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Licenciandos em Física e Estudantes de Jornalismo: Posições sobre Divulgação Científica

Maria José P. M. De Almeida*, Liliane Castelões Gama

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
25/01/2005
Linha de pesquisa
Educação Científica E Formação Profissional, Políticas Para O Ensino De Ciência E Tecnologia, Ensino De Física E Estratégias Para Portadores De Necessidades Especiais
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## LICENCIANDOS EM FÍSICA E ESTUDANTES DE JORNALISMO: POSIÇÕES SOBRE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Maria José P. M. de Almeida

FE unicamp email: mjpma@unicamp.br

Liliane Castelões Gama

Mestranda FE unicamp email:

## Introdução e justificativa

Iniciamos esta apresentação admitindo que é uma hipótese bastante plausível a admissão de que cientistas, jornalistas, literatos outros profissionais que se disponham a escrever sobre a ciência não o façam da mesma maneira. Constituídos como profissionais em formações discursivas diferentes, eles supostamente manifestam em seus discursos as marcas dessa formação.

Foi subentendendo essa hipótese que Almeida (1998), embora admitindo serem vários os autores de divulgação científica que escrevem em jornais, revistas de popularização da ciência e livros, remete preferencialmente para textos de cientistas. Segundo a autora:

Estes conhecem cada condição e cada procedimento do processo de produção das idéias que visam divulgar, freqüentemente sabem inseri-las global da ciência a que essas idéias pertencem e, talvez mais importante, é provável que além de resultados e procedimento, julguem importante divulgar valores associados à sua produção. p.63

Nesse texto são citados alguns textos de cientistas nos quais suas afirmações podem ser evidenciadas. No entanto, o cientista como melhor divulgador da ciência está longe de ser uma unanimidade. Primeiramente, é necessário admitir que cada uma das afirmações da autora pode ser questionada, pois certamente elas não se prestam a uma total generalização. Além de alguns cientistas se dedicarem à divulgação de produções científicas muito diferentes das que eles próprios produziram, é fato que muitos dos divulgadores da ciência não se preocuparam com questões valorativas associadas à produção científica.

Além disso, nesse mesmo texto, ela também afirma que 'talvez seja necessário juntar um certo talento literário e um pouco de 'técnica de redação' p.63 . E certamente, estas últimas habilidades estão muito mais associadas a literatos e jornalistas do que a cientistas, mesmo sabendo-se, como bem explicita Zanetic (1998) que, a nossa cultura revelou tanto cientistas com veia literária quanto escritores com veia científica. O autor fala de duas famílias:

(...) A primeira família seria a dos cientistas com veia literária, que compreenderia aqueles indivíduos diretamente relacionados com a produção de conhecimento científico mas que, pelos mais diferentes motivos, acabaram produzindo obras, ou grandes trechos de obras, científicas ou não, que podem perfeitamente ser 'lidas' também como obras literárias. (...) Uma segunda família seria a dos escritores com veia científica. Essa família é um pouco mais eclética e numerosa e inclui aqueles autores que, com menor ou maior conhecimento das grandes sínteses científicas e suas implicações, produziram obras literárias utilizando tal conhecimento tanto como fonte inspiradora do conteúdo quanto como guia metodológico/filosófico.p.14

Entretanto, numa sociedade como a nossa, na qual ciência e tecnologia ocupam um espaço tão significativo e diretamente associado às formas de produção de existência humana, a divulgação de conhecimento sobre essas instituições parece não poder se restringir a alguns talentos. E é fato que, essa divulgação vem ocorrendo em diferentes instituições, como na escola e nos meios de comunicação de massa, de maneiras bastante variadas, sendo que alguns dos aspectos associados a essa variação têm sido consideravelmente criticados. Uma das criticas bastante acentuadas por autores como Medeiros

(2003), Cascais (2003), Caldas (2003) é a de que não se fala da criação/produção científica, mas apenas dos resultados, como um produto a ser consumido.

- É nesse contexto que decidimos analisar discursos de estudantes finalizando os cursos de jornalismo e de licenciatura em física, sobre relações possíveis entre jornalismo científico e o sistema de produção científico-tecnológico. Tínhamos a intenção de levantar elementos para, possivelmente, desenvolvermos uma investigação mais ampla. Dessa forma, trabalhamos com poucos estudantes, num estudo exploratório, sem a intenção de qualquer generalização. No entanto, consideramos que alguns dos discursos formulados pelos estudantes merecem uma análise pontual, tendo em vista a possibilidade que essa análise oferece de reflexão para se pensar a formação profissional desses estudantes.

## Objetivo

Compreender possíveis implicações, para a futura atuação profissional, de discursos formulados por estudantes de licenciatura em física e de jornalismo.

## Suporte Teórico

Este estudo se sustenta no reconhecimento da não transparência da linguagem, a partir da abordagem francesa da análise do discurso. Abordagem na qual a principal questão levantada pelo analista de um discurso não é o que ele significa, mas como se constitui, ou seja, que condições de produção. Segundo Orlandi (2000):

Podemos considerar as condições de produção em sentido estrito e temos as circunstâncias da enunciação: é o contexto imediato. E se as considerarmos em sentido amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio-histórico, ideológico.p.30

Por sua vez o ideológico está associado ao interdiscurso, ou seja, a formulações feitas, esquecidas e que determinam o que dizemos. Na fala de Orlandi, ' (...) um discurso aponta para outros que o sustentam, assim como para dizeres futuros.' p.39 .

- A noção de ideologia nessa linha de pensamento se diferencia de visão de mundo, de conjunto d representações e de ocultação da realidade. Ainda segundo Orlandi: '(...) a ideologia aparece como efeito da relação necessária do sujeito com a língua e com a história para que haja sentido'. p48 .

Uma outra noção básica neste estudo é a de formação discursiva, assim definida por Orlandi: '

A formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada -ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada- determina o que pode e deve ser dito' p.43

Dessa forma, o sentido não existe em si, é determinado por posições ideológicas no processo sócio-histórico em que as palavras são produzidas. No entanto, Orlandi alerta para o fato de que:

- (...) é preciso não pensar as formações discursivas como blocos homogêneos funcionando automaticamente. Elas são constituídas pela contradição, são heterogêneas nelas mesmas e suas fronteiras são fluidas, configurando-se e reconfigurando-se continuamente em suas relações.p.44

## Procedimentos e Algumas Conclusões

Parte dos estudantes cujos discursos analisamos nesta apresentação estavam concluindo a licenciatura em física numa universidade estadual paulista, e a outra parte, o curso de jornalismo numa universidade privada da mesma cidade. As questões foram as mesmas para os dois grupos de estudantes e apresentadas por professoras dos respectivos cursos.

Certamente a natureza das questões formuladas influencia as respostas, ou seja, as questões são uma das condições de produção dos discursos que compreendem essas respostas. No entanto, há condições, que mesmo não aparentes, parecem subentende-los.

Vejamos os seguintes discursos, formulados com o intuito de responder uma questão com a qual procuramos obter informações sobre o imaginário dos estudantes a respeito de relações entre jornalismo científico e produção científico-tecnológica (De que forma o jornalismo cientifico se relaciona com o sistema de produção da ciência e tecnologia?)

Para que o publico tome conhecimento das descobertas os meios de comunicação devem divulga-las. A imprensa traduz os termos técnicos utilizados na ciência para uma linguagem mais simples, que todos entendem.

- O jornalista tem o papel de decodificador da mensagem. Ele decodifica as informações fornecidas pelo cientista, de modo que elas possam ser repassadas para a sociedade com uma linguagem menos técnica e mais fácil de se entender.

É através do jornalismo científico que há relação com a sociedade. Haja visto que é devido ao jornalista científico que a linguagem própria do cientista é 'traduzida' para o público em geral.

Note-se que os três discursos subentendem a mesma concepção de que o papel do jornalista é levar a ciência para a sociedade numa linguagem mais simples do que aquela em que ela é produzida, atribuindo-lhe o papel de um tradutor da ciência. Uma concepção na qual a linguagem é vista como sendo transparente e que não parece supor o ouvinte/leitor de ciência como alguém que ao ler estará interpretando, ou seja, produzindo um discurso cujo funcionamento tem a ver com o interdiscurso, ou seja, com a sua memória discursiva.

E note-se que, os dois primeiros discursos são de alunos de jornalismo enquanto que o último é de um estudante de licenciatura em física. Mesmo pertencendo a formações discursivas aparentemente tão diferentes, esses estudantes manifestam uma mesma concepção de linguagem e indiretamente de ciência, esta última como algo a ser 'transmitida' à sociedade devidamente simplificada. Também nenhum dos três estudantes supôs a possibilidade de pensar o discurso de divulgação científica, não como um discurso secundário, mas como um outro discurso com características próprias.

Assim como o discurso escolar sobre a ciência não pode ser pensado apenas como o discurso científico simplificado, mas sim como um discurso que se constitui no embate entre o discurso científico e outros discursos que circulam nessa instituição, também o discurso de divulgação não pode ser visto como uma simples tradução. Mas a formação ideológica que assim faz pensar parece ter interfaces em diferentes formações discursivas em nossa sociedade.

E talvez seja essa mesma formação ideológica que tenha contribuído para que um estudante de jornalismo tenha formulado o seguinte discurso:

Ainda penso em ciência como algo distante, produzido por uma comunidade fechada e que dificilmente chega a população, a não ser quando há uma aplicação prática para aquilo que foi descoberto e pesquisado.

E para que um licenciando em física tenha afirmado, em relação a noticias sobre ciência, que:

Atualmente são divulgadas apenas como curiosidades e não como algo científico. Sabemos que a ciência interfere na sociedade a l ongo, médio e curto prazo. Mas a mídia muitas vezes divulga as pesquisas de maneira fantasiosa ou com incontáveis erros.

Na concepção da ciência como algo que dificilmente chega à população, que só chega quando produz resultados práticos, algo produzido por uma comunidade fechada, ou na valorização do 'científico' da ciência e na consideração de possíveis erros como o principal problema da divulgação, podemos notar o que não é lembrado por esses estudantes, a ciência como uma instituição da sociedade, que certamente interfere na sua organização, mas que também está sujeita aos determinantes dessa mesma sociedade. Ou seja, ao mesmo tempo que parecem questionar a divulgação apenas de resultados como aplicações práticas ou como curiosidades, esses estudantes não apresentam indícios de preocupação com a ausência na divulgação da ciência do seu reconhecimento como processo social.

## Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Maria José P. M. O texto escrito na educação em física: enfoque na divulgação científica . In: ALMEIDA, Maria José P. M; SILVA, Henrique C. (orgs.). Linguagens, Leituras e Ensino de Ciência. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

CALDAS, Graça. Comunicação, educação e cidadania: O papel do jornalismo científico. In: GUIMARÃES, Eduardo (org.). Produção e Circulação do Conhecimento: Política, Ciência e Divulgação. Campinas, SP: Pontes Editores, 2003.

CASCAIS, A. F. Divulgação científica: A mitologia dos resultados. In: SOUZA, C; Periço, M.N; SILVEIRA, T (orgs.). A Comunicação Pública da Ciência . Taubaté, SP: Cabral Editora e Livraria Universitária, 2003.

MEDEIROS, R. O conhecimento socializado e o papel do Jornalismo no contexto da Divulgação da Ciência. In: SOUZA, C; Periço, M.N; SILVEIRA, T (orgs). A Comunicação Pública da Ciência . Taubaté, SP: Cabral Editora e Livraria Universitária, 2003.

ORLANDI, E. Análise de Discurso: princípios e procedimentos . Campinas, SP: Pontes, 2000.

Zanetic, J. Literatura e cultura científica . In: ALMEIDA, Maria José P. M; SILVA, Henrique C. (orgs.). Linguagens, Leituras e Ensino de Ciência. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

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