. Beatriz Affonso Neves, Porto Alegre: Artmed, 2000. 182 p. cap. 3, p. 119-178. Tradução de: Los contenidos en la reforma: enseñanza y aprendizaje de conceptos, procedimientos y actitudes.
SCHIBECI, R. A. Attitudes to science: an update. Studies in Science Education , New York: John Wiley & Sons, 11, p. 26-59, 1984.
SILVA, Lenice H. de A.; ZANON, Lenir B. A experimentação no ensino de ciências . In: SCHNETZLER, Roseli P. e ARAGÃO, Rosália M. R. de (orgs). Ensino de ciência: fundamentos e abordagens . Brasília: Capes/Unimep, 2000. p. 120-153.
VÁZQUEZ ALONSO, A.; MANASSERO MAS, M. A. Actitudes relacionadas con la ciencia: una revisión conceptual. Enseñanza de las Ciencias , Barcelona/València: U. Barcelona/U. València, 13 (3), p. 337-346, 1995.
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